quinta-feira, 19 de agosto de 2010

HISTÓRIAS CURTAS (1)


OS ESCUROS OLHOS DA NOITE


“A cidade é uma cobra grande

de rabo comprido

e tem os olhos de fogo

e os dentes de vidro

e tem um barulho louco

dentro da barriga...

Essa cobra é a cidade.

Essa cobra mora numa selva

cinza de cimento

e seu veneno não tem remédio (...).”

(Trecho da música “A Cidade”, de Zenrique Guimarães)



Havia um risco enorme vagar os beirais das ruas desertas. Um peso de mil anos abatia a noite. Entretanto, vultos de homens escorregavam nas sombras e esgueiravam-se nos escuros das esquinas. Não havia escolha senão habitar o acaso da rua em cada ocaso do sol. Tivesse sorte, ainda respirasse até a réstia de lua morrer no céu azeviche. Cada romper da noite uma batalha travada e cada dia amanhecido uma sorte vencida.

Mas era nos beirais das ruas que se nutria o fio de vida vã, absurda, feita de fome e sede. A fome fartada dos restos de lixo disputado a ferro e fogo. A sede saciada nos goles de cachaça ordinária sorvida para suportar o frio do corpo e anestesiar a dor de pensar.

Por qualquer descuido viraria número na estatística do dia. Na rua só precisava adaptar-se visceralmente. Sobreviver dependia de engrossar o couro e nunca ser tomado pela surpresa.

Os olhos andavam cautelosos por cada beco percorrido. Quase perto estava o seu tesouro escondido e suas armas de combate. Mas o medo lhe gelava a espinha por imaginar se o rapa teria levado tudo na operação cidade limpa. Correu, quase trôpego, percorrendo os cantos das ruas, esfregando-se nos muros para chegar a fenda da parede do imóvel velho onde escondia suas tralhas. As mãos trêmulas apalparam o tesouro. Tudo estava ali diante do seu alívio, um quase delírio, um quase êxtase. Papelão, cobertor e água: armas para que se vença sede e frio, abandono e dor nas noites intermináveis das ruas.

No canto fétido do passeio, tendo a marquise como teto, talvez pudesse dormir para sonhar com a vida deixada na esquina do tempo. Os devaneios oníricos romperiam a crosta de sujeira do corpo, os pruridos das feridas provocadas pelas unhas imundas. Talvez sonhasse a música dos anjos transposta aos sons das sirenes das rondas policiais. Talvez sonhasse com o cheiro de pão caseiro, com sorrisos de filhos e mãos de mulher na sua pele. E sonhasse também como um novo amanhecer depois da noite de olhos escuros. Talvez ao rasgar o manto bordado de estrelas, o dia rompesse claro e azul.

E, então, veio o sono e o frio profundo do corpo e alma; e uma passagem lenta das horas escuras e uma distância infinita da manhã azul. Arrancou um suspiro das entranhas e um frêmito da pele. Aspirou os cheiros ácidos, ocres, voláteis e fechou os olhos como quem se entrega.


Sapatos lustrosos e saltos elegantes zuniam os passos no vai-e-vem do dia plúmbeo. As pessoas tinham pressa, vestidas com seus casacos de lã e linho corriam as calçadas imunes aos loucos que devaneavam e aos mendigos que acordavam; imunes aos que permaneciam estáticos e mudos diante do mundo que girava veloz rumo à próxima esquina. Tudo se repetia no cotidiano da cidade que já amanhecia tensa e neurótica, repleta de transeuntes cegos dos detalhes das vidas paralelas, cegos da percepção de uma realidade desconhecida, cegos para as ocorrências das batalhas travadas pelos habitantes das noites entrincheiradas.

Ao canto, a recolher seus trapos na lentidão do corpo, o homem já não lembrava de pensar nos sonhos, nem sabia se os havia tido na noite anterior. Agora era a vez de outro ritual, de uma parte do outro lado dos seus dias de 24 horas. Os andrajos não cobriam determinados rasgos por onde o frio entrava naquele dia cinza, de sol tímido e nuvens pesadas. Mas não lhe era surpresa aquele amanhecer, nem os tantos outros de sol ou frescor. Viver ao léu, emparelhando o tempo, era sua realidade fazia anos. Tudo continuaria na sua órbita, do amanhecer até o ocaso que logo lhe traria de volta os escuros olhos da noite...e o esgueirar dos muros das ruas, dos becos vadios, e o resgate das suas armas, e o recrudescer da vontade dos sonhos, e o sono engolindo tudo para além do acordar do dia. Exatamente dessa maneira tudo continuava assim fazia muito, pois era ali, nos beirais das ruas, que se nutria o fio de vida vã, absurda, feita de fome e sede.


