segunda-feira, 17 de junho de 2013

Criação Lucas Richardson

A REDAÇÃO DA VIDA


A marcha dos dedos
conduz o motor da alma
orienta a pena que risca…
pensar,
romper,
criar…
Palavra correndo solta
alavanca rompendo gretas
soltando letras ao fumegar dos canos…
pensar,
fluir,
voar…
Contexto formando ideias
visão espiando estradas
pés forjando caminhos…
pensar,
escrever,
sonhar…

Genny Xavier

Texto: Pablo Neruda

sábado, 13 de abril de 2013

Fonte: Google


VERSOS DE CINZAS


Há fuligem em meus dedos fatigados.
Algo lateja em mim: essa minha alma de poeta...
Não encontro ânimo em meu corpo,
comandante dos meus dedos
que escrevinham versos de fumaça...
Estou coberta pelo pó das chaminés,
e meus versos,
escondidos abaixo da espessa poeira do tempo...



Genny Xavier

Foto: Mehmet Ozgur

sexta-feira, 8 de março de 2013

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Ilustração de capa da Coleção "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer


A SENHORA DA MAGIA

Para todas as mulheres de força e luz




"Necessito o êxtase. Não me adaptarei ao mundo.
Me adapto a mim mesma."
Anais Nin

O que me diz a história escrita pelas pontas dos dedos da artimanha, da intuição e da sedução feminina? Toda mulher tem um pouco de bruxa em sua alma? Quem é este ser que encanta sem, necessariamente, precisar da beleza viril masculina, símbolo maior da Criação, talhada à imagem e semelhança de Deus? Se o homem, esculpido do barro, é o reflexo da imagem do seu Criador, certamente a mulher foi criada segundo a unicidade do seu ser e, portanto, livre pela força da sua expressão feminina, ímpar e misteriosa, repleta de cheiros naturais que fascinam os homens e os arrastam à luz da sua sutil singularidade.
Passam aos meus olhos - neste instante noturno em que eu, mulher, exercito esta metalinguagem sobre mim mesma e meus mistérios - a existência de tantas personagens históricas, lendárias, míticas e místicas. Algumas, tocadas pela obstinação, como Joana D'Arc, queimada na fogueira como bruxa; outras, tomadas pelo mistério da visão interior, como Morgana da Bretanha, a Fada de Avalon; tantas outras em épocas distintas e diferentes tempos, posturas, caminhos, verdades, imaginações.
Insisto em pensar na essência visionária, intuitiva, quase desvairada desta alma feminina, vezes santa, vezes pagã, ora amada, ora santificada, como Maria, a Mãe, símbolo da suprema dádiva; ora temida, como Malévola ou Lilith, seja nos contos de fadas ou pela interpretação mítica de um mundo que ainda não reconheceu a marca impressa das mãos suaves e fortes da mulher sobre seu dorso.
Não quero passar as vistas pela história feito os olhos didáticos dos ensaístas, este texto é apenas um feminino suspiro, resultado daquelas horas em que a visão tridimensional pousa sobre o tempo, como se deitasse sobre mim, sobre meu colo, arquétipo do útero de Gaia, toda a história do mundo, simplesmente porque abraço a intuição sob as minhas asas de mulher, de mãe, de ser que executa com sutileza e sabedoria, sensibilidade e presteza, intelecto e trabalho, ciência e encantamento, a sedução que pasma os homens, os consomem de fascinação, os interrogam e, principalmente, os tornam mais graciosos, lutadores e fortes.
É, então, finalmente esta mulher, trabalhadora, artista, bruxa ou feiticeira, fada ou santa, megera ou abnegada; seja fabricando filtros do amor, encantamentos e feitiços; seja lutando em campos de batalhas, empresas, casas e supermercados; seja recebendo o homem dentro de si, que aprendeu a criar a luz da ribalta em bastidores sem platéia e a plantar semente fértil em terreno árido. Esta é, sem dúvida, uma mágica façanha.

Genny Xavier


Representação de Morgana das Fadas. Fonte: Google

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013



REVOLUSONHANDO


O homem
finalmente
engravidou o mundo
e engavetou o medo...

O homem
finalmente
criou asas
e tomou o seu canto...

Este homem
afinal
riscou muros
bateu tambores
lutou, xingou
viajou os sete mares
devorou estrelas
e abriu os olhos...
finalmente.

