terça-feira, 1 de setembro de 2009

"A lua move-se lentamente, mas cruza a cidade."


CRÔNICA: Genny Xavier

Vista parcial de uma Itabuna de hoje...quase centenária
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VISÕES DA CIDADE

As vezes olho a minha terra pela fresta da fechadura da minha casa. Itabuna me passa às vistas pelos meus olhos de escritora. É uma visão lírica, como não podia deixar de ser, uma febril visão de tempos que se arrastam pela minha história. Eu sei das ruas onde testemunho a poesia deste meu chão, sei também dos becos que escancaram a sua miséria...meninos de rua, mendigos e loucos. Sei das pontes que vistoriam a trajetória do Cachoeira e suas água, as lavadeiras, os areeiros, os pescadores, a poluição, os peixes que morreram, a Ilha do Jegue que já não existe, a glória e a decadência de um rio. Nesta terra, onde as vezes penso que enterrei o meu coração, a essência do meu sentimento de filha se dilui.
Nunca quis trazer a marca de uma literatura regionalista. O meu canto tem o impulso do universal, da liberdade do discurso que viaja por mil cercanias e toca o sentimento do mundo. A minha fidelidade a este chão está presente neste ar que insisto em respirar daqui, nas aulas de literatura, nos alunos que amo, no meu trabalho, no companheirismo dos meus amigos, que hoje tentam resgatar comigo a identidade artística desta terra. Não importa o tema que é o impulso de quando acho o verso ou tomo o rumo da ficção, importa que estes versos e estas histórias são a desmedida criação de uma mulher que, embora nascida em terras dos sertões desta Bahia grande, de coração e alma se rendeu a esta ITA-NEGRA* cidade, nem sempre mãe, nem sempre santa, tantas vezes madrasta e tantas vezes pagã.
Nada eu tenho contra os que discorrem em sua poesia o apaixonado sentimento desta Itabuna. Nem nada contra as histórias que revivem a saga dos coronéis e as agonias dos trabalhadores rurais – dos índios e negros que construíram este chão. Como nada tenho contra aqueles que existencializaram a criação e percorreram outros vôos pelos caminhos do mundo. Eu posso amar a poesia de Firmino Rocha, Valdelice Pinheiro, Telmo Padilha ou Ruy Povoas, como posso amar a prosa de Hélio Pólvora, Sônia Coutinho, Cyro de Mattos, Jorge Amado e Antonio Naud Júnior; e ainda posso amar Clarice Lispector, Lígia Fagundes Teles, Rachel de Queirós, Hilda Hist, Florbela Espanca, Fernando Pessoa e Virgínia Woolf .
Itabuna é meu referencial, as raízes que formei sob os meus pés, mas o meu coração viajou, seguiu o rastro do sol, não aportou apenas aqui, mas em outras estações.

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* Itabuna – sua etimologia origina-se dos termos em tupi ita (pedra) + una (preta), devido a abundância de pedras escuras nesta localidade.

A praça Olinto Leoni na Itabuna de ontem
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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

"Devagar... as janelas olham"

