domingo, 29 de março de 2009

Ricardo Reis pelos olhos de Saramago: Por uma Lisboa revisitada











ARTIGO: Genny Xavier

A CONFRONTAÇÃO DO ESPETÁCULO DO MUNDO E A IDENTIDADE PORTUGUESA EM “O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS” DE JOSÉ SARAMAGO

Ó céu azul
- o mesmo da minha infância -
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade
onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada,
Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tiras,
nada sois que me sinta.(...)”

"Lisbon revisited". Álvaro de Campos)


Em seu romance “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, José Saramago, pelo recurso da intertextualidade, integra um discurso histórico evidenciado por um “olhar novo” à cerca dos episódios do passado em relação a uma noção crítica do contexto histórico-cultural português frente ao mundo contemporâneo decorrente da década de 30, mais precisamente, o ano de 1936. O texto de Saramago nos traz de volta o heterônimo Ricardo Reis, um dos alter-egos do poeta Fernando Pessoa, precursor do Modernismo português, no início do século XX. Transformado em personagem pela pena de Saramago, Reis retorna do auto-exílio no Brasil, onde estaria vivendo à dezesseis anos, ao receber a notícia da morte de Pessoa. Depara-se então com uma Lisboa que vive um crucial momento histórico. Esse Reis, imaginado por Pessoa e recriado por Saramago, desembarca numa Lisboa cuja paisagem esboça um passado de glórias monumentais, instituído por nomes e estátuas; por ruas encharcadas pela torrente das chuvas; por um rio que é testemunho ocular dos tempos, dos dias; por figuras míticas, heróis de pedra, deuses cristãos, fechada em seu próprio universo, que é o próprio universo português. Sobre esta Lisboa que vai tomando forma aos olhos do poeta que retorna, a professora Patrícia Pina, em seu estudo sobre as relações entre os discursos histórico e ficcional intitulado “O Ano da Morte de Ricardo Reis – a ficção e a travessia”, enfatiza: “Essa Lisboa tem traços essenciais, constantemente revisitados por Ricardo Reis, traços que mais parecem pontos catalisadores num complexo e encharcado labirinto: a estátua de Camões, onde convergem pombos e poetas; a de Eça de Queirós, no caminho para a de Camões; a do Adamastor, outra ficção ficcionalizada; a do “...rapazito mascarado...” sempre presente no imaginário português – D. Sebastião. Essa Lisboa não se resolve na ficcionalização, ela é um incessante movimento de água e lembranças. É a travessia entre arte, cultura e história. É onde os rumos mudam de direção e sentido, onde as pedras tem boa memória.” (Revista CAPHS: 2001, p. 386)
A confrontação de um Ricardo Reis – heterônimo clássico do poeta Fernando Pessoa – por ideologia, partidário de uma filosofia cética e racionalista, diante do “espetáculo” de fatos desse novo mundo que se abre para a modernidade, confere uma reflexão profunda sobre a identidade portuguesa no século XX.
Não foi em vão que Saramago nos trouxe à superfície da sua narrativa o comedido e sóbrio heterônimo pessoano que, diante do espetáculo dos acontecimentos históricos marcados no tempo do seu “retorno” à Portugal - como a ditadura salazarista, a hegemonia fascista e os prenúncios de guerra - vai deixando de ser alheio para se recompor num novo Ricardo Reis, que se vê diante de um espelho partido. Não havia como contemplar o mundo perturbador daqueles dias, que ora se apresentavam, com polidez, mas com vertigem, com carne e sangue, expectativa e espanto, não do ponto de vista do procedimento engajado ou militante, mas de cunho investigatório, instigante e, de certa forma, contrário ao “paganismo transcendental” e ao “sensacionismo” expresso pelo Reis clássico do imaginário de Pessoa.
Na recriação do “novo” Ricardo Reis por Saramago, o personagem vai, aos poucos e no infringir dos acontecimentos que o seu “olhar” pela Lisboa contemporânea e decadente se mostra, perdendo sua identidade original, àquela do imaginário pessoano, para se reconstituir em gestos, atitudes, emoções, num outro Ricardo Reis, este, inclusive, pouco admirado pelo próprio Fernando Pessoa, que ressurge do mundo dos mortos para dizer: “você afinal desilude-me, (...) estimava-o mais quando você via a vida à distância a que está” (SARAMAGO: 1988, p.183) e, adiante, este responde: “A vida, Fernando, está sempre perto” (SARAMAGO: 1988, p.183). No ápice do seu olhar que se toma de assalto na Lisboa de 1936, Saramago nos mostra um Reis que evidentemente passa a não contentar-se mais com o espetáculo do mundo que ora vê, assumindo uma nova identidade diante da nova identidade portuguesa em sua terceira década do século XX. Neste sentido, que nos instiga ao questionamento a cerca da reconstrução desse personagem na ótica de Saramago, a ensaísta Teresa Cristina Cerdeira da Silva, em seu livro “Entre a história e a ficção: uma saga de portugueses”, no capítulo sobre o romance em questão, salienta: “É o Reis espectador da vida que o romance quer confrontar com o espetáculo de 1936, para testar até que ponto se consegue ser sábio diante de uma Europa conturbada e agonizante, de valores degradados, onde a liberdade começava a ser um sonho cada vez mais inatingível. É esse o argumento do romance, cuja trama deambulatória nos revelará um novo e amargo sentimento de um ocidental.” (SILVA: 1989, p.104). O mundo português visto agora pelo olhar do Reis de Saramago, surpreende-se “quase” perplexo, surpreende-se ao “assistir” o espetáculo da vida à frente de uma realidade melancólica e cinzenta numa pálida Lisboa onde a chuva cai: “Vai Ricardo Reis aos jornais, vai onde sempre terá de ir quem das coisas do mundo passado quiser saber, aqui no Bairro Alto onde o mundo passou, aqui onde deixou rastro do seu pé, pegadas, ramos partidos, folhas pisadas, letras, notícias, é o que do mundo resta, o outro resto é a parte de invenção necessária para que o dito mundo possa também ficar um rosto, um olhar, um sorriso, uma agonia( ...). (SARAMAGO: 1988, p.35)
Os referenciais do contexto histórico europeu deste período aparecem no romance de forma profunda, mostrando que as representações e analogias prescritas nas relações individuais entre os personagens (Ricardo Reis, Marcenda, Lídia, Salvador, Dr. Sampaio ou Victor) funcionam como alegorias do universo político desse tempo. A construção de cada um desses personagens, nas entrelinhas do texto saramagueano, representam os vários elementos que fundamentam a sociedade portuguesa, sejam estes voltados para as ideologias conservadoras ou de vanguardas. O pulsar dessa época chega até Reis pelos meios que impulsionam a comunicação desse tempo: jornais, rádio, propaganda, literatura panfletária e discursos intelectuais e, é justamente através dele, que estes acontecimentos traduzidos pelos meios de comunicação, vão definindo o substrato narrativo do romance, mostrando como se processa as mudanças de um personagem que retorna à sua terra natal e se vê diante de uma realidade nova, frente a um tempo marcado por crises políticas e econômicas, por uma ditadura que reforçava a imagem de um líder conservador, austero, associado, no imaginário português, ao mito sebastianista, ao arquétipo do “salvador”, do “redentor”.
Esses acontecimentos, passados à limpo pelo olhar crítico do ficcionista, referendam o corpo narrativo do “Ano da Morte de Ricardo Reis”, resgatando o heterônimo Ricardo Reis afim de que, pelo imaginário, verossímil ou não, pudesse “redescobrir” as marcas identitárias de um país caótico, que ora se apresentava demasiadamente inquietante para que ele pudesse “contemplá-lo” com um certo tom de expectador, mas não com indiferença ou distanciamento. Ricardo Reis retorna do Brasil realizando sua travessia pelo mar para recomeçar sua aventura na terra. Não há aqui a substância épica que expressava o mundo do mar, seu mítico universo. Ao contrário de Camões, Saramago principia sua aventura de regresso no discurso de Ricardo Reis: “Aqui o mar acaba e a terra principia” (SARAMAGO: 1988, p.11). E vamos ver que o tempo que inaugura Saramago, na voz ficcionalizada do heterônimo de Pessoa , é o tempo da terra, em que fatos se sucedem, se desenrolam, acontecem. Sobre isso comenta Teresa Cristina Cerdeira da Silva: “O discurso falará dessa terra e de homens nessa terra, desse país de marinheiros naufragados em ondas de silêncio, violência e corrupção. Ondas que também Ricardo Reis se debaterá por nove meses, buscando angustiadamente uma saída.” (SILVA: 1989, p.148)
A construção da narrativa de Saramago em “O Ano da Morte de Ricardo Reis” encerra duas intenções: uma, de marcar uma identidade portuguesa frente a alienação de uma época, a uma situação de crise histórica e a uma proposta revolucionária, onde seu protagonista, trazido do plano ficcional para outro universo de ficção, romanesca, adquire consciência e se livra das máscaras ocultadas pela ideologia, tendo a oportunidade de se soltar das defesas, da cegueira e fazer das verdades experimentadas como novas a apreensão do espetáculo do mundo; outra, de desvincular Reis de apenas um mero observador das coisas e do tempo, passado de sábio à lúcido, onde o distanciamento cede lugar a um processo de interação e o jogo do “fingir” se refaz no “existir”, assim este se desprende da identidade heteronímica possoana, para assumir os contornos novos da identidade que lhe molda Saramago, sobre isso comenta ainda Teresa Cristina Cerdeira da Silva: “Há portanto, da parte do projeto narrativo, um duplo salto que o personagem deve empreender. (...) Dois projetos interdependentes onde a identidade de Ricardo Reis é como um vazio a ser eternamente preenchido, capaz de modificar-se em contato com o mundo. Ricardo Reis – agora vivo – ganha a trágica liberdade de poder transformar-se, de mudar o modelo que lhe coubera como máscara de Fernando Pessoa.” (SILVA: 1989, p.167/168).
Pela referência do mar e da terra o ficcionista inicia e encerra a sua narrativa, como a unir duas pontas, como a refazer os limites entre o mundo passado e o mundo presente, entre o que é mito e o que é história, entre o que é sonho e realidade. Fernando Pessoa se despede da cena do mundo e Ricardo Reis o acompanha levando consigo o mesmo livro que trouxera da viagem e que não tivera tempo de ter terminado a leitura: “The god of the labyrinth”. Ciclo que se fecha na referência de ficção que se esvai, mas que fica a pairar no mundo das idéias e das verdades. Resta-nos antever as leituras desses labirintos, ainda que a morte nos leve para a região que se desconhece e faça-nos perder a virtude da leitura (SARAMAGO: 1988, p.415) mas que, pela própria incapacidade de decifrar os enigmas existenciais possamos encontrar as respostas que buscamos. Assim, se desfaz o tempo de Pessoa e de Reis, num passeio de jardim, a admirarem as luzes pálidas do rio e a sombra ameaçadora dos montes (SARAMAGO: 1988, p.415), ali, naquela Lisbon revisited testemunha da passagem das séculos onde o mar se acabou e a terra espera (SARAMAGO: 1988, p.11).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PINA, Patrícia. “O Ano da Morte de Ricardo Reis: a ficção e travessia”. Revista CEPHS-UESC-BA, nº 02, p. 375-390.

