segunda-feira, 16 de novembro de 2009

"Aprender: verbo auxiliar de existir" (Millor Fernandes)

CONTO: Genny Xavier


A PENA AZUL

Uma pequena pena de pássaro azul, trazida ao vento, entrou pela janela do meu quarto, fez rodopios e veio pousar sobre os papéis da escrivaninha. Seria um sinal indizível para anúncio de algo? Eu estava ali, deitado e nu, farto da vida, em plena manhã de quarta-feira. Nenhum mortal deveria ser obrigado a enfrentar uma manhã de sol depois de muitos uísques noturnos. É preciso que se respeite o direito à boemia. Mas estava eu ali, abrindo os olhos pesados, despertos por uma leve pena azul bailando ao ritmo da corrente de ar que entrava pela janela. A pena parecia querer me provar que viera ao mundo com a única função de voar, ainda que longe do colibri de onde se desprendeu.

Havia razões suficientes para eu ligar ao trabalho e justificar minha falta. Mas não liguei, se ligasse, talvez caísse na tentação de dizer para Josefina, a secretária, que um homem tem o direito de tomar uns uísques de vez em quando, principalmente depois de um chute no traseiro dado pela namorada, acometida de crise existencial agravada pela tpm crônica de todo mês. Josefina teria enchido o meu saco com aquele ar de lady inexpugnável. Para dizer: Um homem decente não se encharca de uísque em pleno dia útil, Dante. Porra! Aquela mulher de pedra parecia querer culpar a todos por sua vida gasta pela erosão dos tempos. Tava pouco me lixando para ela! E para Madalena também, com suas soníferas crises, recheadas de Lexotan, sempre a buscar o sentido das coisas ao seu redor: uma explicação para Cristo, uma explicação para Ets, para a expulsão do Dalai Lama do Tibet ou para as estátuas de Stonehenge. Mas talvez ela tivesse razão para achar que a realidade faz algum sentido, bem como os seus acontecimentos. Não estava eu ali a buscar um sentido para aquela pena azul?



Aos poucos, os sons pareciam acordar também aquela manhã de sol, contudo, vampirescamente, eu preferia que ainda fosse noite. Mas a pena estava ali, a me dizer que colibris não voam à noite, muito menos, para soltar suas penas. Levantei. Devagar, porque o mundo fazia giros em volta de mim. Desejei ser a pena desprendida de um colibri. Fosse leve, não sentiria minha cabeça como uma enorme bola de ferro.

A busca da minha mais desejada tranqüilidade naquela manhã de ressaca se constituía de três concessões imprescindíveis: o ócio, o desvendamento do vôo da pena azul e a ingestão de um antiácido eficaz. Do ócio, julgava-me no direito, visto que eu sempre me esforçava como funcionário eficiente; do antiácido, era precisava galgar uma exaustiva trajetória até o armário do banheiro. Mas, quanto à pena azul... Aquilo necessitava de uma investigação sobre os sinais do acaso e isso era algo que as minhas forças mentais teimavam embotar. Minhas conexões de neurônios pareciam mergulhadas na merda.

Escolhi fazer o que me parecia possível naquele momento. O possível seria refazer as conexões e tentar esquecer a náusea. A jornada física até o banheiro decididamente não me parecia tão atraente quanto o mistério da pena azul. Aí sim, constituía um desafio prazeroso ante todos humilhantes percalços da minha bebedeira e conseqüente ressaca. Seria bom desprender-se daquele fio de memória dos fatos da noite passada: A patética discussão com Madalena - como se todas as outras discussões anteriores também não tivessem sido patéticas. Frente aos bobos motivos de cada bate-boca nosso, pelos quais ela acreditava motivados pela incompatibilidade dos nossos signos, irrompíamos sempre as justificadas reconciliações tomando como crença o que sentíamos.

