quinta-feira, 19 de março de 2009

CONTO: Genny Xavier

SILÊNCIOS
"Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profunde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent." (*)

("Correspondances". Baudelaire)

O retrato dos meus dezessete anos imortalizou meu rosto jovem num papel hoje amarelado. Sim, eu tinha dezessete anos e aquela época ainda continua lá atrás, parada num tempo que ninguém mais toca, apenas eu retorno à ele, como a passear por lembranças minhas...
Aos dezoito anos eu já havia amadurecido de uma forma definitiva, com a mesma consciência de hoje. Mas foi nos meus dezessete anos que se delimitou o intervalo curto do meu auto-crescimento, que nunca mais apartou-se de mim.


**********
Aquela casa onde morávamos tinha um silêncio que eu não suportava. Tudo era silêncio... o vento, os passos, as caras expressivamente mudas. Meu pai, sombrio e dominador. Minha mãe, covarde e subserviente. Quanto a mim, vagava entre os dois, bocejando uma solidão sem fim e morrendo de inveja dos barulhentos vizinhos da minha idade. Eu os observava pela janela do meu quarto, imaginando como seria participar daquela alegria que me era proibida.
Lembro que eu tinha anseios desconhecidos. Passava as mãos em meu corpo ao dormir, escondido, feito um crime. O toque me abrasava os sentidos, queimavam a minha pele. Mas, era a solidão que me tomava, o abandono de uma carícia solitária. Depois, nada acontecia, eu continuava igual, o tempo se arrastando e a ausência dos sons, a ausência de vida. Aquele era apenas um tempo disforme e, eu, uma garota também disforme, silenciosa, a observar os cantos da casa, os esconderijos das baratas, as tocas dos ratos e os insetos em sua cópula.
A noite, os gatos miavam de prazer e liberdade. Era excitante ouvi-los e eu fantasiava como seria gritar e gemer sobre os telhados, tendo o corpo banhado pela luz da lua. Mas, como possuir a liberdade dos gatos e restituir dentro da minha alma a grandiosidade dos telhados, que se perdem em distâncias e se espalham pelas cidades? Eu só tinha o sonho, a imaginação.
Então, chegou de repente aquele homem jovem que se dizia meu tio, vindo dos lugares distantes, das paragens longínquas que lhe imprimiam a maturidade nos olhos. Meu pai não abraçou o irmão, deu-lhe um quarto nos fundos da casa. Quando eu o vi, tive a impressão que seus olhos eram negros demais, envoltos numa sombra que eu não conhecia. Tinha um sorriso que vagava entre o meio-termo da ternura e da ironia. Mas, somente hoje eu me apercebo disso. Naquele dia, eu só o sentia como uma figura masculina na minha casa de silêncios.
Os dias passavam. Dei para ficar atenta aos ruídos que ele fazia. Ao farfalhar dos papéis que remexia na mesinha do quarto, ao ranger das molas do colchão quando se movimentava em seu sono noturno, quando tossia, quando mastigava os alimentos, quando cantarolava na rede da varanda. Estava feliz, pois ele havia quebrado a mudez daquela casa. O ruído mais próximo ao meu orgasmo era o som do chuveiro quando ele tomava banho. Imaginava seu corpo inteiramente nu, um fio d'água a escorrer pelo seu peito, a desviar-se dos pelos, a caminhar pelo seu sexo, a viajar pela rigidez das coxas.
Espiava-o despir-se à noite, pela fresta apodrecida da porta do seu quarto. Dormia nu feito um anjo lindo, como Lúcifer, o anjo tentador e belo, expulso do céu por fazer rebelião com Deus. Aos poucos, ele foi se tornando o demônio e o anjo da minha imaginação solitária.
Vagava inquieta pelo meu quarto, sentia angustias que me dominavam, suores e tremores. Tocava intimamente meu ventre, as minhas mãos percorriam caminhos e entranhas, mas não aplacavam os meus desejos, pois não eram as minhas próprias mãos que eu queria sobre mim.
Ele também queria. Eu sentia seu olhar sobre mim, o meio sorriso, mirando meus peitos miúdos, escondidos atrás da blusa fina. As narinas levemente dilatadas, o jeito de como passava a língua nos lábios olhando para mim ou de como tocava o sexo sobre a calça de brim, fazendo-me olhar o gesto, fascinada.
As vezes, dava-me a impressão que aquilo que existia dele para mim era mais uma atração pela criança enigmática que fui, algo como alguém que fora abandonada na porta de uma casa e nunca eliminara a expressão perdida de uma origem desconhecida. Não era piedade o que ele sentia por mim, era uma compulsão pelo meu enigma.
