CRÔNICA:
A PERDA
“Eu sabia que era preciso tempo. Cada perda tem sua hora de acabar, cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente.”
Lya Luft
Nem sempre sei dar nomes às coisas que sinto como impulso de escrevê-las. Lidar com palavras em meio ao sentimento do mundo é a batalha mais íntima de quem escreve. Nesta luta de exercício literário, eu estive pensando, remoendo, elucubrando emoções e sentidos sobre minha vontade de escrever algo que me toca ou me sensibiliza neste tempo de sustos, indignações e surpresas que a vida nos impõe.
Resgatei de mim a ação do verbo perder e, muito mais que isto, a explosão dos abismos vulcânicos provocados pelo sentimento de algo, seja afetivo ou não, material ou não, que escapa das nossas mãos e bombardeiam o nosso espírito da mais temível e rastreadora sensação de impotência e pequenez.
O homem, em sua orgulhosa trajetória de “única” espécie tocada pelo dom divino da lógica, da racionalidade, da criação e da consciência, resiste bravamente à admissão de ser tomado como ser perdedor, pois nesta sociedade em que vivemos, os valores mais prováveis de prestígio, reconhecimento, respeito e dignidade, estão pautados na exclusividade, no sucesso ou no orgulho em exibirmos como troféus os objetos das nossas conquistas e das nossas vitórias, sejam no trabalho, nos esportes, nas artes e principalmente nos afetos.
A perda revolve sinônimos desagregadores: o fracasso, a desatenção, a redução, o abandono, a morte, o soco na boca do estômago, a raiva, a surdez.
A perda não arranca aplausos, nem prêmios, nem elogios, pode, no máximo, fluir condicionamentos ainda mais humilhantes para o imbatível "senhor da criação divina": a consolação e a piedade. E a sociedade, em sua dureza, reafirma o pensamento realista da "Seleção das Espécies": vence quem é forte, magnânimo, belo, rico e poderoso; perde quem é fraco sensível, feio, pobre e desprotegido.
É preciso aprendermos com as falhas e os tropeços inerentes à vida. Algo certeiro na vida é que somos falíveis, não há como mudar essa matemática lógica ou esse peso de medidas que estão sempre a se desequilibrar entre ganhar ou perder, acertar ou falhar. Quando todos à nossa volta dizem insistentemente que é necessário ganhar, alcançar e conseguir, estão esquecendo de nos lembrar que no livro da vida há lições que envolvem perdas. Todos nós, em algum momento vamos passar por isso. Saber lidar com as perdas e os fracassos nos evita o mergulho no poço fundo da dor ou da ausência da auto-estima.
Hoje, num tempo em que o colorido do mundo é uma ilusão de ótica, penso que poderíamos reaprender com os místicos e os monges, o exercício da respiração e do equilíbrio. Respirar fundo para se segurar contra a vontade da entrega aos abismos diante das perdas. Buscar o equilíbrio para que a harmonia revitalize sempre o nosso profundo afeto com nossa própria pessoa e com o outro. Talvez seja este principal desafio humano neste universo de desequilíbrios sociais, morais e afetivos. Perder pode não ser o fim, mas a nossa mais íntima releitura do nosso "estar no mundo".
Genny Xavier