Finalmente, depois desses ponderáveis minutos de inusitada percepção da pena azul e de meus sofríveis incidentes na noite anterior, pousei o olhar em tudo que me tomava o espaço em volta da cama. Estava ali o meu quarto de homem solteiro, estava ali quase o meu universo doméstico inteiro, pois pouco me importava se o apartamento tinha uma cozinha espaçosa com um fogão novo pela falta de uso, aliás, era inteira uma cozinha nova pela falta de uso, porque eu quase não usava, porque comia na rua todos os dias do cotidiano da minha vida, porque as refeições íntimas, à luz de velas, sempre aconteciam na casa da Madalena ou de qualquer outra namorada que tivesse tido antes dela; se tinha uma sala com porta-retratos da família que minha mãe colocara espalhados na estante achando que eu iria adorar. Não adorei, mas estão lá até hoje. Fotos amarelas de tempo e poeira. O calor era sempre forte no apartamento, senão quando abria as cortinas que escondiam a porta de uma varanda minúscula contígua à sala. Mas o vento batia nas cortinas quando se abria aquela porta, isso me irritava muito, como se fossem panos esvoançantes de uma tenda no deserto. A poeira tomava conta de tudo.

Seria isso que a dança flutuante da pena queria de mim? Que olhasse à minha volta e questionasse meus objetos? Se esticasse o braço tocaria o lustre do teto? Percebi algum dia aquele lustre? Também notei algum dia a pintura das paredes, sua cor coincidentemente tão azul quanto a pena?

Mas, era o banheiro meu roteiro agora, não a percepção do meu universo doméstico inteiro. Não as lembranças da noite anterior. Não a discussão com Madalena. Não minha falta no trabalho. Não a pena azul que me interrogava seus motivos. Mas uma náusea não se desconsidera. A náusea lhe põe em alerta de jato. Ah! Meu reino por um antiácido! Pensei, ao correr para o banheiro.

Depois do vômito, dos suores, do rodopio da cabeça, do balançar do corpo, me vi supostamente resoluto a retornar para cama. Mas o resquício de impulso pela sobrevivência que me restava me aconselhou um banho antes do retorno aos suaves braços da morte sonífera. Seria bom ficar nu daquelas roupas amassadas; molhar o corpo para afastar a dormência; esfriar os neurônios ainda ferventes dos devaneios etílicos. Nunca minha própria nudez me atraiu tanto e a urgência da água foi tão premente de sorver.

Escorreguei ao interior do box numa procura tateante da torneira do chuveiro. Dei completa vazão ao jato frio que espalhava certo conforto molhado e alegre em meu corpo exausto pelos tropeços da noite anterior. O que um homem é capaz de fazer pelo motivo de um chute na bunda? Ridicularizar-se com o afogamento das mágoas em uma piscina de álcool envelhecido em barris de carvalho? Mas eu não queria pensar, o pensamento trazia o latejamento das têmporas e a consciência da minha completa babaquice romântica.

O roupão azul aqueceu do frio momentâneo, mas o certo alívio do mal-estar me era evidente. O retorno a cama foi lento e arrastado, como uma odisséia épica. Jamais tive tanta atração por uma cama, nem em minhas noites mais eróticas, regadas dos floreios decorativos da Madalena: incensos da Índia, velas coloridas, pétalas de rosas...aqueles ti-ti-tis femininos que elas julgam que os homens adoram. Adoram? – Ah! como doía a cabeça! – Acho que adoram, sim. Eu gostava, gostava de vê-la incensada de aromas naquele tremeluzir das luzes das velas.

Pronto! Já estava eu deixando o fantasma da Madalena me invadir de novo. Eu queria pensar em outra coisa. Dormir era o que eu queria, o sono dos redimidos. Ah! Como eu precisava de redenção! Quem sabe a pena azul tivesse a explicação. Lá estava ela ainda, misteriosa e leve, pousada em minha escrivaninha. Um sinal? Seria isso que ela anunciava? um sinal de uma vida nova, sem o cotidiano de um namoro longo? – Vamos lá cabeça, pare de pensar bobagens! Ah! mas aquela dor não passava! – A pena azul, impávida e muda, continuava lá, mas eu sabia que ela queria me dizer algo naquela manhã de ressaca.


Entre os devaneios filosóficos sobre o inesperado vôo da pena azul em meu quarto e os excessos de lembranças da desastrosa noite fatal com Madalena, adormeci novamente.

