segunda-feira, 1 de junho de 2009

Conto: Genny Xavier


VOZES VELADAS... VELUDOSAS VOZES*


Sonhar era mais que dormir e flutuar sob imagens oníricas. Era ouvir em pleno dia aquela voz dentro da cabeça mandando-a criar outros mundos. A voz não se conformava com o cotidiano, queria fazê-la mais importante do que era, não em poder ou dinheiro, mas como centro e protagonista de uma história. A voz a perseguia pelos corredores da casa, dizia que a banalidade não valia nada, que era possível ser personagem, construída para a aventura, para a grandiosidade, para o triunfo certo dos que sonham e fantasiam.
As tarefas eram cada vez mais penosas sempre que a voz a embriagava daquele desejo de ir morar na imaginação. Queimava peças de roupas ao passar, trocava o doce e salgado dos pratos, encharcava as plantas, a se transformava em estátua por horas, vagando entre a fronteira para fora dos olhos ou para dentro deles.
O marido começou a reclamar, o filho também. Não cumpria mais os horários e destruía coisas ao seu redor. Viu-se observada por eles, pela severidade do marido e suspeição do filho. Suas mãos tremiam as vezes, como as dos bêbados que se abstém do álcool. Toda ela tremia quando observada pelos estranhos olhos que a estranhavam. Era como ficar exposta no gancho do frigorífico, sujeita à avaliação de suas qualidades ideais ou da ausência delas, as vezes a total ausência delas.
Aprisionara por anos aquela voz, mantida nalguma cela insonora do seu corpo, com todos aqueles recursos do não-ouvir. Suspeitava que ela lhe trouxesse problemas de ordem prática porque aquela voz era perigosa à lógica do real. Quem dela se achegasse descobriria seus tiques para ouvi-la e isso seria demais para os sentidos da normalidade das pessoas. Aprendeu muitos truques para guardá-la a sete chaves quando seus apelos impositores eram quase irrefreáveis. Fora um aprendizado tortuoso, regado ao tom de sua estranheza, tomado de uma constante vigília, sobressaltado de temores, conduzido pela sua tentativa de ser perspicaz e de fazer-se tranqüila como se não houvessem sons perturbadores em volta de si.
Mas, enfim, aquele era um tempo em que havia perdido o controle. Talvez tivesse dela se apropriado o espírito curioso de Pandora. A voz lhe atraia para seu interior como se tivesse cansada de não ter sua companhia de ouvinte. A voz era agora exigente demais para dominá-la ou para camuflar seus apelos. Talvez ela também estivesse cansada da resistência. Resistir lhe causava dores de cabeça terríveis e os analgésicos nem mais faziam efeito.
Esconder das pessoas sobre as vozes também era difícil. Desde menina escondia dos outros a percepção daquela sua excentricidade. Foi muito confuso quando percebeu que somente ela as ouvia. A criança pequena que fora se assustou muito quando tomou consciência de que a altura medonha das vozes era totalmente insonora para quem quer que estivesse perto dela. Então compreendeu que mesmo não sendo louca as pessoas poderiam pensar que fosse por isso camuflou bem seu dom. Todos sempre a julgaram tímida e introspectiva, uma criança calada, uma adolescente circunspeta. Julga-la louca seria muito fácil para os outros, dada suas atitudes e estranhezas.
Houve um tempo, em sua juventude que caminhava pelos idos dos 20 anos em que resolveu ignorar as vozes. Precisava se sentir como as outras jovens da sua idade. Passou a gostar de música e a ouvi-las em tom alto, em ritmo frenético. Freqüentava as boates de sua cidade. Nas pistas de dança fechava os olhos para se deixar tomar pelos sons vibrantes, de altas freqüências de mega bytes. Sabia como driblar o som surdo das vozes dentro dela, a música era muito boa para isso.
Nesta mesma época de música alta dentro dos seus ouvidos conhecera o homem que hoje dividia com ela casa e cama, filho e animais domésticos. Conheceram-se numa pista de dança, enquanto ela dançava e dançava embriagada pela música. Certa noite ele lhe confessou o quanto ficou seduzido pela sua total concentração musical, enquanto o seu corpo acompanhava o ritmo explosivo da canção.
Assim, ela descobriu mais uma maneira de abafar suas vozes interiores, uma maneira de não perceber aquele solilóquio imperativo dentro dela. Essa maneira chegou pela ocupação de coisas em sua vida. Namoro, sexo, trupes de amigos, festas animadas, trabalhos ocasionais, decisão de casamento, providências a serem tomadas, vida a dois, um filho, cotidiano sempre preenchido pelos afazeres, afazeres, afazeres... Os sucessivos acontecimentos eram compensadores contra as sempre investidas da vontade de se deixar abrir a guarda para que as vozes tomassem sua cabeça de novo. Era preciso ferver os dias com ações concretas, que exigissem dela o máximo de ocupação. Então, não daria corda aos ouvidos para ouvir as vozes, era preciso aquele controle exaustivo, deixa-las lá, na mais profunda sala de vedação sonora do seu cérebro. Era preciso o controle de tudo, como não esquecer os remédios para as dores de cabeça, como não esquecer de fazer as coisas, como não esquecer de ouvir música, como não esquecer de evitar os tiques, os zumbidos e a vontade poderosa da sua cabeça.
Mas, com os anos foi percebendo seus inúteis esforços não reconhecidos por ninguém. Que mérito havia tido por esconder dos outros aquilo que era? O que sentia? O que ouvia? Não havia conseguido ser visível para ninguém. O casamento se arrastava no tédio que o marido sentia por nunca tê-la inteira, feliz e calma. Não era mais a jovem excêntrica que o havia seduzido numa pista de dança. O tempo se ocupou de torná-la um incômodo estranho para o homem que a desconhecia. Como também para o filho que pela infância perceptiva sentia uma mãe distante, escondendo-se em devaneios enquanto lhe preparava o lanche ou o levava para a escola. Não era uma mãe como as outras, o filho bem sabia disso em silêncio e se deixava mostrar isso quando a olhava.
No terraço da casa agora passava horas olhando tudo do alto. Os telhados das casas, o desenho íngreme das ruas, os fios elétricos que as vezes abrigavam o pouso de pássaros, o céu estampado diante de si e a silhueta do mar tão perto, fazendo o horizonte se confundir entre os dois. Os momentos livres traziam seus passos para o refúgio insólito do silêncio, pois ali ela poderia ouvir com liberdade tudo aquilo que lhe era negado pela cobrança dos normais. Não desejava mais lutar. Era mais leve ouvir e ouvir, era mais leve dançar e girar diante das estrelas e diante da lua.
Então, numa noite de verão e lua enorme, aspirando os perfumes do mar, tomando o mundo ao seu redor, ouviu o chamado da lua. Mas que lua a chamava? Aquela estática no céu azul-escuro? Aquela trêmula no mar reluzente de prata e grãos de areia? Que voz lunar retumbava seu desvario noturno? Os ouvidos pregavam uma peça, os sentidos faziam troça. Havia delírio ou música? Havia loucura ou poesia?


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

Era preciso mais nitidez, necessitava daquela certeza de sons trazidos pela claridade estonteante da bola mágica do céu. Se pudesse sonhar, se pudesse voar, se pudesse chegar perto, escutar claramente sua voz. Os olhos perscrutavam, corriam para mar e para o tapete intangível do firmamento. Que lua exigia seus reflexos, que lua clamava por seus ouvidos sensíveis demais? Aquela que ora se desmanchava ao balanço das ondas? Aquela que ora permanecia no colossal universo, quieta para os seus olhos?
Seu corpo transpirava, escorria seus suores na vertigem do verão. Não havia liberdade nas vestes, não havia desapego nem entrega quando se cobria de panos. Precisava ser livre para ouvir, dispensar os apetrechos, jogar fora os adornos, despir-se, enfrentar a nudez inteira para banhar-se de luz.


