terça-feira, 23 de junho de 2015

"Poesia é voar fora da asa." (Manoel de Barros)



POESIA, ESSÊNCIA DE TUDO

"Entre a idéia e o ato cai a sombra
e neste hiato está a poesia e sua
capacidade de relacionar o indizível”
                          (T.S. Eliot)


A poesia é a essência, expressa na paisagem noturna que sopra indagações e dissabores; ou a cadência do andar feminino que embala o ritmo e que moleja o vai-e-vem dos passos, a ondulância das formas; A poesia é a essência, expressa na voz bendita do menino que vende doce e grita “Olha o quebra-queixo! Olha o quebra-queixo!”; ou no poema que se inscreve no palavrear mágico e abominável que o poeta cria; A poesia é a essência fluídica de um perfume no ar, que vai percorrendo entrâncias, frestas e caminhos para pousar nos dedos do poeta que ensaia o poema... Da poesia não se diz, se percebe, se degusta, se aspira, se debruça.
Conceituar poesia nos remete aos olhos que pairam sobre montanhas e idéias. Dá-nos vontade de exercitar o onírico, o lúdico, o belo, o indizível. E lembrar-nos que as palavras se entranham, se combinam se atraem e restituem melodias, sons e ritmos; e criam metáforas e dizeres por trás das coisas.
A poesia e o poema estão unidos e próximos pela relação que o poeta lhes remete. O poeta capta a poesia que se eterniza no poema, “ideia” e “ato” de uma “sombra” que emerge dos escuros, da invisibilidade, da incapacidade daquilo que não se diz. A poesia é o impossível que se desvela; o suspiro, a divagação, a crítica, a construção, o belo e o feio, a dor, o asco, o susto, inseridos na projeção poética, no paradigma existencial do poeta que, entre a ideia e a forma, captura a poesia que se cristaliza no poema e se instala na literatura.
Mas, afinal, o que é a poesia? De que partícula ela se compõe? Que olhos tem? Que bocas? Quantas mãos? Com qual das faces nos olha a poesia?
Mediante os gostos e as diferenças, podemos dizer que a poesia é a essência subjetiva de uma sensação; é o fluído que percorre paisagens, atravessa pessoas e fotografa coisas e objetos; é o parêntesis entre o dizer (expresso pelo poema) e o não-dizer (expresso pela poética). A poesia é a refração, o interlúdio da razão e o prelúdio da emoção.

Genny Xavier     



terça-feira, 26 de maio de 2015

Fonte: Google


POESIA


Palavrear:
Dizer o não dito
letra por letra…

Versificar:
Buscar o querer ser dito
entrelinhas, entrespaços…

Poetizar:
Capturar o dito querer
fibra por fibra
em cada risco… rabisco…


Genny Xavier

Fonte: Google

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Amor é fogo que arde sem se ver,/ é ferida que dói, e não se sente;/ é um contentamento descontente,/ é dor que desatina sem doer." (Camões)

Fonte: Google


A RIMA DO AMOR


Amor rima com dor
em posição inversamente recorrente.
Mas, caso calhe ao amor
- voluntarioso e surpreendente -
a rima escapa à sua sina
para em outra combinação
buscar na palavra esplendor
a bendita razão da chama
que aquece o amor.
Pois não há como não dizer
que o sentido da rima
ora estará para a dor
ora servirá ao esplendor.
Assim, amorosamente,
o verso revelará a dor que nos consome
e o esplendor que nos liberta...

Genny Xavier

Fonte: Google

sábado, 13 de dezembro de 2014

Salvador Dali, 1943



FLUIR


Em sua ácida avidez de essência
o vazio difunde-se
no oco da alma...
E torna ermo o coração...
E torna gélida a razão...

Os elos se partem,
as fibras se rompem,
se dilaceram as entranhas...

Porém, onde já se impera o vácuo,
um ínfimo grão luzidio
rompe o casulo de seda
e, fundo, respira a liberdade
da vida teimosa...

Genny Xavier

terça-feira, 10 de junho de 2014

O Tempo (Imagem: Google)


O PODER DE CHRONOS*


Gira o tempo
em que se gastam as horas
ao rigor dos fatos que sucedem
manhãs, tarde e noites...

Gira o tempo
em que se consomem as horas
no fervor das perplexidades que emolduram na tela
o cotidiano dos dias...

Gira o tempo
em que as horas vibram
ao som mortal que devora a noite:
estampido seco... grito rouco...

