sexta-feira, 28 de agosto de 2009

"Devagar... as janelas olham"

CONTO: Genny Xavier


A JANELA ENCANTADA


Sentia-se entorpecido pela ausência de alguma coisa concreta. O corpo vazio de qualquer busca ou crença. O cotidiano se arrastava com o peso de mil toneladas, lento e miseravelmente patético. A evolução havia lhe preparado alguma alquimia tediosa insuportável. Arrependia-se agora, de ter buscado tantas explicações existenciais ou de ter se perdido nelas cada vez que mergulhava mais e percebia a complexidade do universo. Era o nada, inútil, da terceira visão.
Agora, só lhe restava um pedaço da vida simples que ansiava. Mesmo assim, distante, fazendo o papel de observador anônimo, bisbilhotando a felicidade alheia dos que tomam sorvete, namoram, usam gravata (achando isso o máximo), tomam cerveja ao meio-dia, andam pelas ruas apressados, terrivelmente medrosos ou maravilhosamente cheios de problemas para resolver. Era da janela que observava este universo simplista e fantástico do qual queria fazer parte.
Aos cinqüenta e nove anos, vivendo da aposentadoria, divorciado de um casamento sem filhos, encontrava-se perdido, um homem sem recompensa, vendo a vida escorrer, de súbito, numa pesarosa falta de perspectiva. É claro, tinha a vaidade das pessoas acharem que sua vida era o máximo e do respeito, por vezes, exagerado que nutriam, reflexo de certo sucesso como jornalista. Mas, ultimamente, encarava tudo aquilo com fastio. E, fora dali, da janela no seu posto de observador do cotidiano superficial que descobrira o tempo perdido da profundidade, a solidão do mergulho. A verdadeira existência estava lá fora, pulsando febrilmente nas ruas, como a zombar daqueles que acharam ter fugido da mediocridade. Ele havia pensado assim.
Aquela babá de menino rico passava agora lá do outro lado da rua, empurrando um carrinho azul e rebolando, ao mesmo tempo. Aquela mulher gostosa, certamente era mais feliz que ele, pois sorria com tamanha naturalidade para aqueles que lhe diziam atrevimentos que, por vezes, lá do seu posto de bisbilhoteiro-mor, de voyeur urbano e compulsivo, ficava eufórico achando que a vida era realmente aquela gaiatice sensual. Ah! Se pudesse trazer aquela mulher para a sua cama! Certamente, nem precisava ficar acordado depois do amor, desperdiçando conversa sobre prazer sexual, orgasmo e outras bobagens que as mulheres intelectuais gostam de tagarelar, fumando um cigarro e tomando uísque. Depois do amor, o corpo pede mesmo é o sono dos justos, da dádiva divina de quem se saciou com o néctar do Olimpo. Vez por outra, quando ela passava em seus passeios matinais, olhava para a sua janela como se percebesse as fantasias daquele cinquentão respeitável que a olhava. Então, ela sorria, desdenhosa e atrevida, alimentando o seu ego. Não a chamava por achar ridículo fazer isso naquela altura de sua vida, mas, corroia-se de vontade de ridicularizar-se. Contudo, já era tarde para abdicar da terrível disciplina que construíra para si próprio. O seu universo era marcado pelas coisas que escolhera e que, na juventude, havia achado grandioso e revolucionário. Uma ova! estava ali, da janela, se saciando da vida fácil e difícil dos outros, da vida normal.
Com certeza, ficaria louco de ócio. Doía-lhe constantemente as costas, a cabeça, o estômago. Não eram dores reais, sabia disso, mas não podia controlar a sua neurose inquietante da solidão de apartamento. Estava mais gordo, de tanto beliscar merendas procurando o quê fazer. Podia até tentar o suicídio, mas, se sentia velho demais para agir com tanta emoção. Talvez devesse escrever um livro, como faziam os seus colegas que não conseguiam superar o vício de permanecer sempre com a bunda colada numa cadeira, diante de um micro-computador. Ainda assim, ser escritor não lhe tocava o espírito. Só lhe restava mesmo a concentração do mundinho simples que ele presenciava pela janela. Aquilo, sim, dava-lhe o verdadeiro consolo contra o conflito existencial. Era como se encantar da mesmice diária que ele agora desejava para si ou lamentava ter perdido.
Naquele instante, queria ir ao banheiro, mas não podia deixar de perder o encontro furtivo da mulher loira e muito chique com seu provável, amante musculoso de subúrbio. Ela sempre chegava de táxi, apreensiva e preocupada, em contrapartida à irresponsável despreocupação meio marginal do sujeitinho. Ela, sempre de óculos escuros. Ele, sempre de camiseta de mangas curtas. Conversavam durante alguns minutos, às vezes pareciam até brigar por algum motivo, mas terminavam prédio adentro, que era onde ele morava, bem ali em frente. Ela saia sozinha, umas duas horas depois, de cara feliz, como se tivesse orgulho da sua coragem de enganar um, provável, marido rico. Ah! Mas aquilo não passava de imaginação sua, nem sabia se ela era mesmo casada. Aquilo era apenas o que ele poderia supor, da sua janela.
Depois veio a gorda, na sua diária peregrinação doméstica nas compras do leite e pão. Arrastava lentamente os pés e trazia uma eterna cara infeliz, como as das balconistas de bares rodoviários, aquelas que sabem que a vida não lhes reserva mais nenhuma surpresa cotidiana e tudo não passa de repetição dos mesmos afazeres, do mesmo homem e dos mesmos fins-de-semana com filhos e netos.
Assim passava o dia, diante de sucessivas cenas peculiares. Mergulhado num prazer meio doido de ser testemunha daquele universo factual. Aquela era a sua fuga contra a invasão do tédio. Não sabia ao certo se aquilo iria salvá-lo da loucura ou se o levaria direto ao manicômio. Estava, ao menos, satisfeito por driblar a sonolência rasteira que lhe tomava o espírito. Aquilo sim era o mal. Não queria mais conviver com os livros, teorias, velhos fantasmas, filosofias e ideologias. Havia se apercebido da profunda inutilidade do universo superior que buscava para si.
Naquele instante, ao menos, estava em paz. Poderia ir ao banheiro, tomar banho, beber café solúvel, comer de marmita, sem ligar isso tudo à sua solidão.
Uma paz muita bem controlada, até a próxima batalha...