No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

Havia então, na plenitude da sua nudez, uma força que lhe empurrava. As pessoas provavelmente não a compreenderiam. Ali, no cume do mundo, no terraço da sua casa em frente ao mar, ninguém a compreenderia nua, nem a escutar o chamado da lua, nem a desejar ir ao seu encontro. Sons de violões chegavam das ruas, era bom deixar que eles embalassem seu canto. Cantava baixinho para a lua, ainda tentando esconder dos outros o confronto com seus segredos. Camuflar a propagação dos sons sempre fora o que fizera em sua vida, mas naquele momento, embora cantasse baixo, a música ressoava límpida em seus ouvidos, sua voz dava vida as melodias dos violões das ruas.

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

Quando criança, achava que a vozes vinham dos anjos. Imaginava que talvez ela fosse um deles, caída na terra por descuido; que a vozes eram sinais de comunicação dos seus irmãos. Passava horas contemplando o céu, aguçando os ouvidos, esperando que os anjos soprassem suas vozes dentro da sua cabeça; que eles a chamassem de volta ao mundo dos anjos. As vozes eram macias, nos seus sentidos de criança, as sentia como sons táteis, como vozes de veludo, como melodias em que se pudessem percorrer os dedos e sentir sua maciez. Naquele momento do presente de sua vida se sentia como a criança de antes, a julgar-se anjo, sentindo a maciez das vozes de veludo dos outros anjos, seus iguais. Sentia-se livre, finalmente entregue a sua angelical condição de voar para onde seria a morada dos anjos...talvez longe, no coração da lua, tão trêmula no mar e tão serena no céu.

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...


Talvez não tenha sido surpresa para o marido a notícia de que sua esposa havia se jogado do terraço da casa completamente nua. Talvez ele tenha compreendido seu ato quando encontrou entre as coisas da mulher um livro de poemas marcado numa página com o título “Ismália”. Os versos lhe pareceram algo como um bilhete de despedida da companheira, seu último esforço para que ele a entendesse. Ela fora a mulher enigmática que o surpreendera desde o momento em que a viu pela primeira vez. Mas ele havia pretendido desvendar seus segredos como companheiro ou amante e não havia conseguido. Não fora suficiente tornar-se seu marido, pai do seu filho, ter-lhe dado uma casa bonita em frente ao mar. Nada disso fora suficiente, como se não fosse exatamente isso que ela esperasse dele, como se não fosse possível ele compreender a transcendência dos olhos dela e, assim, com o tempo, tenham os dois desistido disso tudo: Da ânsia dela em ser compreendida e da angústia dele em não compreendê-la.
Havia agora certa linha de passiva compreensão dele para com o último gesto da esposa silenciosa dos últimos tempos. Como se os versos do poeta desvendassem os sonhos e desejos finalmente satisfeitos dela. O cheiro do mar invadia suas narinas, ele olhava para as águas, além das ondas; olhava o céu, além das nuvens e se sentia capaz de compreendê-la finalmente, como se fosse possível enxergá-la no momento em que seu corpo caiu ao mar e sua alma alada subiu ao céu de volta para casa...casa? onde seria? Quem sabe lá na lua, aquela que a havia levado.

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...**


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* Verso do poema “Violões que choram”, de Cruz e Sousa.

** Poema “Ismália”, de Alphonsus Guimaraens.

terça-feira, 26 de maio de 2009

PALAVRA: UM RITO


PALAVRA


Palavra
novelo de lã
que trança o dito
e o não-dito.
Palavra
colméia de letras
doce mel
que adoça o gosto.
Palavra
duelo de facas
lâmina afiada
corte seco.
Palavra
primeiro verbo
na cepa fecunda
do útero da boca
.
Genny Xavier


quarta-feira, 8 de abril de 2009


CRÔNICA: Genny Xavier

AS AFINIDADES DIVERSAS


“Desengavetando expressões, um mundo novo de caras e formas ganha corpo aos olhos e sentidos daqueles que devoram bem mais do que a si mesmos. Seja em palavras, imagens e outros tantos signos, a cultura fascina por suas proporções ilimitadas. Entre caminhos e palavras, a vida pulsa nas revelações urgentes da alma.”

(Entrelinhas. Revista Eletrônica Diversos Afins)


Nas inúmeras reminiscências das minhas noites insones, vezes os meus pensamentos permitem sentidos imensuráveis sobre minha condição simultânea de artista da palavra e de, antropofagicamente, devoradora delas. Eu agora me refiro a isto: a minha condição de criar e ler, ao meu impulso necessário e visceral de escrever ao tempo em que as leituras me despertam e dão vida ao meu amor desmedido pela literatura.
Nesta ponte entre as leituras e minhas escrituras eu busco afinidades diversas, daqueles que escrevem e daqueles que me lêem; daqueles que no fazer das coisas constroem sintonias traçadas pelo viés da palavra escrita ou lida; daqueles afins ao meu universo, ao eu-lírico do meu ser, ao olhar inquieto da minha alma; daqueles com quem meu espírito devaneia como meu amigo-poeta de transcendências, Sérgio Brandão; daqueles com quem minha observação pelos fatos sutis, profundos e surpreendentes da vida farejam histórias e fazem nascer personagens reais ou surreais, como o meu parceiro do contínuo tempo dos encantos literários, o escritor Antonio Naud Júnior; ou daqueles com quem comungo admiração e respeito, leituras e saberes, como o talentoso Fabrício Brandão, que ao lado da sua companheira, não menos talentosa, Leila Andrade, produzem a Revista Cultural Eletrônica Diversos Afins
, portal virtual interessantíssimo para os que degustam boa leitura somada ao prazer de uma estética visual sensível, que aliás, me serviu de inspiração para essas linhas que escrevo nesse meu pensar madrugador.
Enfim, penso que estamos na vida para a troca, atividade humana que vai desde as condições materiais da vivência em sociedade até aquelas que revitalizam em nós os sentidos mais abstratos das parcerias emocionais ou das sintonias existenciais. Assim expressamos afinidades, sejam elas profissionais, comerciais, afetivas ou intelectuais. Assim alimentamos nossa necessidade de compartilhar aspirações, ideologias, ideais e dons pois, como insustentavelmente humanos que somos, sabemos que desde o vir a ser no mundo nossos pares são elos pelos quais precisamos nos atar.
As afinidades desagregam as ilhas de isolamento que nos distanciam da vida que pulsa; criam laços que se unem às várias fitas de cores diferenciadas que somos nós; aproxima o longe, o intocável, o inatingível; nos faz melhores para a aprendizagem com o outro e mais atentos às páginas das lições que lemos nas entrelinhas do saber. As afinidades são tantas! Diversificam os planos, as compreensões de gostos, leituras e visões de mundo; dão sustento e sabor aos afetos; permitem compartilhar sentidos nesta vazão de relações, fatos e ações sem sentido do mundo contemporâneo.
É certo, que das diversas afinidades que compartilho no correr da vida, aquelas que tocam meu ser através do fazer artístico são as que especialmente me interessam. No mundo das artes, campo sensível da criação humana, experimentar afinidades é como transitar pelas vias do som, das cores, das imagens, do movimento, das palavras, que se bifurcam em sentidos diversos através de olhares afins...olhares da música, da pintura, do cinema, da fotografia, da dança, da literatura...olhares permeados das diversas leituras do mundo, dos diversos artefatos e objetos que sutilmente a arte nos provém para alimentar a alma, fustigar os sonhos, questionar as injustiças, expressar o belo, o feio, o suave, o áspero...Essa arte tão necessária aos devaneios oníricos, à lucidez das horas, ao correr do tempo tão imune aos episódios imensuráveis do cotidiano que nos surpreende ou nos entedia.
Na literatura, mar por onde navego meu barco, não se enumeram os textos, sejam da prosa ou da poesia, que podem me indicar as tantas leituras que integram as afinidades literárias. Estas revelam-se na tessitura das palavras, e não nos parâmetros de tempo e espaço; no fazer estético que delimita velhos ou novos paradigmas; nas posições de questionamentos e crítica que apontam posições de vanguardas ou posturas conservacionistas; nos sentidos do imaginário ou na significância do real. As afinidades literárias aproximam poetas e leitores, poesia e leituras, nos identificam pelas histórias ou seus personagens, por criadores e criaturas que adentram no mundo das nossas próprias experiências como degustadores da palavra.
Críticos, ensaístas ou estudiosos da arte literária, de várias épocas ou lugares, costumam argumentar sobre a não existência de uma história cronologicamente organizada de produção escrita, preferem apontar suas múltiplas possibilidades de interpretações e leituras, colocando no campo do relativismo criador o discurso, o jogo de palavras, as máscaras da criação como artifícios atemporais. A literatura expressa, portanto, o mérito da afluência, da fluidez, da representação de signos e linguagens e, independentemente do tempo e do espaço, abrem uma via de imensurável relação entre autor e leitor e, também, entre leitores, aqueles que se afinam nos tons e sentidos de suas leituras e olhares.
Assim, muitos de nós se diversificam nas experiências e se afinam na troca delas. É, talvez, essa possibilidade que incomoda aos que segregam, na xenofobia dos tempos, o valor das diversidades, elas não nos separam, ao contrário disso, pela correspondência das afinidades, nos apontam novos sentidos que nos revitalizam a alma na solidez dos dias...e das noites como esta. Lá fora, há uma lua quase cheia no céu azul-escuro, e eu acho que tenho grande afinidade com ela.