SARAMAGO, José. “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.

SILVA, Tereza Cristina Cerdeira da. “José Saramago – entre a história e a ficção: uma saga de portugueses”. Lisboa-Portugal: Publicações Dom Quixote, 1989.

VARELA, Maria Helena. “O Paganismo transcendental de Fernando Pessoa na versão de
Ricardo Reis”.(file:/D/AIL/opaganismotranscendentaldefernando.htm).













quarta-feira, 25 de março de 2009

DE TODOS OS POEMAS, O MAIS BELO...


Há 24 anos atrás, no dia 25 de março de 1985, dei vida a minha melhor poesia, obra prima da minha existência...


DESEJOS PARA UMA ESTRELA-MENINA

Para TAINÁ, minha filha


Desejo, neste tempo torto
e de caminhos íngremes,
te recriar todos os dias,
do feto à luz das minhas auroras...

Desejo, no espírito da Grande Mãe,
que sol e lua, vento, mar e tempestades
mesclem suas forças
para proteger seus dias.

Desejo, no caleidoscópio do céu noturno
que a estrela do teu nome
te seja guia e norte
luzidia sorte de brilho e cor.

Desejo, no confronto das diferenças
que a distância do meu mundo maduro
te ofereça lição de vida
para o exemplo das tuas febres juvenis.

Desejo, nesta convulsão materna
do parir a ti todos os dias,
embalar tuas horas quando tristes forem.
e ninar seguidamente teus sonhos

Desejo, nesta ânsia de desejar,
fluir teus risos, encantar teus verdes olhos,
festejar de canto tua voz musical
e tua solene elegância de garça.

Desejo, na curvatura do tempo,
bem antes que eu cruze outras fronteiras
soprar meu amor em tua alma
e imprimir meus passos no teu caminho.

Genny Xavier

















terça-feira, 24 de março de 2009


OLHAR OS OLHOS DO OUTRO

Os olhos capturam o susto,
dizem mudos que os dias não são sempre iguais
e que há sempre uma espera factual
o imperceptível e o avesso
de uma realidade que é surpresa.
Olhar os olhos em susto
é perceber suas rotas
e seus imperceptíveis desvios...
e encher a percepção de intuitiva compreensão
de solidária ternura de olhar os olhos do outro.


Que há de se dizer
quando se descortinam caminhos novos
na trajetória do outro?
Há silêncio que paira na mudez dos olhos
e não compreendemos nunca
porque forjamos as estradas
que ainda não foram abertas.
O tempo diz que tudo é descoberta.
O tempo restitui os mistérios
e acomoda as retinas inquietas...
Há de não se temer as descobertas.
Há de se mastigar o novo.
Há de não se lamentar as escolhas...

As mãos que estão próximas
percebem que basta um gesto
para tocar a face quase intocável do outro.
As mãos precisariam do afeto explícito
para fraternizar o sentimento mudo.
Por que não há solidariedade sem amor,
nem canção de ninar sem acalanto.
As mãos, então, guardam o gesto tátil
que se comunicam em invisível mensagem:
De olhar e compreender o que se captura;
De olhar e perceber o que mudamente se fala.