Genny Xavier



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"Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."

(António Gedeão)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Da minha aldeia eu espio o mundo...

Itabuna ontem (década de 60). Vista panorâmica do centro urbano.
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com

Itabuna hoje. Vista panorâmica noturna do centro urbano

Foto: Geraldo Borges


MEU CHÃO DE ONTEM E HOJE


Meu mundo era pequeno

quando eu imaginava comer

os pedaços da casa de doce

da rua do museu.

Hoje, eu sei que a casa é de tijolo

e o museu não existe mais.

Havia o rio e as pedras desse rio

quaravam as roupas

de quem tinha muita roupa para vestir.

As lavadeiras,

- vestidas de panos simples -

faziam bolhas nas mãos

espumando o alvejar dos ricos.

Hoje, o rio abre e fecha a boca

com seu hálito ocre

querendo o ar limpo que já não tem...

e as lavadeiras se foram

dos meus sonhos de meninice.


No meu mundo pequeno,

cabia muita coisa de sonho e mágica

como as barbas brancas do Papai Noel

em meu caminho para o cinema

em filme de domingo.

Cabia poeta recitando versos

na praça libertária

dizendo ao mundo que as guerras

matavam meninos que sonhavam voar.

Cabia homem-carro

fazendo das pernas pneus velozes

zunindo delírios

e buzinando alegrias.

E, ainda cabia,

parque de frente pra igreja

quermesses de bolos e fé

algodão-doce e ladainhas.


Mas, nesse mundo grande de hoje

a cidade encolheu o saber,

mal-cheirou o rio

e lava suas roupas sujas na sabida máquina do tempo.

Tempo gasto em que as bruxas varrem ao vento

os ciscos das memórias dos anos de ouro.

Então, diferente do meu mundo de ontem,

este de hoje, tão grande e real,

sobra os espaços como numa caixa vazia,

espia a notícia do dia

e dita a ordem das coisas.



Genny Xavier
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Itabuna-Bahia. Praça Olinto Leone (ao fundo o antigo "Castelinho", propriedade do intendente Henrique Alves e a antiga Igreja Matriz, ambas as construções não existem mais.)
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com

Itabuna, 100 anos de história


Situada no sul da Bahia, a cidade de Itabuna possui uma população 219.266 hab. (IBGE/2009 ) numa área de 443,198 km². Seu nome origina-se dos termos em tupi ita (pedra) + una (preta), devido a abundância de pedras escuras nesta localidade.

O Arraial de Tabocas, como assim era chamado antes de sua emancipação, nasceu às margens do rio Cachoeira quando, nos idos de 1857, a região em processo de desbravamento, era utilizada como rota de passagem aos tropeiros que viajavam com suas tropas ao município de Vitória da Conquista.

A partir de 1867, através da chegada de migrantes sergipanos, o arraial começa sua fase de povoamento. Dentre os primeiros chegados, estavam o caboclo Manoel Constantino e o sertanista Félix Severino de Oliveira (conhecido por Félix Severino do Amor Divino). Posteriormente, vindo com a família de parentes do Félix Severino, chegaria o menino José Firmino Alves, aos 14 anos, que mais tarde viria a ser um dos principais nomes para a articulação da fundação do município de Itabuna.

É fato que o nascimento do arraial de Tabocas, hoje município de Itabuna, está diretamente relacionado com o crescimento da monocultura do cacau no sul da Bahia, intensificada a partir do final do século XIX. A vinda de sertanistas nordestinos, especialmente sergipanos em busca de melhores condições de vida para fugir da seca e da pobreza através da perspectiva de recebimento de terras devolutas e cultiváveis, facilitadas pelo governo, promove, ao longo dos anos seguintes, as razões para o eminente progresso do recém formado arraial de Tabocas e de toda a região do sul da Bahia.