CONTO: Genny Xavier


A JANELA ENCANTADA


Sentia-se entorpecido pela ausência de alguma coisa concreta. O corpo vazio de qualquer busca ou crença. O cotidiano se arrastava com o peso de mil toneladas, lento e miseravelmente patético. A evolução havia lhe preparado alguma alquimia tediosa insuportável. Arrependia-se agora, de ter buscado tantas explicações existenciais ou de ter se perdido nelas cada vez que mergulhava mais e percebia a complexidade do universo. Era o nada, inútil, da terceira visão.
Agora, só lhe restava um pedaço da vida simples que ansiava. Mesmo assim, distante, fazendo o papel de observador anônimo, bisbilhotando a felicidade alheia dos que tomam sorvete, namoram, usam gravata (achando isso o máximo), tomam cerveja ao meio-dia, andam pelas ruas apressados, terrivelmente medrosos ou maravilhosamente cheios de problemas para resolver. Era da janela que observava este universo simplista e fantástico do qual queria fazer parte.
Aos cinqüenta e nove anos, vivendo da aposentadoria, divorciado de um casamento sem filhos, encontrava-se perdido, um homem sem recompensa, vendo a vida escorrer, de súbito, numa pesarosa falta de perspectiva. É claro, tinha a vaidade das pessoas acharem que sua vida era o máximo e do respeito, por vezes, exagerado que nutriam, reflexo de certo sucesso como jornalista. Mas, ultimamente, encarava tudo aquilo com fastio. E, fora dali, da janela no seu posto de observador do cotidiano superficial que descobrira o tempo perdido da profundidade, a solidão do mergulho. A verdadeira existência estava lá fora, pulsando febrilmente nas ruas, como a zombar daqueles que acharam ter fugido da mediocridade. Ele havia pensado assim.
Aquela babá de menino rico passava agora lá do outro lado da rua, empurrando um carrinho azul e rebolando, ao mesmo tempo. Aquela mulher gostosa, certamente era mais feliz que ele, pois sorria com tamanha naturalidade para aqueles que lhe diziam atrevimentos que, por vezes, lá do seu posto de bisbilhoteiro-mor, de voyeur urbano e compulsivo, ficava eufórico achando que a vida era realmente aquela gaiatice sensual. Ah! Se pudesse trazer aquela mulher para a sua cama! Certamente, nem precisava ficar acordado depois do amor, desperdiçando conversa sobre prazer sexual, orgasmo e outras bobagens que as mulheres intelectuais gostam de tagarelar, fumando um cigarro e tomando uísque. Depois do amor, o corpo pede mesmo é o sono dos justos, da dádiva divina de quem se saciou com o néctar do Olimpo. Vez por outra, quando ela passava em seus passeios matinais, olhava para a sua janela como se percebesse as fantasias daquele cinquentão respeitável que a olhava. Então, ela sorria, desdenhosa e atrevida, alimentando o seu ego. Não a chamava por achar ridículo fazer isso naquela altura de sua vida, mas, corroia-se de vontade de ridicularizar-se. Contudo, já era tarde para abdicar da terrível disciplina que construíra para si próprio. O seu universo era marcado pelas coisas que escolhera e que, na juventude, havia achado grandioso e revolucionário. Uma ova! estava ali, da janela, se saciando da vida fácil e difícil dos outros, da vida normal.
Com certeza, ficaria louco de ócio. Doía-lhe constantemente as costas, a cabeça, o estômago. Não eram dores reais, sabia disso, mas não podia controlar a sua neurose inquietante da solidão de apartamento. Estava mais gordo, de tanto beliscar merendas procurando o quê fazer. Podia até tentar o suicídio, mas, se sentia velho demais para agir com tanta emoção. Talvez devesse escrever um livro, como faziam os seus colegas que não conseguiam superar o vício de permanecer sempre com a bunda colada numa cadeira, diante de um micro-computador. Ainda assim, ser escritor não lhe tocava o espírito. Só lhe restava mesmo a concentração do mundinho simples que ele presenciava pela janela. Aquilo, sim, dava-lhe o verdadeiro consolo contra o conflito existencial. Era como se encantar da mesmice diária que ele agora desejava para si ou lamentava ter perdido.
Naquele instante, queria ir ao banheiro, mas não podia deixar de perder o encontro furtivo da mulher loira e muito chique com seu provável, amante musculoso de subúrbio. Ela sempre chegava de táxi, apreensiva e preocupada, em contrapartida à irresponsável despreocupação meio marginal do sujeitinho. Ela, sempre de óculos escuros. Ele, sempre de camiseta de mangas curtas. Conversavam durante alguns minutos, às vezes pareciam até brigar por algum motivo, mas terminavam prédio adentro, que era onde ele morava, bem ali em frente. Ela saia sozinha, umas duas horas depois, de cara feliz, como se tivesse orgulho da sua coragem de enganar um, provável, marido rico. Ah! Mas aquilo não passava de imaginação sua, nem sabia se ela era mesmo casada. Aquilo era apenas o que ele poderia supor, da sua janela.
Depois veio a gorda, na sua diária peregrinação doméstica nas compras do leite e pão. Arrastava lentamente os pés e trazia uma eterna cara infeliz, como as das balconistas de bares rodoviários, aquelas que sabem que a vida não lhes reserva mais nenhuma surpresa cotidiana e tudo não passa de repetição dos mesmos afazeres, do mesmo homem e dos mesmos fins-de-semana com filhos e netos.
Assim passava o dia, diante de sucessivas cenas peculiares. Mergulhado num prazer meio doido de ser testemunha daquele universo factual. Aquela era a sua fuga contra a invasão do tédio. Não sabia ao certo se aquilo iria salvá-lo da loucura ou se o levaria direto ao manicômio. Estava, ao menos, satisfeito por driblar a sonolência rasteira que lhe tomava o espírito. Aquilo sim era o mal. Não queria mais conviver com os livros, teorias, velhos fantasmas, filosofias e ideologias. Havia se apercebido da profunda inutilidade do universo superior que buscava para si.
Naquele instante, ao menos, estava em paz. Poderia ir ao banheiro, tomar banho, beber café solúvel, comer de marmita, sem ligar isso tudo à sua solidão.
Uma paz muita bem controlada, até a próxima batalha...


