Stop!
A poesia deu um breque...
... e o poeta desarmou-se.
Susto e espanto,
tragicomédia cotidiana,
ilusão transcendente,
tesão sufocada.
Ah!
Patética inspiração...
"(...) Até parece que guardo/ num baú de passados/ uma antiga paixão/ (...) Até parece que guardo/ num baú de sentimentos/ uma viva afetação/ (...) Até parece que guardo/ num baú de resguardos/ resíduos de reputação/ (...) Até parece que guardo/ num baú de retratos/ a dose mais forte de minha ilusão." (Germano Xavier)
Edições de "Navegação de Cabotagem"
A recriação literária da civilização do cacau na Bahia tem seqüência
Para Jorge Amado, a Descoberta da América, como afirmavam com orgulho os que descendiam dos descobridores, ou a Conquista como diziam os que descendiam dos índios exterminados, dos negros escravizados, não acontece 411 anos após a epopéia das caravelas de Colombo, mas no começo do século dezenove e com grande atraso. Foi protagonizada pelos turcos, “que não são turcos coisíssima nenhuma, são árabes de boa cepa.” Deu-se então a Descoberta ou a Conquista quando sírios e libaneses aportaram no eldorado do cacau, vindos das montanhas do Oriente médio em época até certo ponto recente.
Situações engraçadas predominam em A Descoberta da América pelos Turcos, romancinho armado com desventura e premonição de felicidade em seus episódios extraídos da vida real. Passagens com humor árabe acontecem na pequena cidade de Itabuna, agora aparecendo pela primeira vez com destaque no espaço da civilização cacaueira baiana, definido como um dos filões ricos da novelística amadiana. Com o seu comercinho novo, o burburinho na estação do trem, igreja e capela. Hotel dos Lordes, cabarés, botequins, pensões de prostituta, fuxicaria na política, desmando dos jagunços armados, tropas carregadas de cacau nas ruas. A recente cidade de Itabuna como um burgo de penetração exibe-se sem retoques e ilusionismo, marca sua presença num cenário divertido da vidinha movimentada e turbulenta.
O leitor desse livro de Jorge Amado vai conhecer situações urdidas por negócios e mistérios de cama, com sua ironia e trama no tecido da vida. Acompanhará o libanês Raduan Murad nas tentativas de encaminhar Adma para Jamil Bichara e Adib. Este um garçom de botequim, lanzudo feito um dromedário, esperto na cobrança e no troco, cujo defeito era ser jovem para a solteirona. Nesse ambiente de pioneirismo e aventura sobressai de novo o relato povoado daqueles personagens característicos de Jorge Amado, como Jamil Bichara, Raduan Murad, Ibrahim Jafet, Adib, a sultana Sálua e a prostituta Glorinha Cu de Ouro.
Com uma estrutura simples, A Descoberta da América pelos Turcos não representa algo de novo no conjunto da obra amadiana, mas não deixa de ser um fato marcante, dado que foi escrito por autor perto dos 82 anos, idade em que muitos já esgotaram suas compulsões e recolheram suas habilidades usadas na arte da criação literária.
Nos seis livros de ficção que abordam a civilização cacaueira baiana, percebe-se sem esforço que Jorge Amado é um escritor de linguagem despretensiosa em sua maneira fraternal de conceber o mundo. Fica nítido que para ele é mais importante o conteúdo, muitas vezes interligado com humor e trama, do que a palavra com a qual a vida é recriada. Intimo dos ficcionistas norte-americanos comprometidos com a realidade social do século vinte, romancistas russos de inspiração proletária, poetas populares, Jorge Amado enfatiza o regional dando vigor ao nosso nativismo, no sentido de que como ato de amor plantado na terra recria a vida, integra nossa gente, costumes, alma e história na cultura nacional.
Jorge Amado, Zelia Gattai e Cyro de Mattos no Bar Vezúvio, em Ilhéus/BA.

OS ESCUROS OLHOS DA NOITE
“A cidade é uma cobra grande
de rabo comprido
e tem os olhos de fogo
e os dentes de vidro
e tem um barulho louco
dentro da barriga...
Essa cobra é a cidade.
Essa cobra mora numa selva
cinza de cimento
e seu veneno não tem remédio (...).”
(Trecho da música “A Cidade”, de Zenrique Guimarães)
Havia um risco enorme vagar os beirais das ruas desertas. Um peso de mil anos abatia a noite. Entretanto, vultos de homens escorregavam nas sombras e esgueiravam-se nos escuros das esquinas. Não havia escolha senão habitar o acaso da rua em cada ocaso do sol. Tivesse sorte, ainda respirasse até a réstia de lua morrer no céu azeviche. Cada romper da noite uma batalha travada e cada dia amanhecido uma sorte vencida.
Mas era nos beirais das ruas que se nutria o fio de vida vã, absurda, feita de fome e sede. A fome fartada dos restos de lixo disputado a ferro e fogo. A sede saciada nos goles de cachaça ordinária sorvida para suportar o frio do corpo e anestesiar a dor de pensar.
