quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Ilustração de Pascal Campion


ROTINA

 

Amanhã o dia acorda.

Tudo ao avesso para uns,

e favorável para outros.

Tudo incerto

ou possivelmente previsível.

Tudo velho,

mas com roupa nova,

como se fosse inédito o dia...

 

Para novas possibilidades,

somente meus sonhos,

despertados em cada manhã.


Genny Xavier 

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Pintura figurativa de Mary Jane Ansell

 

SOLITUDE

  

O tempo, que incide sobre as memórias,

traz à tona, por breves momentos,

alguns pedaços de cenas vividas

ou rostos que julgamos esquecidos

lá no fundo dos nossos baús de coisas guardadas...

Nos chegam como as cartas antigamente chegavam,

entregues à mão,

com os cheiros das pessoas e lugares grudados ao papel...

de surpresa...a trazer repentinas notícias de longe.

As reminiscências somem ao piscar dos olhos

e deixam-nos o gosto do sabor não saciado,

como doce roubado...ou beijo quase saboreado.

Acaso, ao lembrar o tempo passado,

nos flashes fotográficos das lembranças,

algo nos anseia, como uma dor mansa

a fluir pelos vasos sanguíneos.

Não há retorno do vivido

e, como o amor partido,

cristais quebrados não se recompõem.

Desta forma, seguimos na solitude dos dias,

entre muitos como nós

e entre tantos que nos divergem,

colhendo do tempo ido, as memórias,

e do tempo agora, os dias ermos...


Genny Xavier


terça-feira, 5 de outubro de 2021

Fonte: Google


CONTO:


AOS CRENTES, AS CRENDICES


Havia muito que a cidade preparava-se anualmente para o Dia de Finados. Não para festejar ou reverenciar a memória dos seus mortos, mas para esperar, ansiosamente, qual seria o escolhido que o feriado lhes arrebataria do mundo dos vivos. 

Ninguém sabia ao certo quando aquela espécie de maldição principiara, nem se era, de fato, uma maldição, afinal, morre-se também em outros dias do ano naquela cidade tão pequena e, por isso, sem nome no mapa do seu estado. Porém, a fama correra ao longe e, nesta ocasião, a cada ano, sempre chegavam muitos visitantes curiosos, ávidos por certificar-se da sina funesta: quem viria a bater as botas naquele feriado dos mortos?

Ocorria um rebuliço crescente aos dias que antecediam o feriado até o seu marco no calendário. Ladainhas e rezas, novenas e trezenas, despachos e ebós, feitiços e amuletos, tudo era ecumenicamente válido na condução das crenças oficiais ou oficiosas, seculares, doutrinárias ou populares, para proteger a quem acreditava apaixonadamente nos presságios sinistros daquela sina que se abatia sobre a pacata e bucólica cidadezinha.

Dias antes, todos já começavam a farejar as possibilidades: se havia quem estivesse doente; se havia alguém jurado de morte; se havia risco de algum acidente iminente; se havia adultério com a temeridade de desfecho trágico... Ficavam de olho nos idosos, nas crianças desnutridas, nos frágeis recém-nascidos, nos acamados, nos que exerciam atividades arriscadas, nos que se arriscavam pular a cerca dos relacionamentos comprometidos. Enfim, se maldição ou lenda urbana, todos temiam, todos esperavam, todos comentavam... ou quase todos...

Pois, como não pedia deixar de ser, existiam os céticos e incrédulos de superstições ou qualquer crença além do material ou do comprovável pela ciência. Esses batiam no peito sem temor, como se virassem as costas para os falatórios dos impressionáveis.

Outros, como espertos oportunistas, lucravam. Alugavam quartos aos chegantes, vendiam santos, talismãs de proteção, filtros milagrosos, água benta. Pequenos restaurantes, ambulantes de comestíveis, marmiteiros ou vendedores de quentinhas, abarrotavam seus estoques. A comilança era farta aos que fartamente se refestelavam do turismo macabro. Os floristas ofereciam suas flores, para todos os gostos e para todas as posses. Rosas, lírios e orquídeas aos que preferiam os refinamentos dos ricos; Crisântemos, margaridas e cravos para a humildade dos simples.  

