sábado, 26 de setembro de 2015

Fonte: Google


MEMÓRIAS DOS BALÕES


Remotamente,
a infância transgride
a curva do tempo
e salta no espaço
para encontrar
a memória vívida dos dias…
E traz, na superfície dos sentidos,
a magia acima da lógica,
as horas longas,
fora do relógio dos homens;
o riso solto,
além das lágrimas;
o coração aos saltos,
inflado da leveza dos balões…

Saudosamente,
a infância se dilui na aurora,
deixando seu frescor
para colorir a manhã azul…

Genny Xavier

Fonte: Google

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

NOITE ENLUARADA



Meu passo tonto
costura o vento
ao curvar a rua.

O gato preto
espreita meu olho
que vagueia a noite.

De longe, a coruja pia
testando meu medo
dos presságios da vida.

De perto, a sombra cresce
trazendo as memórias
dos pesadelos infantis…

Assim, desperto
e espio o silêncio
da lua tão grande,
tão cheia...





Genny Xavier







terça-feira, 28 de julho de 2015

Homenagem da Rede Sul Bahia, da jornalista Vera Rabelo, aos 105 anos de Itabuna-Bahia
https://www.facebook.com/RedeSulBahia


O ANIVERSÁRIO DA CIDADE


Para Itabuna


A cidade é marca indelével
cravada num peito aberto.
Expressa, na dureza dos anos
e na fragilidade dos dias,
a erosão inevitável do tempo
que move as pedras pretas
ao sabor das águas turvas do rio.

A cidade comove os homens,
na sua falta de riso e paisagem,
em sua ausência de sentido e arte,
em sua dor de mácula e fome.
E se recente do tapa que fere o povo
e se debate na água suja que afoga os reis
e se contorce na tortura explícita que aniquila os sábios.

A cidade tão minha de paixão,
tão nossa de ilusão,
resiste aos dias ensimesmados
e toma o sol das manhãs,
a chuva das tardes
e as estrelas das noites
no aniversário dos anos.

Genny Xavier

terça-feira, 21 de julho de 2015

Fonte: Google

INVERNO


O peso cinza das horas
expõe a melancolia da tarde plúmbea...
Os passos pisam a areia úmida
que revolve seus grãos de prata
nas águas salgadas da maré bravia.
O vento que atravessa a alma
esfria o coração...

Há um inverno em mim,
hibernando meus sentidos...

Genny Xavier

Fonte: Google

terça-feira, 23 de junho de 2015

"Poesia é voar fora da asa." (Manoel de Barros)



POESIA, ESSÊNCIA DE TUDO

"Entre a idéia e o ato cai a sombra
e neste hiato está a poesia e sua
capacidade de relacionar o indizível”
                          (T.S. Eliot)


A poesia é a essência, expressa na paisagem noturna que sopra indagações e dissabores; ou a cadência do andar feminino que embala o ritmo e que moleja o vai-e-vem dos passos, a ondulância das formas; A poesia é a essência, expressa na voz bendita do menino que vende doce e grita “Olha o quebra-queixo! Olha o quebra-queixo!”; ou no poema que se inscreve no palavrear mágico e abominável que o poeta cria; A poesia é a essência fluídica de um perfume no ar, que vai percorrendo entrâncias, frestas e caminhos para pousar nos dedos do poeta que ensaia o poema... Da poesia não se diz, se percebe, se degusta, se aspira, se debruça.
Conceituar poesia nos remete aos olhos que pairam sobre montanhas e idéias. Dá-nos vontade de exercitar o onírico, o lúdico, o belo, o indizível. E lembrar-nos que as palavras se entranham, se combinam se atraem e restituem melodias, sons e ritmos; e criam metáforas e dizeres por trás das coisas.
A poesia e o poema estão unidos e próximos pela relação que o poeta lhes remete. O poeta capta a poesia que se eterniza no poema, “ideia” e “ato” de uma “sombra” que emerge dos escuros, da invisibilidade, da incapacidade daquilo que não se diz. A poesia é o impossível que se desvela; o suspiro, a divagação, a crítica, a construção, o belo e o feio, a dor, o asco, o susto, inseridos na projeção poética, no paradigma existencial do poeta que, entre a ideia e a forma, captura a poesia que se cristaliza no poema e se instala na literatura.
Mas, afinal, o que é a poesia? De que partícula ela se compõe? Que olhos tem? Que bocas? Quantas mãos? Com qual das faces nos olha a poesia?
Mediante os gostos e as diferenças, podemos dizer que a poesia é a essência subjetiva de uma sensação; é o fluído que percorre paisagens, atravessa pessoas e fotografa coisas e objetos; é o parêntesis entre o dizer (expresso pelo poema) e o não-dizer (expresso pela poética). A poesia é a refração, o interlúdio da razão e o prelúdio da emoção.