Sono desejado para ânsia da minha ressaca, mas nem de longe tranquilo e plácido como eu queria. Os sonhos povoaram o meu dormir naquelas horas seguintes. Imagens confusas maculavam aquela idéia de sono perfeito que antes embalara a minha vontade de dormir. Havia rios de águas azuis, árvores imensas com folhas de todos os tamanhos e tons do azul, pássaros de plumagens do claro ao escuro azul, pássaros lindos, cujos rostos traziam os traços da minha ex-namorada. Colibris, andorinhas, sabiás, periquitos...todos azuis...todos com riso, olhos, bocas e dentes de Madalena! Afinal, aquilo era sonho ou pesadelo? Eu corria em busca dos pássaros, mas não os alcançava, vezes voavam rápido demais, outras muito alto, outras em voltas e rodopios, deixando-me tonto, tonto, tonto...ao longe ouvi o som melódico de um piano tocando o Danúbio Azul...então, cansado, tomado de ânsia e delírio caí na grama azul de fios de plástico e, na minha visão de baixo para o horizonte azul acima de mim, vi o flutuar de algo pequeno e delicado a cair lentamente em minha direção. O pouso da pena acertara o ponto exato do meu peito, como um tiro indolor, sem sangue e tango, mas devastador para a solidão do meu onírico mundo azul. Então tudo foi se diluindo feito tinta óleo azul numa pintura que se desmancha.

Meus olhos se abriram no foco do meu relógio no criado-mudo ao lado da cama. A tarde já se ia alta pelas horas que indicavam os ponteiros. Havia calmaria nos meus neurônios, recompensados pelo correr do tempo longo de sono depois do banho. Pensei na loucura do sonho azul. Seria ele a chave para interpretação da pena? Certamente seria, pensei animado. Julguei representar o retorno da mulher amada, linda e bela como um pássaro exótico. Enfim, eu precisava apenas guardar aquela pena azul com cuidado e zelo, ela seria o sinal de que a minha Madalena voltaria para mim, repetindo as inúmeras reconciliações do nosso cotidiano amoroso.


Mas o sorriso morreu em mim quando me virei e não vi a pena azul pousada muda lá na minha escrivaninha. Onde estaria ela? Levantei da cama e me aproximei inquieto, disposto a procurar meu patuá azul. Mas lá estavam as chaves no lugar da pena. As chaves do meu apartamento que estavam com a Madalena ao lado de uma folha de papel azul em que ela escrevera o bilhete: Dante, liguei para o seu trabalho e me disseram que não apareceu por lá. Fiquei preocupada e apareci para ter certeza que estaria bem. Como estava dormindo, não quis te acordar. Foi melhor assim, nos evitou de outra conversa desagradável. Ontem, devido a nossa discussão, não pude concluir algo muito importante: eu conheci outra pessoa, não calculei que isso fosse ocorrer depois de tanto tempo com você, mas aconteceu. Eu sinto muito. A vida é assim mesmo, a gente as vezes precisa voar para outros horizontes. As chaves estão aí. Cuide-se. Seja feliz. Madalena. P.S. Dante, encontrei uma pequena pena azul em sua escrivaninha e tomei a liberdade de levá-la comigo, ela ficará linda num colar artesanal que estou fazendo.

Então eu fiquei ali, com aquele bilhete azul na mão. Quase indignado e totalmente patético. Impressionado com as razões da vida que, embora repleta e cheia do cotidiano mais banal e repetitivo, encontra o desvio inusitado para nos por à prova. Estava ali a razão da pena azul, ela fizera cumprir o seu vôo e desvio de percurso ao entrar pela janela do meu apartamento.




segunda-feira, 9 de novembro de 2009

"A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão" (Mário Quintana)


SOLIDÃO EM CÂMARA LENTA


Não é fácil
este sentimento
que é apenas impressão...
Os carros passam lá embaixo
e essa emoção passeia com eles
- invisível presença de mim pelas coisas todas -
Estou aqui
a cheirar silêncios noturnos
vislumbrando rumos
ruminando incertezas
comendo ilusões
sem entender as minhas estranhezas...
A noite traz em si
este insano sabor doce
de momentos frágeis.
Meus olhos tomam estrelas...
Meus olhos ardem!
Como ardem as minhas mãos
repletas de toques!
Então, rascunho um verso
para dizer que a minha loucura
é apenas poesia.


