terça-feira, 10 de setembro de 2013

Pintura de Vladimir Kush

CICLOS

A cada descompasso da sorte
o destino cobra o preço:
revés do riso,
contrário ao canto...

Ponto por ponto,
a dor costura a alma
cingindo o rasgo
no tecido da pele...

Gota a gota,
a lágrima irriga a terra
e torna fecunda a semente que brota
no ciclo da vida nova...

Genny Xavier

Pintura de Vladimir Kush

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Stonehenge - o círculo de pedras (Fonte: Google)


A VIDA É PEDRA

A vida é pedra

rocha dura
que sobre areia
grão por grão solidifica
montanha íngreme
que ao cume busca o céu
seixo rolado
a deslizar por águas doces
fóssil-foto
da memória dos tempos...

A vida é pedra

dureza exposta
caminho escarpado
calhau liso
fossilífero retrato das eras...


Genny Xavier

Fóssil: Meganeura monyi, período Carbonífero (cerca de 300 milhões de anos atrás)
Fonte: Google


sexta-feira, 19 de julho de 2013

"Cada criança que brinca se comporta como um poeta." (Ana Maria C. Peres)

Os manacás de cheiro...


REMINISCÊNCIAS

Os manacás de cheiro
ainda perfumam minhas memórias
de quintais e riso
e eu me espio vestida de vento
a devorar pitangas vermelhas...
Abaixo das janelas
os amigos evocavam assobios
e as asas revoavam meus pés
no correr dos caminhos
das ruas de pedras...
Entre aventuras e sustos
fantasias e jogos
meu tempo não tinha hora
se alargava sem ponteiros
para os dias depois de outros...
De que valia o futuro
se havia os doces sapotis
da árvore eternizada?
De que valia saber
que os manacás e as pitangas
no curso do presente-hoje
seriam reminiscências?

Genny Xavier

  As pitangas vermelhas...


Os doces sapotis...


As ruas de pedras...

terça-feira, 2 de julho de 2013

"A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever uma novo caso, precisa apagar o caso escrito." (Verba Testamentária, conto de Machado de Assis)


Vasco Tascovski


TRAJETO


No dorso do tempo
a vida galopa...

...e rompe estradas
por rotas lunares.

No curso da viagem
vezes marcha, vezes trota...

...e segue atenta
aos tropeços dos dias.

No correr dos caminhos
a pressa anseia o destino certo...

...e quando percebe
a senda se finda da jornada longa...

Genny Xavier

Vasco Tascovski

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Criação Lucas Richardson

A REDAÇÃO DA VIDA


A marcha dos dedos
conduz o motor da alma
orienta a pena que risca…
pensar,
romper,
criar…
Palavra correndo solta
alavanca rompendo gretas
soltando letras ao fumegar dos canos…
pensar,
fluir,
voar…
Contexto formando ideias
visão espiando estradas
pés forjando caminhos…
pensar,
escrever,
sonhar…

Genny Xavier

Texto: Pablo Neruda

sábado, 13 de abril de 2013

Fonte: Google


VERSOS DE CINZAS


Há fuligem em meus dedos fatigados.
Algo lateja em mim: essa minha alma de poeta...
Não encontro ânimo em meu corpo,
comandante dos meus dedos
que escrevinham versos de fumaça...
Estou coberta pelo pó das chaminés,
e meus versos,
escondidos abaixo da espessa poeira do tempo...



Genny Xavier

Foto: Mehmet Ozgur

sexta-feira, 8 de março de 2013

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Ilustração de capa da Coleção "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer


A SENHORA DA MAGIA

Para todas as mulheres de força e luz




"Necessito o êxtase. Não me adaptarei ao mundo.
Me adapto a mim mesma."
Anais Nin

O que me diz a história escrita pelas pontas dos dedos da artimanha, da intuição e da sedução feminina? Toda mulher tem um pouco de bruxa em sua alma? Quem é este ser que encanta sem, necessariamente, precisar da beleza viril masculina, símbolo maior da Criação, talhada à imagem e semelhança de Deus? Se o homem, esculpido do barro, é o reflexo da imagem do seu Criador, certamente a mulher foi criada segundo a unicidade do seu ser e, portanto, livre pela força da sua expressão feminina, ímpar e misteriosa, repleta de cheiros naturais que fascinam os homens e os arrastam à luz da sua sutil singularidade.
Passam aos meus olhos - neste instante noturno em que eu, mulher, exercito esta metalinguagem sobre mim mesma e meus mistérios - a existência de tantas personagens históricas, lendárias, míticas e místicas. Algumas, tocadas pela obstinação, como Joana D'Arc, queimada na fogueira como bruxa; outras, tomadas pelo mistério da visão interior, como Morgana da Bretanha, a Fada de Avalon; tantas outras em épocas distintas e diferentes tempos, posturas, caminhos, verdades, imaginações.
Insisto em pensar na essência visionária, intuitiva, quase desvairada desta alma feminina, vezes santa, vezes pagã, ora amada, ora santificada, como Maria, a Mãe, símbolo da suprema dádiva; ora temida, como Malévola ou Lilith, seja nos contos de fadas ou pela interpretação mítica de um mundo que ainda não reconheceu a marca impressa das mãos suaves e fortes da mulher sobre seu dorso.
Não quero passar as vistas pela história feito os olhos didáticos dos ensaístas, este texto é apenas um feminino suspiro, resultado daquelas horas em que a visão tridimensional pousa sobre o tempo, como se deitasse sobre mim, sobre meu colo, arquétipo do útero de Gaia, toda a história do mundo, simplesmente porque abraço a intuição sob as minhas asas de mulher, de mãe, de ser que executa com sutileza e sabedoria, sensibilidade e presteza, intelecto e trabalho, ciência e encantamento, a sedução que pasma os homens, os consomem de fascinação, os interrogam e, principalmente, os tornam mais graciosos, lutadores e fortes.
É, então, finalmente esta mulher, trabalhadora, artista, bruxa ou feiticeira, fada ou santa, megera ou abnegada; seja fabricando filtros do amor, encantamentos e feitiços; seja lutando em campos de batalhas, empresas, casas e supermercados; seja recebendo o homem dentro de si, que aprendeu a criar a luz da ribalta em bastidores sem platéia e a plantar semente fértil em terreno árido. Esta é, sem dúvida, uma mágica façanha.

Genny Xavier


Representação de Morgana das Fadas. Fonte: Google

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013



REVOLUSONHANDO


O homem
finalmente
engravidou o mundo
e engavetou o medo...

O homem
finalmente
criou asas
e tomou o seu canto...

Este homem
afinal
riscou muros
bateu tambores
lutou, xingou
viajou os sete mares
devorou estrelas
e abriu os olhos...
finalmente.

Genny Xavier

 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Cena do filme "O Último Samurai", de Edward Zwick


O BOM COMBATE

Estou num tempo
propício às minhas escrituras
de êxtase e sangue,
contenção e silêncio...

Minha sorte: o combate
onde a luta,
num campo minado,
escolhe o vencedor.

Minha marca: a defesa,
onde o olho,
num foco atento,
foge ao golpe.

Se nego a batalha
e desconcentro a visão,
perder será uma rima
diante da imprevista sina...

Contudo, a sábia razão
da arte da guerra
orienta a cautela
que conduz na espera o justo triunfo...

Assim a vida segue:
Num tempo para o que se perde,
noutro para o que se colhe
ou, ainda, num tempo em que se aprende...

Genny Xavier

"Dom Quixote", pintura de Armando Romanelli