quinta-feira, 2 de abril de 2009

TEMPO, TEMPO, TEMPO...


SENTIMENTO


Estou entre
a dificuldade do ser
e a inconstância da idéia...
Melhor seria
encontrar o tempo
da infância,
o lixo da rua
ou a enxurrada da chuva...


Genny Xavier


domingo, 29 de março de 2009

Ricardo Reis pelos olhos de Saramago: Por uma Lisboa revisitada











ARTIGO: Genny Xavier

A CONFRONTAÇÃO DO ESPETÁCULO DO MUNDO E A IDENTIDADE PORTUGUESA EM “O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS” DE JOSÉ SARAMAGO

Ó céu azul
- o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade
onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tiras,
nada sois que me sinta.(...)”

"Lisbon revisited". Álvaro de Campos)


Em seu romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, José Saramago, pelo recurso da intertextualidade, integra um discurso histórico evidenciado por um “olhar novo” à cerca dos episódios do passado em relação a uma noção crítica do contexto histórico-cultural português frente ao mundo contemporâneo decorrente da década de 30, mais precisamente, o ano de 1936. O texto de Saramago nos traz de volta o heterônimo Ricardo Reis, um dos alter-egos do poeta Fernando Pessoa, precursor do Modernismo português, no início do século XX. Transformado em personagem pela pena de Saramago, Reis retorna do auto-exílio no Brasil, onde estaria vivendo à dezesseis anos, ao receber a notícia da morte de Pessoa. Depara-se então com uma Lisboa que vive um crucial momento histórico. Esse Reis, imaginado por Pessoa e recriado por Saramago, desembarca numa Lisboa cuja paisagem esboça um passado de glórias monumentais, instituído por nomes e estátuas; por ruas encharcadas pela torrente das chuvas; por um rio que é testemunho ocular dos tempos, dos dias; por figuras míticas, heróis de pedra, deuses cristãos, fechada em seu próprio universo, que é o próprio universo português. Sobre esta Lisboa que vai tomando forma aos olhos do poeta que retorna, a professora Patrícia Pina, em seu estudo sobre as relações entre os discursos histórico e ficcional intitulado “O Ano da Morte de Ricardo Reis – a ficção e a travessia”, enfatiza: “Essa Lisboa tem traços essenciais, constantemente revisitados por Ricardo Reis, traços que mais parecem pontos catalisadores num complexo e encharcado labirinto: a estátua de Camões, onde convergem pombos e poetas; a de Eça de Queirós, no caminho para a de Camões; a do Adamastor, outra ficção ficcionalizada; a do “...rapazito mascarado...” sempre presente no imaginário português – D. Sebastião. Essa Lisboa não se resolve na ficcionalização, ela é um incessante movimento de água e lembranças. É a travessia entre arte, cultura e história. É onde os rumos mudam de direção e sentido, onde as pedras tem boa memória.” (Revista CAPHS: 2001, p. 386)
A confrontação de um Ricardo Reis – heterônimo clássico do poeta Fernando Pessoa – por ideologia, partidário de uma filosofia cética e racionalista, diante do “espetáculo” de fatos desse novo mundo que se abre para a modernidade, confere uma reflexão profunda sobre a identidade portuguesa no século XX.
Não foi em vão que Saramago nos trouxe à superfície da sua narrativa o comedido e sóbrio heterônimo pessoano que, diante do espetáculo dos acontecimentos históricos marcados no tempo do seu “retorno” à Portugal - como a ditadura salazarista, a hegemonia fascista e os prenúncios de guerra - vai deixando de ser alheio para se recompor num novo Ricardo Reis, que se vê diante de um espelho partido. Não havia como contemplar o mundo perturbador daqueles dias, que ora se apresentavam, com polidez, mas com vertigem, com carne e sangue, expectativa e espanto, não do ponto de vista do procedimento engajado ou militante, mas de cunho investigatório, instigante e, de certa forma, contrário ao “paganismo transcendental” e ao “sensacionismo” expresso pelo Reis clássico do imaginário de Pessoa.
Na recriação do “novo” Ricardo Reis por Saramago, o personagem vai, aos poucos e no infringir dos acontecimentos que o seu “olhar” pela Lisboa contemporânea e decadente se mostra, perdendo sua identidade original, àquela do imaginário pessoano, para se reconstituir em gestos, atitudes, emoções, num outro Ricardo Reis, este, inclusive, pouco admirado pelo próprio Fernando Pessoa, que ressurge do mundo dos mortos para dizer: “você afinal desilude-me, (...) estimava-o mais quando você via a vida à distância a que está” (SARAMAGO: 1988, p.183) e, adiante, este responde: “A vida, Fernando, está sempre perto” (SARAMAGO: 1988, p.183). No ápice do seu olhar que se toma de assalto na Lisboa de 1936, Saramago nos mostra um Reis que evidentemente passa a não contentar-se mais com o espetáculo do mundo que ora vê, assumindo uma nova identidade diante da nova identidade portuguesa em sua terceira década do século XX. Neste sentido, que nos instiga ao questionamento a cerca da reconstrução desse personagem na ótica de Saramago, a ensaísta Teresa Cristina Cerdeira da Silva, em seu livro “Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses”, no capítulo sobre o romance em questão, salienta: “É o Reis espectador da vida que o romance quer confrontar com o espetáculo de 1936, para testar até que ponto se consegue ser sábio diante de uma Europa conturbada e agonizante, de valores degradados, onde a liberdade começava a ser um sonho cada vez mais inatingível. É esse o argumento do romance, cuja trama deambulatória nos revelará um novo e amargo sentimento de um ocidental.” (SILVA: 1989, p.104). O mundo português visto agora pelo olhar do Reis de Saramago, surpreende-se “quase” perplexo, surpreende-se ao “assistir” o espetáculo da vida à frente de uma realidade melancólica e cinzenta numa pálida Lisboa onde a chuva cai: “Vai Ricardo Reis aos jornais, vai onde sempre terá de ir quem das coisas do mundo passado quiser saber, aqui no Bairro Alto onde o mundo passou, aqui onde deixou rastro do seu pé, pegadas, ramos partidos, folhas pisadas, letras, notícias, é o que do mundo resta, o outro resto é a parte de invenção necessária para que o dito mundo possa também ficar um rosto, um olhar, um sorriso, uma agonia( ...). (SARAMAGO: 1988, p.35)
