terça-feira, 20 de abril de 2010


MEMÓRIA REVISITADA


Os pés percorrem os caminhos dos pedregulhos de outrora

e estão expostos aos incertos suspiros da memória.

Os olhos revisitam as casas de tantas histórias guardadas

e pousam sobre novas feições desconhecidas.

Há lembranças perfumadas,

canções de roda da meninice,

janelas por onde se espiava os acontecimentos de ontem

na vazão dos suspiros velados dos dias jovens.

Ah, os dias! Retalhos do tempo,

recortes do passado na moldura dos fatos.

Ah!...esse correr da vida na fresta das horas,

somadas e somadas ao rigor do que guardamos em nós.


É necessário cuidar da travessia dos passos

na odisséia da existência,

revisitar os caminhos que nos levam aos mesmos lugares.

É necessário ousar espreitar o arquivo do tempo,

na cronologia de cada suspiro vivido...


Genny Xavier

segunda-feira, 29 de março de 2010

CRÔNICA:

A PERDA


Eu sabia que era preciso tempo. Cada perda tem sua hora de acabar, cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente.”


Lya Luft


Nem sempre sei dar nomes às coisas que sinto como impulso de escrevê-las. Lidar com palavras em meio ao sentimento do mundo é a batalha mais íntima de quem escreve. Nesta luta de exercício literário, eu estive pensando, remoendo, elucubrando emoções e sentidos sobre minha vontade de escrever algo que me toca ou me sensibiliza neste tempo de sustos, indignações e surpresas que a vida nos impõe.

Resgatei de mim a ação do verbo perder e, muito mais que isto, a explosão dos abismos vulcânicos provocados pelo sentimento de algo, seja afetivo ou não, material ou não, que escapa das nossas mãos e bombardeiam o nosso espírito da mais temível e rastreadora sensação de impotência e pequenez.

O homem, em sua orgulhosa trajetória de “única” espécie tocada pelo dom divino da lógica, da racionalidade, da criação e da consciência, resiste bravamente à admissão de ser tomado como ser perdedor, pois nesta sociedade em que vivemos, os valores mais prováveis de prestígio, reconhecimento, respeito e dignidade, estão pautados na exclusividade, no sucesso ou no orgulho em exibirmos como troféus os objetos das nossas conquistas e das nossas vitórias, sejam no trabalho, nos esportes, nas artes e principalmente nos afetos.

A perda revolve sinônimos desagregadores: o fracasso, a desatenção, a redução, o abandono, a morte, o soco na boca do estômago, a raiva, a surdez.

A perda não arranca aplausos, nem prêmios, nem elogios, pode, no máximo, fluir condicionamentos ainda mais humilhantes para o imbatível "senhor da criação divina": a consolação e a piedade. E a sociedade, em sua dureza, reafirma o pensamento realista da "Seleção das Espécies": vence quem é forte, magnânimo, belo, rico e poderoso; perde quem é fraco sensível, feio, pobre e desprotegido.

É preciso aprendermos com as falhas e os tropeços inerentes à vida. Algo certeiro na vida é que somos falíveis, não há como mudar essa matemática lógica ou esse peso de medidas que estão sempre a se desequilibrar entre ganhar ou perder, acertar ou falhar. Quando todos à nossa volta dizem insistentemente que é necessário ganhar, alcançar e conseguir, estão esquecendo de nos lembrar que no livro da vida há lições que envolvem perdas. Todos nós, em algum momento vamos passar por isso. Saber lidar com as perdas e os fracassos nos evita o mergulho no poço fundo da dor ou da ausência da auto-estima.

Hoje, num tempo em que o colorido do mundo é uma ilusão de ótica, penso que poderíamos reaprender com os místicos e os monges, o exercício da respiração e do equilíbrio. Respirar fundo para se segurar contra a vontade da entrega aos abismos diante das perdas. Buscar o equilíbrio para que a harmonia revitalize sempre o nosso profundo afeto com nossa própria pessoa e com o outro. Talvez seja este principal desafio humano neste universo de desequilíbrios sociais, morais e afetivos. Perder pode não ser o fim, mas a nossa mais íntima releitura do nosso "estar no mundo".


Genny Xavier

domingo, 21 de março de 2010


MÃOS

As mãos acalentam o corpo
e embalam a quietude
da superfície da alma que flutua em sonho...
Há frescor de bálsamo
que se estende ao toque
languidez que desmaia os sentidos
e uma semente de energia
que, involuntariamente, se espalha...
Incensos rastreiam o ambiente
que intui magia...delicadezas de cristais
piramidal razão de sonhar
sutis motivos enternecidos...
Óleos perfumam a pele
suavizam linhas e texturas
aguçam leves rubores
suaves torpores
inevitáveis pensamentos inconfessos...
Há um tempo que surrealiza o passeio das mãos
para aquecer o corpo
desmoronar os limites
e canalizar tímidos gestos...
Há um tempo para a mudez das palavras
que não foram explicitamente ditas
mas que, implicitamente, estão guardadas no tempo...

Genny Xavier

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Parceria fotopoética...


