sábado, 14 de março de 2009

POESIA: A GRANDE MUSA























(...)


Abaixo - via a terra - abismo em treva!

Acima - o firmamento - abismo em luz!

"Arcanjo! arcanjo! que ridente sonho!"

— "Não, poeta, é o vedado paraíso,

Onde os lírios mimosos do sorriso

Eu abro em todo o seio, que chorou,



Onde a loura comédia canta alegre,

Onde eu tenho o condão de um gênio infindo,

Que a sombra de Molière vem sorrindo

Beijar na fronte, que o Senhor beijou..."

"Onde me levas mais, anjo divino?"

— "Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas,

(...)


(“O vôo do gênio” – Castro Alves)
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TEXTO: Genny Xavier
Poesia, essência de tudo

"Entre a idéia e o acto cai a sombra
e neste iato está a poesia e sua
capacidade de relacionar o indizível

(T.S. Eliot)

A poesia é a essência, expressa na paisagem noturna que sopra indagações e dissabores; ou a cadência do andar feminino que embala o ritmo e que moleja o vai-e-vem dos passos, a ondulância das formas; A poesia é a essência, expressa na voz bendita do menino que grita “Olha o quebra queixo!”; ou no poema que se inscreve o palavrear mágico e abominável que o poeta cria; A poesia é a essência fluídica de um perfume no ar, que vai percorrendo entrâncias, frestas e caminhos para pousar nos dedos do poeta que ensaia o poema... Da poesia não se diz, se percebe, se degusta, se aspira, se debruça.
Conceituar poesia nos remete aos olhos que pairam sobre montanhas e idéias. Dá-nos vontade de exercitar o onírico, o lúdico, o belo, o indizível. E lembrar-nos que as palavras se entranham, se combinam se atraem e restituem melodias, sons e ritmos; e criam metáforas e dizeres por trás das coisas.
A poesia e o poema estão unidos e próximos pela relação que o poeta lhes remete. O poeta capta a poesia que se eterniza no poema, “idéia” e “acto” de uma “sombra” que emerge dos escuros, da invisibilidade, da incapacidade daquilo que não se diz. A poesia é o impossível que se desvela; o suspiro, a divagação, a crítica, a construção, a dor, o asco, o susto, inseridos na projeção poética, no paradigma existencial do poeta que, entre a idéia e a forma, captura a poesia que se cristaliza no poema e se instala na literatura.
Mas, afinal, o que é a poesia? De que partícula ela se compõe? Que olhos tem? Que bocas? Quantas mãos? Com qual das faces nos olha a poesia?Mediante os gostos e as diferenças, podemos dizer que a poesia é a essência subjetiva de uma sensação; é o fluído que percorre paisagens, atravessa pessoas e fotografa coisas e objetos; é o parêntesis entre o dizer (expresso pelo poema) e o não-dizer (expresso pela poética). A poesia é a refratação, o interlúdio da razão e o prelúdio da emoção.

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POÉTICA UTÓPICA


São tortas as curvas
e lucidamente tortuosas
as rotas que seguem rumos
que levam nossos pés
na direção dos lobos...

Há consciências inaptas
inadaptadas ao rigor dos tempos...
Estamos taciturnos
e nossa rubra emoção
já não comove o mundo
em refluxo de idéias...

Todos estão mudos
ou hão de estar cegos
expostos à corrosão dos dias...

Eu, poeta, no viés da vida
aspiro os fantasmas dos homens
e sopro as palavras
que externam minha voracidade
de restaurar no tempo
uma nova utopia
em forma de verso...
Genny Xavier

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INSANIDADE DAS PALAVRAS SENSATAS


Vou soltar os versos como raios,
impressão dos encantos...medo, idolatria...
Como nossos primitivos ancestrais.
O verbo e suas potências reveladas.
A cor, o gosto e o som
de cada sílaba produzida...

Aí verei a mais insana loucura,
Pois só ela me elucida os sentidos
quando cada desejo ansiado
veste-se, empírico, aumentando as incertezas
e sonhos que se derramam pelas têmporas
afinados como os acordes do meu poema.

Vou soltar os versos mais duros
Como duro é o favo do mel
Que adoça a minha boca...
Uma dualidade barroca
Uma sinestesia simbólica
Verso e re-verso da poética dos dias que se repetem...

Aí arrancarei das palavras suas possibilidades:
Uma sensatez cotidiana
Uma placidez de rio
Uma tempestade de chumbo
Uma eclosão de amante...
Poesia, enfim, que personifica as horas mais profundas.

Genny Xavier

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SEMÂNTICA


Além do fato explícito
estão todas as intenções prévias
contra o óbvio.

Nunca fabricar o verso
feito exercício.
Apenas canalizar sua hora
porque o instrumento poético
reside, a qualquer instante,
em nossos olhos
e dentro da gente.
E o seu riso
é a palavra:

Semântica do eterno conflito
entre o pensar o dizer...
Genny Xavier
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PALAVREAR
As palavras imbricam nomes
que sugerem mundos
e visitas que superam viagens
imaginadas ou sonhadas
num canto aconchegante da casa
onde olhos devoram velhas folhas de papel impresso...

As palavras,
que, sonoras, cantam
e, insonoras, gritam
se estendem pelos fios imprecisos das estradas,
antenadas, como a farejar
os suspiros de todos os povos...

As palavras
que das bocas ferem ou acariciam,
que entre dedos deslizam,
por caminhos suaves ou ásperos,
inscrevem as linhas da vida
e surrealizam as entrelinhas da alma...

Palavras?
Leia-se: um mundo
um ovo
um núcleo
uma centelha...
Genny Xaivier

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A PALAVRA NÁUFRAGA

Há uma solidão perpétua
instalada no pensamento
que ressoa no prumo de cada dia...
E, no intervalo em que a respiração se molda,
moldam-se as palavras que dançam por dentro
nos entremeios de veias, sangue e suores...
E, trazem à tona, a exaustão da alma
num deserto pleno
de beleza crua e explícita
em que elas - as palavras - estão isoladas
num campo inóspito de silêncio e dor...
E, enfim, da voz latente,
náufraga na encéfala ilha,
as palavras se enjaulam
distantes, sonâmbulas e saudosas
da substância-seiva
que nutre a terra fértil
do coração pulsante...

Genny Xavier

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Agora tu, Calíope, me ensina/ (...)/Inspira imortal canto e voz divina / Neste peito mortal, que tanto te ama.”

(Camões. "Os Lusíadas")











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terça-feira, 10 de março de 2009

“Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra [...]”