Genny Xavier

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domingo, 22 de março de 2009

DO SUL DA BAHIA...O VERSO DE COR E SOM

ARTIGO: Genny Xavier


SOSÍGENES COSTA: POETA DE FLUIDEZ ATEMPORAL


“(...). Por isso, mais do que exercício de admiração, ler Sosígenes é fruir raro prazer estético. Leitura que, fascinante como uma experiência venturosa, é cada vez a primeira e cada vez a única”.
(Valdomiro Santana)


É notória a assertiva de que a poética de Sosígenes Costa (1901 – 1968), poeta sul-baiano nascido em Belmonte, reveste-se de uma criação diversa que se associa a uma gama de elementos que vão se constituindo numa estilística de confluência entre a tradição parnasiana e simbolista e os ditames da modernidade. Da tradição parnasiana, o poeta constrói seus versos a partir de uma preferência estética pelo soneto, referenciando uma poesia de metrificação rígida, rimas preciosas, vocabulário rico, descritivismo pictórico e referências na cultura oriental; Do simbolismo, sua criação patenteia a sutileza de cores, sons, cheiros, imagens que reafirmam uma linguagem sinestésica, simbólica, repleta de associações místicas e míticas, históricas e culturais que se adiantam ao sabor do tempo e do espaço: “O rei das rosas me enviou da China/ um ramo de jacintos cor da aurora,/ mais belo que a azuréia solferina/ e a floração lilás da passiflora.(...)” (Celeste privilégio. Obra Poética, p. 255); “No jardim do castelo desse bruxo/ d’asas d’ouro e olhos verdes de dragão,/ tu és beira de um lilás repuxo/ um grande lírio de ouro e açafrão.(...)” (Pavão azul. Obra Poética, p. 253).
Esta poética da tradição, longe de se constituir numa marca enfadonha do seu estilo apurado, toma veios novíssimos quando associados aos pressupostos modernistas em que se mesclam um primitivismo colorido, o tom paródico, o coloquialismo, a evocação da infância, o lirismo social, a incursão da cultura regional sul-baiana, com suas relações mitológicas, suas crenças afro-indígenas que dão expressão ao fantástico e ao maravilhoso popular, numa percepção de que a poesia é fonte caleidoscópica, jogo de imagens, profusão de linguagens em que oscilam o velho e o novo, o culto e o popular. Dessa visão do imaginário deste poeta baiano, nos fala Valdomiro Santana: “Como toda obra de arte, a poesia de Sosígenes Costa é intencionalmente sutil. Lembra o jogo de espelhos refletidos. Contém planos e matizes não apenas visíveis nas palavras e nas áreas de silêncio que as cercam e se insinuam entre elas, mas também virtuais no arranjo e ligação dos ciclos de poemas (...)” (Obra poética, 1978).
Dessa expressividade modernista, de apelo universal questionador, alguns temas parecem nos chegar como mensagens sempre atuais, que atravessam as épocas e nos fazem refletir causas humanistas ainda hoje prementes no âmago do homem contemporâneo: “A liberdade está morta/ com seus cabelos tão longos,/ com seus cabelos boiando/ no mar em que se afogou.// A liberdade está morta/ com seus cabelos desnastros./ Caiu, coitada, dos astros/ No mar em que se afogou.// A liberdade está morta/ com seus cabelos tão longos,/ com seus cabelos compridos/ que eu desejava beijar.// A liberdade está morta./ Lá vão os homens buscá-la/ naqueles barcos de vela,/ naqueles barcos com asas.(...)” (A liberdade está morta. Obra Poética, p. 253).
As relações do homem com sua cultura e com os problemas do seu chão, o regionalismo, a ambiência telúrica, com seus matizes próprios, a conotação típica do modernismo dos anos 30, ganha também fortes contornos na obra de Sosígenes Costa. O sul da Bahia do seu tempo, a cultura do cacau, as idiossincrasias peculiares de sua gente, sua natureza, seus mitos e referências, faz-nos saber de uma obra que busca sua identidade numa abordagem que escapa ao sentimento puramente ufanista, mas resgata uma ideologia que se expressa como nacionalista e regional a partir de uma percepção do indivíduo que repensa a sua essência, as suas raízes e se sente seguro neste posicionamento estético: “Flor de cacau toda orvalhada e moça,/ és curtidinha de sereno em Una,/ em Itabuna ainda és mais moça,/ sinhá-moça, mulher grapiúna.// Flor de cacau toda orvalhada e roxa./ Chuva em crisol fez teu lilás moreno./ Serias a paixão de Barba Roxa,/ Se Barba Roxa viesse a este sereno. (...)” (Flor de Cacau. Obra Poética. p. 261).
Outra manifestação das sutilezas do poeta em questão se faz perceber no lirismo eivado de sensualismo inovador, em que a imagem do feminino assume tons sensoriais, repletos de perfumes, que se relacionam aos matizes da natureza crepuscular, orvalhada, colorida, densa, telúrica; ou se expande às relações míticas para as imagens de sereias, musas, deusas, ninfas, etc. A visão do feminino se manifesta desde as referências da mitologia oriental e suas personagens, bem como da exuberância das mulheres do seu chão, onde se misturam os sabores, perfumes e fábulas encantadas do imaginário popular: “Há gritos de dragões pelo ocaso tranqüilo,/ quando a filha do sol, de corpo de gazela,/ vem colher e beijar a carola amarela/ do lótus que se abriu no santo rio Nilo.” (Soneto Encantado. Obra Poética, p. 257); “(...) O meu sonho é um jardim de Fernabaso/ cheio de musas e pavões do Faso./ Meu amor virá hoje do Parnaso/ ou do país da mirra e do aloé?// Silêncio! Ela já vem. Pé ante pé./ É a filha de Ciro ou de Artabaso?/ É a estrela da alvorada./ Mas quem será! Meus Deus! É Salomé!” (Versos aos vinte anos. Obra Poética, p. 263/264).
A obra de Sosígenes Costa assume ainda uma característica de reflexão religiosa no tratamento de episódios e personagens bíblicos, não em tom doutrinal ou dogmático, mas em sintonia com as relações culturais e místicas que referenciam um universo em que se mesclam o sagrado e o profano, o divino e o pagão, a historiografia e a lenda. Percebemos tais considerações em poemas como “O sermão à beira do mar da Galiléia”, “Daí a César o que é de César” e o soneto sem título, datado de 1921, segundo o fragmento a seguir: “Vontade de ser Cristo às vezes sinto/ pra que Pilatos me apresente ao povo/ todo açoitado, as mãos no tronco, e tinto/ de sangue em pingos de amaranto novo.// Desse ideal azul não me demovo/ e vejo Herodes e com fel não pinto/ a mágoa com que escuto do recinto/ o “crucifique” que rebenta o povo.// Depois arrasto a cruz e rolo à areia/ e despem-me pregando-me na veia/ três cravos cujo ferro me gangrena.// Mas quando acabam de crucificar-me/ eu fico só no entanto sem o alarme/ do pranto embalador de Madalena.” (Sem título. Obra Poética, p. 251).
Assim, convém fechar as considerações desta tentativa de análise da poética de Sosígenes Costa, embora aqui apenas perfaçam considerações pouco aprofundadas sobre a sua complexidade como fazedor de versos, com um pensamento do professor de Literatura e Diversidade Cultural, Marcos Aurélio dos Santos Souza: “(...) Sosígenes abre um espaço intersticial entre os” sonhos" de uma identidade nacional e de uma identidade local, comunitária e imediata, confrontando-as com (e a partir de) uma interferência cultural alienígena. Esse lugar, deslizante e ambíguo, evita o erro de se essencializar qualquer uma dessas identidades, flagrando espaços vazios e instáveis, que permitem o cruzamento de elementos culturais como um processo complexo e, muitas vezes, conflituoso. O imaginário sosigenesiano, dessa forma, em vez de se fixar em um conjunto de elementos identificadores de uma cultura e de um nacionalismo, ondula-se em espaços de correspondências, onde a identidade só pode ser pensada em relação à diferença, e através da constituição de um sujeito descentrado. As zonas fronteiriças entre o local e o universal, o "eu" e o "outro", o nacional e o estrangeiro, se tornam tênues e frágeis, quando o poeta trabalha, indiferentemente, com aspectos de sua vivência(...).” (Identidade e Identidade Nacional em Iararana, de Sosígenes Costa. 1994.).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COSTA, Sosígenes. Obra Poética (ed. rev. e amp.). São Paulo: Cultrix-INL, 1978.

PAES, José Paulo. Pavão parlenda paraíso: uma tentativa de descrição críticada poesia de Sosígenes Costa. São Paulo: Cultrix, 1977.

SOUZA, Marcos Aurélio Santos. Antropofagia e Iararana de Sosígenes Costa. 1994. (
www.revista.agulha.nom.br/ag21costa.htm).