Genny Xavier

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

"A poesia se atrofia quando se afasta muito da música" (Ezra Pound)


V CICLO DE PALESTRAS DE LITERATURA

- Lira, Lírica, Lirismo -


A professora Drª. Reheniglei Rehem, Coordenadora do Centro de Estudos Portugueses Hélio Simões e do ECLIP (DLA) da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC, docente da disciplina Literatura do Cacau, estará promovendo no próximo dia 08 de dezembro do ano em curso, a partir das 18:30 horas, no auditório Jorge Amado (UESC), o V CICLO DE PALESTRAS DE LITERATURA, onde se discutirá os vários diálogos que aproximam Poesia e Música.
Alunos do 8º semestre de Letras, estudantes da disciplina Literatura do Cacau II, estarão participando do evento.
Foi com prazer que recebi o convite para fazer parte da mesa de discussões, ao lado dos poetas Fernando Caldas e Caê.

Pensando no tema em que os alunos da professora Reheniglei se debruçaram para construção deste trabalho, lembrei de um texto do arte-educador Alfredo Werney que salienta alguns aspectos das relações entre literatura e música e que aqui reproduzo com os devidos créditos:

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DIÁLOGOS ENTRE MÚSICA POPULAR E LITERATURA

Alfredo Werney*

A literatura acadêmica e a música popular, ao que nos parece, nunca estiveram tão sintonizadas e afinadas, em outros países, como estão no Brasil. A estreita ligação entre a poesia da canção e a poesia dos livros fez do Brasil um espaço de ricas experiências da relação palavra/ música. Esta complexa ligação certamente não veio dos dias de hoje. A literatura portuguesa se inicia, como nos mostram os estudos históricos, com o Trovadorismo. No prelúdio da nossa literatura (e também da literatura universal), já se faz presente a música, o que se gera uma arte híbrida – que não é tão-somente literatura, nem tão-somente música. No contexto da literatura portuguesa, podemos citar as famosas cantigas de amigo, de escárnio e de amor, executadas pelos trovadores da Idade Média.
Ao tratarmos da literatura acadêmica e da música popular brasileira, pode parecer, em alguns momentos, que estamos versando sobre um encontro extremamente amistoso entre as duas artes. Na realidade, não se trata de uma relação sem tensões, pelo menos em seu preâmbulo. A música popular, que recebe o rótulo de MPB na década de 60, foi vista por muitos intelectuais como uma arte menor. Para muitos, um mero entretenimento. Quem ousaria comparar Cartola com Gonçalves Dias? Sinhô com Manuel Bandeira? Noel Rosa com Drumonnd? É importante dizer, entretanto, que alguns intelectuais se interessaram pela música popular e chegaram mesmo a participar da composição de letras, a exemplo de Manuel Bandeira, que fez parceria com Jaime Ovalle. Mário de Andrade, pesquisador e músico, também se interessou bastante pelas sonoridades da música popular (embora fizesse ressalvas ao samba urbano veiculado aos meios de comunicação de massa). O fato é que ainda hoje perduram tais preconceitos, como se fosse incompatível o universo de signos da nossa literatura acadêmica com o os signos sonoros da canção popular.
Alguns pesquisadores consideram que é a partir do surgimento da bossa-nova, no final dos anos 50, que se intensificam as relações entre escritores acadêmicos e cancionistas populares. Vinicius de Moraes, ao mesmo tempo poeta da canção e dos livros, foi certamente a figura mais importante no empreendimento de uma conexão intertextual entre as duas artes. É claro que antes dele vieram Cartola, Noel Rosa e outros grandes cancionistas. Porém, estes compositores não eram ligados aos escritores acadêmicos da época (o que, diga-se de passagem, não diminui em nada a riqueza de símbolos da arte desses músicos).
Vinicius nos mostrou que as letras de canções populares podiam ser, a um só tempo, comunicativas e possuidoras de qualidades literárias. Suas letras – fáceis de assimilação por parte dos interlocutores – chegam mesmo a parecer demasiado simplórias e carentes de expressividade estilística. Uma impressão errônea, a nosso ver, já que existem muitos recursos poéticos para além das camadas aparentes do seu texto. As canções do compositor carioca, em uma análise mais detida, trazem para a tradição da MPB situações poéticas extraídas do cotidiano (processo iniciado por Noel Rosa), além do que possuem sutilezas rítmicas, tímbricas, que se coadunam perfeitamente com o percurso gerativo de sentido do texto melódico da canção.