Também atraídos pelas notícias do progresso da região outros grupos de chegados aqui vieram, como os imigrantes sírios e libaneses, ligados as atividades de comércio e mascatearia e algumas famílias de imigrantes alemães, poloneses, etc.

Cerca de trinta anos depois da formação de Tabocas e devido ao seu franco desenvolvimento, em 1897, o arraial solicitou ao governo estadual o pedido de emancipação política do município de Ilhéus, que foi negado. Em 1906, alguns deputados enviaram um projeto para elevação de Tabocas a categoria de vila. No mesmo ano o Governador José Marcelino de Souza assinava a lei de nº 692 desmembrando o município de Ilhéus da Vila de Tabocas. Em prosseguimento, coronéis e políticos da época, continuavam a luta pela elevação da vila para cidade. Assim, através da lei de nº 807, de 28 de julho de 1910, sancionada pelo então governador, João Ferreira de Araújo Pinho, a Vila de Tabocas se desligava da Comarca de Ilhéus, constituindo-se no município de Itabuna. Seu primeiro governante, denominado intendente, foi o engenheiro Olinto Batista Leone.

Em tempos atuais, Itabuna é pólo regional que se destaca por atividades comerciais, industriais e de serviços. Durante o auge do período de grande produção do cacau e devido a riqueza fértil de suas terras, próprias ao cultivo dessa rica cultura, tornou-se um importante centro econômico, chegando a ocupar lugar de destaque na produção cacaueira no país, exportando para países da Europa e para os EUA.

O colapso econômico regional, provocado pela crise do cacau causada pelo ataque da praga chamada vassoura-de-bruxa, na década de 80, provocou mudanças drásticas no cenário regional do sul da Bahia. Assim, impulsionada pelas buscas de novas alternativas econômicas o município de Itabuna se volta para as demandas de produção nas áreas do comércio, da indústria, da diversificação da agricultura e da educação universitária.

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Características Geográficas:


Fundação: 28 de julho de 1910

Unidade Federativa: Bahia

Mesorregião: Sul Baiano (IBGE/2008)

Microrregião: Ilhéus/Itabuna (IBGE/2008)

Limites: Governador Lomanto Júnior, Ibicaraí, Ilhéus, Itajuípe, Itapé e Jussari.

Área: 443, 198 km²

População: 219.266 hab. (IBGE/2009)

Densidade: 475,19 hab./km²

Clima: tropical úmido

Altitude: 54 m.

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Itabuna-Bahia. Praça José Bastos, 1941.
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com

Itabuna-Bahia. Av. do Cinquentenário. Data desconhecida.
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com

Itabuna-Ba. Rua Ruffo Galvão. Data desconhecida.
Fonte: http://historiadeitabuna.blogspot.com


Itabuna-Bahia. Ponte da Bairro da Conceição. Data desconhecida.
Fonte: www.itabuna-ba.com.br


sábado, 17 de julho de 2010

"Nas fendas do insignificante ele (o poeta) procura grãos de sol." (Manoel de Barros)


POEMA POR UM MOTIVO DE FLOR


Em sonho, estive querendo
sondar os olhos e as mãos
de quem me deu uma flor:

Dos olhos,
eu queria
um lago
de águas de placidez.

Das mãos,
eu queria as rotas
de lentas texturas a passear.

E da flor
- púrpura cor em broto -
eu queria o pulso de pulsar.

Mas, as horas passam
e marcam o tic-tac
que intermediam
assuntos confessáveis.

Os olhos, as mãos e a flor
são ritos sutis
que suavizam
palavras de densidades.

E, enfim,
há nesta noite
de surpresas inconfessáveis
uma fenda e uma réstia:

Da fenda,
eu espio uma imagem
e da réstia,
eu penso chegar mais perto...

Genny Xavier

segunda-feira, 21 de junho de 2010

"É urgente o Amor." (Eugênio de Andrade)

"Foi bonita a festa, pá
fiquei contente
'inda guardo renitente um velho cravo para mim.
Já murcharam sua festa, pá
mas, certamente
esqueceram uma semente nalgum canto de jardim.
(...)
("Tanto Mar". Trecho de música de Chico Buarque)
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SARAMAGO: Semente de cravo brotada nalgum canto de jardim...