SOUZA, Marcos Aurélio Santos. Identidade e Identidade Nacional em Iararana, de Sosígenes Costa. 1994. (www.uesc.br/icer/artigos/iararana.htm).


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CURIOSIDADES BIOGRÁFICAS E LITERÁRIAS SOBRE SOSÍGENES COSTA



Biografia:
Sosígenes Marinho da Costa


(Belmonte BA, 1901 - Rio de Janeiro RJ, 1968). Estreou na imprensa por volta de 1928, em Ilhéus BA, onde foi colaborador do Diário da Tarde. No mesmo ano tornou-se membro da Academia dos Rebeldes, com Pinheiro Viegas, Jorge Amado, Edison Carneiro e Dias da Costa. Na época, trabalhava como professor de instrução primária. No início da década de 1950 foi secretário da Associação Comercial e telegrafista do Departamento de Correios e Telégrafos, em Ilhéus. Em 1959 ocorreu a publicação de seu livro “Obra Poética”, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti de Poesia, em 1960. Entre 1978 e 1979 foram publicadas a segunda edição, revista e aumentada, de “Obra Poética” e a póstuma “Iararana”, por iniciativa de José Paulo Paes. A poesia de Sosígenes Costa vincula-se à segunda geração do Modernismo. Segundo o crítico José Paulo Paes, "a ter como certas as datas de composição das peças enfeixadas na primeira parte da “Obra Poética”, quando ainda andava acesa a campanha dos modernistas contra o soneto em prol da institucionalização do verso livre, entretinha-se o poeta a escrever seus sonetos pavônicos, todos rigorosamente rimados e metrificados, nos quais são perceptíveis traços parnasianos e, sobretudo, simbolistas, ainda que tais sonetos nada tenham de passadistas, caracterizando-se antes por uma modernidade que se patenteia, como a de Quintana, na exploração criativa das possibilidades expressionais dessa forma fixa, então esclerosada pela prática mecânica e abusiva.".

Obras poéticas:

Obra poética. Rio de Janeiro: Leitura, 1959.

Obra poética. 2ª ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 1978.

Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. II. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979.

Poesia completa. Edição comemorativa do centenário de nascimento de Sosígenes Costa – Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo; Conselho Estadual de Cultura, 2001.


Da crítica, das referências e das homenagens:

Matos, Florisvaldo. Travessia de Oásis – A Sensualidade na Poesia de Sosígenes Costa – Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da Bahia: EDBA, 2004.

O triunfo de Sosígenes Costa – Estudos, depoimentos e antologia. – Seleção, organização e notas de Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca – Ilhéus, Ba: UESC-Editus/UEFS-Ed, 2004.

Pólvora, Hélio. A Sosígenes, com afeto (no centenário de nascimento do poeta, em 14 de novembro de 2001) – Salvador,Ba: Edições Cidade da Bahia; Fundação Gregório de Mattos, 2001.

Paes, José Paulo. Pavão, Parlenda, Paraíso – uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa. São Paulo:Cultrix; Itabuna, Ba: PACCE, 1978.

Sosígenes Costa – Antologia Poética (CD comemorativo do centenário de Sosígenes Costa) – Coleção Poesia Falada, vol. 12. Editora Fonográfica Luz da Cidade e Fundação Cultural de Ilhéus, 2001.
Poesias de Crônicas Grapiúnas – por Nevolanda Pinheiro - (CD com textos gravados de Sosígenes Costa, Jorge Amado, Cyro de Mattos, Euclides Neto, Florisvaldo Matos, Hélio Pólvora, Firmino Rocha, Valdelice Pinheiro, Telmo Padilha e Fernando Mendes). Editora Fonográfica Luz da Cidade, 2001.


quinta-feira, 19 de março de 2009

CONTO: Genny Xavier

SILÊNCIOS
"Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profunde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent." (*)

("Correspondances". Baudelaire)

O retrato dos meus dezessete anos imortalizou meu rosto jovem num papel hoje amarelado. Sim, eu tinha dezessete anos e aquela época ainda continua lá atrás, parada num tempo que ninguém mais toca, apenas eu retorno à ele, como a passear por lembranças minhas...
Aos dezoito anos eu já havia amadurecido de uma forma definitiva, com a mesma consciência de hoje. Mas foi nos meus dezessete anos que se delimitou o intervalo curto do meu auto-crescimento, que nunca mais apartou-se de mim.