terça-feira, 18 de agosto de 2009

Meus olhos me espiam por dentro...

PARA O QUE SOU E COMO SOU VISTA

Sou esfera,
Círculo e útero...
Sou menina,
mulher e velha...
Sou folha seca,
jardim perfumado e mata-atlântica...
Sou água,
rio manso e mar bravio...
Sou fogo,
sol na cabeça e brasas nos pés...
Sou terra,
fecunda e feminina...
Sou ar,
brisa e frêmito...

Mas, diante do que sou,
como me vê o mundo?
Como lança seus olhos grandes sobre mim?

Genny Xavier

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Para as reminiscências do tempo...


OS DIAS


Os dias se movem feito o girar dos moinhos de vento,
mas não há medida que justifique suas horas sentidas.
Os dias se bicam feito pássaros em namoro,
e atam o tempo contrário aos devaneios do passado.

Os dias opacos são perigosos,
submergem outros dias, outras horas,
na superfície da memória
e colhem dos sentidos a lembrança doce na boca ávida de doçuras.

Os dias felizes são arriscados,
nos cobram adiante a insipidez do presente,
a dormência sutilmente insegura do agora,
as reminiscências que transformam conchas em símbolos alegres.

Os dias amenos de dolências são saudosistas,
guiam os dedos ao tato de objetos estimados, roupas e miudezas,
aspiram os cheiros emanados do interior de nós
e molham o céu da boca de impressões dos sabores degustados.

Os dias se entrelaçam de sentidos para colher o tempo e suas surpresas.
O que direi do tempo? E do fruto que dele se colhe?
Dias passados...dias de hoje...dias aquém...dias além...
Que outros dias me esperam?

Os dias não se findam em minhas memórias de areia e sal,
se estendem largos diante dos meus olhos que espiam,
se beijam ávidos de beijar
e atam a distância entre as auroras.

E, feito o braço que abriga o corpo em abraço,
os dias aconchegam a longa espera...
Que se possa então suportar os intervalos
e suplantar as noites frias...


Genny Xavier


quinta-feira, 30 de julho de 2009

"Sonhar é acordar-se para dentro." (Mario Quintana)


OS HUMANOS E SEUS SONHOS


Os santos fazem adormecer os crédulos
que sonham com suas auréolas nas cabeças...
Quando sonham, são como os santos:
belos e bons...
Quando suspiram,
fazem nascer milagres...
Genny Xavier

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A poesia dos dias ensimesmados...

ASAS


O que dizer do tempo
na voragem dos nossos dias?
A vida anda em ondas
e os nossos passos são rotas
traçadas nos calos da dor.

Onde pousaram nossas asas
de seres em que a alma
realiza o vôo?
Não somos a guerra
e ainda não aprendemos com ela.
Somos o conflito
e estes são cogumelos mentais.
O homem procurou estar só
num mundo de mãos vazias...


Genny Xavier

"Asas do Desejo", filme de Win Wenders

segunda-feira, 13 de julho de 2009

"Pensem nas crianças...mudas telepáticas"


Sonidos de la libertad distante

Mí pensamiento a lo lejos
no es la causa de la soledad
que llama a mi puerta...
Mí corazón no tiene flechas
y se adelanta al sabor de las horas nocturnas.
¿Dónde estoy en la causa del tiempo?
¿Dónde se esconden las manos inquietas
que combaten con el frío de las armas
y con la pasión de los suaves toques?
¿Dónde están en mí
los recuerdos de las verdes planicies
por donde yo olía la dulce libertad?
¿Dónde está ahora la libertad de los hombres?
En qué batallas de sangre los niños lloraran su muerte?
Hoy las estrellas brillan
en un cielo particular por dentro de mí
pero en torno
mí ojos apenas contemplan las sombras...
Y mí pensamiento a lo lejos
observa la guerra de los hombres
olvidados de amar.