Outros, ainda, os políticos eleitos, ou aqueles eleitoráveis, faziam discursos passionais, lembravam os outros que já se foram como vítimas da infausta maldição. Realizavam homenagens, com discursos de sinceridade duvidosa, fazendo ir às lágrimas os familiares inconformados, que serviam aos flashes dos fotógrafos para as encomendadas reportagens nos jornais da capital, que evidenciavam a emoção barata e a hipocrisia daqueles que subiam as escadas do poder.

Naquele ano diferente não fora. As mesmas especulações foram feitas, as mesmas expectativas surgiram, os preparativos iguais, e a avidez dos interesses por debaixo dos panos também.

Então, eis que no raiar do Dia de Finados, um alvoroço nervoso quebra o silêncio da manhã nublada na pensão de Dona Maria das Neves. Aos passantes desavisados, apanhados pela curiosidade própria dos humanos, a aproximação foi inevitável e, aos poucos, foi se formando uma pequena multidão em que todos se perguntavam o que de fato se passava. Logo veio a notícia do drama anunciado, é que a morte batera à porta do quarto de um hóspede, chegado à cidade não se sabe se entre os tantos que vinham atraídos pela suposta maldição ou se chegara ali para realizar algum trabalho ou resolver alguma pendenga pessoal.

Logo, como um rastilho de pólvora, a notícia se espalhou e as perguntas também. Num disse-me-disse medonho, de boca em boca, especulações corriam: Quem era o morto? Qual a causa da morte? De que cidade ele veio? A família estava presente?

Pouco descobriram sobre o homem: um senhor na casa do 55 ou 60 anos, talvez vitimado pelos excessos dos hábitos cotidianos ao longo da existência, que comera e bebera em demasia, tendo a vida cobrado seu preço justamente naquele dia.

Porém, entre tantas indagações uma se destacava: Se a maldição do dia dos mortos sempre levava um morador da cidade, por que naquele ano um forasteiro fora escolhido? O que haveria de ocorrer agora? A família levaria o homem? A cidade reivindicaria o enterro? A quem pertencia o defunto?

Uns diziam:

- Ora, o dito cujo – que Deus o tenha! – morreu aqui e aqui deve ser enterrado.

Outros rebatiam:

- Nada disso, a família é que tem a posse. Devem enterrar o homem na cidade de origem.

Bem se via que a preocupação geral era com a tradição que seria maculada se o defunto não fosse enterrado no solo daquele lugar. O povo nem se dava conta que não se importavam com seus mortos, só queriam saber da tradição que favorecia a muitos naquela ocasião.

Convocaram urgente uma assembleia na Câmara de Vereadores para resolver o impasse. Todos foram: o padre, o pastor, o babalorixá, o prefeito, o dono da funerária, a florista, os vendedores de velas, a dona da pensão, os coveiros, o radialista, os curiosos, os fofoqueiros... Depois de muito debate, discussões e bate-bocas, não chegaram a uma conclusão. Foi quando de um canto da plateia uma senhora se manifestou:

- Perdão, mas devo anunciar que sou a viúva do falecido e, estes, são os meus dois filhos. Disse uma mulher com semblante tristonho, apontando para dois jovens ao seu lado. Era franzina, de pele clara e corpo esguio, com aparência em torno dos cinquenta anos de idade que revelavam ainda restos de uma beleza do passado. Suas vestes eram simples e prendia os cabelos lisos, clareados pelo sol, num coque baixo.

Todos se voltaram em silêncio repentino para a pequena família. A surpresa momentânea deu lugar a um constrangedor estado de vergonha, pois se davam conta que discutiam a propriedade do morto como se direito tivessem sobre seu corpo e sepultamento. O presidente da câmara pigarreou, pediu desculpas pelo tumulto e ofereceu condolências a família. Finalmente deu voz para a viúva se pronunciar.