**********
Aquela casa onde morávamos tinha um silêncio que eu não suportava. Tudo era silêncio... o vento, os passos, as caras expressivamente mudas. Meu pai, sombrio e dominador. Minha mãe, covarde e subserviente. Quanto a mim, vagava entre os dois, bocejando uma solidão sem fim e morrendo de inveja dos barulhentos vizinhos da minha idade. Eu os observava pela janela do meu quarto, imaginando como seria participar daquela alegria que me era proibida.
Lembro que eu tinha anseios desconhecidos. Passava as mãos em meu corpo ao dormir, escondido, feito um crime. O toque me abrasava os sentidos, queimavam a minha pele. Mas, era a solidão que me tomava, o abandono de uma carícia solitária. Depois, nada acontecia, eu continuava igual, o tempo se arrastando e a ausência dos sons, a ausência de vida. Aquele era apenas um tempo disforme e, eu, uma garota também disforme, silenciosa, a observar os cantos da casa, os esconderijos das baratas, as tocas dos ratos e os insetos em sua cópula.
A noite, os gatos miavam de prazer e liberdade. Era excitante ouvi-los e eu fantasiava como seria gritar e gemer sobre os telhados, tendo o corpo banhado pela luz da lua. Mas, como possuir a liberdade dos gatos e restituir dentro da minha alma a grandiosidade dos telhados, que se perdem em distâncias e se espalham pelas cidades? Eu só tinha o sonho, a imaginação.
Então, chegou de repente aquele homem jovem que se dizia meu tio, vindo dos lugares distantes, das paragens longínquas que lhe imprimiam a maturidade nos olhos. Meu pai não abraçou o irmão, deu-lhe um quarto nos fundos da casa. Quando eu o vi, tive a impressão que seus olhos eram negros demais, envoltos numa sombra que eu não conhecia. Tinha um sorriso que vagava entre o meio-termo da ternura e da ironia. Mas, somente hoje eu me apercebo disso. Naquele dia, eu só o sentia como uma figura masculina na minha casa de silêncios.
Os dias passavam. Dei para ficar atenta aos ruídos que ele fazia. Ao farfalhar dos papéis que remexia na mesinha do quarto, ao ranger das molas do colchão quando se movimentava em seu sono noturno, quando tossia, quando mastigava os alimentos, quando cantarolava na rede da varanda. Estava feliz, pois ele havia quebrado a mudez daquela casa. O ruído mais próximo ao meu orgasmo era o som do chuveiro quando ele tomava banho. Imaginava seu corpo inteiramente nu, um fio d'água a escorrer pelo seu peito, a desviar-se dos pelos, a caminhar pelo seu sexo, a viajar pela rigidez das coxas.
Espiava-o despir-se à noite, pela fresta apodrecida da porta do seu quarto. Dormia nu feito um anjo lindo, como Lúcifer, o anjo tentador e belo, expulso do céu por fazer rebelião com Deus. Aos poucos, ele foi se tornando o demônio e o anjo da minha imaginação solitária.
Vagava inquieta pelo meu quarto, sentia angustias que me dominavam, suores e tremores. Tocava intimamente meu ventre, as minhas mãos percorriam caminhos e entranhas, mas não aplacavam os meus desejos, pois não eram as minhas próprias mãos que eu queria sobre mim.
Ele também queria. Eu sentia seu olhar sobre mim, o meio sorriso, mirando meus peitos miúdos, escondidos atrás da blusa fina. As narinas levemente dilatadas, o jeito de como passava a língua nos lábios olhando para mim ou de como tocava o sexo sobre a calça de brim, fazendo-me olhar o gesto, fascinada.
As vezes, dava-me a impressão que aquilo que existia dele para mim era mais uma atração pela criança enigmática que fui, algo como alguém que fora abandonada na porta de uma casa e nunca eliminara a expressão perdida de uma origem desconhecida. Não era piedade o que ele sentia por mim, era uma compulsão pelo meu enigma.
Naquele dia de setembro, ainda o sinto vivamente. Eu não tinha consciência da primavera, nem das flores, mas acordei com cheiros à minha volta. À tarde, minha mãe deixou a casa para uma reunião na Igreja. Meu pai também estava ausente. Mas a ausência dos dois não fazia diferença, o peso do silêncio daquele lugar era o mesmo. As paredes diziam que eles continuavam ali. Ainda assim, não quis ouvir as paredes, julguei-me só comigo mesma e aquela sensação aplainava a minha natureza inquieta. A presença dos meus pais me enchia de um peso insustentável e a minha solidão se tornava mais pobre, deteriorando o meu espírito.
Os ruídos silenciaram no quarto dos fundos. Talvez ele dormisse e eu senti que precisava de um banho para driblar a minha vontade de vê-lo em seu sono.
A água fria escorria pelo meu corpo. Fechei os olhos para sentir o alívio do meu intervalo de liberdade, só escutava o barulho do chuveiro. Então ele estava diante de mim, abrindo as cortinas num gesto brusco. Eu não disse nada, nem ele. Acho que pisquei algumas vezes para evitar que a água escondesse a minha visão daquele homem que eu desejava. Ele olhava os meus peitos, rosados e pequenos, os quadris mal formados em meus dezessete anos. Foi aí que eu percebi que a vida marca a hora exata para efetuar o seu destino. Num momento de medo incontrolável baixei a cabeça, mas ele a levantou devagar. Comecei a rir e me apertei a ele, finalmente. Colei meu corpo ao dele, nua e molhada. Apertei meu ventre sobre suas pernas e senti o seu sexo ereto, ainda escondido na calça. Ele tomou no colo meu corpo magro de menina e mulher e me beijou na boca devastando com a língua a seu interior. Gostei daquilo, gostei de como ele me invadia e se precipitava ansioso na busca por desvendar os meus mistérios. E foi para o quarto dos fundos onde nos dirigimos e foi lá onde ele se despiu. Eu o via sem timidez, o corpo inteiro nu, os músculos, os pêlos, a rigidez do sexo entre as pernas. Quantos anos teria? Pensei. Trinta? Trinta e cinco? Nada daquilo importava. Era ele, e mesmo se houvesse mil escolhas, seria ele.
Exercitou uma ternura e uma lentidão que quase me levaram a total perda da lucidez, como se tudo fosse desmaiando às minhas vistas e as janelas, as paredes, as cores, os cheiros, os ruídos lá fora foram tomando distâncias de léguas para meus sentidos. Eu o pedi que fizesse tudo e não evitasse nada, do mesmo jeito que já fizera com as mulheres que amara ou com as prostitutas nos bordéis. Pedi que não temesse a minha dor e a minha inexperiência. Era eu que o conduzia, hoje eu sei, era eu que o conduzia com total controle da minha intuição feminina, dos meus instintos.
Aquele foi o dia em que eu toquei o céu e que, num breve instante, havia esquecido do inferno em que vivia.
Foi assim que meu pai nos encontrou, perdidos um no outro, bêbados, tontos e lavados de suores nossos. Não houve palavras, nem gritos, nem sustos, nem nada. Papai era o mestre do silêncio e eu vi o vazio quando sustentei o seu olhar. Então, ele o levou de mim, arrancou-o do meu entrelace sem deixar-me tempo de pela última vez olhar o seu rosto terno e irônico. Permaneci estática, ouvindo ruídos surdos e o som do carro velho indo embora. E todo o silêncio voltou, ainda mais forte, pois trazia consigo o vazio, o nada.
Meu pai voltou muito tarde, mudo e sombrio como sempre fora. Não me disse nada, nunca me disse nada. Minha mãe parecia que percebia tudo em sua intuição maternal, mas não ousava me consolar. O tempo voltou lentamente a se arrastar entre as paredes da casa. Era o silêncio.
*********

Ninguém nunca mais falou do meu tio e eu até hoje não sei o que se passou. Daqueles dias, apenas sei do meu precoce envelhecimento e da dor que este me causara. Até que, mais tarde, um ano depois, deixei aquela casa de silêncios e, em minha partida, não olhei para trás, não senti culpa, nem raiva, nem amor. Mas, ainda hoje, trago em mim o terror do silêncio daquelas paredes e a doce lembrança de um pequeno intervalo de vida: o meu mais breve interlúdio e o meu mais surpreendente epílogo...
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(*) "Como longos ecos que de longe se confundem
numa tenebrosa e profunda unidade,
vasta como a noite e como a claridade,
os perfumes, as cores e os sons se correspondem."
("Correspondências". Baudelaire)

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sábado, 14 de março de 2009

POESIA: A GRANDE MUSA























(...)


Abaixo - via a terra - abismo em treva!

Acima - o firmamento - abismo em luz!

"Arcanjo! arcanjo! que ridente sonho!"

— "Não, poeta, é o vedado paraíso,

Onde os lírios mimosos do sorriso

Eu abro em todo o seio, que chorou,



Onde a loura comédia canta alegre,

Onde eu tenho o condão de um gênio infindo,

Que a sombra de Molière vem sorrindo

Beijar na fronte, que o Senhor beijou..."

"Onde me levas mais, anjo divino?"

— "Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas,

(...)


(“O vôo do gênio” – Castro Alves)
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TEXTO: Genny Xavier
Poesia, essência de tudo

"Entre a idéia e o acto cai a sombra
e neste iato está a poesia e sua
capacidade de relacionar o indizível

(T.S. Eliot)

A poesia é a essência, expressa na paisagem noturna que sopra indagações e dissabores; ou a cadência do andar feminino que embala o ritmo e que moleja o vai-e-vem dos passos, a ondulância das formas; A poesia é a essência, expressa na voz bendita do menino que grita “Olha o quebra queixo!”; ou no poema que se inscreve o palavrear mágico e abominável que o poeta cria; A poesia é a essência fluídica de um perfume no ar, que vai percorrendo entrâncias, frestas e caminhos para pousar nos dedos do poeta que ensaia o poema... Da poesia não se diz, se percebe, se degusta, se aspira, se debruça.
Conceituar poesia nos remete aos olhos que pairam sobre montanhas e idéias. Dá-nos vontade de exercitar o onírico, o lúdico, o belo, o indizível. E lembrar-nos que as palavras se entranham, se combinam se atraem e restituem melodias, sons e ritmos; e criam metáforas e dizeres por trás das coisas.
A poesia e o poema estão unidos e próximos pela relação que o poeta lhes remete. O poeta capta a poesia que se eterniza no poema, “idéia” e “acto” de uma “sombra” que emerge dos escuros, da invisibilidade, da incapacidade daquilo que não se diz. A poesia é o impossível que se desvela; o suspiro, a divagação, a crítica, a construção, a dor, o asco, o susto, inseridos na projeção poética, no paradigma existencial do poeta que, entre a idéia e a forma, captura a poesia que se cristaliza no poema e se instala na literatura.
Mas, afinal, o que é a poesia? De que partícula ela se compõe? Que olhos tem? Que bocas? Quantas mãos? Com qual das faces nos olha a poesia?Mediante os gostos e as diferenças, podemos dizer que a poesia é a essência subjetiva de uma sensação; é o fluído que percorre paisagens, atravessa pessoas e fotografa coisas e objetos; é o parêntesis entre o dizer (expresso pelo poema) e o não-dizer (expresso pela poética). A poesia é a refratação, o interlúdio da razão e o prelúdio da emoção.