Genny Xavier     



terça-feira, 26 de maio de 2015

Fonte: Google


POESIA


Palavrear:
Dizer o não dito
letra por letra…

Versificar:
Buscar o querer ser dito
entrelinhas, entrespaços…

Poetizar:
Capturar o dito querer
fibra por fibra
em cada risco… rabisco…


Genny Xavier

Fonte: Google

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Amor é fogo que arde sem se ver,/ é ferida que dói, e não se sente;/ é um contentamento descontente,/ é dor que desatina sem doer." (Camões)

Fonte: Google


A RIMA DO AMOR


Amor rima com dor
em posição inversamente recorrente.
Mas, caso calhe ao amor
- voluntarioso e surpreendente -
a rima escapa à sua sina
para em outra combinação
buscar na palavra esplendor
a bendita razão da chama
que aquece o amor.
Pois não há como não dizer
que o sentido da rima
ora estará para a dor
ora servirá ao esplendor.
Assim, amorosamente,
o verso revelará a dor que nos consome
e o esplendor que nos liberta...

Genny Xavier

Fonte: Google

sábado, 13 de dezembro de 2014

Salvador Dali, 1943



FLUIR


Em sua ácida avidez de essência
o vazio difunde-se
no oco da alma...
E torna ermo o coração...
E torna gélida a razão...

Os elos se partem,
as fibras se rompem,
se dilaceram as entranhas...

Porém, onde já se impera o vácuo,
um ínfimo grão luzidio
rompe o casulo de seda
e, fundo, respira a liberdade
da vida teimosa...

Genny Xavier

terça-feira, 10 de junho de 2014

O Tempo (Imagem: Google)


O PODER DE CHRONOS*


Gira o tempo
em que se gastam as horas
ao rigor dos fatos que sucedem
manhãs, tarde e noites...

Gira o tempo
em que se consomem as horas
no fervor das perplexidades que emolduram na tela
o cotidiano dos dias...

Gira o tempo
em que as horas vibram
ao som mortal que devora a noite:
estampido seco... grito rouco...

Tempo... tempo... tempo...
Roda que gira a vida
pontas que atam mistérios de nascer e morrer
ampulheta que escoa os anos...

GENNY XAVIER


"Chronos, o deus do Tempo" - Maurício Herrera
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* Na mitologia grega, Chronos (em grego Χρόνος, que significa tempo; em latim Chronus) era a personificação  primordial do tempo.
Os gregos antigos tinham três divindades que encarnavam conceitos sobre o tempo: Chronos, Kairós e Aeon. Chronos refere-se ao tempo cronológico, ou sequencial, que pode ser medido, associado ao movimento linear das coisas terrenas, com o princípio e o fim. Kairós refere-se a um momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece, o tempo da oportunidade. Aeon era um tempo sagrado e eterno, sem uma medida precisa, um tempo da criatividade onde as horas não passam cronologicamente, também associado ao movimento circular dos astros, e que na teologia moderna corresponderia ao tempo de Deus.
(Fonte: Wikipédia)


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Fonte Google


MELODIA

Não fosse essa estranha identificação
e não estaria eu, poeta das horas nuas,
a restaurar os rubros encantos
das melodias da alma...
Não fosse a noite
e o som de um blues de Robert Johnson,
e não estaria eu, perplexa e sem-jeito,
diante do susto dos dizeres mágicos,
trazidos de uma época que não vivi 
e evocados de ritmos que não celebrei
na órbita do seu tempo glorioso...

A música acalenta
as minhas melancolias de hoje,
saboreadas ao sabor da perenidade da arte.
Sem tempo e espaço
e sem limites dimensionais.
O fluxo das notas imprime um frêmito
nas marcas sensoriais do tecido pele.
Não há como resistir ao som
que embala o corpo em movimento...
Não há como conter a vibração
que eleva a alma e emociona o coração.

Genny Xavier

Pintura de Sebastian Kruger
Homenagem a Robert Johnson