quinta-feira, 21 de abril de 2011


IMAGEM AO VENTO


Simultânea razão
promove os limites

que dimensionam

o simples olhar

que olha as coisas...


Olhar é também

enviesar o revés
e reter para sempre
nas retinas embriagadas

a imagem contida na visão
e tomada pela fluídica
emoção captada...

Pena que a imagem
as vezes corre ao vento

e deixa a impressão
gravada no olhar
que espia o tempo

e memoriza a beleza azul
dos dias ensolarados...

Genny Xavier


quinta-feira, 31 de março de 2011

Pintura de Alberto Sughi


ALQUIMIA DA DOR

A poesia desprende-se do limbo
e a solidão, amiga das horas,
provoca inquietações em mim,
causa-me a expectativa do verso
em melancólicas palavras invernais.


Não traduzo a voz do meu coração,

pulsante de emoções que agora anseio...

Onde está o amor que ronda a porta?
Na dor escondida do olhar rasante?
Na face oculta do beijo errante?

Tenho, enfim, as mãos vazias
e os olhos em dilúvio...

A poesia unge meu corpo,

bálsamo que repara a chaga
elixir que salva a alma.


Genny Xavier


Pintura de Alberto Sughi

domingo, 20 de março de 2011


PERCEPÇÃO


Máxima

é a existência pulsando
nas veias abertas
deste febril instante
de coisas últimas,
aproveitadas...

Máximo
é o momento
o correr dos cavalos,
o orvalho,
o amor das abelhas,
a lógica infantil...

Máxima
é a vida que se aprende:
degustar a primeira fruta do Éden,
sorver o último gole da seiva,
dançar exaustivamente
e ter nas mãos a decisão de sorrir,
de chorar,
de cerrar os dentes, até...

Máximo
é o trovão,
a tempestade dentro da gente,
o tempo que não se esgota,
a respiração, o sopro,
a paixão insensata, também...

Máximo
é o mundo,
o globo azul ameaçado
à espera da plenitute, apesar de tudo...
Recomeço,
eterno reinício depois do caos...

Genny Xavier

terça-feira, 8 de março de 2011

Montagem com detalhes das pinturas Lilith de John Collier
e Adão e Eva de Albrecht Dürer


FEMININA

Flores

púrpuras
e javanesas...
Cores e tons que traduzem cheiros
sinestésicas sensações.

Anas
Marias
e Marianas...
Fenininos matizes
em tons sobre tons.

Ofuscantes constelações.
Mulheres que traduzem cores
em tradução de espíritos
estados
e ambiguidades.

Ah! Etéreo em mim esse infinito de mulher!
Dissimulada precisão
de sutilmente dissimular.
Anjo e demônio...
As vezes: uma Eva.
Outras vezes: uma Lilith.
Então, corpóreo ser,
estás em todos os dons
todos os sons
todos os tons...

Genny Xavier

______________________________________

Para além da saudade...

Uma mulher nascida em 08 de março...Repleta de luz e generosidade



SONOLÊNCIA

Para Maria, minha mãe

Hoje
a nostalgia
brinca de infância
comigo...

nós duas juntas
de mãos dadas
pelo tempo...
Canta, mãe
a tua canção de ninar!

Genny Xavier

terça-feira, 1 de março de 2011

Baltasar Lopes, Jorge Barosa e Manuel Lopes
Movimento Claridade - Cabo Verde - 1936


CLARIDADE ALÉM MAR - VOZES DE CABO VERDE


Genny Xavier


Nunca parti deste cais

e tenho o mundo na mão!

Para mim nunca é demais

responder sim

cinquenta vezes a cada não.

Por cada barco que me negou

cinquenta partem por mim

e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!

Mundo pequeno pa

(“Cais”. Manuel Lopes)

Das literaturas africanas de expressão portuguesa, a literatura cabo-verdiana revelou-se de maneira especial dentre os outros espaços coloniais portugueses. Esta especialidade nos é revelada pelo traço de uma literatura que se formou a partir de métodos próprios, como registra a notável expressividade de muitos escritores da modernidade cabo-verdiana, dentre eles, os claridosos Jorge Barbosa e Manoel Lopes.