DESMANCHE
É preciso que eu tome a coragem das palavras,
todas elas inconfessas dentro de mim.
É preciso que eu me desmanche e me reconstrua
e cate meus pedaços de colcha de retalhos.
Precisamente, minha avidez é o sopro insólito,
bocejado da noite com seu hálito de estrelas...

Se tudo é intangível às mãos,
resta aos olhos,
recolher os gestos tangíveis:
Tão próximos e perceptíveis,
tão ácidos e medonhos
diante dessa madrugada...

É preciso que eu me dispa
e me disponha de solicitudes,
todas elas necessárias à minha prisão.
É preciso que eu vá saboreando os espinhos
como manjar de deuses pagãos
e sirva, ao banquete das horas,
a comida pronta ao sabor da minha boca faminta.

Presumidamente, meu engano será tão humano,
feito de gula e sobras
para que me venha o êxtase,
os sons das trombetas,
o repicar dos sinos,
os devaneios dos anjos,
o rodopio das notas...
A melodia surda.

Apenas é preciso
que eu me desconstrua
e me reinvente.
Genny Xavier









A FACA E A SÁTIRA: DAS ARMAS E DOS VERSOS


“Eu sou aquele, que os passados anos
cantei na minha lira maldizente
torpezas do Brasil, vícios, e enganos.

E bem que os decantei bastantemente,
canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
(...)
De que pode servir calar, quem cala
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!

Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire e não lamente?”

Gregório de Matos





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ARTIGO: Genny Xavier


O BOCA DO INFERNO: A VISÃO GROTESCA DO MUNDO


“O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas.
Quem diz outra coisa é besta.”

Gregório de Matos







Falar de Gregório de Matos, nos remete ao tempo das controvérsias entre religiões e humanidades, palavras e idéias, antíteses e paradoxos; gongorismos, marinismos, eufuísmos: Barroco; a Estilo e a Arte em que o conflito se instalou.

