quinta-feira, 25 de novembro de 2010


AMOR

O sentimento do poeta pulsa
pela madrugada insone,
apertado por mil imagens
que não se desgrudam da emoção.

Acumulam-se os registros:
A história na mão
e a visão admirável do tempo...
...tempos febris,
fatos medonhos,
homens obstinados.

A verticalidade da história
alimenta vorazmente
o cotidiano de uma humanidade
que acorda todo dia.

O poeta curva,
porque lhe dói músculos e entranhas
e os sentidos inquietos perduram noite à dentro...
...amor incansável,
sentimento de um mundo
que acorda todo dia.


Genny Xavier

Foto: Hugo Dias

sábado, 13 de novembro de 2010


A COR DA LÁGRIMA


A lágrima reflete

o prisma do arco-íris...

Toda dor é cristalina
transparência brilhante
de uma imagem refletida.
Hoje, o sorriso azul não chega em mim
e, mais uma vez, eu me debato
entre a luz colorida da lágrima escapulida
e o mar que desaba nas fendas da face muda...

Íris, arco-íris,
reflexo dos olhos molhados!

Então, descubro-me doende,
lúdica imagem,
a proteger o pote
cheinho de ouro...

Genny Xavier

quinta-feira, 4 de novembro de 2010


SINESTESIAS DE UM TEMPO INCERTO

Cheiramos máquinas nos jardins de agora.
Respiramos resíduos que nos contaminam a existência.
Tocamos em algo que o coração desconhece
mas espreita, inquieto, buscando o inusitado sinal
que a divindade ainda não pode nos dar.
Resistimos as tempestades que explodem,
como se trocássemos fusíveis na alma dessa emoção.
Estamos mais sós diante da máquina.
Percorremos o limite que supera nossos íntimos desconfortos.
Canibalismo existencial!
Somos, então, inperfeitamente deificados,
antropófagos, comedores das emoções nossas e de todos,
vampiros cibernéticos dissimulando homens
janelas abertas que sonham o mar e horizonte...

Genny Xavier


sábado, 25 de setembro de 2010

TEMPO


Stop!
A poesia deu um breque...

... e o poeta desarmou-se.
Susto e espanto,
tragicomédia cotidiana,
ilusão transcendente,
tesão sufocada.

Ah!
Patética inspiração...

Genny Xavier

sexta-feira, 3 de setembro de 2010


* Uma breve Biografia: A saga de um contador de histórias quase por ele mesmo...




JORGE AMADO, UM CRIADOR DE SERES, UM CONTADOR DE HISTÓRIAS, UM CONSTRUTOR DE MUNDOS

Genny Xavier


"Nasci empelicado, de bunda pra lua, uma estrela no peito, a sorte me acompanha, tenho corpo fechado à inveja, a intriga não me amarra os pés, sou imune ao mau olhado. A vida me deu mais do que pedi, mereci e desejei. Vivi ardentemente cada dia, cada hora, cada instante, fiz coisas que Deus duvida, conivente com o Diabo, compadre de Exu nas encruzilhadas dos ebôs. Briguei pela boa causa, a do homem e a da grandeza, a do pão e a da liberdade, bati-me contra os preconceitos, ousei as práticas condenadas, percorri os caminhos proibidos, fui o oposto, o vice-versa, o não, me consumi, chorei e ri, sofri, amei, me diverti. (...)"
(Jorge Amado, Navegação de Cabotagem)

Filho do Cel. João Amado de Faria e de D. Eulália Leal Amado, a 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, município de Itabuna, sul da Bahia - plagas que que ele mesmo chamou de terras do sem fim -, Jorge Amado viveu sua infância entre os cenários das fazendas de cacau, de onde, talvez, já tivesse extraído, da vida simples do povo, a substância original que povoaria o imaginário das histórias que mais tarde iria contar.

"Da coragem indômita nasceu a civilização grapiúna (os poetas, os ficcionistas, tantos), batida sobre o sangue derramado. Os coronéis do cacau, eu os aprendo, irão ser meus personagens nas histórias de espantar.(...)"
(Jorge Amado, Navegação de Cabotagem)

Mudou-se com a família para Ilhéus quando tinha um ano de idade, onde passou a infância e estudou os primeiros anos, desde então, passara a eternizar no coração aquela Ilhéus que mais tarde eternizaria em suas obras, radiografando seus costumes e tipos, suas aventuras e belezas.