- Senhor presidente-vereador, me desculpe interromper sua reunião, mas como tudo que estão falando aqui é sobre meu marido e sua morte, tive o atrevimento de me apresentar. Eu e minha família somos da cidade de Airumã, perto daqui, e moramos num pedacinho de terra nas redondezas da cidade.  Nossa casa fica para trás da Serra do Cristal. Meu marido nasceu nestas terras, onde seu pai era um pequeno sitiante que lidava com plantação de milho e feijão e ele continuou o serviço do pai até hoje. No início desta semana ele veio aqui para trazer uma pequena carga de milho e feijão encomendada por um comerciante daqui. Teve de ficar por duas noites para concluir a venda e o pagamento e se hospedou naquela pensão...foi quando aconteceu essa desgraça!...um amigo nosso que veio com ele na viagem para ajudar com a carga ligou para Airumã para pedir que fossem avisar pra gente do corrido. Viemos logo que ficamos sabendo. A prefeitura de lá cedeu o carro para levar o corpo para o sepultamento.

Ao tempo em que todos expressavam cara de espanto, o presidente da câmara tomou a palavra:

- Claro, claro, entendemos perfeitamente a vontade da família e sentimos muito a tristeza de todos vocês. Mas saiba a senhora que todos nós, inclusive o prefeito aqui presente, queremos demonstrar nossa consideração pelo seu marido, que faleceu em nossa cidade e pensamos que poderíamos homenageá-lo com um bonito enterro aqui mesmo em nosso cemitério, não é mesmo, Senhor Prefeito?

- Sim...claro...homenagem justa...que todos nós queremos fazer. Gaguejou o prefeito que, com o mesmo constrangimento e, ao mesmo tempo, cinismo político, confirmou o desejo “altruístico” da prefeitura e cidadãos da cidade em homenagear o falecido.

- Muito agradecemos, eu e meus filhos, por tamanha gentileza do senhor prefeito e do vareador-presidente. Nem sabia que meu marido era assim tão querido por essas bandas. Um homem tão simples... nem eu tinha conhecimento que ele gozava da amizade de pessoas tão importantes nessa cidade, ao ponto de se reunirem para organizar velório e enterro com homenagens. Mas, peço desculpa, precisamos levar o corpo para o sepultamento em Airumã, pois foi lá que ele nasceu e viveu; lá estão enterrados seus pais e um nosso filho que Deus levou pequenininho.

Assim ocorreu. A mulher franzina de olhar triste, acompanhada dos seus dois filhos, levou o falecido para o enterro esperado em sua cidade. Alguns de semblante perplexo e olho comprido ficaram espiando o carro até sumir na direção da estrada.

Viu-se, então, o desapontamento de todos os interessados, especialmente aqueles que se interessavam pelos lucros financeiros e políticos que aquela tradição da morte, não dos mortos, trazia. Perguntavam-se: E agora, como ficaremos? Sem morto e sem velório no dia dos mortos, como sempre foi desde muitos anos? A tradição será quebrada? A cidade perderá os turistas, os crentes, os romeiros que aqui se dirigem nesta data? Deixaremos de vender as velas, as flores, as refeições? De receber os hóspedes na pensão? De atrair as reportagens de jornais e televisão que aqui chegam para entrevistar os políticos, os padres, os vereadores?

Os que nada lucravam, mas aproveitavam a animação dos acontecimentos também ficaram desapontados. Tinham a convicção que nada mais seria como antes, que o fenômeno que deixara a cidade famosa não mais ocorreria. Sentiriam a perda do vai e vem dos chegantes; dos pequenos restaurantes cheios; da praça da Igreja com filarmônica tocando e ambulantes vendendo seus doces e lembranças artesanais; do velório do falecido de cada ano com cantorias, comes-e-bebes, cachaça e o vozerio das pessoas nos comentários sobre a vida do morto; do cortejo fúnebre até o cemitério, lento e choroso por parte dos familiares, mas nem tanto por parte dos políticos e dos curiosos. Sempre daquela maneira, o dia culminava com a pequena multidão seguindo o caixão ao fim da tarde, carregando suas flores e velas para compor a paisagem do sol que quase se ia, finalizando aquele repetido e lucrativo Dia de Finados de todos os anos. Assim acontecia.