O Barroco surgiu na Europa em meio a uma profunda transformação cultural pós-Renascença. Chegou a Portugal em finais do século XVI, marcado, a princípio, por uma influência da poética camoniana para, em seguida, esboçar sua própria identidade, a partir das contribuições da vizinha Espanha.
Também reconhecida como a Arte da Contra-Reforma, o Barroco, segundo análise do crítico Massaud Moisés, entre conflitos e caos instalados, propõe a fusão de propósitos e tendências nem sempre coerentes. Nesta linha de choques, de ressonâncias ideológicas e de posturas filosóficas, o Cristianismo católico, abalado pela dissidência luterana, utilizou-se da Arte Barroca para reafirmar sua missão evangelizadora através da Companhia de Jesus (Concílio de Trento). Assim, a estilística barroca, apresenta aspectos em que se conciliam o espírito medieval teocêntrico com o espírito clássico renascentista, pagão, terreno e antropocêntrico.
Produto das tensões entre fatores conflitantes e desagregadores, o Barroco é uma síntese da dualidade, uma valorização da análise pelo conhecimento da essência que enaltece a oposição entre caos plástico (descrição cultista gongórica) onde poesia, palavra e prazer lúdico se confundem, e o racionalismo, que propõe a lógica discursiva, com predominância da prosa e do estabelecimento de idéias e silogismos em torno da vida e das coisas (conceptismo). Entretanto, tais tendências, embora díspares, se relacionam perfeitamente na atmosfera barroca.
No Brasil, a fala barroca nasce com as primeiras vozes jesuíticas, penetra o século XVII e o início do século XVIII; manifestado pela poesia ufanista dos jesuítas, pela poesia crioula de Gregório de Matos, pela oratória de Vieira e seus descendentes e pela prosa das academias.
Nas letras, é importante a contribuição do jesuítas no Brasil Colonial, tal contribuição é uma típica manifestação barroca, evidenciada pela temática, ideologia e estrutura. Marcada por uma literatura de missão, de desvelamento do serviço religioso e pedagógico, de conservação e catequese, onde se procurou infundir no espírito humano uma visão pessimista da vida terrena, pelo enaltecimento da vida celestial. O medo impera, o temor desesperado pelos prazeres mundanos, que vai reforçando a visão dos infernos e do poder demolidor do pecado, para impedir que se conduzissem pelos caminhos da vaidade. Neste pressuposto, entre conflitos, dores e prazeres, o Barroco conquista o homem pelos sentidos e não pela razão, daí o uso de artifícios que intimidavam e impressionavam os sentidos como as detalhistas arquitetura e escultura, ou o contrito teatro, ou a complexa e hiperbólica literatura.
Em termos históricos, o Brasil Barroco, vivia a hegemonia do açúcar, como fonte de maior renda, concentrando-se principalmente em áreas como Pernambuco e Bahia. Neste espírito de exploração colonial das nossas riquezas, reinava a ganância. Todos desejavam retirar da terra tudo aquilo que fosse possível para, na Metrópole, converter em dinheiro e poder, prestígio e autonomia. Em meio a este quadro sócio-cultural, publicou-se em Pernambuco o poema “Prosopopéia” (1601) de Bento Teixeira, estudado como marco inicial do Barroco brasileiro. Na Bahia, filia-se ao Barroco a surpreendente poética de Gregório de Matos, a voz que irrompe muros e professa estrondorosamente as mazelas do seu tempo; voz que entre a rudeza, o terror e o grotesco, constrói estruturalmente, pré-requisitos barrocos, mas que em sua temática, coloca os olhos adiante do tempo e comprova que o homem, independente da sua época, delimita o seu universo e escolhe a sua postura, seja de irreverências ou apatias.
O Barroco, estimulou a imaginação dos poetas do seu tempo, imprimindo em sua linguagem um campo vastíssimo de figuras de estilo, de metáforas que oscilavam entre a audácia e a extravagância. Gregório de Matos, poeta incidente de uma linguagem rude e incomun; terna e questionadora, soube, pela originalidade ou pela cópia, criar e recriar um rico universo matafórico: espumas (lágrimas de neve); cabelos negros (pélagos de azeviche); mar (vidraças de anil).
Gregório viveu sob o signo da controvérsia, provocando avaliações das mais contraditórias já escritas em torno de um autor brasileiro. Sua obra é um mundo complexo, provocadora de sustos, espantos e desconsertos, constituindo uma radiografia incomoda e explícita da vida social e política do Brasil-Colônia.
Ao longo da sua tumultuosa trajetória como poeta, as mudanças na sua visão da sociedade foram correspondendo a um processo dinamizador, a partir de uma linguagem que foi se adaptando as novas expressões poéticas e abandonando convenções, rumo ao uso coloquial da língua em que este enriqueceria e individualizaria a sua obra.
Por analogia, o termo Barroco, poderia ser interpretado como um pensamento enviesado ou equívoco, forma excêntrica de ver e exprimir o mundo. Gregório foi, sem dúvida, um grande representante desta feição multifacetada - moralizadora e renovadora - do Barroco, que se embutia na visão da sociedade que, ao mesmo tempo, o coibia e o impulsionava.
Gregório de Matos foi o senhor das antíteses. Marcado pelo desespero de um mundo repartido em duas vertentes, pela disparidade ideológica do homem, atônito diante dos caminhos e dos descaminhos do Barroco de Deus e dos homens, do céu e da terra, foi a dura fala que repartiu-se em muitas, na controvérsia de uma poética vingativa, burlesca, questionadora e forte: “(...) Todos somos ruins, todos perversos/ Só nos distingue o vício, e a virtude,/ De que uns são comensais, outros adversos.(...)” (Matos,Gregório de. p 155).
Poeta dos vencidos pela compaixão cristianizada; poeta dos condoídos e medrosos do pecado; poeta da lírica fantasiosa dos amores carnais; poeta do olho das ruas, das esquinas e das praças; poeta da boca ferina, da burla, do riso e do escárnio; poeta da voz profunda que o inferno imortalizou: “Eu sou aquele, que os passados anos/ Cantei na minha lira maldizente/ Torpezes do Brasil, vícios, e enganos.” (Matos, Gregório de. p 153).
Quando analisamos o universo da poesia de Gregório diante do grotesco, nos deparamos com requisitos essenciais que giram sucessivamente em torno do humor, da zombaria, do desdém, do escárnio, do ridículo. Tais aspectos são facilmente detectados na linha satírica do poeta: “Basta que se escandaliza/ do meu cu porque se caga?/ Venha cá, boca de praga,/ que cousa mais mortaliza?/ O peido que penaliza/ é sorrateiro e calado:/ o peido há de ser falado/ ou ao menos estrondoso,/ porque aquele que é fanhoso/ é peido desconsolado.” (Gomes, João Carlos Teixeira. p. 368). Especialmente salientado pelo crítico brasileiro Pereira da Silva que, segundo João Carlos T. Gomes, insere o poeta ao Realismo Grotesco, enquanto catalisador de uma herança medieval caracterizado na fonte das cantigas de escárnio e maldizer, sua poética expressionista, de caráter aparentemente rebaixador, nos faz deparar com um grotesco universo, derivativo de uma época em que as palavras estavam longe de possuir uma abertura conceitual. A nota a seguir, esclarece estes aspectos que permeiam o tema em questão: “No realismo grotesco o rebaixamento do sublime não encerra de modo algum um caráter formal ou relativo. O “alto” e o “baixo”adquirem uma significação absoluta e rigorosamente topográfica. O alto é o céu; o baixo é a terra; a terra é o princípio da absorção (o túmulo, o ventre), (...). Sob o seu aspecto mais propriamente corporal, que não representa precisamente nenhuma parte separada do aspecto cósmico, o alto é a face (a cabeça); o baixo, os órgãos genitais, o ventre e o traseiro. É com estas significações precisas que funciona o realismo grotesco, incluindo a paródia medieval.” (Gomes, João Carlos Teixeira. p. 361).
Diante da explícita expressão do grotesco na obra satírica do poeta, seria possível identificarmos também resquícios desta visão em outras linhas poéticas do autor? Acaso teria o poeta, endurecido pela vida e pelos conflitos existenciais, imprimido em sua lírica seja religiosa ou amorosa, o sombreado rude e cético do seu paradigma literário burlesco? Para o leitor atento, a incongruência afiada, angustiosa e quase perversa também se exprime quando o poeta se volta para a sua leitura do sublime ou da sublimação. Este é o mesmo o poeta que, aparentemente, se suaviza diante da impiedosa condenação de um Deus moralizador, mas se veste de uma suavidade aterradora, que arrebata e machuca: “Como na cova tenebrosa, e escura,/ A quem abriu o Original pecado,/ Se o próprio Deus a mão vos tinha dado;/ Podíeis vós cair, ó virgem pura?(...)” (Matos, Gregório de. p 145); ou ainda: “Que és terra Homem, e em terra hás de tornar-te,/ Te lembra hoje Deus por sua Igreja,/ De pó te faz espelho, em que se veja/ A vil matéria, de que quis formar-te.// Lembra-te Deus, que és pó para humilhar-te,/ E como o teu baixel sempre fraqueja/ Nos mares da vaidade, onde peleja,/ Te põe à vista a terra, onde salvar-te.(...)” (Matos, Gregório de. p 146). Como se vê, esta expressão aparentemente suave e ao mesmo tempo rude e densa no religioso gregoriano, se manifesta na dor, no medo do pecado, na visão da morte fria, da desintegração da carne em pó e no confronto final entre as vaidades humanas e a salvação diante da morte.
Gregório é também existencialmente marcado por uma amorosidade concreta, erótica e desconfortavelmente direta para a sua época, que agride e escandaliza, utilizando-se, inclusive, de um prazer perverso de registrar palavrões, expressões chulas e vocabulário intencionalmente usado para chocar homens e mulheres do seu tempo: “Fodamo-nos ,minha vida,/ que estes são os meus intentos/ e deixemos cumprimentos/ que arto tendes de comprida:/ eu sou de vossa medida/ e com proporção tão pouca/ se este membro vos emboca,/ creio que ambos nos fica/ por baixo, crica com crica,/ por cima, boca com boca.” (Gomes, João Carlos Teixeira. p. 369).
Se a vida não lhe foi fácil, a poesia lhe causou tais transtornos. Imortalizou sua dura visão de mundo em poemas que representam verdadeiras armas contra o estabelecido da sua época. Construiu uma poética de função política, ativadora de choque e confronto diante das instituições vigentes, lançando golpes sucessivos de sarcasmos e ironias: “(...) A ignorância dos homens destas eras/ Sisudos faz ser uns, outros prudentes,/ Que a mudez canoniza bestas feras.// Há bons, por não ser insolentes,/ Outros há comedidos de medrosos,/ Não mordem outros não, por não ter dentes.// (...) Todos somos ruins, todos perversos,/ Só nos distingue o vício, e a virtude,/ De que uns são comensais, outros adversos(...).” (Matos, Gregório. p. 155).
Gregório de Matos foi um dos mais importantes exemplos do poeta brasileiro que se enriqueceu na herança do passado - burlesco medieval - e se instalou no presente do seu momento histórico conflituoso. Por fim, vislumbrou um tempo à sua frente mediante a audácia. Foi ele, na verdade, um poeta engajado e diga-se o que disser, tomou a defesa do povo, sendo fiel a sua visão particular da vida. Foi um grande cronista, sobretudo, ao retratar o Brasil dos colonizadores e dos exploradores, numa espécie de manifesto poético urbano de zomba e ironia, afrontando com sua desesperada angustia religiosa, com seu descaramento erótico ou com sua gargalhada sardônica uma sociedade perplexa, escondida hipocritamente no moralismo do seu tempo. Esta voz, imortal posto que é chama, ainda vibra em permanente poder diante de um Brasil contemporâneo que ainda abriga seus poderosos e dominadores, que ainda enfatiza suas múltiplas disparidades ao óbvio rigor das dualidades entre o social e o econômico, entre o imoral e a inocência.