"Não direi:
Que o silêncio me sufoca e me amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
pois que a língua que falo é de outra raça.
(...)
Só direi,
crispadamente recolhido e mudo,
que quem se cala quando me calei,
não poderá morrer sem dizer tudo."
(Fragmento de "Poema à boca fechada". José Saramago)


No dia 18 de junho, as 12:30 horas, o escritor José Saramago disse adeus ao mundo serenamente. Talvez, em seu último respiro terrestre, tenha lembrado da frase da sua avó Josefa: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não creio que ele, como homem filosoficamente ponderado, tivesse pensado na frase com alguma amargura, mas com o lirismo tocante de quem lamenta perder a beleza da vida e, especialmente, do amor...este amor humanista que lutou pelos injustiçados...este amor de escritor que se comprometeu com as palavras...este amor de homem que viveu com Pilar Del Rio...
Sobre a musa amada e companheira ele disse numa entrevista: "Se eu tivesse morrido ao 63 anos antes de lhe ter conhecido, morreria muito mais velho do que serei quando chegar a minha hora"... ainda bem que aos 63 anos ele a conheceu, não fosse isso, todos nós estaríamos mais pobres de sua literatura produtiva e vigorosa bem antes de 2010...
Pois, neste meu adeus ao mestre, celebro o AMOR pelo qual lhe dedico um cravo-símbolo cuja liberdade professou...e um poema de amor pela mulher que consagrou...


POEMA DE AMOR

Um poema de amor,
requer um céu azul emprestado do universo
e estrelas do mar para se colar na folha em branco...

Um poema de amor,
necessita de leveza, pluma, pena e espuma
que as ondas do mar carregam no refluxo das marés...

Um poema de amor,
precisa do riso solto copiado do circo, do parque e da ciranda
que a infância traduz...

E, também,
carece de luz seja do sol ou da lua
para clarear os caminhos em que as pedras se olham...

E, ainda, de tanta vontade e sentidos,
um poema de amor precisa amar
para que se alcance o céu, a leveza, o riso e a luz...

E, assim, um poema de amor,
é mais que a pena em que se escreve no papel as letras,
é metalinguagem que o coração constrói e versifica...

Genny Xavier

José Saramago e Pilar Del Rio

sábado, 29 de maio de 2010



SEMÂNTICA


Além do fato explícito
estão todas as intenções prévias
contra o óbvio.

Nunca fabricar o verso
feito exercício.
Apenas canalizar sua hora
porque o instrumento poético
reside, a qualquer instante,
em nossos olhos
e dentro da gente.
Seu riso é a palavra:

Semântica do eterno conflito
entre o pensar e o dizer...

Genny Xavier

sábado, 15 de maio de 2010


PARA O QUE SOU E COMO SOU VISTA

Sou esfera,
círculo e útero...
Sou menina,
mulher e velha...
Sou folha seca,
jardim perfumado e mata-atlântica...
Sou água,
rio manso e mar bravio...
Sou fogo,
sol na cabeça e brasas nos pés...
Sou ar,
brisa e frêmito...

Mas, diante do que sou,
como me vê o mundo?
Como lança seus olhos grandes sobre mim?


Genny Xavier


sexta-feira, 7 de maio de 2010


NOITE LUNAR


Na superfície da porta

incidem raios de luz

que escapam pelas frestas

da velha madeira.


Lá fora,

o vento varre e varre

a solidão da noite

na voragem do tempo.


De dentro,

eu me banho das réstias de luz

e sinto o frêmito das horas

que transcorrem meu corpo.

Genny xavier


terça-feira, 20 de abril de 2010


MEMÓRIA REVISITADA


Os pés percorrem os caminhos dos pedregulhos de outrora

e estão expostos aos incertos suspiros da memória.

Os olhos revisitam as casas de tantas histórias guardadas

e pousam sobre novas feições desconhecidas.

Há lembranças perfumadas,

canções de roda da meninice,

janelas por onde se espiava os acontecimentos de ontem

na vazão dos suspiros velados dos dias jovens.

Ah, os dias! Retalhos do tempo,

recortes do passado na moldura dos fatos.

Ah!...esse correr da vida na fresta das horas,

somadas e somadas ao rigor do que guardamos em nós.


É necessário cuidar da travessia dos passos

na odisséia da existência,

revisitar os caminhos que nos levam aos mesmos lugares.