 

É certo, porém, que nos livretos de cordel e nas histórias que correm de boca-em-boca hoje em dia, aquela cidade nunca mais viu um morto no Dia de Finados. Contrário disso, o dia lucrativo e quase festivo que era sempre de sol e céu azul, agora continuamente trazia nuvens plúmbeas e chuva fina. Crendice ou não, há aqueles que acreditam num castigo divino aos interesseiros que transformaram o feriado num dia de ganhar benesses e não de reverenciar seus antepassados. 

Genny Xavier

 

domingo, 12 de setembro de 2021

ENSAIO LITERÁRIO

Margarida Fahel

 

BORDADOS DO TEMPO NOS TECIDOS DA MEMÓRIA

- A narrativa de Margarida Fahel -

 Genny Xavier


“O tempo é uma superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar.”

(José Saramago, em “O Evangelho segundo Jesus Cristo”)

 

O tempo é mistério. Sobre suas dobras e nuances debatem-se filósofos, cientistas, artistas. Tempo que se tece absoluto ou relativo; que sobrepõe as horas, os dias, os anos; que se curva, se imbrica, ata ou desata suas pontas nas surpreendências dos fatos que se antecedem ou se sucedem.

O tempo que é apreendido em nossas caixas de memórias, apresenta-se nas diversas maneiras de como enfrentamos a realidade cristalizada no presente, criando elos em que as memórias nos dão parâmetros da nossa história, trajetória e ancestralidade. Em sua importância, a memória é responsável pela nossa identidade individual ou coletiva e, ainda, nos permite a inter-relação dessas duas esferas que, permanentemente, dialogam através dos campos que interagem com o pessoal e o histórico.

Em circunstâncias análogas, memória e literatura são segmentos intrínsecos às criações de historiadores e escritores contemporâneos. A criação literária, especialmente a narrativa ficcional, detém a memória através do fluxo das recordações e trajetórias dos envolvidos no contexto da narrativa, possibilitando ao escritor restaurar vivências individuais que se vinculam aos elementos históricos coletivos de determinada época. Nestes termos, podemos entender a assertiva do historiador francês, Jacques Le Goff, ao dizer que “a memória é crucial, tanto por sua importância ímpar e fundamental nos modos de organização da identidade humana, quanto por essa organização realizar-se a partir do cruzamento entre as suas manifestações na esfera individual e coletiva”. (LE GOFF, 1996).  

Na perspectiva de apreensão do tempo que gravita entre o passado e o presente, o individual e o coletivo; bem como da utilização das memórias que seguem no fluir dos fatos, imagens ou sentidos que, em momentos, subvertem a cronologia, está a criação literária de Margarida Fahel. Sua recente produção ficcional apresenta grata satisfação de leitura e reflexões sobre os sentimentos que, nas vivências das suas personagens, revelam experiências inspiradoras em suas trajetórias humanas, cravadas por dramas pessoais e pela incidência dos fatos da história que as afetam.

Seus romances, “Nas dobras do tempo” (2015) e “Entre margens” (2018), transpõem para a narrativa ficcional fatos da identidade local, ambientados na região cacaueira do sul da Bahia, revelando afinidades entre o imaginário e o histórico. Os fatos ficcionais e históricos são vivenciados por personagens de segmentos sociais diversos e nos dobramentos de suas trajetórias no tempo, porém, suas vozes revelam a voz inequívoca da própria autora. Sua narrativa busca revelar, na trama das obras, seus pontos de vista e posicionamentos críticos em que as relações de poder não se cristalizam apenas no universo econômico e político da região, mas, especialmente, na análise dos costumes de uma sociedade patriarcal que, desde os primórdios da sua formação, moldou-se no machismo que aprisionou, diminuiu e vitimizou a mulher, independentemente do grupo social em que estavam inseridas. Nesse ponto, a narrativa da autora apresenta um olhar diferenciado ao de escritores como Jorge Amado e Adonias Filho, cujo foco centralizou de forma mais contundente essa mesma   região forjada pelas histórias dos homens. É possível perceber esta diferença nos fios tecidos dos relatos de suas personagens femininas, como Luísa, em Nas Dobras tempo: 


Um nome, uma estirpe, de um lado; as terras, as arroubas de cacau, de outro. Eram os acordos, as vidas num prato de balança. Assim eram aqueles tempos. (...) Os títulos e as arroubas de cacau tudo isso ocultavam... Assim eram os ajustes, os negócios em família. E as dores das pessoas? E as vidas? Por que alguns se declaravam deuses a nortear e destruir caminhos? Por que manejavam destinos, por que colocavam interesses e ambições acima dos sentimentos e esperanças? (FAHEL, 2015, p. 32).

