segunda-feira, 9 de março de 2009

A CONSCIÊNCIA DE GAIA...O FEMININO E SUA ESSÊNCIA


CRÔNICA: Genny Xavier


A SENHORA DA MAGIA
O que me diz a história escrita pelas pontas dos dedos da artimanha, da intuição e da sedução feminina? Toda mulher tem um pouco de bruxa em sua alma? Quem é este ser que encanta sem, necessariamente, precisar da beleza viril masculina, símbolo maior da Criação, talhada à imagem e semelhança de Deus? Se o homem, esculpido do barro, é o reflexo da imagem do seu Criador, certamente a mulher foi criada segundo a unicidade do seu ser e, portanto, livre pela força da sua expressão feminina, ímpar e misteriosa, repleta de cheiros naturais que fascinam os homens e os arrastam à luz da sua sutil singularidade.
Passam aos meus olhos - neste instante noturno em que eu, mulher, exercito esta metalinguagem sobre mim mesma e meus mistérios - a existência de tantas personagens históricas, lendárias, míticas e místicas. Algumas, tocadas pela obstinação, como Joana D'Arc, queimada na fogueira como bruxa; outras, tomadas pelo mistério da visão interior, como Morgana da Bretanha, a Fada de Avalon; tantas outras em épocas distintas e diferentes tempos, posturas, caminhos, verdades, imaginações.
Insisto em pensar na essência visionária, intuitiva, quase desvairada desta alma feminina, vezes santa, vezes pagã, ora amada, como Maria, a Mãe, símbolo da suprema dádiva; ora temida, como Malévola ou Lilith, seja nos contos de fadas ou pela interpretação mítica de um mundo que ainda não reconheceu a marca impressa das mãos suaves e fortes da mulher sobre seu dorso.
Não quero passar as vistas pela história feito os olhos didáticos dos ensaístas, este texto é apenas um feminino suspiro, resultado daquelas horas em que a visão tridimensional pousa sobre o tempo, como se deitasse sobre mim, sobre meu colo, arquétipo do útero de Gaia, toda a história do mundo, simplesmente porque abraço a intuição sob as minhas asas de mulher, de mãe, de ser que executa com sutileza e sabedoria, sensibilidade e presteza, ciência e encantamento a sedução que pasma os homens, os consomem de fascinação, os interrogam e, principalmente, os tornam mais graciosos, lutadores e fortes.
É, então, finalmente esta mulher, bruxa ou feiticeira, fada ou santa, megera ou abnegada; seja fabricando filtros do amor, encantamentos e feitiços; seja lutando em campos de batalhas, casas e supermercados; seja recebendo o homem dentro de si, que aprendeu a criar a luz da ribalta em bastidores sem platéia e a plantar semente fértil em terreno árido. Esta é, sem dúvida, uma mágica façanha.
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FEMININA

Flores
púrpuras
e javanesas...
Cores e tons que traduzem cheiros
sinestésicas sensações...

Anas
Marias
e Marianas...
Femininos matizes
em tons sobre tons...

Ofuscantes constelações.
Mulheres que traduzem cores
em tradução de espíritos
estados
e ambigüidades...

Ah! etéreo em mim este infinito de mulher...
Dissimulada precisão
de sutilmente dissimular.
Anjo e demônio...
Vezes: uma Eva.
Outras vezes: uma Lilith.
Então, corpóreo ser
estás em todos os dons
todos os sons
todos os tons...

Genny Xavier

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Em 8 de março se comemora a marca da força e da luta da mulher no mundo e esta também é a data do aniversário da minha mãe. Com ela aprendi muito sobre "mulheres", sua percepção e ternura, sua energia e coragem para conduzir trilhas e remover obstáculos pela vida. Dela eu guardo a saudade de sua passagem entre nós... e guardo a imagem dos seus olhos límpidos de céu e luz.


SONOLÊNCIA

Para Maria, minha mãe.

Hoje
a nostalgia
brinca de infância
comigo...
nós duas juntas
de mãos dadas
pelo tempo...

- Canta, mãe
a tua canção de ninar!

Genny Xavier








sábado, 7 de março de 2009

SOBRE CERTOS SENTIDOS DAS HORAS...




Estou hoje repleta de minha própria melancolia...mas, nem todos entendem de mim, pois acreditam-me poeta que apenas tece um rio de sentidos para as palavras e, nem sempre percebem o meu espelho por detrás das coisas ditas. Vezes que estou para eles, os que deglutem os meus versos, e se lambuzam da sua estética mas, aqui e acolá, eu sinto mesmo é uma necessidade meio maníaca de desnudar-me apenas para aqueles para quem sou carne e sangue e possam ouvir as minhas queixas, e amar o meu deslumbramento pela vida.


Genny Xavier

Devaneio de uma paisagem cinza.

