quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"Para enxergar claro, bastar mudar a direção do olhar." (Saint-Exupéry)


A LUTA INTERNA


Eu gostaria que o tempo
se abrisse em leque
para extrapolar
todas as oportunidades perdidas
que flutuam invisíveis
por aqui.

Ah! quanta piedade de mim!
E este pensamento que viaja
enquanto eu fico aqui...
nesta guerra de busca
que não sacia,
não sacia nunca...

Se eu pudesse comer o mundo
eu me fartava de mundo
porque esta fome de tão pouco
me confunde!

Quem dera o gozo!
A revolução do povo,
todas as leituras que resgatam a alma,
todas as energias vivas,
dilacerantes!

Quem dera a palavra armada!
Esta palavra que rasga
qualquer mistério...

Genny Xavier


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

"Que é a história senão uma fábula em que todos concordam?"


MEDO

Tanto quanto me aterroriza
esta violência estabelecida no mundo,
outro medo me invade
nos cáusticos dias de hoje.
O pavor me vem
deste falso silêncio,
das caras risonhas,
das vidas festivas,
das alegorias humanas
ou dos caricatos senhores do poder...
O pavor me vem
das besteirinhas parlamentares,
dos paletós engomadinhos,
dos tapinhas nas costas,
das piadinhas imbecis,
dos chavões,
das convenções
ou do plin-plin pegando onda...

O pavor me vem
de onde absolutamente nada acontece!


Genny Xavier


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil." (Mário de Andrade)

"O Abaporu" - Tarsila do Amaral, 1928.

"Lá fora o luar continua
e o trem divide o Brasil
como um meridiano."

(Oswald de Andrade)


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COMUNHÃO


Resta-me o vôo infinito
no limite esquecido do tempo...
Toda realidade me parece
comum...unitária...
Como se repartíssemos
o mesmo pão
o mesmo chão
e a mesma marca
de esperança no rosto...

Minha inquietação é luz!

Genny Xavier


"Antropofagia" - Tarsila do Amaral, 1929.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011


NOSSOS DIAS

Entre a palavra e o gesto
nem sempre a boca pensa
nem sempre a intenção é boa

nem sempre o coração ressoa.


Entre o que se diz e o que se faz

nem sempre a verdade é honesta

nem sempre a justiça é feita

nem sempre se ama ou se odeia.

Quando o riso
sentencia a ironia.
Quando a gentileza
esconde a bajulação.
Quando a piada
camufla o veneno.

Quando o espetáculo

mascara o vazio.
Quando a fama

evidencia a solidão.

Quando o amor

justifica o crime.
Quando a vida

imita a comédia...

...Fundo fundo poço fundo!

Se o amor fosse profundo

seria uma rima

não seria manchete na web.



Genny Xavier


quinta-feira, 28 de julho de 2011

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.” Léon Tolstoi

Itabuna, Bahia.
Foto: Tiago da Silva Pereira
Trabalho premiado no Concurso "Os Olhares da Cidade" (FICC, 2010)

Eu sempre penso no que há para além do rio da minha aldeia...


Itabuna, Bahia.
Foto: Tiago da Silva Pereira
Trabalho premiado no Concurso "Os Olhares da Cidade" (FICC, 2010)


O ANIVERSÁRIO DA CIDADE

Para Itabuna, por seus 101 anos

A cidade é marca indelével

cravada num peito aberto.

Expressa, na dureza dos anos

e na fragilidade dos dias,
a erosão inevitável
do tempo
que move as pedras pretas

ao sabor das águas turvas do rio.


A cidade comove os homens,

na sua falta de riso e paisagem,

em sua ausência de sentido e arte,

em sua dor de mácula e fome.
E se recente do tapa que fere o povo
e se debate na água suja que afoga os reis

e se contorce na tortura explícita que aniquila os sábios.

A cidade tão minha de paixão,

tão nossa de ilusão,

resiste aos dias ensimesmados

e toma o sol das manhãs,

a chuva das tardes

e as estrelas das noites

no aniversário dos
anos.


Genny Xavier


Itabuna, Bahia.
Foto: Tiago da Silva Pereira
Trabalho premiado no Concurso "Os Olhares da Cidade" (FICC, 2010)

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Homenagem ao aniversário de emancipação política de Itabuna, Bahia, em 28 de julho do 2011.

domingo, 26 de junho de 2011

"Noite estrelada", de Van Gogh


INQUIETAÇÃO


Os olhos rastreiam estranhas imagens
e são densas as paisagens
que circundam o corpo
surpreendido pela o avesso da visão.
Estão suaves os escuros dentro de mim
e são femininas as minhas estranhezas
como as misteriosas sensações.
Brilhantes luzes vagueiam
sobre um negro pano de fundo.
Os toques tocam as possibilidades
e, diante de mim,
trazem a impressão das estrelas.