ÓTICA


Nossos olhos

possuem o prisma cristalino

da emergência da vontade....

Estamos sujeitos

ao rigor das retinas

que não escondem

o risco do olhar desmedido.

Ver é como gritar

ou como enxergar

a medida do desejo.

Ver é como dançar

resgatar o movimento

no ritmo de olhar

e percorrer direções.

Ver é como escrevinhar palavras

essência do dizer com os olhos

e restituir o impulso.

Ver é como trocar miúdos de nuances

tramas e cumplicidades

precisão e rumos

de uma vontade cristalina

como o prisma do arco-íris...


Genny Xavier

Foto: gentilmente cedida pelo fotógrafo Tossan/ Santos-SP

htpp://klictossan.blogspot.com


domingo, 21 de fevereiro de 2010

Pintura de Gustav Klimt


O AMOR

Do amor, só se tem dizeres:

Amor, vigor, tremor...

encanto, deslumbramento posto

entre o muro e o abismo.


Do amor, só se tem temores:

Amar, sofrer, ferir...

encontro, desencontro breve

que paira na finita razão do tempo.


Do amor, sejamos sinceros!

esperamos a redenção,

lembrança de um pecado original

que ainda não superamos.


Do amor, desejamos:

a flor e a náusea,

porque quase nada

entendemos dele.

Genny Xavier


Pintura de William Blake

domingo, 24 de janeiro de 2010

Salvador Dalí



DOMINGO



Não passo de uma solidão exagerada

de um momento que se perdeu no seu canto.

O domingo arrota seu tédio

e eu fico bobamente esperando

um instante só de novas marcas.

Queria gritar,

ainda que fosse o grito não entendido

ou perfurar esse irreal de existência...

Queria a força irresistível

das correntes se partindo

ou rasgar no dente

essa dor de parir meu verso.


Genny Xavier

Salvador Dalí

sábado, 9 de janeiro de 2010



MELANCOLIA


De onde veio
o espanto das minhas horas nuas?
Que desatino
me traz o matiz da melancolia
exposta em mim
neste atravancado tempo de mil luas?
Não sei em que leito de rio
pousar a minha alma
que tem fome do cristalino...
Em que fonte
beber da água
que fecunda a semente
de onde vai brotar a flor
em que o colibri irá tocar seu beijo...
Meus olhos, agora,
passeiam por um jardim de folhas secas
e o vento varre e varre
o resto de outono presente no mundo.
O frio está em mim,
e, ah, meus amigos!
Quanta incerteza experimento!
Quanto mistério esconde nossa humanidade!
Que distância nos separa do homo sapiens?

Genny Xavier



domingo, 27 de dezembro de 2009


AZUL


Hoje sou azul,

e tenho todo o tempo do mundo

para a solicitude de um verão distante de mim

que faz colorir a linha do horizonte entre céu e mar...

Hoje, tudo me parece mais,

muito mais a memória de um tempo grande o bastante

para que minha respiração vá além do suspiro,

além do peito que se infla...

Hoje algo me resgata a avidez

e me torna repleta,

um poço cheio de palavras

que se vão tecendo nas entrelinhas...

Hoje, o tempo se rompe,

volta o lado da ampulheta,

como coisas que se vão acumulando no baú das horas,

guardadas nas memórias que ficaram....

Hoje sou colcha azul de retalhos,

céu tecido de estrelas,

trabalho para uma espera medonha

de tecer e tecer o mundo e o tempo...

Hoje sou eu mesma,

quieta e muda

diante do anjo que decompõe a minha aurora

neste dezembro de anseios repetidos...


Genny Xavier


sábado, 12 de dezembro de 2009

"Um poeta é um mundo encerrado num homem." (Victor Hugo)


POÉTICA UTÓPICA



São tortas as curvas

e lucidamente tortuosas

as rotas que seguem rumos

que levam nossos pés

na direção dos lobos...

Há consciências inaptas

inadaptadas ao rigor dos tempos...

Estamos taciturnos

e nossa rubra emoção

já não comove o mundo

em refluxo de idéias...

Todos estão mudos

ou hão de estar cegos

expostos à corrosão dos dias...

Eu, poeta, no viés da vida

aspiro os fantasmas dos homens

e sopro as palavras

que externam minha voracidade

de restaurar no tempo

uma nova utopia

em forma de verso...


Genny Xavier


domingo, 6 de dezembro de 2009


A PALAVRA NÁUFRAGA


Há uma solidão perpétua
instalada no pensamento
que ressoa no prumo de cada dia...
E, no intervalo em que a respiração se molda,
moldam-se as palavras que dançam por dentro
nos entremeios de veias, sangue e suores...
E, trazem à tona, a exaustão da alma
num deserto pleno
de beleza crua e explícita
em que elas - as palavras - estão isoladas
num campo inóspito de silêncio e dor...

E, enfim, da voz latente,
náufraga na encéfala ilha,
as palavras se enjaulam
distantes, sonâmbulas e saudosas
da substância-seiva
que nutre a terra fértil
do coração pulsante...


Genny Xavier