Genny Xavier

sábado, 11 de julho de 2009

O que nos identifica o novo?


RESENHA: Genny Xavier


HALL, Stuart. “A identidade cultural na pós-modernidade”. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p.67-89.


Stuart Hall nasceu em 3 de fevereiro de 1932 em Kingston, Jamaica. É um teórico cultural que trabalha na Grã-Bretanha desde 1951. Ele contribuiu com obras chave para os estudos da cultura e dos meios de comunicação, assim como para o debate político. O pensamento de Hall passa por convicções democráticas e pela aguçada observação da cena cultural contemporânea.


No livro A identidade cultural na pós-modernidade, Stuart Hall apresenta concepções de identidade que permeiam uma compreensão dos indivíduos em seu tempo e espaço contemporâneo. Inicialmente, sua análise está relacionada ao sujeito do iluminismo, um indivíduo centrado, unificado e dotado de razão e consciência. Prossegue seu estudo relacionando o sujeito sociológico pela manutenção de uma essência cuja identidade é formada pela interação entre o “eu” e a sociedade. E, finalmente, direciona sua análise ao sujeito pós-moderno, cuja identidade está em mutação.
No capítulo 4 da obra , que se intitula “Globalização”, Hall apresenta uma série de pressupostos que nos dão conta das novas formas de representação das sociedades atuais frente a “modernidade” e como as identidades se modulam e se deslocam diante de suas nacionalidades e particularizações de tempo e espaço. A esse complexo de mudanças interacionais ele chama de “globalização”. Para o entendimento dessa questão, o autor referenda conceitos de outros autores como Anthony McGrew, que refere-se a globalização como um fenômeno que atravessa fronteiras nacionais e integra comunidades em novas relações de espaço-tempo, mudando assim o conceito clássico sociológico de que as sociedades são sistemas delimitados por uma ordenação espacial e temporal. Para Hall, esses novos aspectos da modernidade, presentes nestas novas formas de relações, ampliam a idéia de comunicabilidade entre sociedades e de como essas podem interagir entre si, enfatizando desta forma as questões mais relevantes da globalização na modernidade.
Nas abordagens que prevalecem essas novas idéias sobre identidade cultural nas sociedades contemporâneas, ele enfatiza três aspectos básicos: as identidades nacionais se desintegram a partir da homogeneização cultural e do "pós-moderno global"; as identidades sejam nacionais, locais ou particulares, estão sendo reforçadas pela resistência à globalização e as identidades nacionais, apesar do processo de declínio, se transformam em novas identidades híbridas que estão tomando seu lugar.
Ainda no capítulo 4, no item do qual especifica “Compressão tempo-espaço e a identidade”, Hall enfatiza o impacto da globalização sobre as identidades nacionais a partir da aceleração dos processos globais que nos dão conta de como se pode sentir e perceber o mundo pelo encurtamento das distâncias e rapidez na transmissão da informação. Pela globalização e seus processos de inter-comunicação os conceitos que sempre nos foram forjados para o entendimento do mundo estão sendo completamente mudados, modificando nosso olhar espacial e temporal para se atingir o que antes seria inatingível. A pré-modernidade nos dava um sentido de presença localizada, e isso permeava nosso “estar” no mundo. A modernidade supera essa dimensão de espaço e tempo antes pré-determinados pela presença dos indivíduos em suas sociedades, agora penetrados e reestruturados por uma nova ótica das distâncias. Os lugares, embora permaneçam fixos e enraizados em nós, nos dizem que os espaços agora podem ser cruzados num piscar de olhos e em tempo real.
No item intitulado “Em direção ao pós-moderno global”, ainda no capítulo citado, Hall questiona os argumentos de alguns teóricos, como Kenneth Thompson, contrários ao processo de globalização como responsável pelo enfraquecimento das formas nacionais de identidade cultural, provocando a fragmentação dos códigos cultuais, a multiplicidade de estilos com ênfase no efêmero, no flutuante, no impermanente e no pluralismo. Mas o autor aborda que esse processo é crescente, irreversível, nos mostrando um quadro que poderíamos chamar de pós-moderno global, em que este nos dá possibilidades de “identidades partilhadas” e referendam aos estudiosos que nesta nova concepção e prática existencial, onde as culturas nacionais estão mais expostas a influências externas, se torna difícil conservar as identidades culturais intactas ou impedir que estas sejam modificadas pelas relações promovidas por esta nova forma de apreensão do mundo.
É evidente perceber que as questões relevantes desses argumentos e contra-argumentos sobre os efeitos do pós-moderno global se dão pela sempre existente tensão entre “global” e “local”, entre “universalismo” e “particularismo” na transformação das identidades.
No capítulo 5, intitulado “O Global, o Local e o Retorno da Etnia”, Hall examina como a globalização, em suas formas mais recentes, tem um efeito sobre as identidades a partir de novos modos de articulação dos aspectos particulares e universais da identidade ou de novas formas em que estas “tensões” se processam.