É necessário ousar espreitar o arquivo do tempo,

na cronologia de cada suspiro vivido...


Genny Xavier

segunda-feira, 29 de março de 2010

CRÔNICA:

A PERDA


Eu sabia que era preciso tempo. Cada perda tem sua hora de acabar, cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente.”


Lya Luft


Nem sempre sei dar nomes às coisas que sinto como impulso de escrevê-las. Lidar com palavras em meio ao sentimento do mundo é a batalha mais íntima de quem escreve. Nesta luta de exercício literário, eu estive pensando, remoendo, elucubrando emoções e sentidos sobre minha vontade de escrever algo que me toca ou me sensibiliza neste tempo de sustos, indignações e surpresas que a vida nos impõe.

Resgatei de mim a ação do verbo perder e, muito mais que isto, a explosão dos abismos vulcânicos provocados pelo sentimento de algo, seja afetivo ou não, material ou não, que escapa das nossas mãos e bombardeiam o nosso espírito da mais temível e rastreadora sensação de impotência e pequenez.

O homem, em sua orgulhosa trajetória de “única” espécie tocada pelo dom divino da lógica, da racionalidade, da criação e da consciência, resiste bravamente à admissão de ser tomado como ser perdedor, pois nesta sociedade em que vivemos, os valores mais prováveis de prestígio, reconhecimento, respeito e dignidade, estão pautados na exclusividade, no sucesso ou no orgulho em exibirmos como troféus os objetos das nossas conquistas e das nossas vitórias, sejam no trabalho, nos esportes, nas artes e principalmente nos afetos.

A perda revolve sinônimos desagregadores: o fracasso, a desatenção, a redução, o abandono, a morte, o soco na boca do estômago, a raiva, a surdez.

A perda não arranca aplausos, nem prêmios, nem elogios, pode, no máximo, fluir condicionamentos ainda mais humilhantes para o imbatível "senhor da criação divina": a consolação e a piedade. E a sociedade, em sua dureza, reafirma o pensamento realista da "Seleção das Espécies": vence quem é forte, magnânimo, belo, rico e poderoso; perde quem é fraco sensível, feio, pobre e desprotegido.

É preciso aprendermos com as falhas e os tropeços inerentes à vida. Algo certeiro na vida é que somos falíveis, não há como mudar essa matemática lógica ou esse peso de medidas que estão sempre a se desequilibrar entre ganhar ou perder, acertar ou falhar. Quando todos à nossa volta dizem insistentemente que é necessário ganhar, alcançar e conseguir, estão esquecendo de nos lembrar que no livro da vida há lições que envolvem perdas. Todos nós, em algum momento vamos passar por isso. Saber lidar com as perdas e os fracassos nos evita o mergulho no poço fundo da dor ou da ausência da auto-estima.

Hoje, num tempo em que o colorido do mundo é uma ilusão de ótica, penso que poderíamos reaprender com os místicos e os monges, o exercício da respiração e do equilíbrio. Respirar fundo para se segurar contra a vontade da entrega aos abismos diante das perdas. Buscar o equilíbrio para que a harmonia revitalize sempre o nosso profundo afeto com nossa própria pessoa e com o outro. Talvez seja este principal desafio humano neste universo de desequilíbrios sociais, morais e afetivos. Perder pode não ser o fim, mas a nossa mais íntima releitura do nosso "estar no mundo".


Genny Xavier

domingo, 21 de março de 2010


MÃOS

As mãos acalentam o corpo
e embalam a quietude
da superfície da alma que flutua em sonho...
Há frescor de bálsamo
que se estende ao toque
languidez que desmaia os sentidos
e uma semente de energia
que, involuntariamente, se espalha...
Incensos rastreiam o ambiente
que intui magia...delicadezas de cristais
piramidal razão de sonhar
sutis motivos enternecidos...
Óleos perfumam a pele
suavizam linhas e texturas
aguçam leves rubores
suaves torpores
inevitáveis pensamentos inconfessos...
Há um tempo que surrealiza o passeio das mãos
para aquecer o corpo
desmoronar os limites
e canalizar tímidos gestos...
Há um tempo para a mudez das palavras
que não foram explicitamente ditas
mas que, implicitamente, estão guardadas no tempo...

Genny Xavier