"Eu aprendia os coronéis nas ruas de Ilhéus, os jagunços nas roças de cacau, cursava meus preparatórios antes de vir para as universidades dos becos e ladeiras da Bahia."
(Jorge Amado, Navegação de Cabotagem)

Em Salvador, já adolescente, estudou no Colégio Antônio Vieira e no Ginásio Ipiranga, onde ficaria até concluir o curso secundário. Os anos da juventude pelas ruas da cidade da Bahia deram ao Jorge Amado que conhecemos pela obra, o aprendizado popular, repleto de cheiros e gostos, temperos e delícias, crenças e costumes. Neste período de estudante, começou a trabalhar em jornais e a se envolver com os eventos culturais e literários da cidade. Foi um dos fundadores e participante ativo da Academia dos Rebeldes, fundada em 1928, sob os ecos da Semana de Arte Moderna (1922) e que, ao lado de outros grupos como os das revistas "Arco e Flecha" e "Samba", protagonizaram importante luta pela modernidade nas letras baianas.

"A Academia dos Rebeldes foi fundada na Bahia em 1928 com o objetivo de varrer toda a literatura do passado. (...) Não varremos da literatura os movimentos do passado, (...). Mas sem dúvida concorremos de forma decisiva (...) para afastar as letras baianas da retórica, da oratória balofa, da literatice, para dar-lhe conteúdo nacional e social na reescrita da língua falada pelos brasileiros. Fomos além do xingamento e da molecagem, sentímo-nos brasileiros e baianos, vivíamos com o povo em intimidade, com ele construímos, jovens e libérrimos, nas ruas pobres da Bahia."
(Jorge Amado, Navegação de Cabotagem)

No Rio de Janeiro, fez curso superior onde se tornou Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade Nacional de Direito. Diplomou-se em 1935, onde já havia publicado os romances "O País do Carnaval" (1931), "Cacau" (1933), "Suor" (1934) e "Jubiabá" (1935), entretanto, não haveria de exercer, ao longo da vida, a carreira jurídica.
Casou-se com a escritora Zélia Gattai em 1945, com quem viveu uma longa trajetória de companheirismo, aventuras e conquistas. Tiveram dois filhos: João Jorge, nascido no Rio de Janeiro em 1947, e Paloma, nascida em Praga (Tchecoslováquia), no ano de 1951, ocasião em que se encontrava exilado naquele país.

"Quando durante o Primeiro Congresso de Escritores Brasileiros, reunido em São Paulo nos inícios de 1945, me apaixonei por Zélia, comuniquei ao poeta Paulo Mendes de Almeida, meu amigo e amigo dela, apontando-a entre as muitas senhoras e moças que acorriam às sessões, umas poucas para acompanhar os debates, a maioria para namorar:
- Aquela ali vai ser minha mulher.
Paulo riu na minha cara.
- Aquela qual? Zélia? Jamais, não é mulher pra seu bico.
Não desisti, não tirei da cabeça, estava me roendo de paixão, fiz o que o diabo duvida, não deu outra, em julho Zélia veio morar comigo. Não vai durar seus meses, agouraram, dura até hoje."
(Jorge Amado, Navegação de Cabotagem)

Pela experiência artística e pela militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi eleito Deputado Federal, tomando posse na Câmara em Janeiro de 1946. Embora declarasse não ter muitas afinidades com as obrigações do mandato, posto ser avesso aos discursos e aos procedimentos parlamentares, foi responsável por leis que valorizaram e asseguraram à cultura, dentre estas, a emenda que garantiu a liberdade de crença religiosa no Brasil.
Em 1948, frente as turbulências políticas e a repressão aos movimentos de esquerda teve seu mandato cassado junto com outros companheiros de Parlamento. Neste mesmo ano foi para o exílio em Paris, onde ficaria até 1950. Depois em Praga, até 1952.

"(...) não nasci para parlamentar, sou refratário às tribunas e aos discursos, só amo fazer o que me dá alegria, o que me diverte. (...)"
(Jorge amado, Navegação de Cabotagem)

Ingressou na Academia Brasileira de Letras em abril de 1961 onde ocupou a Cadeira n° 23. Foi membro da Academia Letras da Bahia e membro correspondente da Academia de Ciências e Letras da República Democrática Alemã, da Academia de Ciências de Lisboa e da Academia Paulista de Letras.
Da sua profunda relação e identidade com os povos negros e com os movimentos contra o preconceito aos afro-descendentes, o amado Jorge, contador das histórias da miscigenada cidade de Salvador, ganhou o título de Obá do Axé do Opô Afonjá na Bahia.