FONTES BIBLIOGRÁFICAS

COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro, Ed. José Olympio, 1968.

DIMAS, Antônio. Seleção de textos, notas, estudos biográficos, histórico e crítico (Literatura Comentada). São Paulo, Editora Abril Educação, 1981.

GOMES, João Carlos Teixeira. Gregório de Matos, O Boca de Brasa - Um Estudo de Plágio e Criação Intertextual. Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1985.

MATOS, Gregório de. Poesia Selecionadas - Gregório de Matos.São Paulo, Editora FTD, 1993.

MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. 12º edição. São Paulo, Cultrix, 1974.

MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira. Vol 1, 2º edição. São Paulo, Cultrix, 1985.

ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da Educação no Brasil. 13º edição. São Paulo, Vozes, 1991.

WISNIK, José Miguel. Poemas Escolhidos - Gregório de Matos. São Paulo, Cultrix, 1989.

Obras Completas de Gregório de Matos. IV Vol. Edição Universitária. Rio de Janeiro, Editora Janaína LTDA.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A CONSCIÊNCIA DE GAIA...O FEMININO E SUA ESSÊNCIA


CRÔNICA: Genny Xavier


A SENHORA DA MAGIA
O que me diz a história escrita pelas pontas dos dedos da artimanha, da intuição e da sedução feminina? Toda mulher tem um pouco de bruxa em sua alma? Quem é este ser que encanta sem, necessariamente, precisar da beleza viril masculina, símbolo maior da Criação, talhada à imagem e semelhança de Deus? Se o homem, esculpido do barro, é o reflexo da imagem do seu Criador, certamente a mulher foi criada segundo a unicidade do seu ser e, portanto, livre pela força da sua expressão feminina, ímpar e misteriosa, repleta de cheiros naturais que fascinam os homens e os arrastam à luz da sua sutil singularidade.
Passam aos meus olhos - neste instante noturno em que eu, mulher, exercito esta metalinguagem sobre mim mesma e meus mistérios - a existência de tantas personagens históricas, lendárias, míticas e místicas. Algumas, tocadas pela obstinação, como Joana D'Arc, queimada na fogueira como bruxa; outras, tomadas pelo mistério da visão interior, como Morgana da Bretanha, a Fada de Avalon; tantas outras em épocas distintas e diferentes tempos, posturas, caminhos, verdades, imaginações.
Insisto em pensar na essência visionária, intuitiva, quase desvairada desta alma feminina, vezes santa, vezes pagã, ora amada, como Maria, a Mãe, símbolo da suprema dádiva; ora temida, como Malévola ou Lilith, seja nos contos de fadas ou pela interpretação mítica de um mundo que ainda não reconheceu a marca impressa das mãos suaves e fortes da mulher sobre seu dorso.
Não quero passar as vistas pela história feito os olhos didáticos dos ensaístas, este texto é apenas um feminino suspiro, resultado daquelas horas em que a visão tridimensional pousa sobre o tempo, como se deitasse sobre mim, sobre meu colo, arquétipo do útero de Gaia, toda a história do mundo, simplesmente porque abraço a intuição sob as minhas asas de mulher, de mãe, de ser que executa com sutileza e sabedoria, sensibilidade e presteza, ciência e encantamento a sedução que pasma os homens, os consomem de fascinação, os interrogam e, principalmente, os tornam mais graciosos, lutadores e fortes.
É, então, finalmente esta mulher, bruxa ou feiticeira, fada ou santa, megera ou abnegada; seja fabricando filtros do amor, encantamentos e feitiços; seja lutando em campos de batalhas, casas e supermercados; seja recebendo o homem dentro de si, que aprendeu a criar a luz da ribalta em bastidores sem platéia e a plantar semente fértil em terreno árido. Esta é, sem dúvida, uma mágica façanha.
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FEMININA

Flores
púrpuras
e javanesas...
Cores e tons que traduzem cheiros
sinestésicas sensações...

Anas
Marias
e Marianas...
Femininos matizes
em tons sobre tons...

Ofuscantes constelações.
Mulheres que traduzem cores
em tradução de espíritos
estados
e ambigüidades...

Ah! etéreo em mim este infinito de mulher...
Dissimulada precisão
de sutilmente dissimular.
Anjo e demônio...
Vezes: uma Eva.
Outras vezes: uma Lilith.
Então, corpóreo ser
estás em todos os dons
todos os sons
todos os tons...

Genny Xavier

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Em 8 de março se comemora a marca da força e da luta da mulher no mundo e esta também é a data do aniversário da minha mãe. Com ela aprendi muito sobre "mulheres", sua percepção e ternura, sua energia e coragem para conduzir trilhas e remover obstáculos pela vida. Dela eu guardo a saudade de sua passagem entre nós... e guardo a imagem dos seus olhos límpidos de céu e luz.


SONOLÊNCIA

Para Maria, minha mãe.

Hoje
a nostalgia
brinca de infância
comigo...
nós duas juntas
de mãos dadas
pelo tempo...

- Canta, mãe
a tua canção de ninar!

Genny Xavier








sábado, 7 de março de 2009

SOBRE CERTOS SENTIDOS DAS HORAS...




Estou hoje repleta de minha própria melancolia...mas, nem todos entendem de mim, pois acreditam-me poeta que apenas tece um rio de sentidos para as palavras e, nem sempre percebem o meu espelho por detrás das coisas ditas. Vezes que estou para eles, os que deglutem os meus versos, e se lambuzam da sua estética mas, aqui e acolá, eu sinto mesmo é uma necessidade meio maníaca de desnudar-me apenas para aqueles para quem sou carne e sangue e possam ouvir as minhas queixas, e amar o meu deslumbramento pela vida.


Genny Xavier

Devaneio de uma paisagem cinza.

