quinta-feira, 30 de julho de 2009

"Sonhar é acordar-se para dentro." (Mario Quintana)


OS HUMANOS E SEUS SONHOS


Os santos fazem adormecer os crédulos
que sonham com suas auréolas nas cabeças...
Quando sonham, são como os santos:
belos e bons...
Quando suspiram,
fazem nascer milagres...
Genny Xavier

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A poesia dos dias ensimesmados...

ASAS


O que dizer do tempo
na voragem dos nossos dias?
A vida anda em ondas
e os nossos passos são rotas
traçadas nos calos da dor.

Onde pousaram nossas asas
de seres em que a alma
realiza o vôo?
Não somos a guerra
e ainda não aprendemos com ela.
Somos o conflito
e estes são cogumelos mentais.
O homem procurou estar só
num mundo de mãos vazias...


Genny Xavier

"Asas do Desejo", filme de Win Wenders

segunda-feira, 13 de julho de 2009

"Pensem nas crianças...mudas telepáticas"


Sonidos de la libertad distante

Mí pensamiento a lo lejos
no es la causa de la soledad
que llama a mi puerta...
Mí corazón no tiene flechas
y se adelanta al sabor de las horas nocturnas.
¿Dónde estoy en la causa del tiempo?
¿Dónde se esconden las manos inquietas
que combaten con el frío de las armas
y con la pasión de los suaves toques?
¿Dónde están en mí
los recuerdos de las verdes planicies
por donde yo olía la dulce libertad?
¿Dónde está ahora la libertad de los hombres?
En qué batallas de sangre los niños lloraran su muerte?
Hoy las estrellas brillan
en un cielo particular por dentro de mí
pero en torno
mí ojos apenas contemplan las sombras...
Y mí pensamiento a lo lejos
observa la guerra de los hombres
olvidados de amar.

Genny Xavier

sábado, 11 de julho de 2009

O que nos identifica o novo?


RESENHA: Genny Xavier


HALL, Stuart. “A identidade cultural na pós-modernidade”. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p.67-89.


Stuart Hall nasceu em 3 de fevereiro de 1932 em Kingston, Jamaica. É um teórico cultural que trabalha na Grã-Bretanha desde 1951. Ele contribuiu com obras chave para os estudos da cultura e dos meios de comunicação, assim como para o debate político. O pensamento de Hall passa por convicções democráticas e pela aguçada observação da cena cultural contemporânea.