A revista “Claridade”, publicada na cidade de Mindelo (São Vicente - Cabo Verde) em 1936, dirigida pelo poeta Manuel Lopes, era a extensão dos propósitos e da estrutura do pensamento que fez a revolução moderna de 1922 no Brasil. Tal revista inaugurou a modernidade na literatura de Cabo Verde. Mais dois poetas e escritores foram também seus fundadores: Jorge Barbosa e Baltazar Lopes.

Jorge Barbosa lançou-se no mundo literário em 1935, um ano antes da eclosão do Movimento Claridade. Publicou primeiramente o livro de poemas “Arquipélago”, obra aclamada como modernista, onde o autor apresenta poemas como “O Panfletário”, que nos remete para uma visão social e sofrida do universo que o rodeia: “Era para eu/ ser panfletário/ não fui./ O magnífico e herói destino/ que eu imaginava tão liricamente ser meu/ venceram-no afinal a prudência/ o terror/ a família/ venceu-o este meu outro real/ e melancólico destino burocrático.” (Matos, Gramiro. p. 357). Publicou também obras como “Ambiente” (1941) e “Caderno de um ilhéu” (1956).

Em seu processo criativo, Jorge Barbosa revela um projeto de caráter épico, numa abordagem da questão histórica cabo-verdiana, marcado pela apreensão regional e climática, que expõe o problema das grandes estiagens, da fome e da emigração: “Ai o drama da chuva,/ ai o desalento,/ o tormento da estiagem!/ - ai a voragem da fome levando vidas!/ (...a tristeza das sementeiras perdidas...)/ ai o drama da chuva! (Matos, Gramiro. p. 357). Seus poemas estão impregnados pelo fascínio do Atlântico, do mar imenso misterioso e atrativo que alude a um sentimento de liberdade, do homem que se divide entre o desejo de permanência e o desejo de partida: “Este convite de toda hora/ que o mar nos faz para a evasão/ este desespero de querer partir e ter que ficar.” (Andrade, Mário de. p. 22).

Jorge Barbosa era o poeta que se dizia simples, naturalmente, sem pretensões, irmanado ao destino de suas ilhas, vivendo as longas noites enluaradas do seu pacato viver. Em sua produção poética travou um duelo entre o real e o imaginário, refletindo um eu-lírico em busca das raízes do seu povo, das suas expressões religiosas ou da compreensão do presente, do futuro, da morte, sempre com os olhos voltados para uma África in além mar: “Ai o mar/ que nos dilata sonhos e nos sufoca desejos!/ (...) ai o cântico estranho/ do Atlântico,/ que se não calem em nós!/ Talvez um dia/ inesperado remoinho de águas/ passe borbulhante,/ envolvente,/ alguma onda mais alta se levante.../ Talvez um dia.../ Quem sabe!.../ Depois/ nas sendas dos tempos/ continuará/ a marcha dos séculos/ ...E outra lenda virá...” (Andrade, Mário de. p. 20).

Manuel Lopes, como já foi dito, também pertencente ao Movimento Claridade, apresenta um discurso poético povoado pela insatisfação do sonho, realizado entre a distância e o horizonte, formigando e inquietando, registrando o imaginário nos impulsos interiores dos saltos para o mar, ao encontro de tudo, da liberdade e da realização real do ser, como se mostra o fragmento: “Partir sozinho, mar em fora;/ A ansiedade nos meus nervos/ - Como o vento nas velas pandas do navio - / Só e bravio,/ Bravio e só no meio de coisas estranhas,/ Familiar como as coisas estranhas.../ (...) Olharei depois estes montes um a um,/ esses coqueiros esguios, este céu azul e ardente/ que não promete chuva,/ as mesmas coisas que se repetem todos os dias./ Pensarei que me libertei de tudo/ porque um dia libertei-me dela.../ Que alguma coisa me chamou ao longe e fui seguindo o mundo/ Mar em fora, incerto e livre/ só e bravio,/ seguindo assim o meu rumo verdadeiro.” (Andrade, Mário de. p. 25).