POESIA - A METÁFORA DO SER


METALINGUAGEM DA REBELDIA


“ (...) Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero
há calma e frescura na superfície intata. (...)”
(Carlos Drummond de Andrade)


O poema não é a claridade
a reverência
o sopro
a clarividência.
Muito menos
o amanhecer apressado
o gosto da pasta de dentes
o namoro enviesado
o livro de ponto
o incidente
a casualidade
o acidente no trânsito
o ônibus lotado
o sabor eterno - salgado e doce:
almoço e sobremesa.
Ainda não é
pura e simples
a expressão militante
todos os chavões do engajamento
o estereótipo da luta
o vampirismo rubro
dos que ainda bebem o sangue dos revolucionários
a mentira...
O poema também não é a estética
o formalismo
ou a escola
- estilo de época -
Tantas falácias!
Tantas minúcias!
E apologias de belo
de formas
ou perfeição.

Por que enquadrar o poema?
O poema, coitadinho!
Vai servindo de muleta
de artifício
de instrumento
nas mãos dos que não sabem falar.
Diz um verso o político:
arremata o verso pensando na glória
inaugura um ponto no coração do povo
- Demônio pregando Evangelho! -
E não respeita o poeta
que se mergulhou até os quintos dos infernos
para arregaçar a poesia.
Diz um verso aqueles homens pomposos:
empresários e patrões, mestres e phds.
Estão crentes que detém as palavras
e se fazem senhores da sabedoria
- Ah, grandiosa vaidade!
Medonha megalomania! -
Nesse instante, o poema é armadilha
e o poeta vira Santos Dummont
- o inventor ludibriado -

O que seria das academias
se o poema fizesse greve
e empenhasse a bandeira
contra o utilitarismo do verso?
Não teríamos o sonho.
Não teríamos o grito.
Não teríamos a utopia...
Até a música se tornaria tímida.
Até o samba entristeceria.
E o carnaval nem chegaria à quarta-feira-de-cinzas.
Certamente
os homens simples chorariam
os homens-máquinas tentariam um golpe
os homens-cérebros sentiriam alívio
e os governantes tentariam conchavos
mandariam representantes
mediadores
diplomatas...
Talvez, até
Os Estados Unidos
declarariam guerra
e apontariam o risco de uma Terceira Guerra Mundial.
E seria tanto besteirol
tanto melodrama
que, entediado, o poeta dormiria
e, junto com ele, a poesia.

Ainda ontem
levaram o poema ao médico.
O poema estava surdo
estava mudo
estava tonto...
Nenhuma homeopatia preveniu
nenhuma alopatia deu jeito.
E o poema ficou guardado no livro
aposentado
inútil...
apenas olhava os homens
por alguma fresta
entre páginas amarelas que a traça comia.

Encarcerado, o poema fede
mofo!
Sobras de purezas apodrecidas.
Restos de sonhos putrefatos.
Lixo orgânico de civilização morta!
O homem é o poema
mas, cadê o homem que o filósofo ainda procura?
Cadê a poesia do Cântico dos Cânticos ?
Pasárgada?
O poeta que manda o homem guardar rebanhos?
A explosão da Bomba Atômica no coração da gente?
O poema é o fardo do mundo:
todas as bocas
todas as perplexidades
todo susto
e as trepadas 100%.
O poema é o fardo do mundo:
asas que voam noturnas
testemunho ocular dos crimes
e dos amores - eternos (?) ou de ocasião -
O poema é o fardo do mundo:
sombra que paira
poeira nos olhos dos menos avisados...
a rasteira
a canseira
a bofetada
o tédio
o ócio
o bicho.

Nasceram flores naquele teto de poeta.
Que flores? Que poesia?
Será o teto a lápide?
E as flores o epitáfio?
Por que passam, medonhas, as imagens
pela mente do poeta?
As palavras não traduzem exatamente
o tamanho da estranha força
dos sentimentos sobre as coisas
das coisas sob as estrelas.
Mas nem isso retrocede a mágoa
da desvalia do verso sob o cartão de crédito...
E vai se acovardando a poesia
entre os dedos trêmulos do poeta
virando metalinguagem
de um fazer solitário
sofisma quase parnasiano
- a poesia pela poesia -
Porque não tem quem mais ame a poesia
do que o poeta.
Lasciva é a dor!
E o pranto e o vento...
E a poesia, atordoada, enfurece.
Cresce as unhas e os dentes
soltando fogo pela boca do poeta.
Insano furor!
Atroz magia!
E o verso vai guardando os pedaços
da sua destruição
no coração do leitor
que se inquieta
e nunca mais esquece
os olhos da poesia...
A sua voz que fala
tinindo um som medonho dentro da cabeça.
A poesia é docemente monstruosa para quem ler.

Tem dias que as coisas
pairam cínicas
até sobre os risos infantis
das crianças no parque.
Estão ali toda a matéria do verso
pelas mãos dos meninos sujos
que mendigam algodão-doce
roda gigante
e pipoca.
Os meninos são o verso
que emporcalham as caras pintadas
das madames que passeiam com seus filhinhos...
Tem dias que as coisas
pairam cínicas pelo mundo
e o drama vira humor;
o pranto, caricatura;
o susto, ironia...
Matéria explícita do verso
correndo pelas veias
e pelos esgotos...
Veias abertas.
Fétidos esgotos!

Que lirismo fala a poesia?
O amor que palpita?
O amor que escorrega?
O corpo que incendeia?
A fumaça que se esvai?
Que lirismo nos toca a poesia?
Horas vagas
máximas
translúcidas...
Cochicha-se o grito na hora do amor.
O verso escancara-se solto.
Perde a razão:
metafisiologia
metagonia
silêncio que se quebra
sussurros
espasmo
paixão...

Mas, retorno à palavra:
imperiosa razão
cristalina tensão!

A vontade da palavra
abre um flanco em mim
- corte quase físico -
a mostrar minhas veias
abertas e azuis
e um rosto que expressa
uma estonteante
e mentirosa serenidade...
Qual!
Onde estão as palavras que procuro?
Tão grandes em mim
tão grandes e distantes...
Perplexas
diante do tamanho
do meu pensamento
e da minha incapacidade de expressão
em código palpável.
Onde está o mistério que paira?
Todas as incógnitas indecifráveis
a neutralidade do duelo
entre Deus e o Diabo?
- Para inexistir o bem e o mal -

Arre!
Por que mudar o tema
e a razão do poema
quando a palavra
foi apenas provocação?

Ah! Criva-se, então
nesta luta de escrevinhar
sobre o limbo das coisas
o artifício do poeta.
Pois o poeta tem nas pontas dos dedos
uma palavra mágica
uma literatura de afiada transcendência
uma geometria de linhas traçadas
uma lógica matemática
uma obviedade histórica.
Ilimitados poderes
que percorrem acidentes geográficos
ultrapassa leis físicas
e restabelece a alquimia dos dizeres.
O poeta que alteia e lima e tece a poesia
e capta simbologias
e bate asas feito o condor
e experimenta vanguardas...
Este poeta é o mesmo
seja em épocas remotas
seja em dias de hoje
seja em horas diurnas
seja em horas noturnas
seja num tempo tardio...





