quinta-feira, 2 de agosto de 2018

“A arte que o flâneur domina é a de observar sem ser flagrado” (Zygmunt Bauman)

"Às vezes é triste perceber que a história da cidade se perde em meio às suas modernas mudanças, como as fachadas das casas antigas que sempre me atraíram e que, aos poucos, foram sendo demolidas, cedendo lugar para os prédios comerciais ou residenciais".
Praça Olinto Leone - Ontem e Hoje (ao fundo da foto antiga percebe-se o famoso "Castelinho", demolido na década de 70 e a antiga Igreja Matriz que hoje não existe mais, substituída pela Catedral São José, construída na Praça Laura Conceição. 


ITABUNA: 
OLHAR PERCORRIDO SOBRE OS DIAS DE ONTEM E HOJE



Meus olhos atentos sempre percorrem a cidade dos meus dias. Eu capturo imagens e cenas para transformá-las em palavras narradas no corpo dos meus escritos. Mas há algo além desse objetivo artístico ou além do que aparentemente importa no enfoque dos fatos e dos dias. Meu olhar possui o impulso voyeur e meus passos a disposição da busca do flâneur que perambula pelas ruas com sua secreta percepção da realidade através do meu factual ou incidental cotidiano grapiúna.
Durante os dias de cada semana dos meses do ano eu chego ao trabalho e sento na cadeira da minha sala de emprego público. Coloco os óculos e retiro da pasta os papéis do expediente, mas há algo em mim que revolve minhas impressões de escritora. Depois do gole de água e das doses de café o computador dá suporte aos meus afazeres, porém, nas pausas dos intervalos eu escrevo poemas, ou prosas que emergem dos meus devaneios urbanos. Diante dos meus papéis escritos eu retrocedo a memória dos passos pelos cantos da cidade, experimentando suas horas do dia ou da noite desta Itabuna que respiro, entregando-me, sem resistência, às impressões da minha alma que bordeja avenidas e ruas, bares e lanchonetes, ônibus lotados de pessoas especialmente comuns, viventes da grandeza de suas vidas cotidianas.
Os ocorridos fatos triviais ou inusitados que constroem os dias da cidade, que estão na mira da minha observação, ora casual, ora invasiva, são matérias dos meus temas. Eu devoro e rumino estes temas, todos que dizem da indiferente pressa das ruas ou de suas surpreendentes solidariedades; que dizem do ladrar dos cães vagabundos ou do silêncio dos que dormem nas ruas; que dizem das matanças das tocaias pela posse de terras do passado ou da posse do território do tráfico de hoje em dia e, ainda, que dizem dos letreiros que infestam o centro com suas letras desenhadas em placas coloridas ou em luz neon, quando cai a noite.
Além da gente diversa que circula pelas ruas, que reza nas igrejas, que se alimenta nas lanchonetes e nos restaurantes de esquinas, que descansa preguiçosamente nos bancos das praças, embalando conversas cotidianas com o outro sentado ao lado, que caminham nas várias direções em busca dos seus afazeres, além de tudo isso, há algo mais que personaliza uma cidade, especialmente esta que é a minha. Toda paisagem urbana é própria e única quando observada com a atenção merecida. Percebe-se seus detalhes, o que é velho e novo, suas idiossincrasias arquitetônicas e os cheiros peculiares de cada avenida, de cada rua de flor ou lixo, de calmaria ou turbulência.
Quando eu ando pela cidade, na busca dos temas urbanos que apresento aos meus leitores, é possível traçar a geometria no mapa de lugares, você vê ladeiras, canais, becos, avenidas, edifícios, casas, telhados, concretos, asfaltos; você não tem ideia do que chamará sua atenção, do que vai lhe surpreender, mas há um impulso para seguir, observar, sentir.
Por isso digo tudo sempre tão abertamente aos que me ouvem, sobre os detalhes, dos mais belos, banais e inusitados aos mais estúpidos ou revoltantes, detalhes sobre os ônibus, sobre os mendigos, sobre os números escritos no alto das fachadas das casas quase em ruínas ou que já puseram o iluminado neon das modernas reformas. Às vezes é triste perceber que a história da cidade se perde em meio às suas modernas mudanças, como as fachadas das casas antigas que sempre me atraíram e que, aos poucos, foram sendo demolidas, cedendo lugar para os prédios comerciais ou residenciais.
Outro dia, enquanto andava pela rua, percebi um grupo de rapazes parados em frente a um prédio velho de uns seis andares observando uns artistas que evoluíam performances de teatro de rua, acrobacias e malabares. Havia uma pressa imensa das pessoas que não percebiam a simples beleza artística daquela apresentação. Elas passavam ao largo sem enxergar, iam empurrando pra frente o tempo, sem que se pudesse perder nenhum minuto por mais precioso que fosse. Moços e velhos, homens e mulheres, todos com pressa, sentindo a urgência da vida. Mas aqueles rapazes olhavam como se percebessem, pareciam ter sido tocados pelo instante de relaxamento. Aquilo me deixou feliz, como se ainda houvesse uma esperança de conexão humana na frieza da cidade. Então segui em frente levando o resquício daquele breve contentamento. No ponto de ônibus as pessoas aguardavam e eu fui ter com elas naquela espera cotidiana. O meu ônibus chegou depois da passagem de um carro da prefeitura raspando o chão. Subi, esperei na fila caótica e apertada até chegar à roleta de passagem. Ainda consegui um lugar onde sentei junto da janela feito um saco de batatas jogado ou parecendo um cachorro cansado. Descemos lentos, circulando a praça e subindo a ladeira comprida rumo ao centro.
Ainda ontem, quando já voltava das minhas andanças ao final da tarde nublada parei a espiar a vitrine de uma papelaria. Havia muitas novidades além daquelas que se vendem em papelarias. Havia, por exemplo, umas miniaturas em resina com reproduções de monumentos famosos do mundo. Estava lá a Torre Eiffel, de Pisa, a Estátua da Liberdade, o Cristo Redentor, o Elevador Lacerda. Enquanto eu olhava ia pensando nos estranhos gostos dos cidadãos urbanos, nas quinquilharias absurdamente inúteis que as cidades acumulam para o fascínio consumista de suas gentes. Alguém passou por mim e também ficou olhando, talvez atraído pelo meu interesse na tal vitrine. Olhei para a desconhecida com um conformado sorriso e um gesto sutil de saudação. Segui meu rumo. Adiante, uma loja de roupas estava lotada, resultado da liquidação de final de estação. Aliás, parecem mais frios esses finais de tarde de inverno.
Assim, nestas experiências dos dias eu recolho os conteúdos dos meus escritos para expor esta cidade que a cada dia morre do jeito que foi para tornar-se outra no amanhã de logo mais. Há nisso tudo, nos meus sentimentos que também exponho aos meus leitores, um sentido maniqueísta, como quem se divide melancolicamente entre ter saudade das reminiscências de ontem e ter nas mãos as perspectivas inusitadas do amanhã.
Depois desses meus devaneios, eu penso no aniversário da cidade, penso que o passar dos anos traz gostos e desgostos diversos, sabedorias e dores, festejos e despojos, lirismo e realidade.

GENNY XAVIER



*Crônica publicada em 28/07/2018 - Jornal Agora/ Caderno especial em homenagem aos 108 anos de emancipação política de Itabuna-Bahia.