   

Margarida Fahel caminha por outras direções, revela os rumos da história da sua própria região através da ótica sensível e, ao mesmo tempo cheia de coragem e força, das suas personagens femininas, que vão bordando suas memórias nos tecidos das suas trajetórias, narrando, elas mesmas, suas próprias experiências e a de outras mulheres que lhes antecederam ou sucederam nas dobras do tempo e nas margens de suas vidas. Estas marcas estão, sobretudo, no fluxo do vai e vem das lembranças de suas protagonistas, Luísa (Nas dobras do tempo) e Valquíria (Entre Margens), ambas viventes das dores, amores, revezes da sorte, reviravoltas do destino, construtoras de caminhos e redenções; ambas desenhando seus destinos como em colchas bordadas pelas linhas do tempo as costuras e os pontos das suas decisões. São delas a coragem e as resoluções que delimitam rumos e ações:

 

Uma noite, no entanto, numa hora de desesperado sofrimento, as palavras de minha bisa Maria Bertha, que estranhamente me alcançaram, numa outra noite, agora tão distante, naquela Fazenda Alegria, bateram nos ecos da minha lembrança como flecha certeira: “O amor te salvará”. No mesmo instante, a memória também me trouxe aquilo que Justina sempre repetia: “Tenha esperança! Esperança tem pés, mãos e boca”. Ali, juntando aquelas frases como fita em que se dá um laço, compreendi o alcance daquelas palavras: a esperança, nós a fazemos. Tenho pés, mãos e boca, portanto, nada me falta! Levantei-me resolvida. Vou procurar ajuda! Preciso saber de Ivan, preciso chegar àqueles homens que o encarceraram. (...) No outro dia, outra Luísa emergia daqueles lençóis. O medo de repente se foi: O amor te salvará.  (FAHEL, 2015, p. 130-132).

 

Como fugi daquela fazenda, como fugi daquele bordel, eu também daqui fugirei. Fugirei destas belas cortinas rendadas, dos cristais tão cuidadosamente polidos, dos lençóis de linho bordado, das ruas agora calçadas desta cidade, dos boninais floridos, e até deste rio que aprendi a amar. Eu fugirei de João Vitório, que outro não é senão aquele José Alfredo dos Anjos, que numa noite nunca passada minha vida destroçou... Eu nada lhe devia. (FAHEL, 2018, p. 135).


Através delas, dos seus relatos de lembranças e memórias apreendidas, emergem também outras vozes, de outras mulheres em que elas se inspiram ou que por elas são inspiradas. Porém, é no olhar feminino da própria autora que suas personagens apresentam suas nuances, em que sua criação ficcional se constitui muito particularizada por sua interpretação do universo em que elas gravitam em suas condições de mulheres viventes de um tempo talhado por homens de mando e poder. Neste aspecto, o discurso feminino de Margarida Fahel ganha seus contornos, pois, como mulher, “vivendo uma condição especial, representa o mundo de forma diferente” (XAVIER, 1991, p. 11). Dela, emerge a sensitiva percepção de Luísa para captar, no vai e vem das memórias, as alegrias, amores e dores de suas antecessoras: a bisavó, Maria Bertha; a avó, Maria Élise e a mãe, Maria Teresa, em Nas dobras do tempo. Dela, também se descortina a saga de Valquíria, no relato da sua odisseia pelos caminhos do tempo, desde a infância de sabores, cheiros e detalhes felizes; ao infortúnio das perdas, sonhos desfeitos, aprisionamento da adolescência e juventude, fugas que dão voltas ao mesmo ponto; até a conquista da liberdade e redenção, em Entre Margens. Na narrativa de Fahel o feminino emerge em duas perspectivas: da própria autora e das suas personagens, Luíza e Valquíria, donas dos relatos de suas vidas e, ainda, das vidas de outras mulheres que interagem ao longo da trama dos dois romances. Essa assertiva reafirma a relação, proposital ou intuitiva, entre a narração das personagens e o discurso subjacente da autora, deixando no leitor a sensação de que uma mulher sabe bem entender e expressar o universo particular de outra(s) mulher(es), criando assim uma literatura que revela a psiquê do feminino de uma forma muito pessoal, pois “(...) quando uma mulher articula um discurso este traz a marca de suas experiências, de sua condição (...)” (XAVIER, 1991, p. 13).