Genny Xavier.
Itabuna-Ba.

sexta-feira, 6 de março de 2009




HORA DO OCASO


Há, neste ocaso do dia
uma nota destoante de uma canção em mim!
Não há peso na densidade da alma
que contempla a última flama do sol...
Meus devaneios se perdem pela porta dos olhos
que vislumbram a imensidão do horizonte.
Se há em mim um feminino suspiro
de um corpo físico
neste intervalo de tempo incomensurável,
ofereço sua anímica essência
à natureza misteriosa dessa hora que admiro.
Eu estou aqui,
Mas algo além de mim vagueia,
para sondar o matiz
que esmaece a vermelhidão do dia que se finda.




Genny Xavier
Itabuna-Bahia

CONTO:


A HORA DO SOL
Genny Xavier



“(...) o sol ensinou-me que a história não é tudo”.
Albert Camus.




O suor lhe escorria pelas costas, pela testa, pelas pernas. Podia sentir aquele cheiro amargo e irritante. Odiava aqueles dias de calor, aquele sol brilhante que o fazia fechar os olhos. Sempre fazendo careta. Nascera por engano ali, sentia-se estranho naquele mundo tropical, não combinava. Era sóbrio, gostava dos dias nublados, da chuva, do frio, parecia obsessão. Não combinava, nem mesmo ficava admirado com a exuberância colorida das mulheres, as formas generosas, morenas, bronzeadas de brilho e sol. Preferia as magras, pálidas, quietas e enigmáticas, como exemplares únicos, intrigantes.
Uma onda de mal-estar o invadia naquela manhã, o cotidiano engolindo-o completamente; o calor, aquele calor maldito lhe dava uma agonia de réu.
Entrou num bar, queria café. Empanturrava-se de café durante o dia, não que gostasse tanto assim, mas tomava assim mesmo. Era desta forma as vezes, paradoxal, contraditório. O café tinha aquela droga, cafeína, que o deixava inquieto, questionando tudo à sua volta. Sempre aquela estranheza, aquilo o perseguindo constantemente. Sim, era um homem estranho, mal nascido, desencontrado, um professor estranho, segundo os comentários dos seus alunos. Filosofia pura, respirava filosofia, convivia com gênios e um único ídolo: Jean Paul Sartre. Nunca mais pudera ser o mesmo depois de ter lido Sartre, impregnou-se dele, identificava-se com ele. Era um frio, um calculista, calculava tudo, tudo o que via, as mínimas emoções que sentia, até o beijo de Lorena. Sim, ele a beijava de olhos abertos, gostava de analisar suas reações, suas intenções, mergulhava naqueles olhos pastosos, de gata siamesa, densos e apaixonados. Estranhava o termo apaixonado, desde adolescente decidira ser bobagem apaixonar-se. Um dia, no colégio de internato, vira um jovem, o companheiro de quarto, cortar os pulsos por amor, sentira vontade de vomitar. E hoje, as vezes, sofria o mesmo desconforto quando tinha uma mulher nos braços. Era esquisito, mas os cheiros que emanavam das relações sexuais que vivia, fazia-o sentir o cheiro de sangue, o sangue do amigo que morrera por amor. Não conseguia suportar, corria ao banheiro para vomitar. Nunca se apaixonara, achava ridículo perder-se na loucura do amor, um crime patético que levava a morte e a destruição. É claro que sentia emoções físicas, mas todas elas dirigidas, muito frias.
Lorena aceitava seu jeito, isso ele gostava nela. Nunca fazia perguntas, apenas ficava olhando-o, parada, sem dizer nada, estudando, tentando descobrir o avesso daquele homem sóbrio. Era jovem e analisava sua estranha maturidade de professor, de homem aos 40 anos.
Entrou num bar lentamente. Era sempre lento.
- Um café, faz favor.
- Pingado ou preto?
Que adiantava aquele leite aguado?
- Preto, só preto.
Bebeu sem saborear. Pagou o preço do dia, tudo aumentava tão rápido nos últimos tempos! A política sempre por trás de tudo, a política econômica.
Saiu. O calor aumentava. Tinha aula as oito na Faculdade. Hoje estudaria Sartre. Aula para Lorena e uma cambada de jovens perdidos, indomáveis. Simplesmente ideológicos ou ignorantes. Será que fora jovem um dia?
Correu. Sempre lento. Alcançou o ônibus que já se ia. Não tinha carro, não se importava com isso, queria ser livre, não ter compromisso, só com o tempo se arrastando.

*******

Depois da aula, encontrou o reitor pelos corredores; os olhos de raposa o olharam indiferentes, a boca abriu-se num sorriso sem riso algum. Uma hierarquia os separava. Teve vontade de dizer-lhe algo que o pisasse, que o esmagasse em sua mediocridade, tinha argumentos de sobra para realizar aquela perversão, mas que adiantava? Iria continuar medíocre, capitalista e alienado, e ele um professor de filosofia, um excêntrico, um estranho. Por que havia pensado em capitalismo? Não defendia nenhuma luta, nem partidos. Achava racional repudiar aquilo. Sim, como também achava racional repudiar o comunismo, que já nem mais existia, dava ao mesmo. Não era nada, não queria ser nada, só sabia disso.
Cruzou com muitos jovens. Avistou Lorena. Chegava até ele sem nenhuma timidez, olhos cinzas, sempre fundos, atentos, sem aquela angústia costumeira dos jovens, branca, quase transparente.
- Oi, quer me ver hoje? Vou à sua casa?
Era uma fala mansa, sem espalhafatos.
- Só sei o que quero na hora. Agora ainda é manhã...E faz sol.
- Sempre filósofo. Você não muda, é sempre constante.
- Tenho 40 anos.
- É, acho que você sempre teve 40 anos.
- Pensei nisso hoje. Recordei de que nunca fui jovem.
Segura os braços dele. Olhos pastosos e íntimos.
- Você...Eu amo você. Queria te beijar aqui.
- Você é mesmo jovem...Gosta de beijar em público.
- Você não?
- Eu não ligo. Tudo é circunstancial.
- Já vou. De noite vou sentir vontade de ir à sua casa.
Lorena saiu exibindo um meio sorriso. Ele ficou sozinho, o pensamento vazio, a cabeça oca. Ela iria se cansar dele mais cedo ou mais tarde, logo. Aquele amor não podia durar, era puramente ocasional. Pena, Lorena era ótima, não falava muito.
Andou até a cantina.
- Um café, faz favor.
- Preto ou pingado?
O leite era o mesmo, aguado.
- Preto, só preto.
Era rotina, aquilo era puro cotidiano. Aquela hora arrastada era rotina; o café, Lorena, a filosofia, seu calculismo, sua estranheza, aquele mundo exuberante, tudo rotina. Como o ciclo dos dias, das noites, da vida. Sim, o mundo era um grande gigante cotidiano. Até os loucos, os poetas, os revolucionários, continuavam repetindo tudo. As mesmas loucuras, as mesmas poesias, as revoluções iguais, isso há séculos.