Um exemplo significativo desse processo de construção é a canção “Garota de Ipanema”, em parceria com Tom Jobim. O poeta transforma uma situação rotineira (uma menina que passa num doce balanço a caminho do mar) em um momento repleto de inventividade – processo de criação estética caro ao Modernismo. As palavras de “Garota de Ipanema”, afinadas estruturalmente com a melodia jobiniana, “dançam” e reproduzem ritmicamente o rebolado da garota. Um insight de rara beleza lítero-musical.
Vários foram os movimentos musicais brasileiros que buscaram dialogar com os estilos de época da nossa literatura. A bossa nova, como foi visto, foi um dos primeiros movimentos a empreender uma conexão intertextual com a literatura nacional (em especial com o modernismo da poesia de João Cabral). Isto se observa na concisão dos textos, na economia de recursos dos arranjos e na eliminação de elementos subjetivos e dramáticos. Vale ainda ressaltar a importância basilar do Tropicalismo, que imprimiu novas associações entre palavra e música e buscou expressar, através do “fragmentário” e do “alegórico”, as tensões político-sociais do nosso país.
Chico Buarque parece sintetizar em suas composições todo um conjunto de experiências da literatura brasileira e universal. Observamos em sua lírica cantigas de amigo, sonetos clássicos, redondilhas, textos concisos e de sintaxe não-convencionais, paródias, citações de obras clássicas da literatura, etc. Em sua obra, as tensões do mundo amoroso, político, cultural, revelam-se na forma do conteúdo da letra e na construção melódica da música. É possível inferir que o autor da “Ópera do Malandro” aprendeu a retirar os excessos e depurar a forma de seu texto poético-musical com a poesia moderna brasileira. Para tanto, foram basilares: Manuel Bandeira, João Cabral e Carlos Drummond (novamente). A canção “Iracema voou” (1998) é um exemplo dessa influência.
E os diálogos entre MPB e literatura nacional não cessam. Daria para citarmos uma enorme gama de compositores que focalizaram seus trabalhos no liame entre a literatura erudita e a música popular urbana. Há, por exemplo, em muitos artistas, uma presença marcante do espírito anti-linear, dramático e contrastante do Barroco. Caetano Veloso traduz, em certo sentido, esse barroquismo, em algumas de suas canções. Há na lírica deste baiano uma polifonia de cores, sons, ritmos e uma tendência ao exagero e à exuberância formal que nos remete ao Seiscentismo.
Zé Ramalho, por sua vez, procura dialogar com correntes estéticas como o Surrealismo, o Simbolismo e com a visão poética, espiritual e transcendental do mundo do sertão (possivelmente inspirado no universo literário de Guimarães Rosa). Existe, de maneira patente, o pathos ufanista da lírica gonçalviana em algumas canções de Ary Barroso. Arnaldo Antunes procura associações entre palavra e música em suas composições que, muitas das vezes, remetem-nos à força visual e à concisão poética do Concretismo.
Por outro lado, a literatura acadêmica também homenageou e mesmo se inspirou em elementos da música popular. Lima Barreto fez apologia à modinha, em “Triste fim de Policarpo Quaresma”. Nas camadas fônicas da poesia de Bandeira há muitos componentes da sonoridade das canções brasileiras. A literatura de Mário de Andrade (e do Modernismo como um todo) também buscou inspiração em nossa tradição popular. Olavo Bilac homenageou, em soneto (“Música Brasileira”), a nossa riqueza musical; dentre outras experiências. Enfim, as relações entre os movimentos literários e musicais do Brasil, além de fecundas, são fundamentais para que compreendamos as matrizes e as matizes composicionais da nossa música popular e mesmo toda a formação cultural do nosso país.

*Alfredo Werney é arte-educador, músico e pesquisador. Participou do livro "Cantigas de Viver:leituras de H.dobal". É autor do livro, em parceria com Wanderson Lima, "Reencantamento do mundo: notas sobre cinema".

Fonte: http://www.portalentretextos.com.br/noticias/dialogos-entre-musica-popular-e-literatura,696.html

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Os versos pelejam a síntese da vida...

OS QUATRO ELEMENTOS
Deságuo, gota a gota
meu mar bravio na praia dos olhos...
Há silêncio: meus sentidos o contemplam.
Mas nos meus entremeios sanguíneos
um rio me corre por dentro...
Há sussurro: meus sentidos o sorvem.

Inflamo, na brasa do corpo
minha chama ardente no deserto da pele...
Há crepúsculo: meus sentidos se avermelham.
Mas no sal dos meus suores
o calor me consome a lucidez...
Há sol: meus sentidos se exaurem.