Por qualquer descuido viraria número na estatística do dia. Na rua só precisava adaptar-se visceralmente. Sobreviver dependia de engrossar o couro e nunca ser tomado pela surpresa.
Os olhos andavam cautelosos por cada beco percorrido. Quase perto estava o seu tesouro escondido e suas armas de combate. Mas o medo lhe gelava a espinha por imaginar se o rapa teria levado tudo na operação cidade limpa. Correu, quase trôpego, percorrendo os cantos das ruas, esfregando-se nos muros para chegar a fenda da parede do imóvel velho onde escondia suas tralhas. As mãos trêmulas apalparam o tesouro. Tudo estava ali diante do seu alívio, um quase delírio, um quase êxtase. Papelão, cobertor e água: armas para que se vença sede e frio, abandono e dor nas noites intermináveis das ruas.
No canto fétido do passeio, tendo a marquise como teto, talvez pudesse dormir para sonhar com a vida deixada na esquina do tempo. Os devaneios oníricos romperiam a crosta de sujeira do corpo, os pruridos das feridas provocadas pelas unhas imundas. Talvez sonhasse a música dos anjos transposta aos sons das sirenes das rondas policiais. Talvez sonhasse com o cheiro de pão caseiro, com sorrisos de filhos e mãos de mulher na sua pele. E sonhasse também como um novo amanhecer depois da noite de olhos escuros. Talvez ao rasgar o manto bordado de estrelas, o dia rompesse claro e azul.
E, então, veio o sono e o frio profundo do corpo e alma; e uma passagem lenta das horas escuras e uma distância infinita da manhã azul. Arrancou um suspiro das entranhas e um frêmito da pele. Aspirou os cheiros ácidos, ocres, voláteis e fechou os olhos como quem se entrega.
Sapatos lustrosos e saltos elegantes zuniam os passos no vai-e-vem do dia plúmbeo. As pessoas tinham pressa, vestidas com seus casacos de lã e linho corriam as calçadas imunes aos loucos que devaneavam e aos mendigos que acordavam; imunes aos que permaneciam estáticos e mudos diante do mundo que girava veloz rumo à próxima esquina. Tudo se repetia no cotidiano da cidade que já amanhecia tensa e neurótica, repleta de transeuntes cegos dos detalhes das vidas paralelas, cegos da percepção de uma realidade desconhecida, cegos para as ocorrências das batalhas travadas pelos habitantes das noites entrincheiradas.
Ao canto, a recolher seus trapos na lentidão do corpo, o homem já não lembrava de pensar nos sonhos, nem sabia se os havia tido na noite anterior. Agora era a vez de outro ritual, de uma parte do outro lado dos seus dias de 24 horas. Os andrajos não cobriam determinados rasgos por onde o frio entrava naquele dia cinza, de sol tímido e nuvens pesadas. Mas não lhe era surpresa aquele amanhecer, nem os tantos outros de sol ou frescor. Viver ao léu, emparelhando o tempo, era sua realidade fazia anos. Tudo continuaria na sua órbita, do amanhecer até o ocaso que logo lhe traria de volta os escuros olhos da noite...e o esgueirar dos muros das ruas, dos becos vadios, e o resgate das suas armas, e o recrudescer da vontade dos sonhos, e o sono engolindo tudo para além do acordar do dia. Exatamente dessa maneira tudo continuava assim fazia muito, pois era ali, nos beirais das ruas, que se nutria o fio de vida vã, absurda, feita de fome e sede.
Itabuna ontem (década de 60). Vista panorâmica do centro urbano.

Itabuna hoje. Vista panorâmica noturna do centro urbano
Foto: Geraldo Borges
MEU CHÃO DE ONTEM E HOJE
Meu mundo era pequeno
quando eu imaginava comer
os pedaços da casa de doce
da rua do museu.
Hoje, eu sei que a casa é de tijolo
e o museu não existe mais.
Havia o rio e as pedras desse rio
quaravam as roupas
de quem tinha muita roupa para vestir.
As lavadeiras,
- vestidas de panos simples -
faziam bolhas nas mãos
espumando o alvejar dos ricos.
Hoje, o rio abre e fecha a boca
com seu hálito ocre
querendo o ar limpo que já não tem...
e as lavadeiras se foram
dos meus sonhos de meninice.
No meu mundo pequeno,
cabia muita coisa de sonho e mágica
como as barbas brancas do Papai Noel
em meu caminho para o cinema
em filme de domingo.
Cabia poeta recitando versos
na praça libertária
dizendo ao mundo que as guerras
matavam meninos que sonhavam voar.
Cabia homem-carro
fazendo das pernas pneus velozes
zunindo delírios
e buzinando alegrias.
E, ainda cabia,
parque de frente pra igreja
quermesses de bolos e fé
algodão-doce e ladainhas.
Mas, nesse mundo grande de hoje
a cidade encolheu o saber,
mal-cheirou o rio
e lava suas roupas sujas na sabida máquina do tempo.
Tempo gasto em que as bruxas varrem ao vento
os ciscos das memórias dos anos de ouro.