Tempo... tempo... tempo...
Roda que gira a vida
pontas que atam mistérios de nascer e morrer
ampulheta que escoa os anos...

GENNY XAVIER


"Chronos, o deus do Tempo" - Maurício Herrera
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* Na mitologia grega, Chronos (em grego Χρόνος, que significa tempo; em latim Chronus) era a personificação  primordial do tempo.
Os gregos antigos tinham três divindades que encarnavam conceitos sobre o tempo: Chronos, Kairós e Aeon. Chronos refere-se ao tempo cronológico, ou sequencial, que pode ser medido, associado ao movimento linear das coisas terrenas, com o princípio e o fim. Kairós refere-se a um momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece, o tempo da oportunidade. Aeon era um tempo sagrado e eterno, sem uma medida precisa, um tempo da criatividade onde as horas não passam cronologicamente, também associado ao movimento circular dos astros, e que na teologia moderna corresponderia ao tempo de Deus.
(Fonte: Wikipédia)


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Fonte Google


MELODIA

Não fosse essa estranha identificação
e não estaria eu, poeta das horas nuas,
a restaurar os rubros encantos
das melodias da alma...
Não fosse a noite
e o som de um blues de Robert Johnson,
e não estaria eu, perplexa e sem-jeito,
diante do susto dos dizeres mágicos,
trazidos de uma época que não vivi 
e evocados de ritmos que não celebrei
na órbita do seu tempo glorioso...

A música acalenta
as minhas melancolias de hoje,
saboreadas ao sabor da perenidade da arte.
Sem tempo e espaço
e sem limites dimensionais.
O fluxo das notas imprime um frêmito
nas marcas sensoriais do tecido pele.
Não há como resistir ao som
que embala o corpo em movimento...
Não há como conter a vibração
que eleva a alma e emociona o coração.

Genny Xavier

Pintura de Sebastian Kruger
Homenagem a Robert Johnson

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Pintura de Vladimir Kush

CICLOS

A cada descompasso da sorte
o destino cobra o preço:
revés do riso,
contrário ao canto...

Ponto por ponto,
a dor costura a alma
cingindo o rasgo
no tecido da pele...

Gota a gota,
a lágrima irriga a terra
e torna fecunda a semente que brota
no ciclo da vida nova...

Genny Xavier

Pintura de Vladimir Kush

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Stonehenge - o círculo de pedras (Fonte: Google)


A VIDA É PEDRA

A vida é pedra

rocha dura
que sobre areia
grão por grão solidifica
montanha íngreme
que ao cume busca o céu
seixo rolado
a deslizar por águas doces
fóssil-foto
da memória dos tempos...

A vida é pedra

dureza exposta
caminho escarpado
calhau liso
fossilífero retrato das eras...


Genny Xavier

Fóssil: Meganeura monyi, período Carbonífero (cerca de 300 milhões de anos atrás)
Fonte: Google


sexta-feira, 19 de julho de 2013

"Cada criança que brinca se comporta como um poeta." (Ana Maria C. Peres)

Os manacás de cheiro...


REMINISCÊNCIAS

Os manacás de cheiro
ainda perfumam minhas memórias
de quintais e riso
e eu me espio vestida de vento
a devorar pitangas vermelhas...
Abaixo das janelas
os amigos evocavam assobios
e as asas revoavam meus pés
no correr dos caminhos
das ruas de pedras...
Entre aventuras e sustos
fantasias e jogos
meu tempo não tinha hora
se alargava sem ponteiros
para os dias depois de outros...
De que valia o futuro
se havia os doces sapotis
da árvore eternizada?
De que valia saber
que os manacás e as pitangas
no curso do presente-hoje
seriam reminiscências?

Genny Xavier

  As pitangas vermelhas...


Os doces sapotis...


As ruas de pedras...

terça-feira, 2 de julho de 2013

"A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever uma novo caso, precisa apagar o caso escrito." (Verba Testamentária, conto de Machado de Assis)


Vasco Tascovski


TRAJETO


No dorso do tempo
a vida galopa...

...e rompe estradas
por rotas lunares.

No curso da viagem
vezes marcha, vezes trota...

...e segue atenta
aos tropeços dos dias.

No correr dos caminhos
a pressa anseia o destino certo...

...e quando percebe
a senda se finda da jornada longa...

Genny Xavier

Vasco Tascovski