Os referenciais do contexto histórico europeu deste período aparecem no romance de forma profunda, mostrando que as representações e analogias prescritas nas relações individuais entre os personagens (Ricardo Reis, Marcenda, Lídia, Salvador, Dr. Sampaio ou Victor) funcionam como alegorias do universo político desse tempo. A construção de cada um desses personagens, nas entrelinhas do texto saramagueano, representam os vários elementos que fundamentam a sociedade portuguesa, sejam estes voltados para as ideologias conservadoras ou de vanguardas. O pulsar dessa época chega até Reis pelos meios que impulsionam a comunicação desse tempo: jornais, rádio, propaganda, literatura panfletária e discursos intelectuais e, é justamente através dele, que estes acontecimentos traduzidos pelos meios de comunicação, vão definindo o substrato narrativo do romance, mostrando como se processa as mudanças de um personagem que retorna à sua terra natal e se vê diante de uma realidade nova, frente a um tempo marcado por crises políticas e econômicas, por uma ditadura que reforçava a imagem de um líder conservador, austero, associado, no imaginário português, ao mito sebastianista, ao arquétipo do “salvador”, do “redentor”.
Esses acontecimentos, passados à limpo pelo olhar crítico do ficcionista, referendam o corpo narrativo do “Ano da Morte de Ricardo Reis”, resgatando o heterônimo Ricardo Reis afim de que, pelo imaginário, verossímil ou não, pudesse “redescobrir” as marcas identitárias de um país caótico, que ora se apresentava demasiadamente inquietante para que ele pudesse “contemplá-lo” com um certo tom de expectador, mas não com indiferença ou distanciamento. Ricardo Reis retorna do Brasil realizando sua travessia pelo mar para recomeçar sua aventura na terra. Não há aqui a substância épica que expressava o mundo do mar, seu mítico universo. Ao contrário de Camões, Saramago principia sua aventura de regresso no discurso de Ricardo Reis: “Aqui o mar acaba e a terra principia” (SARAMAGO: 1988, p.11). E vamos ver que o tempo que inaugura Saramago, na voz ficcionalizada do heterônimo de Pessoa , é o tempo da terra, em que fatos se sucedem, se desenrolam, acontecem. Sobre isso comenta Teresa Cristina Cerdeira da Silva: “O discurso falará dessa terra e de homens nessa terra, desse país de marinheiros naufragados em ondas de silêncio, violência e corrupção. Ondas que também Ricardo Reis se debaterá por nove meses, buscando angustiadamente uma saída.” (SILVA: 1989, p.148)
A construção da narrativa de Saramago em “O Ano da Morte de Ricardo Reis” encerra duas intenções: uma, de marcar uma identidade portuguesa frente a alienação de uma época, a uma situação de crise histórica e a uma proposta revolucionária, onde seu protagonista, trazido do plano ficcional para outro universo de ficção, romanesca, adquire consciência e se livra das máscaras ocultadas pela ideologia, tendo a oportunidade de se soltar das defesas, da cegueira e fazer das verdades experimentadas como novas a apreensão do espetáculo do mundo; outra, de desvincular Reis de apenas um mero observador das coisas e do tempo, passado de sábio à lúcido, onde o distanciamento cede lugar a um processo de interação e o jogo do “fingir” se refaz no “existir”, assim este se desprende da identidade heteronímica possoana, para assumir os contornos novos da identidade que lhe molda Saramago, sobre isso comenta ainda Teresa Cristina Cerdeira da Silva: “Há portanto, da parte do projeto narrativo, um duplo salto que o personagem deve empreender. (...) Dois projetos interdependentes onde a identidade de Ricardo Reis é como um vazio a ser eternamente preenchido, capaz de modificar-se em contato com o mundo. Ricardo Reis – agora vivo – ganha a trágica liberdade de poder transformar-se, de mudar o modelo que lhe coubera como máscara de Fernando Pessoa.” (SILVA: 1989, p.167/168).
Pela referência do mar e da terra o ficcionista inicia e encerra a sua narrativa, como a unir duas pontas, como a refazer os limites entre o mundo passado e o mundo presente, entre o que é mito e o que é história, entre o que é sonho e realidade. Fernando Pessoa se despede da cena do mundo e Ricardo Reis o acompanha levando consigo o mesmo livro que trouxera da viagem e que não tivera tempo de ter terminado a leitura: “The god of the labyrinth”. Ciclo que se fecha na referência de ficção que se esvai, mas que fica a pairar no mundo das idéias e das verdades. Resta-nos antever as leituras desses labirintos, ainda que a morte nos leve para a região que se desconhece e faça-nos perder a virtude da leitura (SARAMAGO: 1988, p.415) mas que, pela própria incapacidade de decifrar os enigmas existenciais possamos encontrar as respostas que buscamos. Assim, se desfaz o tempo de Pessoa e de Reis, num passeio de jardim, a admirarem as luzes pálidas do rio e a sombra ameaçadora dos montes (SARAMAGO: 1988, p.415), ali, naquela Lisbon revisited testemunha da passagem das séculos onde o mar se acabou e a terra espera (SARAMAGO: 1988, p.11).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PINA, Patrícia. “O Ano da Morte de Ricardo Reis: a ficção e travessia”. Revista CEPHS-UESC-BA, nº 02, p. 375-390.

SARAMAGO, José. “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.

SILVA, Tereza Cristina Cerdeira da. “José Saramago – entre a história e a ficção: uma saga de portugueses”. Lisboa-Portugal: Publicações Dom Quixote, 1989.

VARELA, Maria Helena. “O Paganismo transcendental de Fernando Pessoa na versão de
Ricardo Reis”.(file:/D/AIL/opaganismotranscendentaldefernando.htm).













quarta-feira, 25 de março de 2009

DE TODOS OS POEMAS, O MAIS BELO...


Há 24 anos atrás, no dia 25 de março de 1985, dei vida a minha melhor poesia, obra prima da minha existência...


DESEJOS PARA UMA ESTRELA-MENINA

Para TAINÁ, minha filha


Desejo, neste tempo torto
e de caminhos íngremes,
te recriar todos os dias,
do feto à luz das minhas auroras...

Desejo, no espírito da Grande Mãe,
que sol e lua, vento, mar e tempestades
mesclem suas forças
para proteger seus dias.

Desejo, no caleidoscópio do céu noturno
que a estrela do teu nome
te seja guia e norte
luzidia sorte de brilho e cor.