Quanto aos recursos narrativos que expressam a sensibilidade criativa da autora em “Nas dobras do tempo” e “Entre Margens”, está sua abordagem na apresentação da passagem do tempo, montada como um painel não linear definido pelo fluxo das memórias e cronologias dos relatos, cartas, diário e escritos das suas personagens. Desta forma, Fahel passeia pelo tempo e fatos que historicamente o determinam. Os trajetos de vida dos envolvidos nas tramas dos dois romances são o foco, porém, as ocorrências históricas incidem como pano de fundo e contexto que as influenciam. Os romances mesclam a vida das personagens ficcionais aos fatos históricos que lhes situam no espaço-tempo inerentes das épocas e dos grupos sociais que fazem parte. Desta forma, ficcionalidade e história constituem um conjunto de intensões das quais a autora vai apresentando o painel cultural dos objetivos críticos da sua narrativa ao expor sua ótica dos fatos, sua visão histórica da ordem mundial, do Brasil e da sua região.

Na trama do romance “Nas dobras do tempo”, as memórias desfiam o tempo desde o final da década de 20, quando Luísa, ainda muito jovem, é impedida de viver seu amor por Ivan e, encarcerada grávida pelo pai na Fazenda Alegria, relembra e revive o passado das suas antecessoras. No vai e vem do foco narrativo, o tempo se desdobra entre o presente e o passado revelando suas marcas históricas, como os sofrimentos do período escravista do séc. XIX, reconstruído na jornada da escrava Jovanina e, adiante, da sua neta, Justina e da sua bisneta, Adelaide, já livres da escravidão, mas não das suas consequentes dores; como a chegada dos alemães e de outros imigrantes europeus no sul da Bahia para desbravar terras, plantar a cana e erguer seus engenhos, bem antes do cacau, a exemplo da história do francês, Pierre e da alemã, Bertha; ou nas referências sobre a década de 30 do século XX, na tomada do poder por Getúlio Vargas e instalação do Estado Novo, especialmente nos relatos de Luísa sobre a repressão e prisões de Graciliano Ramos, Carlos Prestes e do personagem Ivan, seu marido.

Em “Entre Margens”, o tempo da jornada de Valquíria nos é passado através do seu relato em forma de um livro escrito para presentear sua filha, Adéline, ao completar 18 anos:


Há trinta dias, quando completei meus dezoito anos, você, maman, entregou-me este livro. “É o livro de minha vida”, assim disse na dedicatória. Você escreveu para mim. Um exemplar único, contando suas dores, esperanças e alegrias. Falou da sua terra, do seu amargor e de suas doçuras, de suas riquezas e de suas misérias; relembrou generosidades, injustiças – quantas! – e traições. (...). (FAHEL, 2018, p. 17).

 

A narrativa dos seus escritos começa na Ilhéus do início do século XX em que suas memórias se voltam para a infância e adolescência marcada pelas alegrias familiares e drama abrupto de perdas e infortúnios. Perda do pai, Davi, assassinado para que sua propriedade rural lhe fosse usurpada; da mãe costureira, Adélia, vítima fatal da saudade e desencanto pela morte do marido: 


(...) Dias depois, minha mãe a dizer-me: - Tomaram nossa terra. Mostraram-me uns papéis que dizem que a terra foi pagamento de dívida, que foram cobrar a dívida e seu pai reagiu. Nenhuma culpa tiveram, somente se defenderam, foi o que disseram. Agora, minha filha, é trabalhar nesta máquina para comer, pagar o aluguel da casa e o pouco vestir.