"(...) o amor do povo imuniza contra a peçonha dos amargos. (...)"
(Jorge Amado, Navegação de Cabotagem)

Jorge Amado, o contador épico da saga do cacau nas terras do sem fim, o artífice de personagens inesquecíveis, o revolucionário planfetário dos subterrâneos da repressão, o lírico e o satírico da crônica de costumes do seu tempo, faleceu na Bahia, cidade de Salvador, em 06 de agosto de 2001. Faltavam, então, apenas qiatro dias onde completaria 89 anos. Deixou-nos mais que um legado de títulos e publicações, mas uma riqueza de universos culturais, contextualizados em fatos, tipos, ambientes e costumes que marcaram e marcam a identidade da região cacaueira , da Bahia e do Brasil.

"Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço por tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Menino grapiúna, cidadão da cidade pobre da Bahia, onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua, vivendo."
(Jorge Amado, Navegação de Cabotagem)

Referência Bibliográfica:

AMADO, Jorge. Navegação de Cabotagem. Rio de Janeiro: Record, 1992.


Edições de "Navegação de Cabotagem"

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Edições de "A Descoberta da América pelos turcos"


Itabuna de Jorge Amado


Cyro de Mattos

A recriação literária da civilização do cacau na Bahia tem seqüência em Jorge Amado com o pequeno romance A Descoberta da América pelos Turcos ou de como o árabe Jamil Bichara, desbravador de florestas, de visita à cidade de Itabuna para dar abasto ao corpo, ali lhe ofereceram fortuna e casamento ou ainda os esponsais de Adma. Neste romance publicado em 1994, Jorge Amado volta a apresentar as marcas inconfundíveis de sua arte: fluência na escrita, facilidade de fabular e gozo pela vida. Recorre ao riso para contar a saga de sírios e libaneses no Sul da Bahia quando tinha início o plantio das roças de cacau e a construção de casas em vilarejos e pequenas cidades.

Para Jorge Amado, a Descoberta da América, como afirmavam com orgulho os que descendiam dos descobridores, ou a Conquista como diziam os que descendiam dos índios exterminados, dos negros escravizados, não acontece 411 anos após a epopéia das caravelas de Colombo, mas no começo do século dezenove e com grande atraso. Foi protagonizada pelos turcos, “que não são turcos coisíssima nenhuma, são árabes de boa cepa.” Deu-se então a Descoberta ou a Conquista quando sírios e libaneses aportaram no eldorado do cacau, vindos das montanhas do Oriente médio em época até certo ponto recente.

Situações engraçadas predominam em A Descoberta da América pelos Turcos, romancinho armado com desventura e premonição de felicidade em seus episódios extraídos da vida real. Passagens com humor árabe acontecem na pequena cidade de Itabuna, agora aparecendo pela primeira vez com destaque no espaço da civilização cacaueira baiana, definido como um dos filões ricos da novelística amadiana. Com o seu comercinho novo, o burburinho na estação do trem, igreja e capela. Hotel dos Lordes, cabarés, botequins, pensões de prostituta, fuxicaria na política, desmando dos jagunços armados, tropas carregadas de cacau nas ruas. A recente cidade de Itabuna como um burgo de penetração exibe-se sem retoques e ilusionismo, marca sua presença num cenário divertido da vidinha movimentada e turbulenta.

O leitor desse livro de Jorge Amado vai conhecer situações urdidas por negócios e mistérios de cama, com sua ironia e trama no tecido da vida. Acompanhará o libanês Raduan Murad nas tentativas de encaminhar Adma para Jamil Bichara e Adib. Este um garçom de botequim, lanzudo feito um dromedário, esperto na cobrança e no troco, cujo defeito era ser jovem para a solteirona. Nesse ambiente de pioneirismo e aventura sobressai de novo o relato povoado daqueles personagens característicos de Jorge Amado, como Jamil Bichara, Raduan Murad, Ibrahim Jafet, Adib, a sultana Sálua e a prostituta Glorinha Cu de Ouro.

Com uma estrutura simples, A Descoberta da América pelos Turcos não representa algo de novo no conjunto da obra amadiana, mas não deixa de ser um fato marcante, dado que foi escrito por autor perto dos 82 anos, idade em que muitos já esgotaram suas compulsões e recolheram suas habilidades usadas na arte da criação literária.