Genny Xavier

 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Cena do filme "O Último Samurai", de Edward Zwick


O BOM COMBATE

Estou num tempo
propício às minhas escrituras
de êxtase e sangue,
contenção e silêncio...

Minha sorte: o combate
onde a luta,
num campo minado,
escolhe o vencedor.

Minha marca: a defesa,
onde o olho,
num foco atento,
foge ao golpe.

Se nego a batalha
e desconcentro a visão,
perder será uma rima
diante da imprevista sina...

Contudo, a sábia razão
da arte da guerra
orienta a cautela
que conduz na espera o justo triunfo...

Assim a vida segue:
Num tempo para o que se perde,
noutro para o que se colhe
ou, ainda, num tempo em que se aprende...

Genny Xavier

"Dom Quixote", pintura de Armando Romanelli

terça-feira, 2 de outubro de 2012

"Sonhar é acordar-se para dentro" (Mário Quintana)


O SONHO DE PANDORA


A primeira imagem me veio repleta da densidade da noite. Neblinas e brumas, uma constelação de estrelas distantes, uma frieza capaz condensar a alma, um peso de estranhamento. A imagem se amplia para descortinar uma antiga estação de trem. Apenas um velho vendedor de bilhetes observa a noite de brumas e neblinas, aguarda a chegada de algum passageiro e o horário da próxima parada. Então, como um olho que espia outro mundo pelo buraco da fechadura de um portal misterioso, me vejo numa realidade paralela a aproximar-se em câmara lenta, como se surgisse do fundo preto e nebuloso de uma tela. Uma imagem quase cinematográfica, diante de um cenário intrigante. Cada passo é cuidadoso, como se a minha concentração dependesse o resultado de algo importante, precioso e urgente a se fazer. Os olhos percorrem cautelosamente todas as imediações, atentos aos perigos que surpreendentemente podem vir ou a expectativa de um encontro marcado. Um vento sorrateiro rodopia algumas folhas secas, um ou outro pedaço de papel, resíduos de poeira e o tecido leve das minhas vestes.


Eu continuo a espreitar os acontecimentos que eu mesmo vivencio. Experimento as emoções em mim segundo o meu olho invisível – alegoria da minha consciência - e perscrutador de tudo que simboliza a minha existência além do factual ou além da inexorável realidade dos dias. Por isso, continuo a espiar para dentro do olho do sonho.
Meus passos acautelam o silêncio. Por uns poucos instantes procuram algo cuidadosamente. Chego a temer que o meu olho do sonho se esbarre com aqueles meus olhos atentos e concentrados. Não permito ainda o confronto, tenho essa obrigação, pois que isso ocorra o impacto entre a imaginação e a razão poderá romper sua interface delicada.
Assim, na nebulosa cena sem o tempo que se marque ou o espaço que se molde, trago nas mãos uma pequena caixa de madeira, misterioso objeto da minha atenta proteção. Por que razão meus olhos temem? De quem me escondo nas brumas da noite? O que devo proteger para que minha alma se preserve do risco mortífero?
Na plataforma de embarque espero solitária a chegada do trem. Permaneço concentrada, envolta em pensamentos perfeitamente captados pelo meu invisível olho que tudo sente e vê. Estou silenciosa, completamente silenciosa, mas temo ouvir o bater do meu coração, tão alto quanto o apito que anuncia a chegada do trem na estação. Enfim, encosta e para na linha que marca o embarque. Antes de entrar, olho para o relógio fixado ao fundo da cabine do bilheteiro e, embora eu sinta o tempo, não conseguirei depois lembrar sua hora. No céu há uma lua quase a aparecer entre nuvens ralas.
Embarco. Ao sentar no banco simples do meu vagão de viagem seguro no colo a preciosa caixa cuja missão me cabe proteger. O sonoro apito agudo da partida soa.


De repente, uma luz invasiva desperta meu olho invisível. Acordo meio tonta do sono onírico. As luzes da cidade ofuscam minha visão e o ônibus avança já próximo à rodoviária. As pessoas começam a ajeitar seus pertences para a chegada. Olho pela janela lembrando do sonho naquela estação de trem. Ah! Como são estranhos os sonhos!  
Assim, uma pergunta talvez paire por um longo tempo em minha cabeça: O que será que havia naquela caixa?


Genny Xavier