*******

O meio-dia engolia a manhã. Procurou um lugar pra comer. O céu tomava a praça e envolvia tudo com seu azul. Sentiu-se invadido, completamente invadido, sem proteção alguma. Teve medo, aquilo era raro de acontecer, era uma ameaça. Um princípio de tempestade dentro dele, diante de toda uma vida de calmaria.
Sentiu-se um homem comum naquele instante, um homem nu, amarrado. Mas passaria, aquilo passaria logo. Bastava a noite, aquele rastro de boêmios, de perdidos, bastava-lhe aquilo para encontrar a razão.
Notou que estava parado no meio da rua. Um carro buzinava, parecia olhar pra ele com raiva, culpando-o de todos os crimes. Não sentiu dor, apenas percebeu que morria como qualquer um, de forma medíocre, sem qualquer especialidade. Apenas naquele instante percebeu que era igual a qualquer homem. Então, o mundo lhe pesou nas costas.


TEIXEIRA NETO, Euclides José. Antologia de Novos Contos da Região Cacaueira. A Hora do Sol – Genny Xavier. Brasília(DF)/ Itabuna(Ba): Horizonte Editora Ltda. / PACCE, 1992. p. 131

quinta-feira, 5 de março de 2009

MACHADO, UM MUNDO QUE SE MOSTRA POR DENTRO



ARTIGO: Genny Xavier





MACHADO DE ASSIS,
O CONDUTOR DO PENSAMENTO MODERNO BRASILEIRO

Argumentação crítica do capítulo “O Papel das Idéias” do livro “Um Mestre na periferia do Capitalismo” de Roberto Schwarz