Nos seis livros de ficção que abordam a civilização cacaueira baiana, percebe-se sem esforço que Jorge Amado é um escritor de linguagem despretensiosa em sua maneira fraternal de conceber o mundo. Fica nítido que para ele é mais importante o conteúdo, muitas vezes interligado com humor e trama, do que a palavra com a qual a vida é recriada. Intimo dos ficcionistas norte-americanos comprometidos com a realidade social do século vinte, romancistas russos de inspiração proletária, poetas populares, Jorge Amado enfatiza o regional dando vigor ao nosso nativismo, no sentido de que como ato de amor plantado na terra recria a vida, integra nossa gente, costumes, alma e história na cultura nacional.


Jorge Amado, Zelia Gattai e Cyro de Mattos no Bar Vezúvio, em Ilhéus/BA.


Peripécia de Jorge Amado


Cyro de Mattos

Eu te louvo pelos oprimidos
Nos subterrâneos da liberdade,
Teu pulso erguido com amor
Fale da seiva de servos,
Calo sem orvalho na trama
Do ouro vegetal com rifle na curva.
Teu verde galope indormido,
Na seara vermelha tua face
Carregando sede e fome,
O olho do sol crepitando
Céu de fogo na aurora,
Fósforo aceso no crepúsculo.
Teu riso leonino fendido
Com os capitães de areia,
Esse trauma de ladeiras
e ruas do mundo sem teto
Escondido na hora da ciranda.
Eu te louvo no peito lírico.
A garra de Teresa Batista,
Fome de Dona Flor, agreste Tieta,
Rosa de Gabriela, cravo de Nacib.
Quem te fez pastor da noite,
Vasco Moscoso, flor do povo,
Pedro Bala, amado guerreiro,
Boêmio, malandro, meretriz, violeiro,
Guardador de chaves africanas,
Verdade absoluta em Pedro Arcanjo,
Duas mortes de Quincas Berro D'água,
Gargalhada da Bahia ao infinito?
Ó meu capitão de longo curso
Tua cidade de mares e ventos
Amanhece repetida em foguetes,
De estrelas e atabaques anoitece,
Nos terreiros orixás estão descendo.

* Cyro de Mattos, nascido em Itabuna, é autor premiado no Brasil e exterior. Atualmente ocupa o cargo de presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania (FICC - Itabuna/BA.)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

HISTÓRIAS CURTAS (1)


OS ESCUROS OLHOS DA NOITE


“A cidade é uma cobra grande

de rabo comprido

e tem os olhos de fogo

e os dentes de vidro

e tem um barulho louco

dentro da barriga...

Essa cobra é a cidade.

Essa cobra mora numa selva

cinza de cimento

e seu veneno não tem remédio (...).”

(Trecho da música “A Cidade”, de Zenrique Guimarães)



Havia um risco enorme vagar os beirais das ruas desertas. Um peso de mil anos abatia a noite. Entretanto, vultos de homens escorregavam nas sombras e esgueiravam-se nos escuros das esquinas. Não havia escolha senão habitar o acaso da rua em cada ocaso do sol. Tivesse sorte, ainda respirasse até a réstia de lua morrer no céu azeviche. Cada romper da noite uma batalha travada e cada dia amanhecido uma sorte vencida.

Mas era nos beirais das ruas que se nutria o fio de vida vã, absurda, feita de fome e sede. A fome fartada dos restos de lixo disputado a ferro e fogo. A sede saciada nos goles de cachaça ordinária sorvida para suportar o frio do corpo e anestesiar a dor de pensar.

Por qualquer descuido viraria número na estatística do dia. Na rua só precisava adaptar-se visceralmente. Sobreviver dependia de engrossar o couro e nunca ser tomado pela surpresa.

Os olhos andavam cautelosos por cada beco percorrido. Quase perto estava o seu tesouro escondido e suas armas de combate. Mas o medo lhe gelava a espinha por imaginar se o rapa teria levado tudo na operação cidade limpa. Correu, quase trôpego, percorrendo os cantos das ruas, esfregando-se nos muros para chegar a fenda da parede do imóvel velho onde escondia suas tralhas. As mãos trêmulas apalparam o tesouro. Tudo estava ali diante do seu alívio, um quase delírio, um quase êxtase. Papelão, cobertor e água: armas para que se vença sede e frio, abandono e dor nas noites intermináveis das ruas.