Desejo, no confronto das diferenças
que a distância do meu mundo maduro
te ofereça lição de vida
para o exemplo das tuas febres juvenis.

Desejo, nesta convulsão materna
do parir a ti todos os dias,
embalar tuas horas quando tristes forem.
e ninar seguidamente teus sonhos

Desejo, nesta ânsia de desejar,
fluir teus risos, encantar teus verdes olhos,
festejar de canto tua voz musical
e tua solene elegância de garça.

Desejo, na curvatura do tempo,
bem antes que eu cruze outras fronteiras
soprar meu amor em tua alma
e imprimir meus passos no teu caminho.

Genny Xavier

















terça-feira, 24 de março de 2009


OLHAR OS OLHOS DO OUTRO

Os olhos capturam o susto,
dizem mudos que os dias não são sempre iguais
e que há sempre uma espera factual
o imperceptível e o avesso
de uma realidade que é surpresa.
Olhar os olhos em susto
é perceber suas rotas
e seus imperceptíveis desvios...
e encher a percepção de intuitiva compreensão
de solidária ternura de olhar os olhos do outro.


Que há de se dizer
quando se descortinam caminhos novos
na trajetória do outro?
Há silêncio que paira na mudez dos olhos
e não compreendemos nunca
porque forjamos as estradas
que ainda não foram abertas.
O tempo diz que tudo é descoberta.
O tempo restitui os mistérios
e acomoda as retinas inquietas...
Há de não se temer as descobertas.
Há de se mastigar o novo.
Há de não se lamentar as escolhas...

As mãos que estão próximas
percebem que basta um gesto
para tocar a face quase intocável do outro.
As mãos precisariam do afeto explícito
para fraternizar o sentimento mudo.
Por que não há solidariedade sem amor,
nem canção de ninar sem acalanto.
As mãos, então, guardam o gesto tátil
que se comunicam em invisível mensagem:
De olhar e compreender o que se captura;
De olhar e perceber o que mudamente se fala.

Genny Xavier

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domingo, 22 de março de 2009

DO SUL DA BAHIA...O VERSO DE COR E SOM

ARTIGO: Genny Xavier


SOSÍGENES COSTA: POETA DE FLUIDEZ ATEMPORAL


“(...). Por isso, mais do que exercício de admiração, ler Sosígenes é fruir raro prazer estético. Leitura que, fascinante como uma experiência venturosa, é cada vez a primeira e cada vez a única”.
(Valdomiro Santana)


É notória a assertiva de que a poética de Sosígenes Costa (1901 – 1968), poeta sul-baiano nascido em Belmonte, reveste-se de uma criação diversa que se associa a uma gama de elementos que vão se constituindo numa estilística de confluência entre a tradição parnasiana e simbolista e os ditames da modernidade. Da tradição parnasiana, o poeta constrói seus versos a partir de uma preferência estética pelo soneto, referenciando uma poesia de metrificação rígida, rimas preciosas, vocabulário rico, descritivismo pictórico e referências na cultura oriental; Do simbolismo, sua criação patenteia a sutileza de cores, sons, cheiros, imagens que reafirmam uma linguagem sinestésica, simbólica, repleta de associações místicas e míticas, históricas e culturais que se adiantam ao sabor do tempo e do espaço: “O rei das rosas me enviou da China/ um ramo de jacintos cor da aurora,/ mais belo que a azuréia solferina/ e a floração lilás da passiflora.(...)” (Celeste privilégio. Obra Poética, p. 255); “No jardim do castelo desse bruxo/ d’asas d’ouro e olhos verdes de dragão,/ tu és beira de um lilás repuxo/ um grande lírio de ouro e açafrão.(...)” (Pavão azul. Obra Poética, p. 253).
Esta poética da tradição, longe de se constituir numa marca enfadonha do seu estilo apurado, toma veios novíssimos quando associados aos pressupostos modernistas em que se mesclam um primitivismo colorido, o tom paródico, o coloquialismo, a evocação da infância, o lirismo social, a incursão da cultura regional sul-baiana, com suas relações mitológicas, suas crenças afro-indígenas que dão expressão ao fantástico e ao maravilhoso popular, numa percepção de que a poesia é fonte caleidoscópica, jogo de imagens, profusão de linguagens em que oscilam o velho e o novo, o culto e o popular. Dessa visão do imaginário deste poeta baiano, nos fala Valdomiro Santana: “Como toda obra de arte, a poesia de Sosígenes Costa é intencionalmente sutil. Lembra o jogo de espelhos refletidos. Contém planos e matizes não apenas visíveis nas palavras e nas áreas de silêncio que as cercam e se insinuam entre elas, mas também virtuais no arranjo e ligação dos ciclos de poemas (...)” (Obra poética, 1978).
Dessa expressividade modernista, de apelo universal questionador, alguns temas parecem nos chegar como mensagens sempre atuais, que atravessam as épocas e nos fazem refletir causas humanistas ainda hoje prementes no âmago do homem contemporâneo: “A liberdade está morta/ com seus cabelos tão longos,/ com seus cabelos boiando/ no mar em que se afogou.// A liberdade está morta/ com seus cabelos desnastros./ Caiu, coitada, dos astros/ No mar em que se afogou.// A liberdade está morta/ com seus cabelos tão longos,/ com seus cabelos compridos/ que eu desejava beijar.// A liberdade está morta./ Lá vão os homens buscá-la/ naqueles barcos de vela,/ naqueles barcos com asas.(...)” (A liberdade está morta. Obra Poética, p. 253).
As relações do homem com sua cultura e com os problemas do seu chão, o regionalismo, a ambiência telúrica, com seus matizes próprios, a conotação típica do modernismo dos anos 30, ganha também fortes contornos na obra de Sosígenes Costa. O sul da Bahia do seu tempo, a cultura do cacau, as idiossincrasias peculiares de sua gente, sua natureza, seus mitos e referências, faz-nos saber de uma obra que busca sua identidade numa abordagem que escapa ao sentimento puramente ufanista, mas resgata uma ideologia que se expressa como nacionalista e regional a partir de uma percepção do indivíduo que repensa a sua essência, as suas raízes e se sente seguro neste posicionamento estético: “Flor de cacau toda orvalhada e moça,/ és curtidinha de sereno em Una,/ em Itabuna ainda és mais moça,/ sinhá-moça, mulher grapiúna.// Flor de cacau toda orvalhada e roxa./ Chuva em crisol fez teu lilás moreno./ Serias a paixão de Barba Roxa,/ Se Barba Roxa viesse a este sereno. (...)” (Flor de Cacau. Obra Poética. p. 261).
Outra manifestação das sutilezas do poeta em questão se faz perceber no lirismo eivado de sensualismo inovador, em que a imagem do feminino assume tons sensoriais, repletos de perfumes, que se relacionam aos matizes da natureza crepuscular, orvalhada, colorida, densa, telúrica; ou se expande às relações míticas para as imagens de sereias, musas, deusas, ninfas, etc. A visão do feminino se manifesta desde as referências da mitologia oriental e suas personagens, bem como da exuberância das mulheres do seu chão, onde se misturam os sabores, perfumes e fábulas encantadas do imaginário popular: “Há gritos de dragões pelo ocaso tranqüilo,/ quando a filha do sol, de corpo de gazela,/ vem colher e beijar a carola amarela/ do lótus que se abriu no santo rio Nilo.” (Soneto Encantado. Obra Poética, p. 257); “(...) O meu sonho é um jardim de Fernabaso/ cheio de musas e pavões do Faso./ Meu amor virá hoje do Parnaso/ ou do país da mirra e do aloé?// Silêncio! Ela já vem. Pé ante pé./ É a filha de Ciro ou de Artabaso?/ É a estrela da alvorada./ Mas quem será! Meus Deus! É Salomé!” (Versos aos vinte anos. Obra Poética, p. 263/264).
A obra de Sosígenes Costa assume ainda uma característica de reflexão religiosa no tratamento de episódios e personagens bíblicos, não em tom doutrinal ou dogmático, mas em sintonia com as relações culturais e místicas que referenciam um universo em que se mesclam o sagrado e o profano, o divino e o pagão, a historiografia e a lenda. Percebemos tais considerações em poemas como “O sermão à beira do mar da Galiléia”, “Daí a César o que é de César” e o soneto sem título, datado de 1921, segundo o fragmento a seguir: “Vontade de ser Cristo às vezes sinto/ pra que Pilatos me apresente ao povo/ todo açoitado, as mãos no tronco, e tinto/ de sangue em pingos de amaranto novo.// Desse ideal azul não me demovo/ e vejo Herodes e com fel não pinto/ a mágoa com que escuto do recinto/ o “crucifique” que rebenta o povo.// Depois arrasto a cruz e rolo à areia/ e despem-me pregando-me na veia/ três cravos cujo ferro me gangrena.// Mas quando acabam de crucificar-me/ eu fico só no entanto sem o alarme/ do pranto embalador de Madalena.” (Sem título. Obra Poética, p. 251).
Assim, convém fechar as considerações desta tentativa de análise da poética de Sosígenes Costa, embora aqui apenas perfaçam considerações pouco aprofundadas sobre a sua complexidade como fazedor de versos, com um pensamento do professor de Literatura e Diversidade Cultural, Marcos Aurélio dos Santos Souza: “(...) Sosígenes abre um espaço intersticial entre os” sonhos" de uma identidade nacional e de uma identidade local, comunitária e imediata, confrontando-as com (e a partir de) uma interferência cultural alienígena. Esse lugar, deslizante e ambíguo, evita o erro de se essencializar qualquer uma dessas identidades, flagrando espaços vazios e instáveis, que permitem o cruzamento de elementos culturais como um processo complexo e, muitas vezes, conflituoso. O imaginário sosigenesiano, dessa forma, em vez de se fixar em um conjunto de elementos identificadores de uma cultura e de um nacionalismo, ondula-se em espaços de correspondências, onde a identidade só pode ser pensada em relação à diferença, e através da constituição de um sujeito descentrado. As zonas fronteiriças entre o local e o universal, o "eu" e o "outro", o nacional e o estrangeiro, se tornam tênues e frágeis, quando o poeta trabalha, indiferentemente, com aspectos de sua vivência(...).” (Identidade e Identidade Nacional em Iararana, de Sosígenes Costa. 1994.).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COSTA, Sosígenes. Obra Poética (ed. rev. e amp.). São Paulo: Cultrix-INL, 1978.