No livro A identidade cultural na pós-modernidade, Stuart Hall apresenta concepções de identidade que permeiam uma compreensão dos indivíduos em seu tempo e espaço contemporâneo. Inicialmente, sua análise está relacionada ao sujeito do iluminismo, um indivíduo centrado, unificado e dotado de razão e consciência. Prossegue seu estudo relacionando o sujeito sociológico pela manutenção de uma essência cuja identidade é formada pela interação entre o “eu” e a sociedade. E, finalmente, direciona sua análise ao sujeito pós-moderno, cuja identidade está em mutação.
No capítulo 4 da obra , que se intitula “Globalização”, Hall apresenta uma série de pressupostos que nos dão conta das novas formas de representação das sociedades atuais frente a “modernidade” e como as identidades se modulam e se deslocam diante de suas nacionalidades e particularizações de tempo e espaço. A esse complexo de mudanças interacionais ele chama de “globalização”. Para o entendimento dessa questão, o autor referenda conceitos de outros autores como Anthony McGrew, que refere-se a globalização como um fenômeno que atravessa fronteiras nacionais e integra comunidades em novas relações de espaço-tempo, mudando assim o conceito clássico sociológico de que as sociedades são sistemas delimitados por uma ordenação espacial e temporal. Para Hall, esses novos aspectos da modernidade, presentes nestas novas formas de relações, ampliam a idéia de comunicabilidade entre sociedades e de como essas podem interagir entre si, enfatizando desta forma as questões mais relevantes da globalização na modernidade.
Nas abordagens que prevalecem essas novas idéias sobre identidade cultural nas sociedades contemporâneas, ele enfatiza três aspectos básicos: as identidades nacionais se desintegram a partir da homogeneização cultural e do "pós-moderno global"; as identidades sejam nacionais, locais ou particulares, estão sendo reforçadas pela resistência à globalização e as identidades nacionais, apesar do processo de declínio, se transformam em novas identidades híbridas que estão tomando seu lugar.
Ainda no capítulo 4, no item do qual especifica “Compressão tempo-espaço e a identidade”, Hall enfatiza o impacto da globalização sobre as identidades nacionais a partir da aceleração dos processos globais que nos dão conta de como se pode sentir e perceber o mundo pelo encurtamento das distâncias e rapidez na transmissão da informação. Pela globalização e seus processos de inter-comunicação os conceitos que sempre nos foram forjados para o entendimento do mundo estão sendo completamente mudados, modificando nosso olhar espacial e temporal para se atingir o que antes seria inatingível. A pré-modernidade nos dava um sentido de presença localizada, e isso permeava nosso “estar” no mundo. A modernidade supera essa dimensão de espaço e tempo antes pré-determinados pela presença dos indivíduos em suas sociedades, agora penetrados e reestruturados por uma nova ótica das distâncias. Os lugares, embora permaneçam fixos e enraizados em nós, nos dizem que os espaços agora podem ser cruzados num piscar de olhos e em tempo real.
No item intitulado “Em direção ao pós-moderno global”, ainda no capítulo citado, Hall questiona os argumentos de alguns teóricos, como Kenneth Thompson, contrários ao processo de globalização como responsável pelo enfraquecimento das formas nacionais de identidade cultural, provocando a fragmentação dos códigos cultuais, a multiplicidade de estilos com ênfase no efêmero, no flutuante, no impermanente e no pluralismo. Mas o autor aborda que esse processo é crescente, irreversível, nos mostrando um quadro que poderíamos chamar de pós-moderno global, em que este nos dá possibilidades de “identidades partilhadas” e referendam aos estudiosos que nesta nova concepção e prática existencial, onde as culturas nacionais estão mais expostas a influências externas, se torna difícil conservar as identidades culturais intactas ou impedir que estas sejam modificadas pelas relações promovidas por esta nova forma de apreensão do mundo.
É evidente perceber que as questões relevantes desses argumentos e contra-argumentos sobre os efeitos do pós-moderno global se dão pela sempre existente tensão entre “global” e “local”, entre “universalismo” e “particularismo” na transformação das identidades.
No capítulo 5, intitulado “O Global, o Local e o Retorno da Etnia”, Hall examina como a globalização, em suas formas mais recentes, tem um efeito sobre as identidades a partir de novos modos de articulação dos aspectos particulares e universais da identidade ou de novas formas em que estas “tensões” se processam.
Neste capítulo, o autor inicia sua argumentação questionando os possíveis exageros ou as análises simplistas em torno de uma crítica a homogeneização cultural dentro do curso das identidades num mundo pós-moderno. Holl não acredita como provável que a globalização vá simplesmente destruir as identidades nacionais, mas que esta vá produzir novas identificações “globais” e “locais” de forma simultânea. Analisa também mais dois aspectos em que se apóia a crítica à homogeneização cultural dentro do processo globalizante: a desigualdade na distribuição da informação ao redor do globo como uma “geometria do poder” da globalização (na visão de Doreen Massey); e a questão de se ter idéia do que se é mais afetado por ela, frente ao fluxo desequilibrado das relações desiguais de poder cultural entre o Ocidente e o resto do mundo, se fazendo inferir que a globalização, embora por suposição, seja algo que afete o mundo inteiro, seja, por essência, um fenômeno ocidental.
O capítulo 5, dimensiona ainda que embora se defenda a idéia de que o capitalismo global seja hoje uma força transcendente e universalizante, ele é, na verdade, um processo de ocidentalização dos valores e das prioridades do Ocidente. Mas, pela globalização, o Ocidente e as populações “estrangeiras”, tidas como periféricas, são compelidas a uma troca entre seus valores, ainda que dispares. Não se pode defender hoje a idéia de que as sociedades, seja pelos valores do imperialismo ocidental, seja pelos valores distintos do oriente, são fechadas, etnicamente puras, culturalmente tradicionais e intocadas. Percebe-se, claramente, que dentro do processo de pós-modernidade, a globalização mostra seus efeitos em toda parte, seja no Ocidente ou no Oriente.
No item que se intitula “The rest in the west (o resto do ocidente), Holl apresenta três qualificações das três possíveis conseqüências da globalização no que tange à homogeneização das identidades globais: como caminho paralelo que reforça as identidades locais num procedimento de compressão espaço-tempo; como processo desigual que possui sua própria geometria do poder e como veículo que retém aspectos da dominação global do Ocidente, mas que, ainda assim, as identidades culturais conseguem relativizar o impacto da compressão espaço-tempo em toda parte. Para análise desta última questão, coloca o fenômeno crescente da migração em todo mundo, como maior exemplo. Salienta que a recente atuação da interdependência global relaciona sentidos diversos não ordenados que se direcionam no movimento das periferias para o centro das potências ocidentais. Empurrados pelos problemas sociais, políticos e culturais de várias naturezas e instâncias, as populações de pouco poder aquisitivo das várias regiões pobres do mundo apostam no anúncio do consumismo global, migrando para locais economicamente desenvolvidos em busca de melhores chances de vida. A idéias da formação de grupos étnicos minoritários no interior das potências ocidentais provocou uma pluralização de culturas e identidades nacionais.
No último item do capítulo 5, que se intitula “A dialética das identidades”, Holl pressupõe a discussão que dimensiona a questão da identidade nacional e da centralidade cultural do Ocidente. Mostra que num mundo de fronteiras dissolvidas e de valores rompidos por várias influências, não se pode manter conceitos tradicionais imutáveis. Questiona os sentimentos, a problemática e a coerência da condução de uma identidade seja européia, americana ou japonesa integrais, hoje impregnadas pelo imediatismo e pela intensidade das confrontações globais.
Nessa dialética, percebem-se os efeitos desse processo através da ampliação e proliferação de possibilidades que marcam as identidades e suas novas posições. Esses aspectos podem constituir as conseqüências já citadas do processo de globalização: a de que ela possa levar a um fortalecimento de identidades locais ou ao cultivo de novas. Sobre esse fortalecimento das identidades locais, Holl salienta o risco da xenofobia, da exclusão ou do racismo cultural, marcados pelas reações defensivas de grupos étnicos dominantes que se sentem ameaçados por outras culturas. Utiliza também o conceito de deslocamento segundo Laclau e Mouffe, que apontam como estrutura deslocada aquela cujo centro é deslocado sem, no entanto, ser substituído por um outro, mas sim por uma pluralidade de centros de poder. É nesse sentido que a identidade está sendo deslocada ou “descentrada”. E sem um centro estável, além da desarticulação da coerência do passado ou das tradições, há a possibilidade de novas articulações no presente e novas visões de mundo. Ou seja, a criação de novas identidades.
Como resultado conclusivo que, para Holl, também pode ser provisório, a globalização provoca o efeito de contestar e deslocar identidades fechadas ou centradas, pluralizando e produzindo uma série de possibilidades e novas posições de identificações que aludem posições mais políticas, plurais e diversas.