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POÉTICA UTÓPICA


São tortas as curvas
e lucidamente tortuosas
as rotas que seguem rumos
que levam nossos pés
na direção dos lobos...

Há consciências inaptas
inadaptadas ao rigor dos tempos...
Estamos taciturnos
e nossa rubra emoção
já não comove o mundo
em refluxo de idéias...

Todos estão mudos
ou hão de estar cegos
expostos à corrosão dos dias...

Eu, poeta, no viés da vida
aspiro os fantasmas dos homens
e sopro as palavras
que externam minha voracidade
de restaurar no tempo
uma nova utopia
em forma de verso...
Genny Xavier

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INSANIDADE DAS PALAVRAS SENSATAS


Vou soltar os versos como raios,
impressão dos encantos...medo, idolatria...
Como nossos primitivos ancestrais.
O verbo e suas potências reveladas.
A cor, o gosto e o som
de cada sílaba produzida...

Aí verei a mais insana loucura,
Pois só ela me elucida os sentidos
quando cada desejo ansiado
veste-se, empírico, aumentando as incertezas
e sonhos que se derramam pelas têmporas
afinados como os acordes do meu poema.

Vou soltar os versos mais duros
Como duro é o favo do mel
Que adoça a minha boca...
Uma dualidade barroca
Uma sinestesia simbólica
Verso e re-verso da poética dos dias que se repetem...

Aí arrancarei das palavras suas possibilidades:
Uma sensatez cotidiana
Uma placidez de rio
Uma tempestade de chumbo
Uma eclosão de amante...
Poesia, enfim, que personifica as horas mais profundas.

Genny Xavier

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SEMÂNTICA


Além do fato explícito
estão todas as intenções prévias
contra o óbvio.

Nunca fabricar o verso
feito exercício.
Apenas canalizar sua hora
porque o instrumento poético
reside, a qualquer instante,
em nossos olhos
e dentro da gente.
E o seu riso
é a palavra:

Semântica do eterno conflito
entre o pensar o dizer...
Genny Xavier
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PALAVREAR
As palavras imbricam nomes
que sugerem mundos
e visitas que superam viagens
imaginadas ou sonhadas
num canto aconchegante da casa
onde olhos devoram velhas folhas de papel impresso...

As palavras,
que, sonoras, cantam
e, insonoras, gritam
se estendem pelos fios imprecisos das estradas,
antenadas, como a farejar
os suspiros de todos os povos...

As palavras
que das bocas ferem ou acariciam,
que entre dedos deslizam,
por caminhos suaves ou ásperos,
inscrevem as linhas da vida
e surrealizam as entrelinhas da alma...

Palavras?
Leia-se: um mundo
um ovo
um núcleo
uma centelha...
Genny Xaivier

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A PALAVRA NÁUFRAGA

Há uma solidão perpétua
instalada no pensamento
que ressoa no prumo de cada dia...
E, no intervalo em que a respiração se molda,
moldam-se as palavras que dançam por dentro
nos entremeios de veias, sangue e suores...
E, trazem à tona, a exaustão da alma
num deserto pleno
de beleza crua e explícita
em que elas - as palavras - estão isoladas
num campo inóspito de silêncio e dor...
E, enfim, da voz latente,
náufraga na encéfala ilha,
as palavras se enjaulam
distantes, sonâmbulas e saudosas
da substância-seiva
que nutre a terra fértil
do coração pulsante...

Genny Xavier

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Agora tu, Calíope, me ensina/ (...)/Inspira imortal canto e voz divina / Neste peito mortal, que tanto te ama.”

(Camões. "Os Lusíadas")











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terça-feira, 10 de março de 2009

“Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra [...]”


DESMANCHE
É preciso que eu tome a coragem das palavras,
todas elas inconfessas dentro de mim.
É preciso que eu me desmanche e me reconstrua
e cate meus pedaços de colcha de retalhos.
Precisamente, minha avidez é o sopro insólito,
bocejado da noite com seu hálito de estrelas...

Se tudo é intangível às mãos,
resta aos olhos,
recolher os gestos tangíveis:
Tão próximos e perceptíveis,
tão ácidos e medonhos
diante dessa madrugada...

É preciso que eu me dispa
e me disponha de solicitudes,
todas elas necessárias à minha prisão.
É preciso que eu vá saboreando os espinhos
como manjar de deuses pagãos
e sirva, ao banquete das horas,
a comida pronta ao sabor da minha boca faminta.

Presumidamente, meu engano será tão humano,
feito de gula e sobras
para que me venha o êxtase,
os sons das trombetas,
o repicar dos sinos,
os devaneios dos anjos,
o rodopio das notas...
A melodia surda.

Apenas é preciso
que eu me desconstrua
e me reinvente.
Genny Xavier









A FACA E A SÁTIRA: DAS ARMAS E DOS VERSOS


“Eu sou aquele, que os passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vícios, e enganos.

E bem que os decantei bastantemente,
canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
(...)
De que pode servir calar, quem cala
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!

Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire e não lamente?”

Gregório de Matos





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ARTIGO: Genny Xavier


O BOCA DO INFERNO: A VISÃO GROTESCA DO MUNDO


“O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas.
Quem diz outra coisa é besta.”

Gregório de Matos







Falar de Gregório de Matos, nos remete ao tempo das controvérsias entre religiões e humanidades, palavras e idéias, antíteses e paradoxos; gongorismos, marinismos, eufuísmos: Barroco; a Estilo e a Arte em que o conflito se instalou.