PAES, José Paulo. Pavão parlenda paraíso: uma tentativa de descrição críticada poesia de Sosígenes Costa. São Paulo: Cultrix, 1977.

SOUZA, Marcos Aurélio Santos. Antropofagia e Iararana de Sosígenes Costa. 1994. (
www.revista.agulha.nom.br/ag21costa.htm).

SOUZA, Marcos Aurélio Santos. Identidade e Identidade Nacional em Iararana, de Sosígenes Costa. 1994. (www.uesc.br/icer/artigos/iararana.htm).


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CURIOSIDADES BIOGRÁFICAS E LITERÁRIAS SOBRE SOSÍGENES COSTA



Biografia:
Sosígenes Marinho da Costa


(Belmonte BA, 1901 - Rio de Janeiro RJ, 1968). Estreou na imprensa por volta de 1928, em Ilhéus BA, onde foi colaborador do Diário da Tarde. No mesmo ano tornou-se membro da Academia dos Rebeldes, com Pinheiro Viegas, Jorge Amado, Edison Carneiro e Dias da Costa. Na época, trabalhava como professor de instrução primária. No início da década de 1950 foi secretário da Associação Comercial e telegrafista do Departamento de Correios e Telégrafos, em Ilhéus. Em 1959 ocorreu a publicação de seu livro “Obra Poética”, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia, em 1960. Entre 1978 e 1979 foram publicadas a segunda edição, revista e aumentada, de “Obra Poética” e a póstuma “Iararana”, por iniciativa de José Paulo Paes. A poesia de Sosígenes Costa vincula-se à segunda geração do Modernismo. Segundo o crítico José Paulo Paes, "a ter como certas as datas de composição das peças enfeixadas na primeira parte da “Obra Poética”, quando ainda andava acesa a campanha dos modernistas contra o soneto em prol da institucionalização do verso livre, entretinha-se o poeta a escrever seus sonetos pavônicos, todos rigorosamente rimados e metrificados, nos quais são perceptíveis traços parnasianos e, sobretudo, simbolistas, ainda que tais sonetos nada tenham de passadistas, caracterizando-se antes por uma modernidade que se patenteia, como a de Quintana, na exploração criativa das possibilidades expressionais dessa forma fixa, então esclerosada pela prática mecânica e abusiva.".

Obras poéticas:

Obra poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1959.

Obra poética. 2ª ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 1978.

Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. II. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979.

Poesia completa. Edição comemorativa do centenário de nascimento de Sosígenes Costa – Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo; Conselho Estadual de Cultura, 2001.


Da crítica, das referências e das homenagens:

Matos, Florisvaldo. Travessia de Oásis – A Sensualidade na Poesia de Sosígenes Costa – Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia: EDBA, 2004.

O triunfo de Sosígenes Costa – Estudos, depoimentos e antologia. – Seleção, organização e notas de Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca – Ilhéus, Ba: UESC-Editus/UEFS-Ed, 2004.

Pólvora, Hélio. A Sosígenes, com afeto (no centenário de nascimento do poeta, em 14 de novembro de 2001) – Salvador,Ba: Edições Cidade da Bahia; Fundação Gregório de Mattos, 2001.

Paes, José Paulo. Pavão, Parlenda, Paraíso – uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa. São Paulo:Cultrix; Itabuna, Ba: PACCE, 1978.

Sosígenes Costa – Antologia Poética (CD comemorativo do centenário de Sosígenes Costa) – Coleção Poesia Falada, vol. 12. Editora Fonográfica Luz da Cidade e Fundação Cultural de Ilhéus, 2001.
Poesias de Crônicas Grapiúnas – por Nevolanda Pinheiro - (CD com textos gravados de Sosígenes Costa, Jorge Amado, Cyro de Mattos, Euclides Neto, Florisvaldo Matos, Hélio Pólvora, Firmino Rocha, Valdelice Pinheiro, Telmo Padilha e Fernando Mendes). Editora Fonográfica Luz da Cidade, 2001.


quinta-feira, 19 de março de 2009

CONTO: Genny Xavier

SILÊNCIOS
"Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profunde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent." (*)

("Correspondances". Baudelaire)

O retrato dos meus dezessete anos imortalizou meu rosto jovem num papel hoje amarelado. Sim, eu tinha dezessete anos e aquela época ainda continua lá atrás, parada num tempo que ninguém mais toca, apenas eu retorno à ele, como a passear por lembranças minhas...
Aos dezoito anos eu já havia amadurecido de uma forma definitiva, com a mesma consciência de hoje. Mas foi nos meus dezessete anos que se delimitou o intervalo curto do meu auto-crescimento, que nunca mais apartou-se de mim.