Eu sou agora a pura inquietação,
noturna e morna voragem,
sopro de brisa que em mim
provoca leves rubores...
Eu sou o eco das minhas vontades,
feito as águas do rio e suas profundezas.

Genny Xavier


"Noite estrelada sobre o Ródano", de Van Gogh

segunda-feira, 23 de maio de 2011

HISTÓRIAS CURTAS(2)


LETREIROS

“Eu te vejo sair por aí/ Te avisei que a cidade era um vão/ Dá tua mão/ Olha pra mim/ Não faz assim/ Não vai lá não// Os letreiros a te colorir/ Embaraçam a minha visão/ Eu te vi suspirar de aflição/ E sair da sessão, frouxa de rir// Já te vejo brincando, gostando de ser/ Tua sombra a se multiplicar/ Nos teus olhos também posso ver/ As vitrines te vendo passar// Na galeria, cada clarão/ É como um dia depois de outro dia/ Abrindo um salão/ Passas em exposição/ Passas sem ver teu vigia/ Catando a poesia/ Que entornas no chão.”
(Letra da canção “Vitrines”, de Chico Buarque)

Meus olhos atentos sempre percorrem a cidade dos meus dias. Eu capturo imagens e cenas para transformá-las em palavras narradas no corpo do meu programa diário de rádio FM. Mas há algo além desse objetivo artístico ou além do que aparentemente importa do enfoque da notícia. Meu olhar possui o impulso voyeur e meus passos a disposição da busca do flaneur que perambula pelas ruas com sua secreta percepção da realidade através do seu factual ou incidental cotidiano.

Durante um mesmo dia de cada semana dos meses do ano eu chego pontualmente no meu horário e sento na cadeira da cabine da emissora. Coloco os óculos e retiro da pasta o texto escrito com as impressões da semana. Depois do ritualístico gole de água dou o sinal para a entrada da canção do Chico, “As Vitrines”, na abertura do meu programa “Letreiros”. Durante quarenta minutos eu narro meus devaneios urbanos. Diante dos meus papéis escritos eu retrocedo a memória dos passos pelos cantos da cidade, experimentando suas horas do dia ou da noite, entregando-me, sem resistência, às impressões da minha alma que bordeja avenidas e ruas, bares e lanchonetes, ônibus lotados de pessoas especialmente comuns, viventes da grandeza de suas vidas cotidianas.

Os ocorridos, fatos triviais ou inusitados que constroem os dias da cidade, que estão na mira da minha observação, ora casual, ora invasiva, são matérias dos meus temas. Eu devoro e rumino estes temas, todos que dizem da indiferente pressa das ruas ou de suas surpreendentes solidariedades; que dizem do ladrar dos cães vagabundos ou do silêncio dos que dormem nas ruas e, ainda, que dizem dos letreiros que infestam o centro com suas letras desenhadas em placas coloridas ou em luz neon, quando cai a noite.

Além da gente diversa que circula pelas ruas, que reza nas igrejas, que se alimenta nas lanchonetes e nos restaurantes de esquinas, que descansa preguiçosamente nos bancos das praças, embalando conversas cotidianas com o outro sentado ao lado, que caminham nas várias direções em busca dos seus afazeres, além de tudo isso, há algo mais que personaliza uma cidade, especialmente esta que é a minha. Toda paisagem urbana é própria e única quando observada com a atenção merecida. Percebe-se seus detalhes, o que é velho e novo, suas idiossincrasias arquitetônicas e os cheiros peculiares de cada avenida, de cada rua de flor ou lixo, de calmaria ou turbulência.

Quando eu ando pela cidade, na busca dos temas urbanos que apresento aos meus ouvintes, é possível traçar a geometria no mapa de lugares, você vê ladeiras, canais, becos, avenidas, edifícios, casas, telhados, concretos, asfaltos; você não tem idéia do que chamará sua atenção, do que vai lhe surpreender, mas há um impulso para seguir, observar, sentir.

Por isso digo tudo sempre tão abertamente aos que me ouvem, sobre os detalhes, dos mais belos, banais e inusitados aos mais estúpidos ou revoltantes, detalhes sobre os ônibus, sobre os mendigos, sobre os números escritos no alto das fachadas das casas quase em ruínas ou que já puseram o iluminado neon das modernas reformas. Às vezes é triste perceber que a história da cidade se perde em meio às suas modernas mudanças, como as fachadas das casas antigas que sempre me atraíram e que, aos poucos, foram sendo demolidas, cedendo lugar para os prédios comerciais ou residenciais.