Muitos meses assim se passaram. O cantar da máquina de costura havia perdido as notas da alegria. Minha mãe cada vez mais triste, assim definhava. Compreendi que o riso de meu pai é que lhe alimentava a alma. (...) Quase dois anos depois da morte de meu pai, ela também se foi. Fiquei só. (...). (FAHEL, 2018, p. 29).

 

Numa artimanha do destino, logo depois da morte da mãe, Valquíria tem sua pureza roubada pela violência de um gesto equivocado de vingança. Seu algoz: João Vitório, o mesmo José Alfredo dos Anjos, o homem que a aprisionaria em grande parte de sua trajetória, subjugando-a em vários momentos de sua vida, mas não calando sua força e luta para dele se libertar ao encontro do seu único amor: Jonathan, o valoroso suíço que conhecera em sua longa e penosa vivência na cidade de Itabuna, para onde fugira e, num revés da sorte, fora novamente encarcerada nas teias do destino.

A odisseia de Valquíria, revela a maneira de como as mulheres do seu tempo se submetiam aos padrões misóginos impostos pela sociedade da época, especialmente no sul da Bahia. Tentar sair da situação de submissão muitas vezes custava a humilhação, o banimento social, a vergonha, o medo, que as faziam agir segundo os costumes. Porém, a transgressão foi a marca da personagem que, na sua trajetória de dor, repressão, violência e até traições daqueles que julgava confiar, em cada vicissitude da vida, se vestiu de força e determinação para, de fuga em fuga, encontrar sua liberdade e o amor do homem por quem se apaixonou.  

O sistema cultural, no qual Valquíria estava inserida, fruto do machismo preponderante do coronelismo das décadas iniciais do século XX na região cacaueira do sul da Bahia, cobrava-lhe submissão, virtude e fidelidade, pois a imagem feminina estava qualificada como frágil e como objeto do poder masculino. Valquíria, contudo, distancia-se dessa premissa, pois se rebela contra esse sistema e contra um casamento realizado através de uma trama de falsidades ao buscar lutar por seus sonhos e felicidade. Desta forma, ela é uma representação das mulheres que se recusaram aceitar às injustiças de seu tempo.

Em ambos os romances aqui abordados, a narrativa de Margarida Fahel parece incorporar a perspectiva romântica do século XIX e, desta forma, sujeitar-se ao risco da crítica contemporânea de taxa-la como temática ultrapassada. Porém, a autora não cai nesta expectativa e sustenta com graça e beleza lírica suas histórias com imprescindível crença na força do amor que move suas personagens, especialmente as femininas, em detrimento aos poderes e poderosos do seu tempo.

Ainda, em relação a passagem do tempo, embora a autora o aborde, em sua cronologia, através dos fatos históricos ou pessoais que gravitam entre o passado e o presente nas memórias das personagens,   há uma evidente perspectiva subjetiva, quase mística, na forma em que os sentidos do tempo se impõem nas pontas que entrelaçam os destinos de cada um. Assim, o tempo é visto num complexo de tensões, emoções e existências humanas que, misteriosamente, tramam seus fios como redes. Esse poderoso complexo é apresentado nas linhas e entrelinhas das narrativas de ambas as obras: no seu estilo, discurso, fluxo e ritmo narrativo. Dessa maneira, é importante salientar que, de forma geral, nem o presente e nem o passado são apresentados isoladamente nas obras da romancista, ao contrário, esses elementos estão intrinsicamente conectados.

As narrativas de Margarida Fahel nos romances “Nas dobras do tempo” e “Entre margens”, fazem do tempo uma colcha onde seus bordados são ricamente elaboradas pelos fios da memória: uma metáfora da vida que abre o seu tecido para que seus personagens, sensivelmente construídos, estendam a colcha do tempo para apreciarmos, nas cores das linhas, os mil pontos dos desenhos que bordam as histórias contadas. Tempo, memória e personagem, são os elementos essenciais da construção de ambos os textos, fazendo-nos compreender o que diz historiadora Margarida Neves:

“(...) na memória se cruzam passado, presente e futuro; temporalidades e espacialidades; (...) dimensões materiais e simbólicas; identidades e projetos. É crucial porque na memória se entrecruzam a lembrança e o esquecimento; o pessoal e o coletivo; o indivíduo e a sociedade, (...). Crucial porque na memória se entrelaçam (...) história e ficção; revelação e ocultação.” (Neves, 1998, p. 218).

