quarta-feira, 8 de abril de 2009


CRÔNICA: Genny Xavier

AS AFINIDADES DIVERSAS


“Desengavetando expressões, um mundo novo de caras e formas ganha corpo aos olhos e sentidos daqueles que devoram bem mais do que a si mesmos. Seja em palavras, imagens e outros tantos signos, a cultura fascina por suas proporções ilimitadas. Entre caminhos e palavras, a vida pulsa nas revelações urgentes da alma.”

(Entrelinhas. Revista Eletrônica Diversos Afins)


Nas inúmeras reminiscências das minhas noites insones, vezes os meus pensamentos permitem sentidos imensuráveis sobre minha condição simultânea de artista da palavra e de, antropofagicamente, devoradora delas. Eu agora me refiro a isto: a minha condição de criar e ler, ao meu impulso necessário e visceral de escrever ao tempo em que as leituras me despertam e dão vida ao meu amor desmedido pela literatura.
Nesta ponte entre as leituras e minhas escrituras eu busco afinidades diversas, daqueles que escrevem e daqueles que me lêem; daqueles que no fazer das coisas constroem sintonias traçadas pelo viés da palavra escrita ou lida; daqueles afins ao meu universo, ao eu-lírico do meu ser, ao olhar inquieto da minha alma; daqueles com quem meu espírito devaneia como meu amigo-poeta de transcendências, Sérgio Brandão; daqueles com quem minha observação pelos fatos sutis, profundos e surpreendentes da vida farejam histórias e fazem nascer personagens reais ou surreais, como o meu parceiro do contínuo tempo dos encantos literários, o escritor Antonio Naud Júnior; ou daqueles com quem comungo admiração e respeito, leituras e saberes, como o talentoso Fabrício Brandão, que ao lado da sua companheira, não menos talentosa, Leila Andrade, produzem a Revista Cultural Eletrônica Diversos Afins
, portal virtual interessantíssimo para os que degustam boa leitura somada ao prazer de uma estética visual sensível, que aliás, me serviu de inspiração para essas linhas que escrevo nesse meu pensar madrugador.
Enfim, penso que estamos na vida para a troca, atividade humana que vai desde as condições materiais da vivência em sociedade até aquelas que revitalizam em nós os sentidos mais abstratos das parcerias emocionais ou das sintonias existenciais. Assim expressamos afinidades, sejam elas profissionais, comerciais, afetivas ou intelectuais. Assim alimentamos nossa necessidade de compartilhar aspirações, ideologias, ideais e dons pois, como insustentavelmente humanos que somos, sabemos que desde o vir a ser no mundo nossos pares são elos pelos quais precisamos nos atar.
As afinidades desagregam as ilhas de isolamento que nos distanciam da vida que pulsa; criam laços que se unem às várias fitas de cores diferenciadas que somos nós; aproxima o longe, o intocável, o inatingível; nos faz melhores para a aprendizagem com o outro e mais atentos às páginas das lições que lemos nas entrelinhas do saber. As afinidades são tantas! Diversificam os planos, as compreensões de gostos, leituras e visões de mundo; dão sustento e sabor aos afetos; permitem compartilhar sentidos nesta vazão de relações, fatos e ações sem sentido do mundo contemporâneo.
É certo, que das diversas afinidades que compartilho no correr da vida, aquelas que tocam meu ser através do fazer artístico são as que especialmente me interessam. No mundo das artes, campo sensível da criação humana, experimentar afinidades é como transitar pelas vias do som, das cores, das imagens, do movimento, das palavras, que se bifurcam em sentidos diversos através de olhares afins...olhares da música, da pintura, do cinema, da fotografia, da dança, da literatura...olhares permeados das diversas leituras do mundo, dos diversos artefatos e objetos que sutilmente a arte nos provém para alimentar a alma, fustigar os sonhos, questionar as injustiças, expressar o belo, o feio, o suave, o áspero...Essa arte tão necessária aos devaneios oníricos, à lucidez das horas, ao correr do tempo tão imune aos episódios imensuráveis do cotidiano que nos surpreende ou nos entedia.
Na literatura, mar por onde navego meu barco, não se enumeram os textos, sejam da prosa ou da poesia, que podem me indicar as tantas leituras que integram as afinidades literárias. Estas revelam-se na tessitura das palavras, e não nos parâmetros de tempo e espaço; no fazer estético que delimita velhos ou novos paradigmas; nas posições de questionamentos e crítica que apontam posições de vanguardas ou posturas conservacionistas; nos sentidos do imaginário ou na significância do real. As afinidades literárias aproximam poetas e leitores, poesia e leituras, nos identificam pelas histórias ou seus personagens, por criadores e criaturas que adentram no mundo das nossas próprias experiências como degustadores da palavra.
Críticos, ensaístas ou estudiosos da arte literária, de várias épocas ou lugares, costumam argumentar sobre a não existência de uma história cronologicamente organizada de produção escrita, preferem apontar suas múltiplas possibilidades de interpretações e leituras, colocando no campo do relativismo criador o discurso, o jogo de palavras, as máscaras da criação como artifícios atemporais. A literatura expressa, portanto, o mérito da afluência, da fluidez, da representação de signos e linguagens e, independentemente do tempo e do espaço, abrem uma via de imensurável relação entre autor e leitor e, também, entre leitores, aqueles que se afinam nos tons e sentidos de suas leituras e olhares.
Assim, muitos de nós se diversificam nas experiências e se afinam na troca delas. É, talvez, essa possibilidade que incomoda aos que segregam, na xenofobia dos tempos, o valor das diversidades, elas não nos separam, ao contrário disso, pela correspondência das afinidades, nos apontam novos sentidos que nos revitalizam a alma na solidez dos dias...e das noites como esta. Lá fora, há uma lua quase cheia no céu azul-escuro, e eu acho que tenho grande afinidade com ela.



quinta-feira, 2 de abril de 2009

TEMPO, TEMPO, TEMPO...


SENTIMENTO


Estou entre
a dificuldade do ser
e a inconstância da idéia...
Melhor seria
encontrar o tempo
da infância,
o lixo da rua
ou a enxurrada da chuva...


Genny Xavier