POESIA - A METÁFORA DO SER


METALINGUAGEM DA REBELDIA


“ (...) Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero
há calma e frescura na superfície intata. (...)”
(Carlos Drummond de Andrade)


O poema não é a claridade
a reverência
o sopro
a clarividência.
Muito menos
o amanhecer apressado
o gosto da pasta de dentes
o namoro enviesado
o livro de ponto
o incidente
a casualidade
o acidente no trânsito
o ônibus lotado
o sabor eterno - salgado e doce:
almoço e sobremesa.
Ainda não é
pura e simples
a expressão militante
todos os chavões do engajamento
o estereótipo da luta
o vampirismo rubro
dos que ainda bebem o sangue dos revolucionários
a mentira...
O poema também não é a estética
o formalismo
ou a escola
- estilo de época -
Tantas falácias!
Tantas minúcias!
E apologias de belo
de formas
ou perfeição.

Por que enquadrar o poema?
O poema, coitadinho!
Vai servindo de muleta
de artifício
de instrumento
nas mãos dos que não sabem falar.
Diz um verso o político:
arremata o verso pensando na glória
inaugura um ponto no coração do povo
- Demônio pregando Evangelho! -
E não respeita o poeta
que se mergulhou até os quintos dos infernos
para arregaçar a poesia.
Diz um verso aqueles homens pomposos:
empresários e patrões, mestres e phds.
Estão crentes que detém as palavras
e se fazem senhores da sabedoria
- Ah, grandiosa vaidade!
Medonha megalomania! -
Nesse instante, o poema é armadilha
e o poeta vira Santos Dummont
- o inventor ludibriado -

O que seria das academias
se o poema fizesse greve
e empenhasse a bandeira
contra o utilitarismo do verso?
Não teríamos o sonho.
Não teríamos o grito.
Não teríamos a utopia...
Até a música se tornaria tímida.
Até o samba entristeceria.
E o carnaval nem chegaria à quarta-feira-de-cinzas.
Certamente
os homens simples chorariam
os homens-máquinas tentariam um golpe
os homens-cérebros sentiriam alívio
e os governantes tentariam conchavos
mandariam representantes
mediadores
diplomatas...
Talvez, até
Os Estados Unidos
declarariam guerra
e apontariam o risco de uma Terceira Guerra Mundial.
E seria tanto besteirol
tanto melodrama
que, entediado, o poeta dormiria
e, junto com ele, a poesia.

Ainda ontem
levaram o poema ao médico.
O poema estava surdo
estava mudo
estava tonto...
Nenhuma homeopatia preveniu
nenhuma alopatia deu jeito.
E o poema ficou guardado no livro
aposentado
inútil...
apenas olhava os homens
por alguma fresta
entre páginas amarelas que a traça comia.

Encarcerado, o poema fede
mofo!
Sobras de purezas apodrecidas.
Restos de sonhos putrefatos.
Lixo orgânico de civilização morta!
O homem é o poema
mas, cadê o homem que o filósofo ainda procura?
Cadê a poesia do Cântico dos Cânticos ?
Pasárgada?
O poeta que manda o homem guardar rebanhos?
A explosão da Bomba Atômica no coração da gente?
O poema é o fardo do mundo:
todas as bocas
todas as perplexidades
todo susto
e as trepadas 100%.
O poema é o fardo do mundo:
asas que voam noturnas
testemunho ocular dos crimes
e dos amores - eternos (?) ou de ocasião -
O poema é o fardo do mundo:
sombra que paira
poeira nos olhos dos menos avisados...
a rasteira
a canseira
a bofetada
o tédio
o ócio
o bicho.

Nasceram flores naquele teto de poeta.
Que flores? Que poesia?
Será o teto a lápide?
E as flores o epitáfio?
Por que passam, medonhas, as imagens
pela mente do poeta?
As palavras não traduzem exatamente
o tamanho da estranha força
dos sentimentos sobre as coisas
das coisas sob as estrelas.
Mas nem isso retrocede a mágoa
da desvalia do verso sob o cartão de crédito...
E vai se acovardando a poesia
entre os dedos trêmulos do poeta
virando metalinguagem
de um fazer solitário
sofisma quase parnasiano
- a poesia pela poesia -
Porque não tem quem mais ame a poesia
do que o poeta.
Lasciva é a dor!
E o pranto e o vento...
E a poesia, atordoada, enfurece.
Cresce as unhas e os dentes
soltando fogo pela boca do poeta.
Insano furor!
Atroz magia!
E o verso vai guardando os pedaços
da sua destruição
no coração do leitor
que se inquieta
e nunca mais esquece
os olhos da poesia...
A sua voz que fala
tinindo um som medonho dentro da cabeça.
A poesia é docemente monstruosa para quem ler.

Tem dias que as coisas
pairam cínicas
até sobre os risos infantis
das crianças no parque.
Estão ali toda a matéria do verso
pelas mãos dos meninos sujos
que mendigam algodão-doce
roda gigante
e pipoca.
Os meninos são o verso
que emporcalham as caras pintadas
das madames que passeiam com seus filhinhos...
Tem dias que as coisas
pairam cínicas pelo mundo
e o drama vira humor;
o pranto, caricatura;
o susto, ironia...
Matéria explícita do verso
correndo pelas veias
e pelos esgotos...
Veias abertas.
Fétidos esgotos!