Sorvo, no céu da boca
a nuvem branca da minha fleuma momentânea...
Há brisa: meus sentidos se arrepiam.
Mas na aragem dos meus dias
um frêmito me geme por dentro...
Há sussurro: meus sentidos o expiram.



Degusto, da semente germinada
o broto fecundo do meu solo uterino...
Há fendas: meus sentidos percorrem os caminhos.
Mas no húmus do meu corpo orgânico
eu alimento a matéria da vida...
Há sabores: meus sentidos me saciam.

Genny Xavier


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

"O tempo faz o seu trabalho e voa." (Eurípedes)

"A persistência da memória" - Salvador Dalí


OLHO MÁGICO


Tenho em mim uma imaginação

que passeia por caminhos intermitentes...

E, nas dobradiças do tempo que escorrega

há fendas abertas

por onde meus olhos espiam os anos...


Genny Xavier

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

"Só se sente nos ouvidos o próprio coração."

SILÊNCIO


Se tenho de escrever algo
nesta adiantada hora da noite
e nesta altura da vida,
escrevo sobre o silêncio
que cala o tempo,
petrifica a alma
e faz suar as paredes...

Mas posso adiantar também
que, de fenda em fenda,
esse silêncio
pulsa num intervalo
onde, estrondosamente,
uma pena sibila no ar
e desce, suavemente,
para pousar o chão...

Se há silêncio,
a pena desfaz...
Se há densidade,
a leveza dissolve...
Genny Xavier


terça-feira, 1 de setembro de 2009

"A lua move-se lentamente, mas cruza a cidade."


CRÔNICA: Genny Xavier

Vista parcial de uma Itabuna de hoje...quase centenária
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VISÕES DA CIDADE

As vezes olho a minha terra pela fresta da fechadura da minha casa. Itabuna me passa às vistas pelos meus olhos de escritora. É uma visão lírica, como não podia deixar de ser, uma febril visão de tempos que se arrastam pela minha história. Eu sei das ruas onde testemunho a poesia deste meu chão, sei também dos becos que escancaram a sua miséria...meninos de rua, mendigos e loucos. Sei das pontes que vistoriam a trajetória do Cachoeira e suas água, as lavadeiras, os areeiros, os pescadores, a poluição, os peixes que morreram, a Ilha do Jegue que já não existe, a glória e a decadência de um rio. Nesta terra, onde as vezes penso que enterrei o meu coração, a essência do meu sentimento de filha se dilui.
Nunca quis trazer a marca de uma literatura regionalista. O meu canto tem o impulso do universal, da liberdade do discurso que viaja por mil cercanias e toca o sentimento do mundo. A minha fidelidade a este chão está presente neste ar que insisto em respirar daqui, nas aulas de literatura, nos alunos que amo, no meu trabalho, no companheirismo dos meus amigos, que hoje tentam resgatar comigo a identidade artística desta terra. Não importa o tema que é o impulso de quando acho o verso ou tomo o rumo da ficção, importa que estes versos e estas histórias são a desmedida criação de uma mulher que, embora nascida em terras dos sertões desta Bahia grande, de coração e alma se rendeu a esta ITA-NEGRA* cidade, nem sempre mãe, nem sempre santa, tantas vezes madrasta e tantas vezes pagã.
Nada eu tenho contra os que discorrem em sua poesia o apaixonado sentimento desta Itabuna. Nem nada contra as histórias que revivem a saga dos coronéis e as agonias dos trabalhadores rurais – dos índios e negros que construíram este chão. Como nada tenho contra aqueles que existencializaram a criação e percorreram outros vôos pelos caminhos do mundo. Eu posso amar a poesia de Firmino Rocha, Valdelice Pinheiro, Telmo Padilha ou Ruy Povoas, como posso amar a prosa de Hélio Pólvora, Sônia Coutinho, Cyro de Mattos, Jorge Amado e Antonio Naud Júnior; e ainda posso amar Clarice Lispector, Lígia Fagundes Teles, Rachel de Queirós, Hilda Hist, Florbela Espanca, Fernando Pessoa e Virgínia Woolf .
Itabuna é meu referencial, as raízes que formei sob os meus pés, mas o meu coração viajou, seguiu o rastro do sol, não aportou apenas aqui, mas em outras estações.