Neste capítulo, o autor inicia sua argumentação questionando os possíveis exageros ou as análises simplistas em torno de uma crítica a homogeneização cultural dentro do curso das identidades num mundo pós-moderno. Holl não acredita como provável que a globalização vá simplesmente destruir as identidades nacionais, mas que esta vá produzir novas identificações “globais” e “locais” de forma simultânea. Analisa também mais dois aspectos em que se apóia a crítica à homogeneização cultural dentro do processo globalizante: a desigualdade na distribuição da informação ao redor do globo como uma “geometria do poder” da globalização (na visão de Doreen Massey); e a questão de se ter idéia do que se é mais afetado por ela, frente ao fluxo desequilibrado das relações desiguais de poder cultural entre o Ocidente e o resto do mundo, se fazendo inferir que a globalização, embora por suposição, seja algo que afete o mundo inteiro, seja, por essência, um fenômeno ocidental.
O capítulo 5, dimensiona ainda que embora se defenda a idéia de que o capitalismo global seja hoje uma força transcendente e universalizante, ele é, na verdade, um processo de ocidentalização dos valores e das prioridades do Ocidente. Mas, pela globalização, o Ocidente e as populações “estrangeiras”, tidas como periféricas, são compelidas a uma troca entre seus valores, ainda que dispares. Não se pode defender hoje a idéia de que as sociedades, seja pelos valores do imperialismo ocidental, seja pelos valores distintos do oriente, são fechadas, etnicamente puras, culturalmente tradicionais e intocadas. Percebe-se, claramente, que dentro do processo de pós-modernidade, a globalização mostra seus efeitos em toda parte, seja no Ocidente ou no Oriente.
No item que se intitula “The rest in the west (o resto do ocidente), Holl apresenta três qualificações das três possíveis conseqüências da globalização no que tange à homogeneização das identidades globais: como caminho paralelo que reforça as identidades locais num procedimento de compressão espaço-tempo; como processo desigual que possui sua própria geometria do poder e como veículo que retém aspectos da dominação global do Ocidente, mas que, ainda assim, as identidades culturais conseguem relativizar o impacto da compressão espaço-tempo em toda parte. Para análise desta última questão, coloca o fenômeno crescente da migração em todo mundo, como maior exemplo. Salienta que a recente atuação da interdependência global relaciona sentidos diversos não ordenados que se direcionam no movimento das periferias para o centro das potências ocidentais. Empurrados pelos problemas sociais, políticos e culturais de várias naturezas e instâncias, as populações de pouco poder aquisitivo das várias regiões pobres do mundo apostam no anúncio do consumismo global, migrando para locais economicamente desenvolvidos em busca de melhores chances de vida. A idéias da formação de grupos étnicos minoritários no interior das potências ocidentais provocou uma pluralização de culturas e identidades nacionais.
No último item do capítulo 5, que se intitula “A dialética das identidades”, Holl pressupõe a discussão que dimensiona a questão da identidade nacional e da centralidade cultural do Ocidente. Mostra que num mundo de fronteiras dissolvidas e de valores rompidos por várias influências, não se pode manter conceitos tradicionais imutáveis. Questiona os sentimentos, a problemática e a coerência da condução de uma identidade seja européia, americana ou japonesa integrais, hoje impregnadas pelo imediatismo e pela intensidade das confrontações globais.
Nessa dialética, percebem-se os efeitos desse processo através da ampliação e proliferação de possibilidades que marcam as identidades e suas novas posições. Esses aspectos podem constituir as conseqüências já citadas do processo de globalização: a de que ela possa levar a um fortalecimento de identidades locais ou ao cultivo de novas. Sobre esse fortalecimento das identidades locais, Holl salienta o risco da xenofobia, da exclusão ou do racismo cultural, marcados pelas reações defensivas de grupos étnicos dominantes que se sentem ameaçados por outras culturas. Utiliza também o conceito de deslocamento segundo Laclau e Mouffe, que apontam como estrutura deslocada aquela cujo centro é deslocado sem, no entanto, ser substituído por um outro, mas sim por uma pluralidade de centros de poder. É nesse sentido que a identidade está sendo deslocada ou “descentrada”. E sem um centro estável, além da desarticulação da coerência do passado ou das tradições, há a possibilidade de novas articulações no presente e novas visões de mundo. Ou seja, a criação de novas identidades.
Como resultado conclusivo que, para Holl, também pode ser provisório, a globalização provoca o efeito de contestar e deslocar identidades fechadas ou centradas, pluralizando e produzindo uma série de possibilidades e novas posições de identificações que aludem posições mais políticas, plurais e diversas.