O Barroco surgiu na Europa em meio a uma profunda transformação cultural pós-Renascença. Chegou a Portugal em finais do século XVI, marcado, a princípio, por uma influência da poética camoniana para, em seguida, esboçar sua própria identidade, a partir das contribuições da vizinha Espanha.
Também reconhecida como a Arte da Contra-Reforma, o Barroco, segundo análise do crítico Massaud Moisés, entre conflitos e caos instalados, propõe a fusão de propósitos e tendências nem sempre coerentes. Nesta linha de choques, de ressonâncias ideológicas e de posturas filosóficas, o Cristianismo católico, abalado pela dissidência luterana, utilizou-se da Arte Barroca para reafirmar sua missão evangelizadora através da Companhia de Jesus (Concílio de Trento). Assim, a estilística barroca, apresenta aspectos em que se conciliam o espírito medieval teocêntrico com o espírito clássico renascentista, pagão, terreno e antropocêntrico.
Produto das tensões entre fatores conflitantes e desagregadores, o Barroco é uma síntese da dualidade, uma valorização da análise pelo conhecimento da essência que enaltece a oposição entre caos plástico (descrição cultista gongórica) onde poesia, palavra e prazer lúdico se confundem, e o racionalismo, que propõe a lógica discursiva, com predominância da prosa e do estabelecimento de idéias e silogismos em torno da vida e das coisas (conceptismo). Entretanto, tais tendências, embora díspares, se relacionam perfeitamente na atmosfera barroca.
No Brasil, a fala barroca nasce com as primeiras vozes jesuíticas, penetra o século XVII e o início do século XVIII; manifestado pela poesia ufanista dos jesuítas, pela poesia crioula de Gregório de Matos, pela oratória de Vieira e seus descendentes e pela prosa das academias.
Nas letras, é importante a contribuição do jesuítas no Brasil Colonial, tal contribuição é uma típica manifestação barroca, evidenciada pela temática, ideologia e estrutura. Marcada por uma literatura de missão, de desvelamento do serviço religioso e pedagógico, de conservação e catequese, onde se procurou infundir no espírito humano uma visão pessimista da vida terrena, pelo enaltecimento da vida celestial. O medo impera, o temor desesperado pelos prazeres mundanos, que vai reforçando a visão dos infernos e do poder demolidor do pecado, para impedir que se conduzissem pelos caminhos da vaidade. Neste pressuposto, entre conflitos, dores e prazeres, o Barroco conquista o homem pelos sentidos e não pela razão, daí o uso de artifícios que intimidavam e impressionavam os sentidos como as detalhistas arquitetura e escultura, ou o contrito teatro, ou a complexa e hiperbólica literatura.
Em termos históricos, o Brasil Barroco, vivia a hegemonia do açúcar, como fonte de maior renda, concentrando-se principalmente em áreas como Pernambuco e Bahia. Neste espírito de exploração colonial das nossas riquezas, reinava a ganância. Todos desejavam retirar da terra tudo aquilo que fosse possível para, na Metrópole, converter em dinheiro e poder, prestígio e autonomia. Em meio a este quadro sócio-cultural, publicou-se em Pernambuco o poema “Prosopopéia” (1601) de Bento Teixeira, estudado como marco inicial do Barroco brasileiro. Na Bahia, filia-se ao Barroco a surpreendente poética de Gregório de Matos, a voz que irrompe muros e professa estrondorosamente as mazelas do seu tempo; voz que entre a rudeza, o terror e o grotesco, constrói estruturalmente, pré-requisitos barrocos, mas que em sua temática, coloca os olhos adiante do tempo e comprova que o homem, independente da sua época, delimita o seu universo e escolhe a sua postura, seja de irreverências ou apatias.
O Barroco, estimulou a imaginação dos poetas do seu tempo, imprimindo em sua linguagem um campo vastíssimo de figuras de estilo, de metáforas que oscilavam entre a audácia e a extravagância. Gregório de Matos, poeta incidente de uma linguagem rude e incomun; terna e questionadora, soube, pela originalidade ou pela cópia, criar e recriar um rico universo matafórico: espumas (lágrimas de neve); cabelos negros (pélagos de azeviche); mar (vidraças de anil).
Gregório viveu sob o signo da controvérsia, provocando avaliações das mais contraditórias já escritas em torno de um autor brasileiro. Sua obra é um mundo complexo, provocadora de sustos, espantos e desconsertos, constituindo uma radiografia incomoda e explícita da vida social e política do Brasil-Colônia.
Ao longo da sua tumultuosa trajetória como poeta, as mudanças na sua visão da sociedade foram correspondendo a um processo dinamizador, a partir de uma linguagem que foi se adaptando as novas expressões poéticas e abandonando convenções, rumo ao uso coloquial da língua em que este enriqueceria e individualizaria a sua obra.
Por analogia, o termo Barroco, poderia ser interpretado como um pensamento enviesado ou equívoco, forma excêntrica de ver e exprimir o mundo. Gregório foi, sem dúvida, um grande representante desta feição multifacetada - moralizadora e renovadora - do Barroco, que se embutia na visão da sociedade que, ao mesmo tempo, o coibia e o impulsionava.
Gregório de Matos foi o senhor das antíteses. Marcado pelo desespero de um mundo repartido em duas vertentes, pela disparidade ideológica do homem, atônito diante dos caminhos e dos descaminhos do Barroco de Deus e dos homens, do céu e da terra, foi a dura fala que repartiu-se em muitas, na controvérsia de uma poética vingativa, burlesca, questionadora e forte: “(...) Todos somos ruins, todos perversos/ Só nos distingue o vício, e a virtude,/ De que uns são comensais, outros adversos.(...)” (Matos,Gregório de. p 155).
Poeta dos vencidos pela compaixão cristianizada; poeta dos condoídos e medrosos do pecado; poeta da lírica fantasiosa dos amores carnais; poeta do olho das ruas, das esquinas e das praças; poeta da boca ferina, da burla, do riso e do escárnio; poeta da voz profunda que o inferno imortalizou: “Eu sou aquele, que os passados anos/ Cantei na minha lira maldizente/ Torpezes do Brasil, vícios, e enganos.” (Matos, Gregório de. p 153).
Quando analisamos o universo da poesia de Gregório diante do grotesco, nos deparamos com requisitos essenciais que giram sucessivamente em torno do humor, da zombaria, do desdém, do escárnio, do ridículo. Tais aspectos são facilmente detectados na linha satírica do poeta: “Basta que se escandaliza/ do meu cu porque se caga?/ Venha cá, boca de praga,/ que cousa mais mortaliza?/ O peido que penaliza/ é sorrateiro e calado:/ o peido há de ser falado/ ou ao menos estrondoso,/ porque aquele que é fanhoso/ é peido desconsolado.” (Gomes, João Carlos Teixeira. p. 368). Especialmente salientado pelo crítico brasileiro Pereira da Silva que, segundo João Carlos T. Gomes, insere o poeta ao Realismo Grotesco, enquanto catalisador de uma herança medieval caracterizado na fonte das cantigas de escárnio e maldizer, sua poética expressionista, de caráter aparentemente rebaixador, nos faz deparar com um grotesco universo, derivativo de uma época em que as palavras estavam longe de possuir uma abertura conceitual. A nota a seguir, esclarece estes aspectos que permeiam o tema em questão: “No realismo grotesco o rebaixamento do sublime não encerra de modo algum um caráter formal ou relativo. O “alto” e o “baixo”adquirem uma significação absoluta e rigorosamente topográfica. O alto é o céu; o baixo é a terra; a terra é o princípio da absorção (o túmulo, o ventre), (...). Sob o seu aspecto mais propriamente corporal, que não representa precisamente nenhuma parte separada do aspecto cósmico, o alto é a face (a cabeça); o baixo, os órgãos genitais, o ventre e o traseiro. É com estas significações precisas que funciona o realismo grotesco, incluindo a paródia medieval.” (Gomes, João Carlos Teixeira. p. 361).
Diante da explícita expressão do grotesco na obra satírica do poeta, seria possível identificarmos também resquícios desta visão em outras linhas poéticas do autor? Acaso teria o poeta, endurecido pela vida e pelos conflitos existenciais, imprimido em sua lírica seja religiosa ou amorosa, o sombreado rude e cético do seu paradigma literário burlesco? Para o leitor atento, a incongruência afiada, angustiosa e quase perversa também se exprime quando o poeta se volta para a sua leitura do sublime ou da sublimação. Este é o mesmo o poeta que, aparentemente, se suaviza diante da impiedosa condenação de um Deus moralizador, mas se veste de uma suavidade aterradora, que arrebata e machuca: “Como na cova tenebrosa, e escura,/ A quem abriu o Original pecado,/ Se o próprio Deus a mão vos tinha dado;/ Podíeis vós cair, ó virgem pura?(...)” (Matos, Gregório de. p 145); ou ainda: “Que és terra Homem, e em terra hás de tornar-te,/ Te lembra hoje Deus por sua Igreja,/ De pó te faz espelho, em que se veja/ A vil matéria, de que quis formar-te.// Lembra-te Deus, que és pó para humilhar-te,/ E como o teu baixel sempre fraqueja/ Nos mares da vaidade, onde peleja,/ Te põe à vista a terra, onde salvar-te.(...)” (Matos, Gregório de. p 146). Como se vê, esta expressão aparentemente suave e ao mesmo tempo rude e densa no religioso gregoriano, se manifesta na dor, no medo do pecado, na visão da morte fria, da desintegração da carne em pó e no confronto final entre as vaidades humanas e a salvação diante da morte.
Gregório é também existencialmente marcado por uma amorosidade concreta, erótica e desconfortavelmente direta para a sua época, que agride e escandaliza, utilizando-se, inclusive, de um prazer perverso de registrar palavrões, expressões chulas e vocabulário intencionalmente usado para chocar homens e mulheres do seu tempo: “Fodamo-nos ,minha vida,/ que estes são os meus intentos/ e deixemos cumprimentos/ que arto tendes de comprida:/ eu sou de vossa medida/ e com proporção tão pouca/ se este membro vos emboca,/ creio que ambos nos fica/ por baixo, crica com crica,/ por cima, boca com boca.” (Gomes, João Carlos Teixeira. p. 369).
Se a vida não lhe foi fácil, a poesia lhe causou tais transtornos. Imortalizou sua dura visão de mundo em poemas que representam verdadeiras armas contra o estabelecido da sua época. Construiu uma poética de função política, ativadora de choque e confronto diante das instituições vigentes, lançando golpes sucessivos de sarcasmos e ironias: “(...) A ignorância dos homens destas eras/ Sisudos faz ser uns, outros prudentes,/ Que a mudez canoniza bestas feras.// Há bons, por não ser insolentes,/ Outros há comedidos de medrosos,/ Não mordem outros não, por não ter dentes.// (...) Todos somos ruins, todos perversos,/ Só nos distingue o vício, e a virtude,/ De que uns são comensais, outros adversos(...).” (Matos, Gregório. p. 155).
Gregório de Matos foi um dos mais importantes exemplos do poeta brasileiro que se enriqueceu na herança do passado - burlesco medieval - e se instalou no presente do seu momento histórico conflituoso. Por fim, vislumbrou um tempo à sua frente mediante a audácia. Foi ele, na verdade, um poeta engajado e diga-se o que disser, tomou a defesa do povo, sendo fiel a sua visão particular da vida. Foi um grande cronista, sobretudo, ao retratar o Brasil dos colonizadores e dos exploradores, numa espécie de manifesto poético urbano de zomba e ironia, afrontando com sua desesperada angustia religiosa, com seu descaramento erótico ou com sua gargalhada sardônica uma sociedade perplexa, escondida hipocritamente no moralismo do seu tempo. Esta voz, imortal posto que é chama, ainda vibra em permanente poder diante de um Brasil contemporâneo que ainda abriga seus poderosos e dominadores, que ainda enfatiza suas múltiplas disparidades ao óbvio rigor das dualidades entre o social e o econômico, entre o imoral e a inocência.