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* Itabuna – sua etimologia origina-se dos termos em tupi ita (pedra) + una (preta), devido a abundância de pedras escuras nesta localidade.

A praça Olinto Leoni na Itabuna de ontem
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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

"Devagar... as janelas olham"

CONTO: Genny Xavier


A JANELA ENCANTADA


Sentia-se entorpecido pela ausência de alguma coisa concreta. O corpo vazio de qualquer busca ou crença. O cotidiano se arrastava com o peso de mil toneladas, lento e miseravelmente patético. A evolução havia lhe preparado alguma alquimia tediosa insuportável. Arrependia-se agora, de ter buscado tantas explicações existenciais ou de ter se perdido nelas cada vez que mergulhava mais e percebia a complexidade do universo. Era o nada, inútil, da terceira visão.
Agora, só lhe restava um pedaço da vida simples que ansiava. Mesmo assim, distante, fazendo o papel de observador anônimo, bisbilhotando a felicidade alheia dos que tomam sorvete, namoram, usam gravata (achando isso o máximo), tomam cerveja ao meio-dia, andam pelas ruas apressados, terrivelmente medrosos ou maravilhosamente cheios de problemas para resolver. Era da janela que observava este universo simplista e fantástico do qual queria fazer parte.
Aos cinqüenta e nove anos, vivendo da aposentadoria, divorciado de um casamento sem filhos, encontrava-se perdido, um homem sem recompensa, vendo a vida escorrer, de súbito, numa pesarosa falta de perspectiva. É claro, tinha a vaidade das pessoas acharem que sua vida era o máximo e do respeito, por vezes, exagerado que nutriam, reflexo de certo sucesso como jornalista. Mas, ultimamente, encarava tudo aquilo com fastio. E, fora dali, da janela no seu posto de observador do cotidiano superficial que descobrira o tempo perdido da profundidade, a solidão do mergulho. A verdadeira existência estava lá fora, pulsando febrilmente nas ruas, como a zombar daqueles que acharam ter fugido da mediocridade. Ele havia pensado assim.
Aquela babá de menino rico passava agora lá do outro lado da rua, empurrando um carrinho azul e rebolando, ao mesmo tempo. Aquela mulher gostosa, certamente era mais feliz que ele, pois sorria com tamanha naturalidade para aqueles que lhe diziam atrevimentos que, por vezes, lá do seu posto de bisbilhoteiro-mor, de voyeur urbano e compulsivo, ficava eufórico achando que a vida era realmente aquela gaiatice sensual. Ah! Se pudesse trazer aquela mulher para a sua cama! Certamente, nem precisava ficar acordado depois do amor, desperdiçando conversa sobre prazer sexual, orgasmo e outras bobagens que as mulheres intelectuais gostam de tagarelar, fumando um cigarro e tomando uísque. Depois do amor, o corpo pede mesmo é o sono dos justos, da dádiva divina de quem se saciou com o néctar do Olimpo. Vez por outra, quando ela passava em seus passeios matinais, olhava para a sua janela como se percebesse as fantasias daquele cinquentão respeitável que a olhava. Então, ela sorria, desdenhosa e atrevida, alimentando o seu ego. Não a chamava por achar ridículo fazer isso naquela altura de sua vida, mas, corroia-se de vontade de ridicularizar-se. Contudo, já era tarde para abdicar da terrível disciplina que construíra para si próprio. O seu universo era marcado pelas coisas que escolhera e que, na juventude, havia achado grandioso e revolucionário. Uma ova! estava ali, da janela, se saciando da vida fácil e difícil dos outros, da vida normal.
Com certeza, ficaria louco de ócio. Doía-lhe constantemente as costas, a cabeça, o estômago. Não eram dores reais, sabia disso, mas não podia controlar a sua neurose inquietante da solidão de apartamento. Estava mais gordo, de tanto beliscar merendas procurando o quê fazer. Podia até tentar o suicídio, mas, se sentia velho demais para agir com tanta emoção. Talvez devesse escrever um livro, como faziam os seus colegas que não conseguiam superar o vício de permanecer sempre com a bunda colada numa cadeira, diante de um micro-computador. Ainda assim, ser escritor não lhe tocava o espírito. Só lhe restava mesmo a concentração do mundinho simples que ele presenciava pela janela. Aquilo, sim, dava-lhe o verdadeiro consolo contra o conflito existencial. Era como se encantar da mesmice diária que ele agora desejava para si ou lamentava ter perdido.
Naquele instante, queria ir ao banheiro, mas não podia deixar de perder o encontro furtivo da mulher loira e muito chique com seu provável, amante musculoso de subúrbio. Ela sempre chegava de táxi, apreensiva e preocupada, em contrapartida à irresponsável despreocupação meio marginal do sujeitinho. Ela, sempre de óculos escuros. Ele, sempre de camiseta de mangas curtas. Conversavam durante alguns minutos, às vezes pareciam até brigar por algum motivo, mas terminavam prédio adentro, que era onde ele morava, bem ali em frente. Ela saia sozinha, umas duas horas depois, de cara feliz, como se tivesse orgulho da sua coragem de enganar um, provável, marido rico. Ah! Mas aquilo não passava de imaginação sua, nem sabia se ela era mesmo casada. Aquilo era apenas o que ele poderia supor, da sua janela.
Depois veio a gorda, na sua diária peregrinação doméstica nas compras do leite e pão. Arrastava lentamente os pés e trazia uma eterna cara infeliz, como as das balconistas de bares rodoviários, aquelas que sabem que a vida não lhes reserva mais nenhuma surpresa cotidiana e tudo não passa de repetição dos mesmos afazeres, do mesmo homem e dos mesmos fins-de-semana com filhos e netos.
Assim passava o dia, diante de sucessivas cenas peculiares. Mergulhado num prazer meio doido de ser testemunha daquele universo factual. Aquela era a sua fuga contra a invasão do tédio. Não sabia ao certo se aquilo iria salvá-lo da loucura ou se o levaria direto ao manicômio. Estava, ao menos, satisfeito por driblar a sonolência rasteira que lhe tomava o espírito. Aquilo sim era o mal. Não queria mais conviver com os livros, teorias, velhos fantasmas, filosofias e ideologias. Havia se apercebido da profunda inutilidade do universo superior que buscava para si.
Naquele instante, ao menos, estava em paz. Poderia ir ao banheiro, tomar banho, beber café solúvel, comer de marmita, sem ligar isso tudo à sua solidão.
Uma paz muita bem controlada, até a próxima batalha...