Então, diferente do meu mundo de ontem,
este de hoje, tão grande e real,
sobra os espaços como numa caixa vazia,
espia a notícia do dia
e dita a ordem das coisas.
Itabuna-Bahia. Praça Olinto Leone (ao fundo o antigo "Castelinho", propriedade do intendente Henrique Alves e a antiga Igreja Matriz, ambas as construções não existem mais.)
O Arraial de Tabocas, como assim era chamado antes de sua emancipação, nasceu às margens do rio Cachoeira quando, nos idos de
A partir de 1867, através da chegada de migrantes sergipanos, o arraial começa sua fase de povoamento. Dentre os primeiros chegados, estavam o caboclo Manoel Constantino e o sertanista Félix Severino de Oliveira (conhecido por Félix Severino do Amor Divino). Posteriormente, vindo com a família de parentes do Félix Severino, chegaria o menino José Firmino Alves, aos 14 anos, que mais tarde viria a ser um dos principais nomes para a articulação da fundação do município de Itabuna.
É fato que o nascimento do arraial de Tabocas, hoje município de Itabuna, está diretamente relacionado com o crescimento da monocultura do cacau no sul da Bahia, intensificada a partir do final do século XIX. A vinda de sertanistas nordestinos, especialmente sergipanos em busca de melhores condições de vida para fugir da seca e da pobreza através da perspectiva de recebimento de terras devolutas e cultiváveis, facilitadas pelo governo, promove, ao longo dos anos seguintes, as razões para o eminente progresso do recém formado arraial de Tabocas e de toda a região do sul da Bahia.
Também atraídos pelas notícias do progresso da região outros grupos de chegados aqui vieram, como os imigrantes sírios e libaneses, ligados as atividades de comércio e mascatearia e algumas famílias de imigrantes alemães, poloneses, etc.
Cerca de trinta anos depois da formação de Tabocas e devido ao seu franco desenvolvimento, em 1897, o arraial solicitou ao governo estadual o pedido de emancipação política do município de Ilhéus, que foi negado. Em 1906, alguns deputados enviaram um projeto para elevação de Tabocas a categoria de vila. No mesmo ano o Governador José Marcelino de Souza assinava a lei de nº 692 desmembrando o município de Ilhéus da Vila de Tabocas. Em prosseguimento, coronéis e políticos da época, continuavam a luta pela elevação da vila para cidade. Assim, através da lei de nº 807, de 28 de julho de 1910, sancionada pelo então governador, João Ferreira de Araújo Pinho, a Vila de Tabocas se desligava da Comarca de Ilhéus, constituindo-se no município de Itabuna. Seu primeiro governante, denominado intendente, foi o engenheiro Olinto Batista Leone.
Em tempos atuais, Itabuna é pólo regional que se destaca por atividades comerciais, industriais e de serviços. Durante o auge do período de grande produção do cacau e devido a riqueza fértil de suas terras, próprias ao cultivo dessa rica cultura, tornou-se um importante centro econômico, chegando a ocupar lugar de destaque na produção cacaueira no país, exportando para países da Europa e para os EUA.
O colapso econômico regional, provocado pela crise do cacau causada pelo ataque da praga chamada vassoura-de-bruxa, na década de 80, provocou mudanças drásticas no cenário regional do sul da Bahia. Assim, impulsionada pelas buscas de novas alternativas econômicas o município de Itabuna se volta para as demandas de produção nas áreas do comércio, da indústria, da diversificação da agricultura e da educação universitária.
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Características Geográficas:
Fundação: 28 de julho de 1910
Unidade Federativa: Bahia
Mesorregião: Sul Baiano (IBGE/2008)
Microrregião: Ilhéus/Itabuna (IBGE/2008)
Limites: Governador Lomanto Júnior, Ibicaraí, Ilhéus, Itajuípe, Itapé e Jussari.
Área: 443, 198 km²
População: 219.266 hab. (IBGE/2009)
Densidade: 475,19 hab./km²
Clima: tropical úmido
Altitude:
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Itabuna-Bahia. Praça José Bastos, 1941.
Itabuna-Bahia. Av. do Cinquentenário. Data desconhecida.

"Foi bonita a festa, pá
José Saramago e Pilar Del Rio 


MEMÓRIA REVISITADA
Os pés percorrem os caminhos dos pedregulhos de outrora
e estão expostos aos incertos suspiros da memória.
Os olhos revisitam as casas de tantas histórias guardadas
e pousam sobre novas feições desconhecidas.
Há lembranças perfumadas,
canções de roda da meninice,
janelas por onde se espiava os acontecimentos de ontem
na vazão dos suspiros velados dos dias jovens.
Ah, os dias! Retalhos do tempo,
recortes do passado na moldura dos fatos.
Ah!...esse correr da vida na fresta das horas,
somadas e somadas ao rigor do que guardamos em nós.
É necessário cuidar da travessia dos passos
na odisséia da existência,
revisitar os caminhos que nos levam aos mesmos lugares.
É necessário ousar espreitar o arquivo do tempo,
na cronologia de cada suspiro vivido...