terça-feira, 1 de março de 2011

Baltasar Lopes, Jorge Barosa e Manuel Lopes
Movimento Claridade - Cabo Verde - 1936


CLARIDADE ALÉM MAR - VOZES DE CABO VERDE


Genny Xavier


Nunca parti deste cais

e tenho o mundo na mão!

Para mim nunca é demais

responder sim

cinquenta vezes a cada não.

Por cada barco que me negou

cinquenta partem por mim

e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!

Mundo pequeno pa

(“Cais”. Manuel Lopes)

Das literaturas africanas de expressão portuguesa, a literatura cabo-verdiana revelou-se de maneira especial dentre os outros espaços coloniais portugueses. Esta especialidade nos é revelada pelo traço de uma literatura que se formou a partir de métodos próprios, como registra a notável expressividade de muitos escritores da modernidade cabo-verdiana, dentre eles, os claridosos Jorge Barbosa e Manoel Lopes.

A revista “Claridade”, publicada na cidade de Mindelo (São Vicente - Cabo Verde) em 1936, dirigida pelo poeta Manuel Lopes, era a extensão dos propósitos e da estrutura do pensamento que fez a revolução moderna de 1922 no Brasil. Tal revista inaugurou a modernidade na literatura de Cabo Verde. Mais dois poetas e escritores foram também seus fundadores: Jorge Barbosa e Baltazar Lopes.

Jorge Barbosa lançou-se no mundo literário em 1935, um ano antes da eclosão do Movimento Claridade. Publicou primeiramente o livro de poemas “Arquipélago”, obra aclamada como modernista, onde o autor apresenta poemas como “O Panfletário”, que nos remete para uma visão social e sofrida do universo que o rodeia: “Era para eu/ ser panfletário/ não fui./ O magnífico e herói destino/ que eu imaginava tão liricamente ser meu/ venceram-no afinal a prudência/ o terror/ a família/ venceu-o este meu outro real/ e melancólico destino burocrático.” (Matos, Gramiro. p. 357). Publicou também obras como “Ambiente” (1941) e “Caderno de um ilhéu” (1956).

Em seu processo criativo, Jorge Barbosa revela um projeto de caráter épico, numa abordagem da questão histórica cabo-verdiana, marcado pela apreensão regional e climática, que expõe o problema das grandes estiagens, da fome e da emigração: “Ai o drama da chuva,/ ai o desalento,/ o tormento da estiagem!/ - ai a voragem da fome levando vidas!/ (...a tristeza das sementeiras perdidas...)/ ai o drama da chuva! (Matos, Gramiro. p. 357). Seus poemas estão impregnados pelo fascínio do Atlântico, do mar imenso misterioso e atrativo que alude a um sentimento de liberdade, do homem que se divide entre o desejo de permanência e o desejo de partida: “Este convite de toda hora/ que o mar nos faz para a evasão/ este desespero de querer partir e ter que ficar.” (Andrade, Mário de. p. 22).

Jorge Barbosa era o poeta que se dizia simples, naturalmente, sem pretensões, irmanado ao destino de suas ilhas, vivendo as longas noites enluaradas do seu pacato viver. Em sua produção poética travou um duelo entre o real e o imaginário, refletindo um eu-lírico em busca das raízes do seu povo, das suas expressões religiosas ou da compreensão do presente, do futuro, da morte, sempre com os olhos voltados para uma África in além mar: “Ai o mar/ que nos dilata sonhos e nos sufoca desejos!/ (...) ai o cântico estranho/ do Atlântico,/ que se não calem em nós!/ Talvez um dia/ inesperado remoinho de águas/ passe borbulhante,/ envolvente,/ alguma onda mais alta se levante.../ Talvez um dia.../ Quem sabe!.../ Depois/ nas sendas dos tempos/ continuará/ a marcha dos séculos/ ...E outra lenda virá...” (Andrade, Mário de. p. 20).

Manuel Lopes, como já foi dito, também pertencente ao Movimento Claridade, apresenta um discurso poético povoado pela insatisfação do sonho, realizado entre a distância e o horizonte, formigando e inquietando, registrando o imaginário nos impulsos interiores dos saltos para o mar, ao encontro de tudo, da liberdade e da realização real do ser, como se mostra o fragmento: “Partir sozinho, mar em fora;/ A ansiedade nos meus nervos/ - Como o vento nas velas pandas do navio - / Só e bravio,/ Bravio e só no meio de coisas estranhas,/ Familiar como as coisas estranhas.../ (...) Olharei depois estes montes um a um,/ esses coqueiros esguios, este céu azul e ardente/ que não promete chuva,/ as mesmas coisas que se repetem todos os dias./ Pensarei que me libertei de tudo/ porque um dia libertei-me dela.../ Que alguma coisa me chamou ao longe e fui seguindo o mundo/ Mar em fora, incerto e livre/ só e bravio,/ seguindo assim o meu rumo verdadeiro.” (Andrade, Mário de. p. 25).