O capítulo “O Papel das Idéias” do livro “Um Mestre na periferia do Capitalismo”, do crítico Roberto Schwarz, questiona a profundidade da obra machadiana, especialmente nas “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, no que tange a profusão de teorias filosóficas e científicas presentes no discurso da obra. A ressonância dos estudos de Schwarz, nos dão conta da situação histórica-cultural da vida brasileira nos meados do século XIX, salientando a efervescência das “idéias novas” importadas da Europa neste período e absorvidas como uma espécie de modismo por intelectuais que, ao contrário de Machado, não se deram conta das contradições sociais, políticas e econômicas do país postuladas por uma sociedade oligárquica, patronal, provinciana, que, em quase nada, poderia medir-se pela visão ideológica européia.
Os pressupostos do cientificismo-filosófico europeu presentes em teorias como o Positivismo de Augusto Conte, o Evolucionismo de Darwin e o Determinismo de Taine, se insurgiram no imaginário de escritores do Realismo/ Naturalismo brasileiro, provocando, na visão de Schwarz, uma verdadeira “panacéia” ao espírito moderno da época em oposição à vida corrente da sociedade brasileira, ainda escravista e monárquica.
No que diz respeito a obra ficcional machadiana, em sua fase de maturidade, que marca o início do Realismo no Brasil, há de se ponderar que o escritor, soube expressar de forma contundente essas contradições, explorando-as em suas formas mais surpreendentes pela construção de um discurso implacável e irônico que aniquila os clichês e lugares-comuns vigentes em nossa sociedade. Neste sentido, Schwarz enfatiza: “Onde os deslumbrados enxergavam a redenção, ele (Machado) tomava recuo e anotava a existência de um problema específico. No contexto brasileiro, a leitura e propagação das novas luzes européias ocorria de modo particular, com ridículos também particulares.”
Na absorção desses postulados importados, Machado encontrou fórmulas novas para tratar as questões que ora se tornavam “essenciais” às novas gerações. Pelo discurso da ironia que trazia à superfície um humor cético e um pessimismo desconcertante, o ficcionista das Memórias, escrevia para um público que precisava aprender a “tirar a trave do olho” e a desvestir-se de hábitos e valores provincianos. Para o ficcionista, o Brasil dos anos 80 do século XIX aspirava maturidade, frente ao atraso vigente. O escritor que criou as Memórias Póstumas e o público para o qual ele as escreveu se constituía a imagem viva do Segundo Reinado que se aproximava do fim. No Brasil desse período via-se analfabetismo e atraso, portanto e obviamente, o leitor de Machado se constituía de uma elite da sociedade carioca, a quem Brás Cubas, narrador notadamente malcriado, condena gostos e práticas de leitura, duro e cético diante da mesquinhez pouco exigente desses leitores. Tratava-se da classe hegemônica da sociedade brasileira, uma parcela culturalmente alienada, dividida entre uma face conservadora e outra menos, entre os valores do velho patriarcalismo rural e os da burguesia urbana que tentava parecer brilhante diante das “novas idéias” importadas da Europa. Nesta direção de análise nos salienta Schwarz: “O progressismo alvar não seria uma exclusividade brasileira, nem a nota dominante daqueles anos. Contudo, associado ao atraso ambiente, ele adquire feição patética e um quê localista.(...) Machado duvidava do aggiornamento repentino por obra da ciência, e tampouco acreditava na independência intelectual súbita.”
Em suas Memórias Póstumas, o ficcionista postula uma série de teorias que ora traçam um perfil da alma humana e suas veleidades pelo viés da psicanálise, ora expõem análises sobre a ética na conduta dos homens em sociedade, ora apontam doutrinas filosóficas, ideologias, referências históricas e artísticas, tudo isso em meio a um discurso revestido de certo tédio, muito ceticismo, ironia, sarcasmo e que nos pontua uma quase sátira perversa sobre as “máscaras” que as idéias escondem.
Ao leitor perspicaz das Memórias não escapa a sensação de que este “zomba” dos rigores do paradigma científico-filosófico que preponderaram na sociedade brasileira provinciana da época. Contrariando o espírito objetivista e impessoal que em si já se mostrava como referência do cânone das produções literárias vigentes, atreladas aos ditames da ciência, Machado mostrou-se veladamente iconoclasta e insubordinado, preferindo escarnecer, provocar e revolver conceitos, valores, ideologias, filosofias, etc. Experimentamos os sabores dessas considerações ao passo que Brás, o narrador irônico das Memórias se dirige ao leitor: “Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio.” Ou quando este nos fala sobre seu óbito: “E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pousado e trôpego, como quem se retira do espetáculo. Tarde e aborrecido.” Assim, o narrador aproxima as circunstâncias a que seu texto faz referência: sua própria morte, em relação a outra circunstância já tomada pela literatura: o monólogo em que a personagem Hamlet, da peça homônima de Shakespeare, fala da morte como “esse eterno país misterioso, donde um viajor sequer há regressado” Ou ainda, quando nos diz sobre sua morte: “Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-se no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.” Neste trecho, sugere-se uma consumação dos pressupostos do Materialismo, aquele que caracteriza a morte do corpo como a morte de tudo, mas que mistério subjetivo ou galhofa satírica nos trouxe Machado à tona um Brás defunto, a falar e a passar à limpo suas Memórias? Brás havia ou não regressado dessa “região desconhecida” que nos alude Hamlet? Ou queria apenas o ficcionista sombrear com a pena do seu discurso irônico as rupturas da dialética materialista na cabeça do homem brasileiro de seu tempo? Enfim, transposta as considerações levantadas nestes comentários aqui presentes nesta argumentação, Schwarz comenta num dado momento do seu texto crítico: “O capricho atrela a seus movimentos a filosofia, a ciência e as demais formas de superioridade intelectual que em conseqüência sofrem uma desqualificação liminar, com efeito satírico, pois o certo seria o contrário.(...) As reservas da tradição filosófica moderna em face da mônada individual reagrupam-se em função das peculiaridades históricas da experiência brasileira, onde a valorização absoluta do indivíduo não podia mesmo encontrar credibilidade.”
A visão introspectiva do homem em sociedade e a construção das “máscaras sociais” certificam a curiosa filosofia do narrador das Memórias quando, no capítulo XLIX, intitulado “A ponta do Nariz”, este salienta: “Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplação, cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui o equilíbrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o gênero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.” A ironia que se encerra na filosofia exposta por Brás caracteriza um modo próprio de “contemplar” o mundo e, provoca no leitor o impulso por contemplar o seu próprio mundo, como protagonista ou como figurante do jogo social, aquele que atesta o equilíbrio das sociedades que constroem seus comandos e seus comandados. Sobre esses questionamentos, Schwarz comenta: “Vejamos inicialmente a filosofia dita da ponta do nariz. Enquanto fixa a vista no seu próprio, o que é um modo de olhar para fora e para dentro ao mesmo tempo, o indivíduo recompõe o mundo de maneira a se desforrar de reveses sofridos e a desamassar a vaidade machucada pela superioridade dos outros. (...) Assim, a reparação imaginário torna toleráveis as desigualdades da vida.”
Machado recolhe de si a mordacidade satírica das colocações de Brás, assim, na fidelidade de seus propósitos por revolver as máscaras humanas integradas ao campo social, o romancista traz para as Memórias todo ambiente da sociedade urbana brasileira, miniaturizada nos salões e grupos humanos do Segundo Império e dos primeiros anos da República. Recria o universo de uma sociedade arcaica, cujos hábitos e atitudes convencionais dissimulavam a violência de uma sociedade escravocrata, onde o apadrinhamento soluciona as situações geradas por uma estrutura social ancorada nos privilégios e numa desigual divisão das riquezas e dos bens. Assim nos mostra Schwarz, quando comenta: Digamos que o recurso à ponta do nariz e ao embotamento do sentido moral que ela faculta designam o processo espiritual próprio à nossa elite escravista-moderna: a equidade burguesa, (...)”
Mas, é sem dúvida nenhuma que, do ponto de vista das idéias, temos no “Humanitismo” do filósofo Quincas Borba a mais conhecida das filosofias Machadianas. Ao longo de toda as Memórias, especialmente no capítulo CXVII, o escritor esboça os pressupostos da sua idéia sobre o Humanitismo e sobre a condição do Humanitas: “Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa não esquecer nunca o princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, com se disséssemos o estalar de dedos de Humanitas; a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera”. Fica patente que em toda exposição sobre a filosofia em questão - desenvolvida neste capítulo citado e em outros capítulos do romance, bem como em alguns do romance “Quincas Borba” - críticos e estudiosos da obra machadiana lançaram mão de diferentes interpretações para explica-la salvo que, tal compreensão é fundamental para o entendimento das idéias do escritor. O Humanitismo tem sido entendido de diversas formas: como explicação do pessimismo machadiano; como crítica irônica às tendências científicas, especialmente do Evolucionismo darwiniano, amalgamado na teoria da “Seleção natural das espécies”; como sátira das explicações metafísicas do homem; como resposta a uma linha filosófica cética, dura, que expõe de forma pessimista o comportamento humano e o que ele é capaz de fazer para garantir sua sobrevivência em sociedade. Sobre essas ponderações a cerca da teoria do filósofo e amigo de Brás, Schwarz comenta: “Como sugere o nome (Humanitismo), trata-se de uma sátira à floração oitocentistas de ismos, com alusão explícita à religião contiana da humanidade. Os raciocínios fazem pensar em mais outras filiações já que em lugar dos princípios positivistas afirmam a luta de todos contra todos, à maneira do darwinismo social”.
Enfim, percebemos que, ao sentido das idéias, sua discussão filosófica ou metafísica, sua adequação aos moldes da sociedade brasileira, o escritor Machado de Assis nos conduz para o pensamento moderno atentado para questões imprescindíveis: aquelas que nos dão a certeza de que, dentro das máscaras que compõem as sociedades humanas, em especial a contraditória sociedade dos anos 80 do século XIX, o homem subverte as idéias, para que estas, possam prescindir suas vontades, seus anseios, seus comandos e comandados. A este pensamento, Schwarz conclui: “Nas Memórias entretanto assistimos (...) à sujeição metódica das mais variadas formas do pensamento moderno aos acaso das vontades do narrador e de seus parceiros”.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ASSIS, Machado de. “Memórias póstumas de Brás Cubas” .São Paulo: FTD, 1998.

SCHWARZ, Roberto. “Um mestre na periferia do capitalismo – Machado de Assis”. São Paulo: Duas Cidades, 1990.

ESCRITURA



eu escrevo quando em estado de letargia
e quando vago o ermo mundo das coisas ensimesmadas.
eu escrevo quando há um ressoar manso do vento
que provoca o frêmito do tecido da minha pele

eu não escrevo quando aos alvoroços minha alma dança
ou quando eu ranjo os dentes de frio e mágoa
eu não escrevo para o meu pulso rápido, frenético de pulsar
que mede o fluxo das minhas veias

eu escrevo porque a vida me provoca
e, nela, eu percorro seus recantos.


Genny Xavier