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quarta-feira, 17 de junho de 2009

OS VERSOS SE GUARDAM


SUTIS SEGREDOS



Há um sentido latente
para o beijo não acontecido
que desmorona as intenções
e desfalece a sutilezas.

Há um sentido para alguns perfumes,
aspirados como viagem em segredo
quase voláteis
ao sabor do vento.

Há um motivo imensurável
para se capturar a música invisível
que atravessa caminhos audíveis do corpo
como notas em partituras.

Há um desmanchar de vontades
que reanimam os sonhos
ao morrer da tarde
na derradeira réstia do sol.

Há, sobretudo, o silêncio
da morte crepuscular das horas claras
que salientam os perenes anseios
das noites dos amantes.

Mas agora a noite se foi no lusco-fusco do dia,
soltando o tênue fio da cumplicidade...
Novelo cuidadosamente posto
no baú de coisas guardadas.


Genny Xavier

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Conto: Genny Xavier


VOZES VELADAS... VELUDOSAS VOZES*


Sonhar era mais que dormir e flutuar sob imagens oníricas. Era ouvir em pleno dia aquela voz dentro da cabeça mandando-a criar outros mundos. A voz não se conformava com o cotidiano, queria fazê-la mais importante do que era, não em poder ou dinheiro, mas como centro e protagonista de uma história. A voz a perseguia pelos corredores da casa, dizia que a banalidade não valia nada, que era possível ser personagem, construída para a aventura, para a grandiosidade, para o triunfo certo dos que sonham e fantasiam.
As tarefas eram cada vez mais penosas sempre que a voz a embriagava daquele desejo de ir morar na imaginação. Queimava peças de roupas ao passar, trocava o doce e salgado dos pratos, encharcava as plantas, a se transformava em estátua por horas, vagando entre a fronteira para fora dos olhos ou para dentro deles.
O marido começou a reclamar, o filho também. Não cumpria mais os horários e destruía coisas ao seu redor. Viu-se observada por eles, pela severidade do marido e suspeição do filho. Suas mãos tremiam as vezes, como as dos bêbados que se abstém do álcool. Toda ela tremia quando observada pelos estranhos olhos que a estranhavam. Era como ficar exposta no gancho do frigorífico, sujeita à avaliação de suas qualidades ideais ou da ausência delas, as vezes a total ausência delas.
Aprisionara por anos aquela voz, mantida nalguma cela insonora do seu corpo, com todos aqueles recursos do não-ouvir. Suspeitava que ela lhe trouxesse problemas de ordem prática porque aquela voz era perigosa à lógica do real. Quem dela se achegasse descobriria seus tiques para ouvi-la e isso seria demais para os sentidos da normalidade das pessoas. Aprendeu muitos truques para guardá-la a sete chaves quando seus apelos impositores eram quase irrefreáveis. Fora um aprendizado tortuoso, regado ao tom de sua estranheza, tomado de uma constante vigília, sobressaltado de temores, conduzido pela sua tentativa de ser perspicaz e de fazer-se tranqüila como se não houvessem sons perturbadores em volta de si.
Mas, enfim, aquele era um tempo em que havia perdido o controle. Talvez tivesse dela se apropriado o espírito curioso de Pandora. A voz lhe atraia para seu interior como se tivesse cansada de não ter sua companhia de ouvinte. A voz era agora exigente demais para dominá-la ou para camuflar seus apelos. Talvez ela também estivesse cansada da resistência. Resistir lhe causava dores de cabeça terríveis e os analgésicos nem mais faziam efeito.
Esconder das pessoas sobre as vozes também era difícil. Desde menina escondia dos outros a percepção daquela sua excentricidade. Foi muito confuso quando percebeu que somente ela as ouvia. A criança pequena que fora se assustou muito quando tomou consciência de que a altura medonha das vozes era totalmente insonora para quem quer que estivesse perto dela. Então compreendeu que mesmo não sendo louca as pessoas poderiam pensar que fosse por isso camuflou bem seu dom. Todos sempre a julgaram tímida e introspectiva, uma criança calada, uma adolescente circunspeta. Julga-la louca seria muito fácil para os outros, dada suas atitudes e estranhezas.