_________________________________________________


quarta-feira, 17 de junho de 2009

OS VERSOS SE GUARDAM


SUTIS SEGREDOS



Há um sentido latente
para o beijo não acontecido
que desmorona as intenções
e desfalece a sutilezas.

Há um sentido para alguns perfumes,
aspirados como viagem em segredo
quase voláteis
ao sabor do vento.

Há um motivo imensurável
para se capturar a música invisível
que atravessa caminhos audíveis do corpo
como notas em partituras.

Há um desmanchar de vontades
que reanimam os sonhos
ao morrer da tarde
na derradeira réstia do sol.

Há, sobretudo, o silêncio
da morte crepuscular das horas claras
que salientam os perenes anseios
das noites dos amantes.

Mas agora a noite se foi no lusco-fusco do dia,
soltando o tênue fio da cumplicidade...
Novelo cuidadosamente posto
no baú de coisas guardadas.


Genny Xavier

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Conto: Genny Xavier


VOZES VELADAS... VELUDOSAS VOZES*


Sonhar era mais que dormir e flutuar sob imagens oníricas. Era ouvir em pleno dia aquela voz dentro da cabeça mandando-a criar outros mundos. A voz não se conformava com o cotidiano, queria fazê-la mais importante do que era, não em poder ou dinheiro, mas como centro e protagonista de uma história. A voz a perseguia pelos corredores da casa, dizia que a banalidade não valia nada, que era possível ser personagem, construída para a aventura, para a grandiosidade, para o triunfo certo dos que sonham e fantasiam.
As tarefas eram cada vez mais penosas sempre que a voz a embriagava daquele desejo de ir morar na imaginação. Queimava peças de roupas ao passar, trocava o doce e salgado dos pratos, encharcava as plantas, a se transformava em estátua por horas, vagando entre a fronteira para fora dos olhos ou para dentro deles.
O marido começou a reclamar, o filho também. Não cumpria mais os horários e destruía coisas ao seu redor. Viu-se observada por eles, pela severidade do marido e suspeição do filho. Suas mãos tremiam as vezes, como as dos bêbados que se abstém do álcool. Toda ela tremia quando observada pelos estranhos olhos que a estranhavam. Era como ficar exposta no gancho do frigorífico, sujeita à avaliação de suas qualidades ideais ou da ausência delas, as vezes a total ausência delas.
Aprisionara por anos aquela voz, mantida nalguma cela insonora do seu corpo, com todos aqueles recursos do não-ouvir. Suspeitava que ela lhe trouxesse problemas de ordem prática porque aquela voz era perigosa à lógica do real. Quem dela se achegasse descobriria seus tiques para ouvi-la e isso seria demais para os sentidos da normalidade das pessoas. Aprendeu muitos truques para guardá-la a sete chaves quando seus apelos impositores eram quase irrefreáveis. Fora um aprendizado tortuoso, regado ao tom de sua estranheza, tomado de uma constante vigília, sobressaltado de temores, conduzido pela sua tentativa de ser perspicaz e de fazer-se tranqüila como se não houvessem sons perturbadores em volta de si.
Mas, enfim, aquele era um tempo em que havia perdido o controle. Talvez tivesse dela se apropriado o espírito curioso de Pandora. A voz lhe atraia para seu interior como se tivesse cansada de não ter sua companhia de ouvinte. A voz era agora exigente demais para dominá-la ou para camuflar seus apelos. Talvez ela também estivesse cansada da resistência. Resistir lhe causava dores de cabeça terríveis e os analgésicos nem mais faziam efeito.
Esconder das pessoas sobre as vozes também era difícil. Desde menina escondia dos outros a percepção daquela sua excentricidade. Foi muito confuso quando percebeu que somente ela as ouvia. A criança pequena que fora se assustou muito quando tomou consciência de que a altura medonha das vozes era totalmente insonora para quem quer que estivesse perto dela. Então compreendeu que mesmo não sendo louca as pessoas poderiam pensar que fosse por isso camuflou bem seu dom. Todos sempre a julgaram tímida e introspectiva, uma criança calada, uma adolescente circunspeta. Julga-la louca seria muito fácil para os outros, dada suas atitudes e estranhezas.
Houve um tempo, em sua juventude que caminhava pelos idos dos 20 anos em que resolveu ignorar as vozes. Precisava se sentir como as outras jovens da sua idade. Passou a gostar de música e a ouvi-las em tom alto, em ritmo frenético. Freqüentava as boates de sua cidade. Nas pistas de dança fechava os olhos para se deixar tomar pelos sons vibrantes, de altas freqüências de mega bytes. Sabia como driblar o som surdo das vozes dentro dela, a música era muito boa para isso.