A poesia de Manuel Lopes é diáspora, canta o destino, a amargura, as forças incontroláveis que lhe castravam os gestos, impossibilitando a viagem para outras terras: “Que teu irmão que ficou / sonhou coisas maiores ainda, / mais belas que aquelas que conhecestes.../ Crispou as mãos à beira do mar/ e teve saudades estranhas, de terras estranhas,/ com bosques, com rios, com outras montanhas/ - bosques de névoa, rios de prata, montanhas de oiro - / que nunca viram teus olhos/ no mundo que percorreste...” Contudo, a Terra-Mãe era enfática e o isolamento da ilha lhe causava o solilóquio interrogativo, a ansiedade que percorre grande parte da sua poesia, a metáfora expressa no apelo sem eco, como vemos: “Que disse a Esfinge/ aos homens mestiços da cara chupada?/ Esta encruzilhada/ de caminhos e de raças de caras chupadas/ onde vai ter?/ Porque virgens paragens se prolongam?/ Aonde vão nas suas andanças/ os mestiços de cara chupada?/ que significa para eles o amanhecer?

Na sua poesia também se inscrevia o regionalismo cabo-verdiano, à universalidade do humano e das forças cósmicas, que serviam para sublimar o destino dramático da sobrevivência. Daí, é que surgia o dilema de ter de partir, querendo ficar, terminando por ficar, contrariando a libertação evasionista atribuída a revista Claridade. Essa evasão poética, não contém em si o sentido estritamente aventureiro, resultado de uma insatisfação e de mudanças para com sua terra. São as imagens de uma poesia que vem das suas ilhas e, cercadas , precisam de expansão pelo arquipélago, não se tratando da aventura pela aventura, mas da necessidade imperativa expansionista. Trata-se da inquietação insular e comum a todas as ilhas (malaise) e o convívio à distância.

Na verdade, a obra de Manuel Lopes, nasce da realidade cabo-verdiana, profundamente desagregada em tempos de fome e estiagem. Chega-se a lamentar que sua obra faltasse uma perspectiva aberta ao futuro, centralizada na realidade massificante do colonizado. Mas isso não lhe tira a qualidade estética, nem o seu modo narrativo que é expressionista e futurista, advindo dos movimentos modernistas de Portugal e Brasil. Por trás da obra deste poeta, há um pano de fundo trágico, que avassala o homem cabo-verdiano em sua dramática luta contra aquilo que parece ser uma fatalidade trazida pelo anjo da adversidade cósmica. Ele canta o apelo constante que o cabo-verdiano lança a si próprio para não contrariar as forças da natureza, o apelo que a Terra-Mãe exerce sobre o homem das ilhas. Neste contexto, Manuel Lopes soube, como poucos, expressar esta realidade: “... E se um dia eu voltar, desiludido e acabrunhado talvez,/ Desprezado pelo Mundo, rico de Mundo (...)/ Se eu voltar a pisar onde pisam teus pés,/ Nos teus ombros que esperaram longo tempo poisarei a cabeça dormente (...)”. (Andrade, Mário. p. 26)

Manuel Lopes é conhecedor profundo da alma do seu povo, das ilhas do norte e das ilhas do sul. Sensível aos requebros da fala popular crioula. Esse escritor transpôs para os seus textos figuras e situações cheias de realismo. Adotou uma postura literária interventora, mas serena, não cedendo à facilidade do social. Manuel Lopes, em detrimento de outros poetas, preferiu o realismo.

Eis, portanto, o chamamento do cabo-verdiano à sua Terra: pés plantados ao solo, e os olhos voltados para o mar. O convite para sonhar com a partida pode estar na metáfora segura de uma nova terra, pois o sol e a chuva, unir-se-ão para fecundar a terra dorida de Cabo Verde, cicatrizando-lhe as feridas abertas pela partida de cada um dos seus filhos que a ela regressarão prodigamente. Jorge Barbosa e Manuel Lopes aí estarão para nos cantar claridosamente esse regresso da forma cabo-verdiana como eles tão realisticamente souberam fazer em suas obras.