A poesia de Manuel Lopes é diáspora, canta o destino, a amargura, as forças incontroláveis que lhe castravam os gestos, impossibilitando a viagem para outras terras: “Que teu irmão que ficou / sonhou coisas maiores ainda, / mais belas que aquelas que conhecestes.../ Crispou as mãos à beira do mar/ e teve saudades estranhas, de terras estranhas,/ com bosques, com rios, com outras montanhas/ - bosques de névoa, rios de prata, montanhas de oiro - / que nunca viram teus olhos/ no mundo que percorreste...” Contudo, a Terra-Mãe era enfática e o isolamento da ilha lhe causava o solilóquio interrogativo, a ansiedade que percorre grande parte da sua poesia, a metáfora expressa no apelo sem eco, como vemos: “Que disse a Esfinge/ aos homens mestiços da cara chupada?/ Esta encruzilhada/ de caminhos e de raças de caras chupadas/ onde vai ter?/ Porque virgens paragens se prolongam?/ Aonde vão nas suas andanças/ os mestiços de cara chupada?/ que significa para eles o amanhecer?

Na sua poesia também se inscrevia o regionalismo cabo-verdiano, à universalidade do humano e das forças cósmicas, que serviam para sublimar o destino dramático da sobrevivência. Daí, é que surgia o dilema de ter de partir, querendo ficar, terminando por ficar, contrariando a libertação evasionista atribuída a revista Claridade. Essa evasão poética, não contém em si o sentido estritamente aventureiro, resultado de uma insatisfação e de mudanças para com sua terra. São as imagens de uma poesia que vem das suas ilhas e, cercadas , precisam de expansão pelo arquipélago, não se tratando da aventura pela aventura, mas da necessidade imperativa expansionista. Trata-se da inquietação insular e comum a todas as ilhas (malaise) e o convívio à distância.

Na verdade, a obra de Manuel Lopes, nasce da realidade cabo-verdiana, profundamente desagregada em tempos de fome e estiagem. Chega-se a lamentar que sua obra faltasse uma perspectiva aberta ao futuro, centralizada na realidade massificante do colonizado. Mas isso não lhe tira a qualidade estética, nem o seu modo narrativo que é expressionista e futurista, advindo dos movimentos modernistas de Portugal e Brasil. Por trás da obra deste poeta, há um pano de fundo trágico, que avassala o homem cabo-verdiano em sua dramática luta contra aquilo que parece ser uma fatalidade trazida pelo anjo da adversidade cósmica. Ele canta o apelo constante que o cabo-verdiano lança a si próprio para não contrariar as forças da natureza, o apelo que a Terra-Mãe exerce sobre o homem das ilhas. Neste contexto, Manuel Lopes soube, como poucos, expressar esta realidade: “... E se um dia eu voltar, desiludido e acabrunhado talvez,/ Desprezado pelo Mundo, rico de Mundo (...)/ Se eu voltar a pisar onde pisam teus pés,/ Nos teus ombros que esperaram longo tempo poisarei a cabeça dormente (...)”. (Andrade, Mário. p. 26)

Manuel Lopes é conhecedor profundo da alma do seu povo, das ilhas do norte e das ilhas do sul. Sensível aos requebros da fala popular crioula. Esse escritor transpôs para os seus textos figuras e situações cheias de realismo. Adotou uma postura literária interventora, mas serena, não cedendo à facilidade do social. Manuel Lopes, em detrimento de outros poetas, preferiu o realismo.

Eis, portanto, o chamamento do cabo-verdiano à sua Terra: pés plantados ao solo, e os olhos voltados para o mar. O convite para sonhar com a partida pode estar na metáfora segura de uma nova terra, pois o sol e a chuva, unir-se-ão para fecundar a terra dorida de Cabo Verde, cicatrizando-lhe as feridas abertas pela partida de cada um dos seus filhos que a ela regressarão prodigamente. Jorge Barbosa e Manuel Lopes aí estarão para nos cantar claridosamente esse regresso da forma cabo-verdiana como eles tão realisticamente souberam fazer em suas obras.

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FONTES BIBLIOGRÁFICAS

MATOS, Gramiro. Influências da Literatura Brasileira nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Salvador, EGBA, 1996.

ANDRADE, Mário de. Antologia Temática de Poesia Africana. I - Na Noite Grávida dos Punhais. Lisboa, Sá da Costa Editora, 1975.

Recortes de Jornais


CASÉRIA ÉVORA - África Nossa (Cabo Verde)

6 comentários:

Mar Arável disse...

Morabeza

Manuel Veiga disse...

afectuosa licção. a tua!

tão dolente a voz que nos une!...

e tão plena de Futuro. na doce entoação brasileira ...

beijos

. intemporal . disse...

.

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. a expressão in.equívoca da voz que a cantar se faz ouvir . e da escrita no registo in.igualável de um povo sofrido daquela que é terra.ventre.seio.anseio . e tantas.vezes.freio .

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. grat.íssimo pelos momentos únicos que me tem deixado .

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. um bom.domingo .

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. beijo meu .

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Nilson Barcelli disse...

Conheço muito pouco da literatura de Cabo Verde.
Mas a Cesária Évora é conhecida mundialmente.
Querida amiga, desejo-te um bom resto de Domingo e boa semana.
Beijos.

. intemporal . disse...

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. no dia internacional da Mulher .

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. deixo flores .

.

. muitas flores .

.

. todas as flores .

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. e um terno e e.terno bem.haja .

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. paulo .

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Desnuda disse...

Querida Genny,

Adoro a poesia cabo verdiana ! Aqui pude entender e conhecer mais os aspectos literários nesta excelente pesquisa. Preciso ler e reler! Agradeço imenso esta partilha que muito me interessou pelo fato desta minha já admiração, mas sem uma visão maior e mais aprofundada nos seus aspectos. Oportunidade que tive hoje , partilhada por você , através desta leitura condensada, mas rica em detalhes. Obrigada amiga!

Carinhoso beijo.