Nesta mesma época de música alta dentro dos seus ouvidos conhecera o homem que hoje dividia com ela casa e cama, filho e animais domésticos. Conheceram-se numa pista de dança, enquanto ela dançava e dançava embriagada pela música. Certa noite ele lhe confessou o quanto ficou seduzido pela sua total concentração musical, enquanto o seu corpo acompanhava o ritmo explosivo da canção.
Assim, ela descobriu mais uma maneira de abafar suas vozes interiores, uma maneira de não perceber aquele solilóquio imperativo dentro dela. Essa maneira chegou pela ocupação de coisas em sua vida. Namoro, sexo, trupes de amigos, festas animadas, trabalhos ocasionais, decisão de casamento, providências a serem tomadas, vida a dois, um filho, cotidiano sempre preenchido pelos afazeres, afazeres, afazeres... Os sucessivos acontecimentos eram compensadores contra as sempre investidas da vontade de se deixar abrir a guarda para que as vozes tomassem sua cabeça de novo. Era preciso ferver os dias com ações concretas, que exigissem dela o máximo de ocupação. Então, não daria corda aos ouvidos para ouvir as vozes, era preciso aquele controle exaustivo, deixa-las lá, na mais profunda sala de vedação sonora do seu cérebro. Era preciso o controle de tudo, como não esquecer os remédios para as dores de cabeça, como não esquecer de fazer as coisas, como não esquecer de ouvir música, como não esquecer de evitar os tiques, os zumbidos e a vontade poderosa da sua cabeça.
Mas, com os anos foi percebendo seus inúteis esforços não reconhecidos por ninguém. Que mérito havia tido por esconder dos outros aquilo que era? O que sentia? O que ouvia? Não havia conseguido ser visível para ninguém. O casamento se arrastava no tédio que o marido sentia por nunca tê-la inteira, feliz e calma. Não era mais a jovem excêntrica que o havia seduzido numa pista de dança. O tempo se ocupou de torná-la um incômodo estranho para o homem que a desconhecia. Como também para o filho que pela infância perceptiva sentia uma mãe distante, escondendo-se em devaneios enquanto lhe preparava o lanche ou o levava para a escola. Não era uma mãe como as outras, o filho bem sabia disso em silêncio e se deixava mostrar isso quando a olhava.
No terraço da casa agora passava horas olhando tudo do alto. Os telhados das casas, o desenho íngreme das ruas, os fios elétricos que as vezes abrigavam o pouso de pássaros, o céu estampado diante de si e a silhueta do mar tão perto, fazendo o horizonte se confundir entre os dois. Os momentos livres traziam seus passos para o refúgio insólito do silêncio, pois ali ela poderia ouvir com liberdade tudo aquilo que lhe era negado pela cobrança dos normais. Não desejava mais lutar. Era mais leve ouvir e ouvir, era mais leve dançar e girar diante das estrelas e diante da lua.
Então, numa noite de verão e lua enorme, aspirando os perfumes do mar, tomando o mundo ao seu redor, ouviu o chamado da lua. Mas que lua a chamava? Aquela estática no céu azul-escuro? Aquela trêmula no mar reluzente de prata e grãos de areia? Que voz lunar retumbava seu desvario noturno? Os ouvidos pregavam uma peça, os sentidos faziam troça. Havia delírio ou música? Havia loucura ou poesia?


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

Era preciso mais nitidez, necessitava daquela certeza de sons trazidos pela claridade estonteante da bola mágica do céu. Se pudesse sonhar, se pudesse voar, se pudesse chegar perto, escutar claramente sua voz. Os olhos perscrutavam, corriam para mar e para o tapete intangível do firmamento. Que lua exigia seus reflexos, que lua clamava por seus ouvidos sensíveis demais? Aquela que ora se desmanchava ao balanço das ondas? Aquela que ora permanecia no colossal universo, quieta para os seus olhos?
Seu corpo transpirava, escorria seus suores na vertigem do verão. Não havia liberdade nas vestes, não havia desapego nem entrega quando se cobria de panos. Precisava ser livre para ouvir, dispensar os apetrechos, jogar fora os adornos, despir-se, enfrentar a nudez inteira para banhar-se de luz.


No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

Havia então, na plenitude da sua nudez, uma força que lhe empurrava. As pessoas provavelmente não a compreenderiam. Ali, no cume do mundo, no terraço da sua casa em frente ao mar, ninguém a compreenderia nua, nem a escutar o chamado da lua, nem a desejar ir ao seu encontro. Sons de violões chegavam das ruas, era bom deixar que eles embalassem seu canto. Cantava baixinho para a lua, ainda tentando esconder dos outros o confronto com seus segredos. Camuflar a propagação dos sons sempre fora o que fizera em sua vida, mas naquele momento, embora cantasse baixo, a música ressoava límpida em seus ouvidos, sua voz dava vida as melodias dos violões das ruas.