terça-feira, 18 de agosto de 2009

Meus olhos me espiam por dentro...

PARA O QUE SOU E COMO SOU VISTA

Sou esfera,
Círculo e útero...
Sou menina,
mulher e velha...
Sou folha seca,
jardim perfumado e mata-atlântica...
Sou água,
rio manso e mar bravio...
Sou fogo,
sol na cabeça e brasas nos pés...
Sou terra,
fecunda e feminina...
Sou ar,
brisa e frêmito...

Mas, diante do que sou,
como me vê o mundo?
Como lança seus olhos grandes sobre mim?

Genny Xavier

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Para as reminiscências do tempo...


OS DIAS


Os dias se movem feito o girar dos moinhos de vento,
mas não há medida que justifique suas horas sentidas.
Os dias se bicam feito pássaros em namoro,
e atam o tempo contrário aos devaneios do passado.

Os dias opacos são perigosos,
submergem outros dias, outras horas,
na superfície da memória
e colhem dos sentidos a lembrança doce na boca ávida de doçuras.

Os dias felizes são arriscados,
nos cobram adiante a insipidez do presente,
a dormência sutilmente insegura do agora,
as reminiscências que transformam conchas em símbolos alegres.

Os dias amenos de dolências são saudosistas,
guiam os dedos ao tato de objetos estimados, roupas e miudezas,
aspiram os cheiros emanados do interior de nós
e molham o céu da boca de impressões dos sabores degustados.

Os dias se entrelaçam de sentidos para colher o tempo e suas surpresas.
O que direi do tempo? E do fruto que dele se colhe?
Dias passados...dias de hoje...dias aquém...dias além...
Que outros dias me esperam?

Os dias não se findam em minhas memórias de areia e sal,
se estendem largos diante dos meus olhos que espiam,
se beijam ávidos de beijar
e atam a distância entre as auroras.

E, feito o braço que abriga o corpo em abraço,
os dias aconchegam a longa espera...
Que se possa então suportar os intervalos
e suplantar as noites frias...


Genny Xavier