sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Amor é fogo que arde sem se ver,/ é ferida que dói, e não se sente;/ é um contentamento descontente,/ é dor que desatina sem doer." (Camões)

Fonte: Google


A RIMA DO AMOR


Amor rima com dor
em posição inversamente recorrente.
Mas, caso calhe ao amor
- voluntarioso e surpreendente -
a rima escapa à sua sina
para em outra combinação
buscar na palavra esplendor
a bendita razão da chama
que aquece o amor.
Pois não há como não dizer
que o sentido da rima
ora estará para a dor
ora servirá ao esplendor.
Assim, amorosamente,
o verso revelará a dor que nos consome
e o esplendor que nos liberta...

Genny Xavier

Fonte: Google

sábado, 13 de dezembro de 2014

Salvador Dali, 1943



FLUIR


Em sua ácida avidez de essência
o vazio difunde-se
no oco da alma...
E torna ermo o coração...
E torna gélida a razão...

Os elos se partem,
as fibras se rompem,
se dilaceram as entranhas...

Porém, onde já se impera o vácuo,
um ínfimo grão luzidio
rompe o casulo de seda
e, fundo, respira a liberdade
da vida teimosa...

Genny Xavier

terça-feira, 10 de junho de 2014

O Tempo (Imagem: Google)


O PODER DE CHRONOS*


Gira o tempo
em que se gastam as horas
ao rigor dos fatos que sucedem
manhãs, tarde e noites...

Gira o tempo
em que se consomem as horas
no fervor das perplexidades que emolduram na tela
o cotidiano dos dias...

Gira o tempo
em que as horas vibram
ao som mortal que devora a noite:
estampido seco... grito rouco...

Tempo... tempo... tempo...
Roda que gira a vida
pontas que atam mistérios de nascer e morrer
ampulheta que escoa os anos...

GENNY XAVIER


"Chronos, o deus do Tempo" - Maurício Herrera
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* Na mitologia grega, Chronos (em grego Χρόνος, que significa tempo; em latim Chronus) era a personificação  primordial do tempo.
Os gregos antigos tinham três divindades que encarnavam conceitos sobre o tempo: Chronos, Kairós e Aeon. Chronos refere-se ao tempo cronológico, ou sequencial, que pode ser medido, associado ao movimento linear das coisas terrenas, com o princípio e o fim. Kairós refere-se a um momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece, o tempo da oportunidade. Aeon era um tempo sagrado e eterno, sem uma medida precisa, um tempo da criatividade onde as horas não passam cronologicamente, também associado ao movimento circular dos astros, e que na teologia moderna corresponderia ao tempo de Deus.
(Fonte: Wikipédia)


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Fonte Google


MELODIA

Não fosse essa estranha identificação
e não estaria eu, poeta das horas nuas,
a restaurar os rubros encantos
das melodias da alma...
Não fosse a noite
e o som de um blues de Robert Johnson,
e não estaria eu, perplexa e sem-jeito,
diante do susto dos dizeres mágicos,
trazidos de uma época que não vivi 
e evocados de ritmos que não celebrei
na órbita do seu tempo glorioso...

A música acalenta
as minhas melancolias de hoje,
saboreadas ao sabor da perenidade da arte.
Sem tempo e espaço
e sem limites dimensionais.
O fluxo das notas imprime um frêmito
nas marcas sensoriais do tecido pele.
Não há como resistir ao som
que embala o corpo em movimento...
Não há como conter a vibração
que eleva a alma e emociona o coração.

Genny Xavier

Pintura de Sebastian Kruger
Homenagem a Robert Johnson

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Pintura de Vladimir Kush

CICLOS

A cada descompasso da sorte
o destino cobra o preço:
revés do riso,
contrário ao canto...

Ponto por ponto,
a dor costura a alma
cingindo o rasgo
no tecido da pele...

Gota a gota,
a lágrima irriga a terra
e torna fecunda a semente que brota
no ciclo da vida nova...

Genny Xavier

Pintura de Vladimir Kush

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Stonehenge - o círculo de pedras (Fonte: Google)


A VIDA É PEDRA

A vida é pedra

rocha dura
que sobre areia
grão por grão solidifica
montanha íngreme
que ao cume busca o céu
seixo rolado
a deslizar por águas doces
fóssil-foto
da memória dos tempos...

A vida é pedra

dureza exposta
caminho escarpado
calhau liso
fossilífero retrato das eras...


Genny Xavier

Fóssil: Meganeura monyi, período Carbonífero (cerca de 300 milhões de anos atrás)
Fonte: Google


sexta-feira, 19 de julho de 2013

"Cada criança que brinca se comporta como um poeta." (Ana Maria C. Peres)

Os manacás de cheiro...


REMINISCÊNCIAS

Os manacás de cheiro
ainda perfumam minhas memórias
de quintais e riso
e eu me espio vestida de vento
a devorar pitangas vermelhas...
Abaixo das janelas
os amigos evocavam assobios
e as asas revoavam meus pés
no correr dos caminhos
das ruas de pedras...
Entre aventuras e sustos
fantasias e jogos
meu tempo não tinha hora
se alargava sem ponteiros
para os dias depois de outros...
De que valia o futuro
se havia os doces sapotis
da árvore eternizada?
De que valia saber
que os manacás e as pitangas
no curso do presente-hoje
seriam reminiscências?

Genny Xavier

  As pitangas vermelhas...


Os doces sapotis...


As ruas de pedras...

terça-feira, 2 de julho de 2013

"A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever uma novo caso, precisa apagar o caso escrito." (Verba Testamentária, conto de Machado de Assis)


Vasco Tascovski


TRAJETO


No dorso do tempo
a vida galopa...

...e rompe estradas
por rotas lunares.

No curso da viagem
vezes marcha, vezes trota...

...e segue atenta
aos tropeços dos dias.

No correr dos caminhos
a pressa anseia o destino certo...

...e quando percebe
a senda se finda da jornada longa...

Genny Xavier

Vasco Tascovski

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Criação Lucas Richardson

A REDAÇÃO DA VIDA


A marcha dos dedos
conduz o motor da alma
orienta a pena que risca…
pensar,
romper,
criar…
Palavra correndo solta
alavanca rompendo gretas
soltando letras ao fumegar dos canos…
pensar,
fluir,
voar…
Contexto formando ideias
visão espiando estradas
pés forjando caminhos…
pensar,
escrever,
sonhar…

Genny Xavier

Texto: Pablo Neruda

sábado, 13 de abril de 2013

Fonte: Google


VERSOS DE CINZAS


Há fuligem em meus dedos fatigados.
Algo lateja em mim: essa minha alma de poeta...
Não encontro ânimo em meu corpo,
comandante dos meus dedos
que escrevinham versos de fumaça...
Estou coberta pelo pó das chaminés,
e meus versos,
escondidos abaixo da espessa poeira do tempo...



Genny Xavier

Foto: Mehmet Ozgur