No canto fétido do passeio, tendo a marquise como teto, talvez pudesse dormir para sonhar com a vida deixada na esquina do tempo. Os devaneios oníricos romperiam a crosta de sujeira do corpo, os pruridos das feridas provocadas pelas unhas imundas. Talvez sonhasse a música dos anjos transposta aos sons das sirenes das rondas policiais. Talvez sonhasse com o cheiro de pão caseiro, com sorrisos de filhos e mãos de mulher na sua pele. E sonhasse também como um novo amanhecer depois da noite de olhos escuros. Talvez ao rasgar o manto bordado de estrelas, o dia rompesse claro e azul.

E, então, veio o sono e o frio profundo do corpo e alma; e uma passagem lenta das horas escuras e uma distância infinita da manhã azul. Arrancou um suspiro das entranhas e um frêmito da pele. Aspirou os cheiros ácidos, ocres, voláteis e fechou os olhos como quem se entrega.


Sapatos lustrosos e saltos elegantes zuniam os passos no vai-e-vem do dia plúmbeo. As pessoas tinham pressa, vestidas com seus casacos de lã e linho corriam as calçadas imunes aos loucos que devaneavam e aos mendigos que acordavam; imunes aos que permaneciam estáticos e mudos diante do mundo que girava veloz rumo à próxima esquina. Tudo se repetia no cotidiano da cidade que já amanhecia tensa e neurótica, repleta de transeuntes cegos dos detalhes das vidas paralelas, cegos da percepção de uma realidade desconhecida, cegos para as ocorrências das batalhas travadas pelos habitantes das noites entrincheiradas.

Ao canto, a recolher seus trapos na lentidão do corpo, o homem já não lembrava de pensar nos sonhos, nem sabia se os havia tido na noite anterior. Agora era a vez de outro ritual, de uma parte do outro lado dos seus dias de 24 horas. Os andrajos não cobriam determinados rasgos por onde o frio entrava naquele dia cinza, de sol tímido e nuvens pesadas. Mas não lhe era surpresa aquele amanhecer, nem os tantos outros de sol ou frescor. Viver ao léu, emparelhando o tempo, era sua realidade fazia anos. Tudo continuaria na sua órbita, do amanhecer até o ocaso que logo lhe traria de volta os escuros olhos da noite...e o esgueirar dos muros das ruas, dos becos vadios, e o resgate das suas armas, e o recrudescer da vontade dos sonhos, e o sono engolindo tudo para além do acordar do dia. Exatamente dessa maneira tudo continuava assim fazia muito, pois era ali, nos beirais das ruas, que se nutria o fio de vida vã, absurda, feita de fome e sede.


Genny Xavier



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"Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."

(António Gedeão)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Da minha aldeia eu espio o mundo...

Itabuna ontem (década de 60). Vista panorâmica do centro urbano.
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com

Itabuna hoje. Vista panorâmica noturna do centro urbano

Foto: Geraldo Borges


MEU CHÃO DE ONTEM E HOJE


Meu mundo era pequeno

quando eu imaginava comer

os pedaços da casa de doce

da rua do museu.

Hoje, eu sei que a casa é de tijolo

e o museu não existe mais.

Havia o rio e as pedras desse rio

quaravam as roupas

de quem tinha muita roupa para vestir.

As lavadeiras,

- vestidas de panos simples -

faziam bolhas nas mãos

espumando o alvejar dos ricos.

Hoje, o rio abre e fecha a boca

com seu hálito ocre

querendo o ar limpo que já não tem...

e as lavadeiras se foram

dos meus sonhos de meninice.


No meu mundo pequeno,

cabia muita coisa de sonho e mágica

como as barbas brancas do Papai Noel

em meu caminho para o cinema

em filme de domingo.

Cabia poeta recitando versos

na praça libertária

dizendo ao mundo que as guerras

matavam meninos que sonhavam voar.

Cabia homem-carro

fazendo das pernas pneus velozes

zunindo delírios

e buzinando alegrias.

E, ainda cabia,

parque de frente pra igreja

quermesses de bolos e fé

algodão-doce e ladainhas.


Mas, nesse mundo grande de hoje

a cidade encolheu o saber,

mal-cheirou o rio

e lava suas roupas sujas na sabida máquina do tempo.

Tempo gasto em que as bruxas varrem ao vento

os ciscos das memórias dos anos de ouro.