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

Quando criança, achava que a vozes vinham dos anjos. Imaginava que talvez ela fosse um deles, caída na terra por descuido; que a vozes eram sinais de comunicação dos seus irmãos. Passava horas contemplando o céu, aguçando os ouvidos, esperando que os anjos soprassem suas vozes dentro da sua cabeça; que eles a chamassem de volta ao mundo dos anjos. As vozes eram macias, nos seus sentidos de criança, as sentia como sons táteis, como vozes de veludo, como melodias em que se pudessem percorrer os dedos e sentir sua maciez. Naquele momento do presente de sua vida se sentia como a criança de antes, a julgar-se anjo, sentindo a maciez das vozes de veludo dos outros anjos, seus iguais. Sentia-se livre, finalmente entregue a sua angelical condição de voar para onde seria a morada dos anjos...talvez longe, no coração da lua, tão trêmula no mar e tão serena no céu.

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...


Talvez não tenha sido surpresa para o marido a notícia de que sua esposa havia se jogado do terraço da casa completamente nua. Talvez ele tenha compreendido seu ato quando encontrou entre as coisas da mulher um livro de poemas marcado numa página com o título “Ismália”. Os versos lhe pareceram algo como um bilhete de despedida da companheira, seu último esforço para que ele a entendesse. Ela fora a mulher enigmática que o surpreendera desde o momento em que a viu pela primeira vez. Mas ele havia pretendido desvendar seus segredos como companheiro ou amante e não havia conseguido. Não fora suficiente tornar-se seu marido, pai do seu filho, ter-lhe dado uma casa bonita em frente ao mar. Nada disso fora suficiente, como se não fosse exatamente isso que ela esperasse dele, como se não fosse possível ele compreender a transcendência dos olhos dela e, assim, com o tempo, tenham os dois desistido disso tudo: Da ânsia dela em ser compreendida e da angústia dele em não compreendê-la.
Havia agora certa linha de passiva compreensão dele para com o último gesto da esposa silenciosa dos últimos tempos. Como se os versos do poeta desvendassem os sonhos e desejos finalmente satisfeitos dela. O cheiro do mar invadia suas narinas, ele olhava para as águas, além das ondas; olhava o céu, além das nuvens e se sentia capaz de compreendê-la finalmente, como se fosse possível enxergá-la no momento em que seu corpo caiu ao mar e sua alma alada subiu ao céu de volta para casa...casa? onde seria? Quem sabe lá na lua, aquela que a havia levado.

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...**


__________________________________________________
* Verso do poema “Violões que choram”, de Cruz e Sousa.

** Poema “Ismália”, de Alphonsus Guimaraens.

terça-feira, 26 de maio de 2009

PALAVRA: UM RITO


PALAVRA


Palavra
novelo de lã
que trança o dito
e o não-dito.
Palavra
colméia de letras
doce mel
que adoça o gosto.
Palavra
duelo de facas
lâmina afiada
corte seco.
Palavra
primeiro verbo
na cepa fecunda
do útero da boca
.
Genny Xavier


quarta-feira, 8 de abril de 2009


CRÔNICA: Genny Xavier

AS AFINIDADES DIVERSAS


“Desengavetando expressões, um mundo novo de caras e formas ganha corpo aos olhos e sentidos daqueles que devoram bem mais do que a si mesmos. Seja em palavras, imagens e outros tantos signos, a cultura fascina por suas proporções ilimitadas. Entre caminhos e palavras, a vida pulsa nas revelações urgentes da alma.”

(Entrelinhas. Revista Eletrônica Diversos Afins)