Houve um tempo, em sua juventude que caminhava pelos idos dos 20 anos em que resolveu ignorar as vozes. Precisava se sentir como as outras jovens da sua idade. Passou a gostar de música e a ouvi-las em tom alto, em ritmo frenético. Freqüentava as boates de sua cidade. Nas pistas de dança fechava os olhos para se deixar tomar pelos sons vibrantes, de altas freqüências de mega bytes. Sabia como driblar o som surdo das vozes dentro dela, a música era muito boa para isso.
Nesta mesma época de música alta dentro dos seus ouvidos conhecera o homem que hoje dividia com ela casa e cama, filho e animais domésticos. Conheceram-se numa pista de dança, enquanto ela dançava e dançava embriagada pela música. Certa noite ele lhe confessou o quanto ficou seduzido pela sua total concentração musical, enquanto o seu corpo acompanhava o ritmo explosivo da canção.
Assim, ela descobriu mais uma maneira de abafar suas vozes interiores, uma maneira de não perceber aquele solilóquio imperativo dentro dela. Essa maneira chegou pela ocupação de coisas em sua vida. Namoro, sexo, trupes de amigos, festas animadas, trabalhos ocasionais, decisão de casamento, providências a serem tomadas, vida a dois, um filho, cotidiano sempre preenchido pelos afazeres, afazeres, afazeres... Os sucessivos acontecimentos eram compensadores contra as sempre investidas da vontade de se deixar abrir a guarda para que as vozes tomassem sua cabeça de novo. Era preciso ferver os dias com ações concretas, que exigissem dela o máximo de ocupação. Então, não daria corda aos ouvidos para ouvir as vozes, era preciso aquele controle exaustivo, deixa-las lá, na mais profunda sala de vedação sonora do seu cérebro. Era preciso o controle de tudo, como não esquecer os remédios para as dores de cabeça, como não esquecer de fazer as coisas, como não esquecer de ouvir música, como não esquecer de evitar os tiques, os zumbidos e a vontade poderosa da sua cabeça.
Mas, com os anos foi percebendo seus inúteis esforços não reconhecidos por ninguém. Que mérito havia tido por esconder dos outros aquilo que era? O que sentia? O que ouvia? Não havia conseguido ser visível para ninguém. O casamento se arrastava no tédio que o marido sentia por nunca tê-la inteira, feliz e calma. Não era mais a jovem excêntrica que o havia seduzido numa pista de dança. O tempo se ocupou de torná-la um incômodo estranho para o homem que a desconhecia. Como também para o filho que pela infância perceptiva sentia uma mãe distante, escondendo-se em devaneios enquanto lhe preparava o lanche ou o levava para a escola. Não era uma mãe como as outras, o filho bem sabia disso em silêncio e se deixava mostrar isso quando a olhava.
No terraço da casa agora passava horas olhando tudo do alto. Os telhados das casas, o desenho íngreme das ruas, os fios elétricos que as vezes abrigavam o pouso de pássaros, o céu estampado diante de si e a silhueta do mar tão perto, fazendo o horizonte se confundir entre os dois. Os momentos livres traziam seus passos para o refúgio insólito do silêncio, pois ali ela poderia ouvir com liberdade tudo aquilo que lhe era negado pela cobrança dos normais. Não desejava mais lutar. Era mais leve ouvir e ouvir, era mais leve dançar e girar diante das estrelas e diante da lua.
Então, numa noite de verão e lua enorme, aspirando os perfumes do mar, tomando o mundo ao seu redor, ouviu o chamado da lua. Mas que lua a chamava? Aquela estática no céu azul-escuro? Aquela trêmula no mar reluzente de prata e grãos de areia? Que voz lunar retumbava seu desvario noturno? Os ouvidos pregavam uma peça, os sentidos faziam troça. Havia delírio ou música? Havia loucura ou poesia?