Então, diferente do meu mundo de ontem,

este de hoje, tão grande e real,

sobra os espaços como numa caixa vazia,

espia a notícia do dia

e dita a ordem das coisas.



Genny Xavier
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Itabuna-Bahia. Praça Olinto Leone (ao fundo o antigo "Castelinho", propriedade do intendente Henrique Alves e a antiga Igreja Matriz, ambas as construções não existem mais.)
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com

Itabuna, 100 anos de história


Situada no sul da Bahia, a cidade de Itabuna possui uma população 219.266 hab. (IBGE/2009 ) numa área de 443,198 km². Seu nome origina-se dos termos em tupi ita (pedra) + una (preta), devido a abundância de pedras escuras nesta localidade.

O Arraial de Tabocas, como assim era chamado antes de sua emancipação, nasceu às margens do rio Cachoeira quando, nos idos de 1857, a região em processo de desbravamento, era utilizada como rota de passagem aos tropeiros que viajavam com suas tropas ao município de Vitória da Conquista.

A partir de 1867, através da chegada de migrantes sergipanos, o arraial começa sua fase de povoamento. Dentre os primeiros chegados, estavam o caboclo Manoel Constantino e o sertanista Félix Severino de Oliveira (conhecido por Félix Severino do Amor Divino). Posteriormente, vindo com a família de parentes do Félix Severino, chegaria o menino José Firmino Alves, aos 14 anos, que mais tarde viria a ser um dos principais nomes para a articulação da fundação do município de Itabuna.

É fato que o nascimento do arraial de Tabocas, hoje município de Itabuna, está diretamente relacionado com o crescimento da monocultura do cacau no sul da Bahia, intensificada a partir do final do século XIX. A vinda de sertanistas nordestinos, especialmente sergipanos em busca de melhores condições de vida para fugir da seca e da pobreza através da perspectiva de recebimento de terras devolutas e cultiváveis, facilitadas pelo governo, promove, ao longo dos anos seguintes, as razões para o eminente progresso do recém formado arraial de Tabocas e de toda a região do sul da Bahia.

Também atraídos pelas notícias do progresso da região outros grupos de chegados aqui vieram, como os imigrantes sírios e libaneses, ligados as atividades de comércio e mascatearia e algumas famílias de imigrantes alemães, poloneses, etc.

Cerca de trinta anos depois da formação de Tabocas e devido ao seu franco desenvolvimento, em 1897, o arraial solicitou ao governo estadual o pedido de emancipação política do município de Ilhéus, que foi negado. Em 1906, alguns deputados enviaram um projeto para elevação de Tabocas a categoria de vila. No mesmo ano o Governador José Marcelino de Souza assinava a lei de nº 692 desmembrando o município de Ilhéus da Vila de Tabocas. Em prosseguimento, coronéis e políticos da época, continuavam a luta pela elevação da vila para cidade. Assim, através da lei de nº 807, de 28 de julho de 1910, sancionada pelo então governador, João Ferreira de Araújo Pinho, a Vila de Tabocas se desligava da Comarca de Ilhéus, constituindo-se no município de Itabuna. Seu primeiro governante, denominado intendente, foi o engenheiro Olinto Batista Leone.

Em tempos atuais, Itabuna é pólo regional que se destaca por atividades comerciais, industriais e de serviços. Durante o auge do período de grande produção do cacau e devido a riqueza fértil de suas terras, próprias ao cultivo dessa rica cultura, tornou-se um importante centro econômico, chegando a ocupar lugar de destaque na produção cacaueira no país, exportando para países da Europa e para os EUA.

O colapso econômico regional, provocado pela crise do cacau causada pelo ataque da praga chamada vassoura-de-bruxa, na década de 80, provocou mudanças drásticas no cenário regional do sul da Bahia. Assim, impulsionada pelas buscas de novas alternativas econômicas o município de Itabuna se volta para as demandas de produção nas áreas do comércio, da indústria, da diversificação da agricultura e da educação universitária.

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Características Geográficas:


Fundação: 28 de julho de 1910

Unidade Federativa: Bahia

Mesorregião: Sul Baiano (IBGE/2008)

Microrregião: Ilhéus/Itabuna (IBGE/2008)

Limites: Governador Lomanto Júnior, Ibicaraí, Ilhéus, Itajuípe, Itapé e Jussari.

Área: 443, 198 km²

População: 219.266 hab. (IBGE/2009)

Densidade: 475,19 hab./km²

Clima: tropical úmido

Altitude: 54 m.