Nas inúmeras reminiscências das minhas noites insones, vezes os meus pensamentos permitem sentidos imensuráveis sobre minha condição simultânea de artista da palavra e de, antropofagicamente, devoradora delas. Eu agora me refiro a isto: a minha condição de criar e ler, ao meu impulso necessário e visceral de escrever ao tempo em que as leituras me despertam e dão vida ao meu amor desmedido pela literatura.
Nesta ponte entre as leituras e minhas escrituras eu busco afinidades diversas, daqueles que escrevem e daqueles que me lêem; daqueles que no fazer das coisas constroem sintonias traçadas pelo viés da palavra escrita ou lida; daqueles afins ao meu universo, ao eu-lírico do meu ser, ao olhar inquieto da minha alma; daqueles com quem meu espírito devaneia como meu amigo-poeta de transcendências, Sérgio Brandão; daqueles com quem minha observação pelos fatos sutis, profundos e surpreendentes da vida farejam histórias e fazem nascer personagens reais ou surreais, como o meu parceiro do contínuo tempo dos encantos literários, o escritor Antonio Naud Júnior; ou daqueles com quem comungo admiração e respeito, leituras e saberes, como o talentoso Fabrício Brandão, que ao lado da sua companheira, não menos talentosa, Leila Andrade, produzem a Revista Cultural Eletrônica Diversos Afins
, portal virtual interessantíssimo para os que degustam boa leitura somada ao prazer de uma estética visual sensível, que aliás, me serviu de inspiração para essas linhas que escrevo nesse meu pensar madrugador.
Enfim, penso que estamos na vida para a troca, atividade humana que vai desde as condições materiais da vivência em sociedade até aquelas que revitalizam em nós os sentidos mais abstratos das parcerias emocionais ou das sintonias existenciais. Assim expressamos afinidades, sejam elas profissionais, comerciais, afetivas ou intelectuais. Assim alimentamos nossa necessidade de compartilhar aspirações, ideologias, ideais e dons pois, como insustentavelmente humanos que somos, sabemos que desde o vir a ser no mundo nossos pares são elos pelos quais precisamos nos atar.
As afinidades desagregam as ilhas de isolamento que nos distanciam da vida que pulsa; criam laços que se unem às várias fitas de cores diferenciadas que somos nós; aproxima o longe, o intocável, o inatingível; nos faz melhores para a aprendizagem com o outro e mais atentos às páginas das lições que lemos nas entrelinhas do saber. As afinidades são tantas! Diversificam os planos, as compreensões de gostos, leituras e visões de mundo; dão sustento e sabor aos afetos; permitem compartilhar sentidos nesta vazão de relações, fatos e ações sem sentido do mundo contemporâneo.
É certo, que das diversas afinidades que compartilho no correr da vida, aquelas que tocam meu ser através do fazer artístico são as que especialmente me interessam. No mundo das artes, campo sensível da criação humana, experimentar afinidades é como transitar pelas vias do som, das cores, das imagens, do movimento, das palavras, que se bifurcam em sentidos diversos através de olhares afins...olhares da música, da pintura, do cinema, da fotografia, da dança, da literatura...olhares permeados das diversas leituras do mundo, dos diversos artefatos e objetos que sutilmente a arte nos provém para alimentar a alma, fustigar os sonhos, questionar as injustiças, expressar o belo, o feio, o suave, o áspero...Essa arte tão necessária aos devaneios oníricos, à lucidez das horas, ao correr do tempo tão imune aos episódios imensuráveis do cotidiano que nos surpreende ou nos entedia.
Na literatura, mar por onde navego meu barco, não se enumeram os textos, sejam da prosa ou da poesia, que podem me indicar as tantas leituras que integram as afinidades literárias. Estas revelam-se na tessitura das palavras, e não nos parâmetros de tempo e espaço; no fazer estético que delimita velhos ou novos paradigmas; nas posições de questionamentos e crítica que apontam posições de vanguardas ou posturas conservacionistas; nos sentidos do imaginário ou na significância do real. As afinidades literárias aproximam poetas e leitores, poesia e leituras, nos identificam pelas histórias ou seus personagens, por criadores e criaturas que adentram no mundo das nossas próprias experiências como degustadores da palavra.
Críticos, ensaístas ou estudiosos da arte literária, de várias épocas ou lugares, costumam argumentar sobre a não existência de uma história cronologicamente organizada de produção escrita, preferem apontar suas múltiplas possibilidades de interpretações e leituras, colocando no campo do relativismo criador o discurso, o jogo de palavras, as máscaras da criação como artifícios atemporais. A literatura expressa, portanto, o mérito da afluência, da fluidez, da representação de signos e linguagens e, independentemente do tempo e do espaço, abrem uma via de imensurável relação entre autor e leitor e, também, entre leitores, aqueles que se afinam nos tons e sentidos de suas leituras e olhares.
Assim, muitos de nós se diversificam nas experiências e se afinam na troca delas. É, talvez, essa possibilidade que incomoda aos que segregam, na xenofobia dos tempos, o valor das diversidades, elas não nos separam, ao contrário disso, pela correspondência das afinidades, nos apontam novos sentidos que nos revitalizam a alma na solidez dos dias...e das noites como esta. Lá fora, há uma lua quase cheia no céu azul-escuro, e eu acho que tenho grande afinidade com ela.



quinta-feira, 2 de abril de 2009

TEMPO, TEMPO, TEMPO...


SENTIMENTO


Estou entre
a dificuldade do ser
e a inconstância da idéia...
Melhor seria
encontrar o tempo
da infância,
o lixo da rua
ou a enxurrada da chuva...


Genny Xavier


domingo, 29 de março de 2009

Ricardo Reis pelos olhos de Saramago: Por uma Lisboa revisitada











ARTIGO: Genny Xavier

A CONFRONTAÇÃO DO ESPETÁCULO DO MUNDO E A IDENTIDADE PORTUGUESA EM “O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS” DE JOSÉ SARAMAGO

Ó céu azul
- o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade
onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tiras,
nada sois que me sinta.(...)”

"Lisbon revisited". Álvaro de Campos)