Outro dia, enquanto andava pela rua, percebi um grupo de rapazes parados em frente a um prédio velho de uns seis andares observando uns artistas que evoluíam performances de teatro de rua, acrobacias e malabares. Havia uma pressa imensa das pessoas que não percebiam a simples beleza artística daquela apresentação. Elas passavam ao largo sem enxergar, iam empurrando pra frente o tempo, sem que se pudesse perder nenhum minuto por mais precioso que fosse. Moços e velhos, homens e mulheres, todos com pressa, sentindo a urgência da vida. Mas aqueles rapazes olhavam como se percebessem, pareciam ter sido tocados pelo instante de relaxamento. Aquilo me deixou feliz, como se ainda houvesse uma esperança de conexão humana na frieza da cidade. Então segui em frente levando o resquício daquele breve contentamento. No ponto de ônibus as pessoas aguardavam e eu fui ter com elas naquela espera cotidiana. O meu ônibus chegou depois da passagem do caminhão da prefeitura raspando o chão. Subi, esperei na fila caótica e apertada até chegar à roleta de passagem. Ainda consegui um lugar onde sentei junto da janela feito um saco de batatas jogado ou parecendo um cachorro cansado. Descemos lentos, circulando a praça e subindo a ladeira comprida rumo ao grande centro.

Ainda ontem, quando já voltava das minhas andanças ao final da tarde de sol parei a espiar a vitrine de uma papelaria. Havia muitas novidades além daquelas que se vendem em papelarias. Havia, por exemplo, umas miniaturas em resina com reproduções de monumentos famosos, daquelas com ligações elétricas que vão mudando de cor. Estava lá a Torre Eiffel, de Pizza, a Estátua da Liberdade, o Cristo Redentor, o Elevador Lacerda. Enquanto eu olhava ia pensando nos estranhos gostos dos cidadãos urbanos, nas quinquilharias absurdamente inúteis que as cidades acumulam para o fascínio consumista de suas gentes. Alguém passou por mim e também ficou olhando, talvez atraído pelo meu interesse na tal vitrine. Olhei para a desconhecida com um conformado sorriso e um gesto sutil de saudação. Segui meu rumo. Adiante, uma loja de roupas estava lotada, resultado da liquidação de final de estação. Aliás, parecem mais frios esses finais de tarde tão próximos do inverno.

Assim, nestas experiências dos dias eu recolho os conteúdos de cada emissão do meu “Letreiros” para expor esta cidade que a cada dia morre do jeito que foi para tornar-se outra no amanhã de logo mais. Há nisso tudo, nos meus sentimentos que também exponho aos meus ouvintes, um sentido maniqueísta, como quem se divide melancolicamente entre ter saudade das reminiscências de ontem e ter nas mãos as perspectivas inusitadas do amanhã.

Depois desses meus devaneios pensantes, meu colega na sonoplastia dá o toque. É a minha hora de dizer: “Boa noite, meus queridos ouvintes. No ar o programa que espia os dias e colhe o ar da cidade...Letreiros...dos meus olhos para os seus ouvidos”.

Genny Xavier

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Cenas urbanas...Cenas urbanas...Cenas urbanas...

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quinta-feira, 21 de abril de 2011


IMAGEM AO VENTO


Simultânea razão
promove os limites

que dimensionam

o simples olhar

que olha as coisas...


Olhar é também

enviesar o revés
e reter para sempre
nas retinas embriagadas

a imagem contida na visão
e tomada pela fluídica
emoção captada...

Pena que a imagem
as vezes corre ao vento

e deixa a impressão
gravada no olhar
que espia o tempo

e memoriza a beleza azul
dos dias ensolarados...

Genny Xavier


quinta-feira, 31 de março de 2011

Pintura de Alberto Sughi


ALQUIMIA DA DOR

A poesia desprende-se do limbo
e a solidão, amiga das horas,
provoca inquietações em mim,
causa-me a expectativa do verso
em melancólicas palavras invernais.


Não traduzo a voz do meu coração,

pulsante de emoções que agora anseio...

Onde está o amor que ronda a porta?
Na dor escondida do olhar rasante?
Na face oculta do beijo errante?

Tenho, enfim, as mãos vazias
e os olhos em dilúvio...

A poesia unge meu corpo,

bálsamo que repara a chaga
elixir que salva a alma.


Genny Xavier


Pintura de Alberto Sughi

domingo, 20 de março de 2011


PERCEPÇÃO


Máxima

é a existência pulsando
nas veias abertas
deste febril instante
de coisas últimas,
aproveitadas...

Máximo
é o momento
o correr dos cavalos,
o orvalho,
o amor das abelhas,
a lógica infantil...

Máxima
é a vida que se aprende:
degustar a primeira fruta do Éden,
sorver o último gole da seiva,
dançar exaustivamente
e ter nas mãos a decisão de sorrir,
de chorar,
de cerrar os dentes, até...

Máximo
é o trovão,
a tempestade dentro da gente,
o tempo que não se esgota,
a respiração, o sopro,
a paixão insensata, também...

Máximo
é o mundo,
o globo azul ameaçado
à espera da plenitute, apesar de tudo...
Recomeço,
eterno reinício depois do caos...

Genny Xavier