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Itabuna-Bahia. Praça José Bastos, 1941.
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com

Itabuna-Bahia. Av. do Cinquentenário. Data desconhecida.
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com

Itabuna-Ba. Rua Ruffo Galvão. Data desconhecida.
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com


Itabuna-Bahia. Ponte da Bairro da Conceição. Data desconhecida.
Fonte: www.itabuna-ba.com.br


sábado, 17 de julho de 2010

"Nas fendas do insignificante ele (o poeta) procura grãos de sol." (Manoel de Barros)


POEMA POR UM MOTIVO DE FLOR


Em sonho, estive querendo
sondar os olhos e as mãos
de quem me deu uma flor:

Dos olhos,
eu queria
um lago
de águas de placidez.

Das mãos,
eu queria as rotas
de lentas texturas a passear.

E da flor
- púrpura cor em broto -
eu queria o pulso de pulsar.

Mas, as horas passam
e marcam o tic-tac
que intermediam
assuntos confessáveis.

Os olhos, as mãos e a flor
são ritos sutis
que suavizam
palavras de densidades.

E, enfim,
há nesta noite
de surpresas inconfessáveis
uma fenda e uma réstia:

Da fenda,
eu espio uma imagem
e da réstia,
eu penso chegar mais perto...

Genny Xavier

segunda-feira, 21 de junho de 2010

"É urgente o Amor." (Eugênio de Andrade)

"Foi bonita a festa, pá
fiquei contente
'inda guardo renitente um velho cravo para mim.
Já murcharam sua festa, pá
mas, certamente
esqueceram uma semente nalgum canto de jardim.
(...)
("Tanto Mar". Trecho de música de Chico Buarque)
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SARAMAGO: Semente de cravo brotada nalgum canto de jardim...



"Não direi:
Que o silêncio me sufoca e me amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
pois que a língua que falo é de outra raça.
(...)
Só direi,
crispadamente recolhido e mudo,
que quem se cala quando me calei,
não poderá morrer sem dizer tudo."
(Fragmento de "Poema à boca fechada". José Saramago)


No dia 18 de junho, as 12:30 horas, o escritor José Saramago disse adeus ao mundo serenamente. Talvez, em seu último respiro terrestre, tenha lembrado da frase da sua avó Josefa: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não creio que ele, como homem filosoficamente ponderado, tivesse pensado na frase com alguma amargura, mas com o lirismo tocante de quem lamenta perder a beleza da vida e, especialmente, do amor...este amor humanista que lutou pelos injustiçados...este amor de escritor que se comprometeu com as palavras...este amor de homem que viveu com Pilar Del Rio...
Sobre a musa amada e companheira ele disse numa entrevista: "Se eu tivesse morrido ao 63 anos antes de lhe ter conhecido, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora"... ainda bem que aos 63 anos ele a conheceu, não fosse isso, todos nós estaríamos mais pobres de sua literatura produtiva e vigorosa bem antes de 2010...
Pois, neste meu adeus ao mestre, celebro o AMOR pelo qual lhe dedico um cravo-símbolo cuja liberdade professou...e um poema de amor pela mulher que consagrou...


POEMA DE AMOR

Um poema de amor,
requer um céu azul emprestado do universo
e estrelas do mar para se colar na folha em branco...

Um poema de amor,
necessita de leveza, pluma, pena e espuma
que as ondas do mar carregam no refluxo das marés...

Um poema de amor,
precisa do riso solto copiado do circo, do parque e da ciranda
que a infância traduz...

E, também,
carece de luz seja do sol ou da lua
para clarear os caminhos em que as pedras se olham...

E, ainda, de tanta vontade e sentidos,
um poema de amor precisa amar
para que se alcance o céu, a leveza, o riso e a luz...

E, assim, um poema de amor,
é mais que a pena em que se escreve no papel as letras,
é metalinguagem que o coração constrói e versifica...

Genny Xavier

José Saramago e Pilar Del Rio

sábado, 29 de maio de 2010



SEMÂNTICA


Além do fato explícito
estão todas as intenções prévias
contra o óbvio.

Nunca fabricar o verso
feito exercício.
Apenas canalizar sua hora
porque o instrumento poético
reside, a qualquer instante,
em nossos olhos
e dentro da gente.
Seu riso é a palavra:

Semântica do eterno conflito
entre o pensar e o dizer...

Genny Xavier