        

Enfim, o filósofo e linguista búlgaro, Tzvetan Todorov, em sua obra “As estruturas narrativas”, afirma que “o romance é um ser vivo, uno e contínuo, como qualquer outro organismo” (TODOROV, 2003, p. 82). É certo, os romances de Margarida Fahel ganham vida própria no curso da narrativa, possuem a poderosa força das histórias contadas com sensibilidade exposta e a simplicidade que prescinde elaborações complexas para encantar seus leitores. A autora incorpora seu imaginário no vigor do seu contar, comprovando o que ainda nos fala Todorov: “(...) toda narrativa é uma escolha e uma construção; é um discurso e não uma série de acontecimentos.” (TODOROV, 2003, p. 108). Essa forma de assumir seu estilo próprio e singular, seus temas, discurso, concepções críticas e visões de mundo na tessitura da sua escrita, revelam o compromisso da autora com sua narrativa como um trabalho vital, fazendo-nos reportar, mais uma vez, às falas do filósofo búlgaro: “(...) contar é igual a viver. (...) A narrativa é igual à vida(...)”. (TODOROV, 2003, p. 127 e 128).

 

REFERÊNCIAS:

FAHEL, Margarida. Nas Dobras do tempo. Itabuna: Mondrongo, 2015;

FAHEL, Margarida. Entre Margens. Ibicaraí: Via Litterarum, 2018;

LE GOFF, Jacques. Enciclopédia Enaudi. Memória-História. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1996;

NEVES, Margarida de Souza. História e Memória: os jogos da memória. In: MATTOS, Ilmar Rohloff (org.). Ler e escrever para contar: documentação, historiografia e formação do historiador. Rio de Janeiro: Access, 1998;

TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas. São Paulo: Perspectiva, 2003;

XAVIER, Elódia. Tudo no feminino: a mulher e a narrativa brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.


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Margarida Fahel


A itabunense, Margarida Cordeiro Fahel é docente aposentada da Universidade Estadual de Santa Cruz, UESC – Bahia, onde atuou por longos anos como Professora Titular de Literatura Brasileira. Além de atuar como docente, exerceu vários cargos acadêmicos, tendo sido Vice-Reitora no período de 1996 a 2004. Foi Coordenadora Editorial da Revista FESPI e da Revista ESPECIARIA, periódicos científicos da Universidade. Foi membro do Conselho Estadual de Educação da Bahia no período de 1998 a 2006, onde fazia parte da Câmara de Educação Superior. Atualmente reside em Salvador. Tem três filhos e seis netos. Permanece ligada à sua cidade, Itabuna, onde preserva amigos, colegas e familiares.

Margarida Fahel é membro da Academia de Letras de Itabuna, ALITA. Como escritora, publicou artigos, resenhas e estudos críticos na área de Literatura Brasileira. Atualmente atua como palestrante de temas da sua área e dedica-se aos estudos de escritores como Jorge Amado e Adonias Filho. Destaca-se, ainda, como romancista, como as publicações dos romances “Nas dobras do tempo” (Editora Mondrongo,2015) e “Entre margens” (Via Litterarum, 2018).


terça-feira, 3 de agosto de 2021

Fonte: Google


SOMBRAS

 

A solidão zomba da noite

e se arrasta em suas horas corridas...

O tempo se alonga,

desafiando os limites

das convenções delimitadas...

Meus delírios tomam formas gigantescas

de sombras que dançam silenciosas

sem acordes ou melodias...

E o sono não chega

na porta das pálpebras que não se fecham.

Se distancia do relaxamento do espírito

para eclodir os versos inquietos

no lume da alma...


Genny Xavier 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Fonte: Google


A LUA OUVE UM BLUES

 

A luz da lua

incide sobre a superfície da noite

e atravessa a janela

de onde espio o tempo...

Lá fora

um vento suave

levanta as folhas

como quem conduz uma dança...

Uma canção de Joplin

confunde a rouquidão dos sons

que atravessam as frestas...

 

A noite é voragem

e frêmito...

 

Genny Xavier


Fonte: Google