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Aquela casa onde morávamos tinha um silêncio que eu não suportava. Tudo era silêncio... o vento, os passos, as caras expressivamente mudas. Meu pai, sombrio e dominador. Minha mãe, covarde e subserviente. Quanto a mim, vagava entre os dois, bocejando uma solidão sem fim e morrendo de inveja dos barulhentos vizinhos da minha idade. Eu os observava pela janela do meu quarto, imaginando como seria participar daquela alegria que me era proibida.
Lembro que eu tinha anseios desconhecidos. Passava as mãos em meu corpo ao dormir, escondido, feito um crime. O toque me abrasava os sentidos, queimavam a minha pele. Mas, era a solidão que me tomava, o abandono de uma carícia solitária. Depois, nada acontecia, eu continuava igual, o tempo se arrastando e a ausência dos sons, a ausência de vida. Aquele era apenas um tempo disforme e, eu, uma garota também disforme, silenciosa, a observar os cantos da casa, os esconderijos das baratas, as tocas dos ratos e os insetos em sua cópula.
A noite, os gatos miavam de prazer e liberdade. Era excitante ouvi-los e eu fantasiava como seria gritar e gemer sobre os telhados, tendo o corpo banhado pela luz da lua. Mas, como possuir a liberdade dos gatos e restituir dentro da minha alma a grandiosidade dos telhados, que se perdem em distâncias e se espalham pelas cidades? Eu só tinha o sonho, a imaginação.
Então, chegou de repente aquele homem jovem que se dizia meu tio, vindo dos lugares distantes, das paragens longínquas que lhe imprimiam a maturidade nos olhos. Meu pai não abraçou o irmão, deu-lhe um quarto nos fundos da casa. Quando eu o vi, tive a impressão que seus olhos eram negros demais, envoltos numa sombra que eu não conhecia. Tinha um sorriso que vagava entre o meio-termo da ternura e da ironia. Mas, somente hoje eu me apercebo disso. Naquele dia, eu só o sentia como uma figura masculina na minha casa de silêncios.
Os dias passavam. Dei para ficar atenta aos ruídos que ele fazia. Ao farfalhar dos papéis que remexia na mesinha do quarto, ao ranger das molas do colchão quando se movimentava em seu sono noturno, quando tossia, quando mastigava os alimentos, quando cantarolava na rede da varanda. Estava feliz, pois ele havia quebrado a mudez daquela casa. O ruído mais próximo ao meu orgasmo era o som do chuveiro quando ele tomava banho. Imaginava seu corpo inteiramente nu, um fio d'água a escorrer pelo seu peito, a desviar-se dos pelos, a caminhar pelo seu sexo, a viajar pela rigidez das coxas.
Espiava-o despir-se à noite, pela fresta apodrecida da porta do seu quarto. Dormia nu feito um anjo lindo, como Lúcifer, o anjo tentador e belo, expulso do céu por fazer rebelião com Deus. Aos poucos, ele foi se tornando o demônio e o anjo da minha imaginação solitária.
Vagava inquieta pelo meu quarto, sentia angustias que me dominavam, suores e tremores. Tocava intimamente meu ventre, as minhas mãos percorriam caminhos e entranhas, mas não aplacavam os meus desejos, pois não eram as minhas próprias mãos que eu queria sobre mim.
Ele também queria. Eu sentia seu olhar sobre mim, o meio sorriso, mirando meus peitos miúdos, escondidos atrás da blusa fina. As narinas levemente dilatadas, o jeito de como passava a língua nos lábios olhando para mim ou de como tocava o sexo sobre a calça de brim, fazendo-me olhar o gesto, fascinada.
As vezes, dava-me a impressão que aquilo que existia dele para mim era mais uma atração pela criança enigmática que fui, algo como alguém que fora abandonada na porta de uma casa e nunca eliminara a expressão perdida de uma origem desconhecida. Não era piedade o que ele sentia por mim, era uma compulsão pelo meu enigma.
Naquele dia de setembro, ainda o sinto vivamente. Eu não tinha consciência da primavera, nem das flores, mas acordei com cheiros à minha volta. À tarde, minha mãe deixou a casa para uma reunião na Igreja. Meu pai também estava ausente. Mas a ausência dos dois não fazia diferença, o peso do silêncio daquele lugar era o mesmo. As paredes diziam que eles continuavam ali. Ainda assim, não quis ouvir as paredes, julguei-me só comigo mesma e aquela sensação aplainava a minha natureza inquieta. A presença dos meus pais me enchia de um peso insustentável e a minha solidão se tornava mais pobre, deteriorando o meu espírito.
Os ruídos silenciaram no quarto dos fundos. Talvez ele dormisse e eu senti que precisava de um banho para driblar a minha vontade de vê-lo em seu sono.
A água fria escorria pelo meu corpo. Fechei os olhos para sentir o alívio do meu intervalo de liberdade, só escutava o barulho do chuveiro. Então ele estava diante de mim, abrindo as cortinas num gesto brusco. Eu não disse nada, nem ele. Acho que pisquei algumas vezes para evitar que a água escondesse a minha visão daquele homem que eu desejava. Ele olhava os meus peitos, rosados e pequenos, os quadris mal formados em meus dezessete anos. Foi aí que eu percebi que a vida marca a hora exata para efetuar o seu destino. Num momento de medo incontrolável baixei a cabeça, mas ele a levantou devagar. Comecei a rir e me apertei a ele, finalmente. Colei meu corpo ao dele, nua e molhada. Apertei meu ventre sobre suas pernas e senti o seu sexo ereto, ainda escondido na calça. Ele tomou no colo meu corpo magro de menina e mulher e me beijou na boca devastando com a língua a seu interior. Gostei daquilo, gostei de como ele me invadia e se precipitava ansioso na busca por desvendar os meus mistérios. E foi para o quarto dos fundos onde nos dirigimos e foi lá onde ele se despiu. Eu o via sem timidez, o corpo inteiro nu, os músculos, os pêlos, a rigidez do sexo entre as pernas. Quantos anos teria? Pensei. Trinta? Trinta e cinco? Nada daquilo importava. Era ele, e mesmo se houvesse mil escolhas, seria ele.
Exercitou uma ternura e uma lentidão que quase me levaram a total perda da lucidez, como se tudo fosse desmaiando às minhas vistas e as janelas, as paredes, as cores, os cheiros, os ruídos lá fora foram tomando distâncias de léguas para meus sentidos. Eu o pedi que fizesse tudo e não evitasse nada, do mesmo jeito que já fizera com as mulheres que amara ou com as prostitutas nos bordéis. Pedi que não temesse a minha dor e a minha inexperiência. Era eu que o conduzia, hoje eu sei, era eu que o conduzia com total controle da minha intuição feminina, dos meus instintos.
Aquele foi o dia em que eu toquei o céu e que, num breve instante, havia esquecido do inferno em que vivia.
Foi assim que meu pai nos encontrou, perdidos um no outro, bêbados, tontos e lavados de suores nossos. Não houve palavras, nem gritos, nem sustos, nem nada. Papai era o mestre do silêncio e eu vi o vazio quando sustentei o seu olhar. Então, ele o levou de mim, arrancou-o do meu entrelace sem deixar-me tempo de pela última vez olhar o seu rosto terno e irônico. Permaneci estática, ouvindo ruídos surdos e o som do carro velho indo embora. E todo o silêncio voltou, ainda mais forte, pois trazia consigo o vazio, o nada.
Meu pai voltou muito tarde, mudo e sombrio como sempre fora. Não me disse nada, nunca me disse nada. Minha mãe parecia que percebia tudo em sua intuição maternal, mas não ousava me consolar. O tempo voltou lentamente a se arrastar entre as paredes da casa. Era o silêncio.
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Ninguém nunca mais falou do meu tio e eu até hoje não sei o que se passou. Daqueles dias, apenas sei do meu precoce envelhecimento e da dor que este me causara. Até que, mais tarde, um ano depois, deixei aquela casa de silêncios e, em minha partida, não olhei para trás, não senti culpa, nem raiva, nem amor. Mas, ainda hoje, trago em mim o terror do silêncio daquelas paredes e a doce lembrança de um pequeno intervalo de vida: o meu mais breve interlúdio e o meu mais surpreendente epílogo...
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(*) "Como longos ecos que de longe se confundem
numa tenebrosa e profunda unidade,
vasta como a noite e como a claridade,
os perfumes, as cores e os sons se correspondem."
("Correspondências". Baudelaire)