Em seu romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, José Saramago, pelo recurso da intertextualidade, integra um discurso histórico evidenciado por um “olhar novo” à cerca dos episódios do passado em relação a uma noção crítica do contexto histórico-cultural português frente ao mundo contemporâneo decorrente da década de 30, mais precisamente, o ano de 1936. O texto de Saramago nos traz de volta o heterônimo Ricardo Reis, um dos alter-egos do poeta Fernando Pessoa, precursor do Modernismo português, no início do século XX. Transformado em personagem pela pena de Saramago, Reis retorna do auto-exílio no Brasil, onde estaria vivendo à dezesseis anos, ao receber a notícia da morte de Pessoa. Depara-se então com uma Lisboa que vive um crucial momento histórico. Esse Reis, imaginado por Pessoa e recriado por Saramago, desembarca numa Lisboa cuja paisagem esboça um passado de glórias monumentais, instituído por nomes e estátuas; por ruas encharcadas pela torrente das chuvas; por um rio que é testemunho ocular dos tempos, dos dias; por figuras míticas, heróis de pedra, deuses cristãos, fechada em seu próprio universo, que é o próprio universo português. Sobre esta Lisboa que vai tomando forma aos olhos do poeta que retorna, a professora Patrícia Pina, em seu estudo sobre as relações entre os discursos histórico e ficcional intitulado “O Ano da Morte de Ricardo Reis – a ficção e a travessia”, enfatiza: “Essa Lisboa tem traços essenciais, constantemente revisitados por Ricardo Reis, traços que mais parecem pontos catalisadores num complexo e encharcado labirinto: a estátua de Camões, onde convergem pombos e poetas; a de Eça de Queirós, no caminho para a de Camões; a do Adamastor, outra ficção ficcionalizada; a do “...rapazito mascarado...” sempre presente no imaginário português – D. Sebastião. Essa Lisboa não se resolve na ficcionalização, ela é um incessante movimento de água e lembranças. É a travessia entre arte, cultura e história. É onde os rumos mudam de direção e sentido, onde as pedras tem boa memória.” (Revista CAPHS: 2001, p. 386)
A confrontação de um Ricardo Reis – heterônimo clássico do poeta Fernando Pessoa – por ideologia, partidário de uma filosofia cética e racionalista, diante do “espetáculo” de fatos desse novo mundo que se abre para a modernidade, confere uma reflexão profunda sobre a identidade portuguesa no século XX.
Não foi em vão que Saramago nos trouxe à superfície da sua narrativa o comedido e sóbrio heterônimo pessoano que, diante do espetáculo dos acontecimentos históricos marcados no tempo do seu “retorno” à Portugal - como a ditadura salazarista, a hegemonia fascista e os prenúncios de guerra - vai deixando de ser alheio para se recompor num novo Ricardo Reis, que se vê diante de um espelho partido. Não havia como contemplar o mundo perturbador daqueles dias, que ora se apresentavam, com polidez, mas com vertigem, com carne e sangue, expectativa e espanto, não do ponto de vista do procedimento engajado ou militante, mas de cunho investigatório, instigante e, de certa forma, contrário ao “paganismo transcendental” e ao “sensacionismo” expresso pelo Reis clássico do imaginário de Pessoa.
Na recriação do “novo” Ricardo Reis por Saramago, o personagem vai, aos poucos e no infringir dos acontecimentos que o seu “olhar” pela Lisboa contemporânea e decadente se mostra, perdendo sua identidade original, àquela do imaginário pessoano, para se reconstituir em gestos, atitudes, emoções, num outro Ricardo Reis, este, inclusive, pouco admirado pelo próprio Fernando Pessoa, que ressurge do mundo dos mortos para dizer: “você afinal desilude-me, (...) estimava-o mais quando você via a vida à distância a que está” (SARAMAGO: 1988, p.183) e, adiante, este responde: “A vida, Fernando, está sempre perto” (SARAMAGO: 1988, p.183). No ápice do seu olhar que se toma de assalto na Lisboa de 1936, Saramago nos mostra um Reis que evidentemente passa a não contentar-se mais com o espetáculo do mundo que ora vê, assumindo uma nova identidade diante da nova identidade portuguesa em sua terceira década do século XX. Neste sentido, que nos instiga ao questionamento a cerca da reconstrução desse personagem na ótica de Saramago, a ensaísta Teresa Cristina Cerdeira da Silva, em seu livro “Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses”, no capítulo sobre o romance em questão, salienta: “É o Reis espectador da vida que o romance quer confrontar com o espetáculo de 1936, para testar até que ponto se consegue ser sábio diante de uma Europa conturbada e agonizante, de valores degradados, onde a liberdade começava a ser um sonho cada vez mais inatingível. É esse o argumento do romance, cuja trama deambulatória nos revelará um novo e amargo sentimento de um ocidental.” (SILVA: 1989, p.104). O mundo português visto agora pelo olhar do Reis de Saramago, surpreende-se “quase” perplexo, surpreende-se ao “assistir” o espetáculo da vida à frente de uma realidade melancólica e cinzenta numa pálida Lisboa onde a chuva cai: “Vai Ricardo Reis aos jornais, vai onde sempre terá de ir quem das coisas do mundo passado quiser saber, aqui no Bairro Alto onde o mundo passou, aqui onde deixou rastro do seu pé, pegadas, ramos partidos, folhas pisadas, letras, notícias, é o que do mundo resta, o outro resto é a parte de invenção necessária para que o dito mundo possa também ficar um rosto, um olhar, um sorriso, uma agonia( ...). (SARAMAGO: 1988, p.35)