Naquele dia de setembro, ainda o sinto vivamente. Eu não tinha consciência da primavera, nem das flores, mas acordei com cheiros à minha volta. À tarde, minha mãe deixou a casa para uma reunião na Igreja. Meu pai também estava ausente. Mas a ausência dos dois não fazia diferença, o peso do silêncio daquele lugar era o mesmo. As paredes diziam que eles continuavam ali. Ainda assim, não quis ouvir as paredes, julguei-me só comigo mesma e aquela sensação aplainava a minha natureza inquieta. A presença dos meus pais me enchia de um peso insustentável e a minha solidão se tornava mais pobre, deteriorando o meu espírito.
Os ruídos silenciaram no quarto dos fundos. Talvez ele dormisse e eu senti que precisava de um banho para driblar a minha vontade de vê-lo em seu sono.
A água fria escorria pelo meu corpo. Fechei os olhos para sentir o alívio do meu intervalo de liberdade, só escutava o barulho do chuveiro. Então ele estava diante de mim, abrindo as cortinas num gesto brusco. Eu não disse nada, nem ele. Acho que pisquei algumas vezes para evitar que a água escondesse a minha visão daquele homem que eu desejava. Ele olhava os meus peitos, rosados e pequenos, os quadris mal formados em meus dezessete anos. Foi aí que eu percebi que a vida marca a hora exata para efetuar o seu destino. Num momento de medo incontrolável baixei a cabeça, mas ele a levantou devagar. Comecei a rir e me apertei a ele, finalmente. Colei meu corpo ao dele, nua e molhada. Apertei meu ventre sobre suas pernas e senti o seu sexo ereto, ainda escondido na calça. Ele tomou no colo meu corpo magro de menina e mulher e me beijou na boca devastando com a língua a seu interior. Gostei daquilo, gostei de como ele me invadia e se precipitava ansioso na busca por desvendar os meus mistérios. E foi para o quarto dos fundos onde nos dirigimos e foi lá onde ele se despiu. Eu o via sem timidez, o corpo inteiro nu, os músculos, os pêlos, a rigidez do sexo entre as pernas. Quantos anos teria? Pensei. Trinta? Trinta e cinco? Nada daquilo importava. Era ele, e mesmo se houvesse mil escolhas, seria ele.
Exercitou uma ternura e uma lentidão que quase me levaram a total perda da lucidez, como se tudo fosse desmaiando às minhas vistas e as janelas, as paredes, as cores, os cheiros, os ruídos lá fora foram tomando distâncias de léguas para meus sentidos. Eu o pedi que fizesse tudo e não evitasse nada, do mesmo jeito que já fizera com as mulheres que amara ou com as prostitutas nos bordéis. Pedi que não temesse a minha dor e a minha inexperiência. Era eu que o conduzia, hoje eu sei, era eu que o conduzia com total controle da minha intuição feminina, dos meus instintos.
Aquele foi o dia em que eu toquei o céu e que, num breve instante, havia esquecido do inferno em que vivia.
Foi assim que meu pai nos encontrou, perdidos um no outro, bêbados, tontos e lavados de suores nossos. Não houve palavras, nem gritos, nem sustos, nem nada. Papai era o mestre do silêncio e eu vi o vazio quando sustentei o seu olhar. Então, ele o levou de mim, arrancou-o do meu entrelace sem deixar-me tempo de pela última vez olhar o seu rosto terno e irônico. Permaneci estática, ouvindo ruídos surdos e o som do carro velho indo embora. E todo o silêncio voltou, ainda mais forte, pois trazia consigo o vazio, o nada.
Meu pai voltou muito tarde, mudo e sombrio como sempre fora. Não me disse nada, nunca me disse nada. Minha mãe parecia que percebia tudo em sua intuição maternal, mas não ousava me consolar. O tempo voltou lentamente a se arrastar entre as paredes da casa. Era o silêncio.
*********

Ninguém nunca mais falou do meu tio e eu até hoje não sei o que se passou. Daqueles dias, apenas sei do meu precoce envelhecimento e da dor que este me causara. Até que, mais tarde, um ano depois, deixei aquela casa de silêncios e, em minha partida, não olhei para trás, não senti culpa, nem raiva, nem amor. Mas, ainda hoje, trago em mim o terror do silêncio daquelas paredes e a doce lembrança de um pequeno intervalo de vida: o meu mais breve interlúdio e o meu mais surpreendente epílogo...
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(*) "Como longos ecos que de longe se confundem
numa tenebrosa e profunda unidade,
vasta como a noite e como a claridade,
os perfumes, as cores e os sons se correspondem."
("Correspondências". Baudelaire)

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Um comentário:

hilmar_ilton disse...

Conto magnífico, em que se descreve
vivência de vivente, menina, mulher.
Ecos diversos de sons, de versos (informais) e de prosa, mesmo na leitura silenciosa, repercutem nas veias, artérias e sinapses cerebrais do leitor.Mistura de perfumes, sons e cores formam um todo, erótico e não erótico, que traz a dúvida: ficção ou relato?
Hilmar Ilton Santana Ferreira
Salvador(BA)
www.geocities.com/hilmar_ilton