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

Era preciso mais nitidez, necessitava daquela certeza de sons trazidos pela claridade estonteante da bola mágica do céu. Se pudesse sonhar, se pudesse voar, se pudesse chegar perto, escutar claramente sua voz. Os olhos perscrutavam, corriam para mar e para o tapete intangível do firmamento. Que lua exigia seus reflexos, que lua clamava por seus ouvidos sensíveis demais? Aquela que ora se desmanchava ao balanço das ondas? Aquela que ora permanecia no colossal universo, quieta para os seus olhos?
Seu corpo transpirava, escorria seus suores na vertigem do verão. Não havia liberdade nas vestes, não havia desapego nem entrega quando se cobria de panos. Precisava ser livre para ouvir, dispensar os apetrechos, jogar fora os adornos, despir-se, enfrentar a nudez inteira para banhar-se de luz.


No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

Havia então, na plenitude da sua nudez, uma força que lhe empurrava. As pessoas provavelmente não a compreenderiam. Ali, no cume do mundo, no terraço da sua casa em frente ao mar, ninguém a compreenderia nua, nem a escutar o chamado da lua, nem a desejar ir ao seu encontro. Sons de violões chegavam das ruas, era bom deixar que eles embalassem seu canto. Cantava baixinho para a lua, ainda tentando esconder dos outros o confronto com seus segredos. Camuflar a propagação dos sons sempre fora o que fizera em sua vida, mas naquele momento, embora cantasse baixo, a música ressoava límpida em seus ouvidos, sua voz dava vida as melodias dos violões das ruas.

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

Quando criança, achava que a vozes vinham dos anjos. Imaginava que talvez ela fosse um deles, caída na terra por descuido; que a vozes eram sinais de comunicação dos seus irmãos. Passava horas contemplando o céu, aguçando os ouvidos, esperando que os anjos soprassem suas vozes dentro da sua cabeça; que eles a chamassem de volta ao mundo dos anjos. As vozes eram macias, nos seus sentidos de criança, as sentia como sons táteis, como vozes de veludo, como melodias em que se pudessem percorrer os dedos e sentir sua maciez. Naquele momento do presente de sua vida se sentia como a criança de antes, a julgar-se anjo, sentindo a maciez das vozes de veludo dos outros anjos, seus iguais. Sentia-se livre, finalmente entregue a sua angelical condição de voar para onde seria a morada dos anjos...talvez longe, no coração da lua, tão trêmula no mar e tão serena no céu.

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...


Talvez não tenha sido surpresa para o marido a notícia de que sua esposa havia se jogado do terraço da casa completamente nua. Talvez ele tenha compreendido seu ato quando encontrou entre as coisas da mulher um livro de poemas marcado numa página com o título “Ismália”. Os versos lhe pareceram algo como um bilhete de despedida da companheira, seu último esforço para que ele a entendesse. Ela fora a mulher enigmática que o surpreendera desde o momento em que a viu pela primeira vez. Mas ele havia pretendido desvendar seus segredos como companheiro ou amante e não havia conseguido. Não fora suficiente tornar-se seu marido, pai do seu filho, ter-lhe dado uma casa bonita em frente ao mar. Nada disso fora suficiente, como se não fosse exatamente isso que ela esperasse dele, como se não fosse possível ele compreender a transcendência dos olhos dela e, assim, com o tempo, tenham os dois desistido disso tudo: Da ânsia dela em ser compreendida e da angústia dele em não compreendê-la.
Havia agora certa linha de passiva compreensão dele para com o último gesto da esposa silenciosa dos últimos tempos. Como se os versos do poeta desvendassem os sonhos e desejos finalmente satisfeitos dela. O cheiro do mar invadia suas narinas, ele olhava para as águas, além das ondas; olhava o céu, além das nuvens e se sentia capaz de compreendê-la finalmente, como se fosse possível enxergá-la no momento em que seu corpo caiu ao mar e sua alma alada subiu ao céu de volta para casa...casa? onde seria? Quem sabe lá na lua, aquela que a havia levado.

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...**


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* Verso do poema “Violões que choram”, de Cruz e Sousa.

** Poema “Ismália”, de Alphonsus Guimaraens.