Os referenciais do contexto histórico europeu deste período aparecem no romance de forma profunda, mostrando que as representações e analogias prescritas nas relações individuais entre os personagens (Ricardo Reis, Marcenda, Lídia, Salvador, Dr. Sampaio ou Victor) funcionam como alegorias do universo político desse tempo. A construção de cada um desses personagens, nas entrelinhas do texto saramagueano, representam os vários elementos que fundamentam a sociedade portuguesa, sejam estes voltados para as ideologias conservadoras ou de vanguardas. O pulsar dessa época chega até Reis pelos meios que impulsionam a comunicação desse tempo: jornais, rádio, propaganda, literatura panfletária e discursos intelectuais e, é justamente através dele, que estes acontecimentos traduzidos pelos meios de comunicação, vão definindo o substrato narrativo do romance, mostrando como se processa as mudanças de um personagem que retorna à sua terra natal e se vê diante de uma realidade nova, frente a um tempo marcado por crises políticas e econômicas, por uma ditadura que reforçava a imagem de um líder conservador, austero, associado, no imaginário português, ao mito sebastianista, ao arquétipo do “salvador”, do “redentor”.
Esses acontecimentos, passados à limpo pelo olhar crítico do ficcionista, referendam o corpo narrativo do “Ano da Morte de Ricardo Reis”, resgatando o heterônimo Ricardo Reis afim de que, pelo imaginário, verossímil ou não, pudesse “redescobrir” as marcas identitárias de um país caótico, que ora se apresentava demasiadamente inquietante para que ele pudesse “contemplá-lo” com um certo tom de expectador, mas não com indiferença ou distanciamento. Ricardo Reis retorna do Brasil realizando sua travessia pelo mar para recomeçar sua aventura na terra. Não há aqui a substância épica que expressava o mundo do mar, seu mítico universo. Ao contrário de Camões, Saramago principia sua aventura de regresso no discurso de Ricardo Reis: “Aqui o mar acaba e a terra principia” (SARAMAGO: 1988, p.11). E vamos ver que o tempo que inaugura Saramago, na voz ficcionalizada do heterônimo de Pessoa , é o tempo da terra, em que fatos se sucedem, se desenrolam, acontecem. Sobre isso comenta Teresa Cristina Cerdeira da Silva: “O discurso falará dessa terra e de homens nessa terra, desse país de marinheiros naufragados em ondas de silêncio, violência e corrupção. Ondas que também Ricardo Reis se debaterá por nove meses, buscando angustiadamente uma saída.” (SILVA: 1989, p.148)
A construção da narrativa de Saramago em “O Ano da Morte de Ricardo Reis” encerra duas intenções: uma, de marcar uma identidade portuguesa frente a alienação de uma época, a uma situação de crise histórica e a uma proposta revolucionária, onde seu protagonista, trazido do plano ficcional para outro universo de ficção, romanesca, adquire consciência e se livra das máscaras ocultadas pela ideologia, tendo a oportunidade de se soltar das defesas, da cegueira e fazer das verdades experimentadas como novas a apreensão do espetáculo do mundo; outra, de desvincular Reis de apenas um mero observador das coisas e do tempo, passado de sábio à lúcido, onde o distanciamento cede lugar a um processo de interação e o jogo do “fingir” se refaz no “existir”, assim este se desprende da identidade heteronímica possoana, para assumir os contornos novos da identidade que lhe molda Saramago, sobre isso comenta ainda Teresa Cristina Cerdeira da Silva: “Há portanto, da parte do projeto narrativo, um duplo salto que o personagem deve empreender. (...) Dois projetos interdependentes onde a identidade de Ricardo Reis é como um vazio a ser eternamente preenchido, capaz de modificar-se em contato com o mundo. Ricardo Reis – agora vivo – ganha a trágica liberdade de poder transformar-se, de mudar o modelo que lhe coubera como máscara de Fernando Pessoa.” (SILVA: 1989, p.167/168).
Pela referência do mar e da terra o ficcionista inicia e encerra a sua narrativa, como a unir duas pontas, como a refazer os limites entre o mundo passado e o mundo presente, entre o que é mito e o que é história, entre o que é sonho e realidade. Fernando Pessoa se despede da cena do mundo e Ricardo Reis o acompanha levando consigo o mesmo livro que trouxera da viagem e que não tivera tempo de ter terminado a leitura: “The god of the labyrinth”. Ciclo que se fecha na referência de ficção que se esvai, mas que fica a pairar no mundo das idéias e das verdades. Resta-nos antever as leituras desses labirintos, ainda que a morte nos leve para a região que se desconhece e faça-nos perder a virtude da leitura (SARAMAGO: 1988, p.415) mas que, pela própria incapacidade de decifrar os enigmas existenciais possamos encontrar as respostas que buscamos. Assim, se desfaz o tempo de Pessoa e de Reis, num passeio de jardim, a admirarem as luzes pálidas do rio e a sombra ameaçadora dos montes (SARAMAGO: 1988, p.415), ali, naquela Lisbon revisited testemunha da passagem das séculos onde o mar se acabou e a terra espera (SARAMAGO: 1988, p.11).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PINA, Patrícia. “O Ano da Morte de Ricardo Reis: a ficção e travessia”. Revista CEPHS-UESC-BA, nº 02, p. 375-390.

SARAMAGO, José. “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.

SILVA, Tereza Cristina Cerdeira da. “José Saramago – entre a história e a ficção: uma saga de portugueses”. Lisboa-Portugal: Publicações Dom Quixote, 1989.

VARELA, Maria Helena. “O Paganismo transcendental de Fernando Pessoa na versão de
Ricardo Reis”.(file:/D/AIL/opaganismotranscendentaldefernando.htm).