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sábado, 14 de março de 2009

POESIA: A GRANDE MUSA























(...)


Abaixo - via a terra - abismo em treva!

Acima - o firmamento - abismo em luz!

"Arcanjo! arcanjo! que ridente sonho!"

— "Não, poeta, é o vedado paraíso,

Onde os lírios mimosos do sorriso

Eu abro em todo o seio, que chorou,



Onde a loura comédia canta alegre,

Onde eu tenho o condão de um gênio infindo,

Que a sombra de Molière vem sorrindo

Beijar na fronte, que o Senhor beijou..."

"Onde me levas mais, anjo divino?"

— "Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas,

(...)


(“O vôo do gênio” – Castro Alves)
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TEXTO: Genny Xavier
Poesia, essência de tudo

"Entre a idéia e o acto cai a sombra
e neste iato está a poesia e sua
capacidade de relacionar o indizível

(T.S. Eliot)

A poesia é a essência, expressa na paisagem noturna que sopra indagações e dissabores; ou a cadência do andar feminino que embala o ritmo e que moleja o vai-e-vem dos passos, a ondulância das formas; A poesia é a essência, expressa na voz bendita do menino que grita “Olha o quebra queixo!”; ou no poema que se inscreve o palavrear mágico e abominável que o poeta cria; A poesia é a essência fluídica de um perfume no ar, que vai percorrendo entrâncias, frestas e caminhos para pousar nos dedos do poeta que ensaia o poema... Da poesia não se diz, se percebe, se degusta, se aspira, se debruça.
Conceituar poesia nos remete aos olhos que pairam sobre montanhas e idéias. Dá-nos vontade de exercitar o onírico, o lúdico, o belo, o indizível. E lembrar-nos que as palavras se entranham, se combinam se atraem e restituem melodias, sons e ritmos; e criam metáforas e dizeres por trás das coisas.
A poesia e o poema estão unidos e próximos pela relação que o poeta lhes remete. O poeta capta a poesia que se eterniza no poema, “idéia” e “acto” de uma “sombra” que emerge dos escuros, da invisibilidade, da incapacidade daquilo que não se diz. A poesia é o impossível que se desvela; o suspiro, a divagação, a crítica, a construção, a dor, o asco, o susto, inseridos na projeção poética, no paradigma existencial do poeta que, entre a idéia e a forma, captura a poesia que se cristaliza no poema e se instala na literatura.
Mas, afinal, o que é a poesia? De que partícula ela se compõe? Que olhos tem? Que bocas? Quantas mãos? Com qual das faces nos olha a poesia?Mediante os gostos e as diferenças, podemos dizer que a poesia é a essência subjetiva de uma sensação; é o fluído que percorre paisagens, atravessa pessoas e fotografa coisas e objetos; é o parêntesis entre o dizer (expresso pelo poema) e o não-dizer (expresso pela poética). A poesia é a refratação, o interlúdio da razão e o prelúdio da emoção.

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POÉTICA UTÓPICA


São tortas as curvas
e lucidamente tortuosas
as rotas que seguem rumos
que levam nossos pés
na direção dos lobos...

Há consciências inaptas
inadaptadas ao rigor dos tempos...
Estamos taciturnos
e nossa rubra emoção
já não comove o mundo
em refluxo de idéias...

Todos estão mudos
ou hão de estar cegos
expostos à corrosão dos dias...

Eu, poeta, no viés da vida
aspiro os fantasmas dos homens
e sopro as palavras
que externam minha voracidade
de restaurar no tempo
uma nova utopia
em forma de verso...
Genny Xavier

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INSANIDADE DAS PALAVRAS SENSATAS


Vou soltar os versos como raios,
impressão dos encantos...medo, idolatria...
Como nossos primitivos ancestrais.
O verbo e suas potências reveladas.
A cor, o gosto e o som
de cada sílaba produzida...

Aí verei a mais insana loucura,
Pois só ela me elucida os sentidos
quando cada desejo ansiado
veste-se, empírico, aumentando as incertezas
e sonhos que se derramam pelas têmporas
afinados como os acordes do meu poema.

Vou soltar os versos mais duros
Como duro é o favo do mel
Que adoça a minha boca...
Uma dualidade barroca
Uma sinestesia simbólica
Verso e re-verso da poética dos dias que se repetem...

Aí arrancarei das palavras suas possibilidades:
Uma sensatez cotidiana
Uma placidez de rio
Uma tempestade de chumbo
Uma eclosão de amante...
Poesia, enfim, que personifica as horas mais profundas.

Genny Xavier

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SEMÂNTICA


Além do fato explícito
estão todas as intenções prévias
contra o óbvio.

Nunca fabricar o verso
feito exercício.
Apenas canalizar sua hora
porque o instrumento poético
reside, a qualquer instante,
em nossos olhos
e dentro da gente.
E o seu riso
é a palavra:

Semântica do eterno conflito
entre o pensar o dizer...
Genny Xavier
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PALAVREAR
As palavras imbricam nomes
que sugerem mundos
e visitas que superam viagens
imaginadas ou sonhadas
num canto aconchegante da casa
onde olhos devoram velhas folhas de papel impresso...

As palavras,
que, sonoras, cantam
e, insonoras, gritam
se estendem pelos fios imprecisos das estradas,
antenadas, como a farejar
os suspiros de todos os povos...

As palavras
que das bocas ferem ou acariciam,
que entre dedos deslizam,
por caminhos suaves ou ásperos,
inscrevem as linhas da vida
e surrealizam as entrelinhas da alma...

Palavras?
Leia-se: um mundo
um ovo
um núcleo
uma centelha...
Genny Xaivier

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A PALAVRA NÁUFRAGA

Há uma solidão perpétua
instalada no pensamento
que ressoa no prumo de cada dia...
E, no intervalo em que a respiração se molda,
moldam-se as palavras que dançam por dentro
nos entremeios de veias, sangue e suores...
E, trazem à tona, a exaustão da alma
num deserto pleno
de beleza crua e explícita
em que elas - as palavras - estão isoladas
num campo inóspito de silêncio e dor...
E, enfim, da voz latente,
náufraga na encéfala ilha,
as palavras se enjaulam
distantes, sonâmbulas e saudosas
da substância-seiva
que nutre a terra fértil
do coração pulsante...

Genny Xavier

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Agora tu, Calíope, me ensina/ (...)/Inspira imortal canto e voz divina / Neste peito mortal, que tanto te ama.”

(Camões. "Os Lusíadas")











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