FONTES BIBLIOGRÁFICAS

COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro, Ed. José Olympio, 1968.

DIMAS, Antônio. Seleção de textos, notas, estudos biográficos, histórico e crítico (Literatura Comentada). São Paulo, Editora Abril Educação, 1981.

GOMES, João Carlos Teixeira. Gregório de Matos, O Boca de Brasa - Um Estudo de Plágio e Criação Intertextual. Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1985.

MATOS, Gregório de. Poesia Selecionadas - Gregório de Matos.São Paulo, Editora FTD, 1993.

MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. 12º edição. São Paulo, Cultrix, 1974.

MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira. Vol 1, 2º edição. São Paulo, Cultrix, 1985.

ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da Educação no Brasil. 13º edição. São Paulo, Vozes, 1991.

WISNIK, José Miguel. Poemas Escolhidos - Gregório de Matos. São Paulo, Cultrix, 1989.

Obras Completas de Gregório de Matos. IV Vol. Edição Universitária. Rio de Janeiro, Editora Janaína LTDA.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A CONSCIÊNCIA DE GAIA...O FEMININO E SUA ESSÊNCIA


CRÔNICA: Genny Xavier


A SENHORA DA MAGIA
O que me diz a história escrita pelas pontas dos dedos da artimanha, da intuição e da sedução feminina? Toda mulher tem um pouco de bruxa em sua alma? Quem é este ser que encanta sem, necessariamente, precisar da beleza viril masculina, símbolo maior da Criação, talhada à imagem e semelhança de Deus? Se o homem, esculpido do barro, é o reflexo da imagem do seu Criador, certamente a mulher foi criada segundo a unicidade do seu ser e, portanto, livre pela força da sua expressão feminina, ímpar e misteriosa, repleta de cheiros naturais que fascinam os homens e os arrastam à luz da sua sutil singularidade.
Passam aos meus olhos - neste instante noturno em que eu, mulher, exercito esta metalinguagem sobre mim mesma e meus mistérios - a existência de tantas personagens históricas, lendárias, míticas e místicas. Algumas, tocadas pela obstinação, como Joana D'Arc, queimada na fogueira como bruxa; outras, tomadas pelo mistério da visão interior, como Morgana da Bretanha, a Fada de Avalon; tantas outras em épocas distintas e diferentes tempos, posturas, caminhos, verdades, imaginações.
Insisto em pensar na essência visionária, intuitiva, quase desvairada desta alma feminina, vezes santa, vezes pagã, ora amada, como Maria, a Mãe, símbolo da suprema dádiva; ora temida, como Malévola ou Lilith, seja nos contos de fadas ou pela interpretação mítica de um mundo que ainda não reconheceu a marca impressa das mãos suaves e fortes da mulher sobre seu dorso.
Não quero passar as vistas pela história feito os olhos didáticos dos ensaístas, este texto é apenas um feminino suspiro, resultado daquelas horas em que a visão tridimensional pousa sobre o tempo, como se deitasse sobre mim, sobre meu colo, arquétipo do útero de Gaia, toda a história do mundo, simplesmente porque abraço a intuição sob as minhas asas de mulher, de mãe, de ser que executa com sutileza e sabedoria, sensibilidade e presteza, ciência e encantamento a sedução que pasma os homens, os consomem de fascinação, os interrogam e, principalmente, os tornam mais graciosos, lutadores e fortes.
É, então, finalmente esta mulher, bruxa ou feiticeira, fada ou santa, megera ou abnegada; seja fabricando filtros do amor, encantamentos e feitiços; seja lutando em campos de batalhas, casas e supermercados; seja recebendo o homem dentro de si, que aprendeu a criar a luz da ribalta em bastidores sem platéia e a plantar semente fértil em terreno árido. Esta é, sem dúvida, uma mágica façanha.
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FEMININA

Flores
púrpuras
e javanesas...
Cores e tons que traduzem cheiros
sinestésicas sensações...

Anas
Marias
e Marianas...
Femininos matizes
em tons sobre tons...

Ofuscantes constelações.
Mulheres que traduzem cores
em tradução de espíritos
estados
e ambigüidades...

Ah! etéreo em mim este infinito de mulher...
Dissimulada precisão
de sutilmente dissimular.
Anjo e demônio...
Vezes: uma Eva.
Outras vezes: uma Lilith.
Então, corpóreo ser
estás em todos os dons
todos os sons
todos os tons...

Genny Xavier

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Em 8 de março se comemora a marca da força e da luta da mulher no mundo e esta também é a data do aniversário da minha mãe. Com ela aprendi muito sobre "mulheres", sua percepção e ternura, sua energia e coragem para conduzir trilhas e remover obstáculos pela vida. Dela eu guardo a saudade de sua passagem entre nós... e guardo a imagem dos seus olhos límpidos de céu e luz.


SONOLÊNCIA

Para Maria, minha mãe.

Hoje
a nostalgia
brinca de infância
comigo...
nós duas juntas
de mãos dadas
pelo tempo...

- Canta, mãe
a tua canção de ninar!

Genny Xavier








sábado, 7 de março de 2009

SOBRE CERTOS SENTIDOS DAS HORAS...




Estou hoje repleta de minha própria melancolia...mas, nem todos entendem de mim, pois acreditam-me poeta que apenas tece um rio de sentidos para as palavras e, nem sempre percebem o meu espelho por detrás das coisas ditas. Vezes que estou para eles, os que deglutem os meus versos, e se lambuzam da sua estética mas, aqui e acolá, eu sinto mesmo é uma necessidade meio maníaca de desnudar-me apenas para aqueles para quem sou carne e sangue e possam ouvir as minhas queixas, e amar o meu deslumbramento pela vida.


Genny Xavier

Devaneio de uma paisagem cinza.