_____________________________________________

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

MATOS, Gramiro. Influências da Literatura Brasileira nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Salvador, EGBA, 1996.

ANDRADE, Mário de. Antologia Temática de Poesia Africana. I - Na Noite Grávida dos Punhais. Lisboa, Sá da Costa Editora, 1975.

Recortes de Jornais


CASÉRIA ÉVORA - África Nossa (Cabo Verde)

domingo, 20 de fevereiro de 2011


INDAGAÇÕES EM NOITE ENLUARADA

Vivemos a noção
preto-e-branco
das coisas que poderiam
crescer infinitamente.
Profundo prazer de vida.
Dúvidas?
Não sei de dúvidas,
não sei quase nada
e penso repensar tudo!
Quase tudo
de quase ótimo e belo.
Ah! Não tem besteira
nem tanto mistério...
Eu queria desaparecer da terra
e aparecer na lua...
Eu queria espiar o mundo
com os olhos de São Jorge!

Genny Xavier



segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Regresso dos dias soltos...
Retorno ao baú das palavras bem guardadas...

Os dias de férias são bons. Revitalizam em nós a tranquilidade das horas soltas ao vento. Põe-nos desleixados do tempo, sem as preocupações corrosivas do trabalho, das obrigações que nos amarram aos compromissos diários.
Os dias de férias nos faz aventureiros, andarilhos, donos dos nossos passos e das nossas vontades sem horários previstos...
Nos meus dias de férias eu tive a brisa e ocheiro do mar, luz e claridade, céu e estrelas intangíveis... tive o amanhecer e o ocaso, o caminhar e o descansar, o pensar, o sentir e o escrever...



ALMA ANDARILHA

O mistério inerente das coisas
paira sobre minhas idéias
que percorrem caminhos ambulantes
em rotas traçadas por ciganos.

Meu corpo é essa voragem de solidão
e minha alma passeia ao encontro
de velhos mundos
e longínquas terras...

Genny Xavier

__________________________________________

Imagens dos dias

Meus olhos de poeta queriam brincar de fotografia...


Japará/ litoral norte de Ilhéus-Ba (Férias - Jan/2011)

Japará/ litoral norte de Ilhéus-Ba (Férias - Jan/2011)

Japará/ litoral norte de Ilhéus-Ba (Férias - Jan/2011)

Japará/ litoral norte de Ilhéus-Ba (Férias - Jan/2011)

Japará/ litoral norte de Ilhéus-Ba (Férias - Jan/2011)

Japará/ litoral norte de Ilhéus-Ba (Férias - Jan/2011)

Japará/ litoral norte de Ilhéus-Ba (Férias - Jan/2011)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010


Aos amigos e aos que por aqui visitam este "Baú de Guardados" vindos pelas sintonias literárias e humanas que nos aproximam, meu desejo que a vida seja sempre plena de um "Natal" cotidiano dentro de nós e que todos os dias de 2011 sejam de luta e força.


quinta-feira, 25 de novembro de 2010


AMOR

O sentimento do poeta pulsa
pela madrugada insone,
apertado por mil imagens
que não se desgrudam da emoção.

Acumulam-se os registros:
A história na mão
e a visão admirável do tempo...
...tempos febris,
fatos medonhos,
homens obstinados.

A verticalidade da história
alimenta vorazmente
o cotidiano de uma humanidade
que acorda todo dia.

O poeta curva,
porque lhe dói músculos e entranhas
e os sentidos inquietos perduram noite à dentro...
...amor incansável,
sentimento de um mundo
que acorda todo dia.


Genny Xavier

Foto: Hugo Dias

sábado, 13 de novembro de 2010


A COR DA LÁGRIMA


A lágrima reflete

o prisma do arco-íris...

Toda dor é cristalina
transparência brilhante
de uma imagem refletida.
Hoje, o sorriso azul não chega em mim
e, mais uma vez, eu me debato
entre a luz colorida da lágrima escapulida
e o mar que desaba nas fendas da face muda...

Íris, arco-íris,
reflexo dos olhos molhados!

Então, descubro-me doende,
lúdica imagem,
a proteger o pote
cheinho de ouro...

Genny Xavier