Que lirismo fala a poesia?
O amor que palpita?
O amor que escorrega?
O corpo que incendeia?
A fumaça que se esvai?
Que lirismo nos toca a poesia?
Horas vagas
máximas
translúcidas...
Cochicha-se o grito na hora do amor.
O verso escancara-se solto.
Perde a razão:
metafisiologia
metagonia
silêncio que se quebra
sussurros
espasmo
paixão...

Mas, retorno à palavra:
imperiosa razão
cristalina tensão!

A vontade da palavra
abre um flanco em mim
- corte quase físico -
a mostrar minhas veias
abertas e azuis
e um rosto que expressa
uma estonteante
e mentirosa serenidade...
Qual!
Onde estão as palavras que procuro?
Tão grandes em mim
tão grandes e distantes...
Perplexas
diante do tamanho
do meu pensamento
e da minha incapacidade de expressão
em código palpável.
Onde está o mistério que paira?
Todas as incógnitas indecifráveis
a neutralidade do duelo
entre Deus e o Diabo?
- Para inexistir o bem e o mal -

Arre!
Por que mudar o tema
e a razão do poema
quando a palavra
foi apenas provocação?

Ah! Criva-se, então
nesta luta de escrevinhar
sobre o limbo das coisas
o artifício do poeta.
Pois o poeta tem nas pontas dos dedos
uma palavra mágica
uma literatura de afiada transcendência
uma geometria de linhas traçadas
uma lógica matemática
uma obviedade histórica.
Ilimitados poderes
que percorrem acidentes geográficos
ultrapassa leis físicas
e restabelece a alquimia dos dizeres.
O poeta que alteia e lima e tece a poesia
e capta simbologias
e bate asas feito o condor
e experimenta vanguardas...
Este poeta é o mesmo
seja em épocas remotas
seja em dias de hoje
seja em horas diurnas
seja em horas noturnas
seja num tempo tardio...





Genny Xavier.
Itabuna-Ba.

sexta-feira, 6 de março de 2009




HORA DO OCASO


Há, neste ocaso do dia
uma nota destoante de uma canção em mim!
Não há peso na densidade da alma
que contempla a última flama do sol...
Meus devaneios se perdem pela porta dos olhos
que vislumbram a imensidão do horizonte.
Se há em mim um feminino suspiro
de um corpo físico
neste intervalo de tempo incomensurável,
ofereço sua anímica essência
à natureza misteriosa dessa hora que admiro.
Eu estou aqui,
Mas algo além de mim vagueia,
para sondar o matiz
que esmaece a vermelhidão do dia que se finda.




Genny Xavier
Itabuna-Bahia

CONTO:


A HORA DO SOL
Genny Xavier



“(...) o sol ensinou-me que a história não é tudo”.
Albert Camus.




O suor lhe escorria pelas costas, pela testa, pelas pernas. Podia sentir aquele cheiro amargo e irritante. Odiava aqueles dias de calor, aquele sol brilhante que o fazia fechar os olhos. Sempre fazendo careta. Nascera por engano ali, sentia-se estranho naquele mundo tropical, não combinava. Era sóbrio, gostava dos dias nublados, da chuva, do frio, parecia obsessão. Não combinava, nem mesmo ficava admirado com a exuberância colorida das mulheres, as formas generosas, morenas, bronzeadas de brilho e sol. Preferia as magras, pálidas, quietas e enigmáticas, como exemplares únicos, intrigantes.
Uma onda de mal-estar o invadia naquela manhã, o cotidiano engolindo-o completamente; o calor, aquele calor maldito lhe dava uma agonia de réu.
Entrou num bar, queria café. Empanturrava-se de café durante o dia, não que gostasse tanto assim, mas tomava assim mesmo. Era desta forma as vezes, paradoxal, contraditório. O café tinha aquela droga, cafeína, que o deixava inquieto, questionando tudo à sua volta. Sempre aquela estranheza, aquilo o perseguindo constantemente. Sim, era um homem estranho, mal nascido, desencontrado, um professor estranho, segundo os comentários dos seus alunos. Filosofia pura, respirava filosofia, convivia com gênios e um único ídolo: Jean Paul Sartre. Nunca mais pudera ser o mesmo depois de ter lido Sartre, impregnou-se dele, identificava-se com ele. Era um frio, um calculista, calculava tudo, tudo o que via, as mínimas emoções que sentia, até o beijo de Lorena. Sim, ele a beijava de olhos abertos, gostava de analisar suas reações, suas intenções, mergulhava naqueles olhos pastosos, de gata siamesa, densos e apaixonados. Estranhava o termo apaixonado, desde adolescente decidira ser bobagem apaixonar-se. Um dia, no colégio de internato, vira um jovem, o companheiro de quarto, cortar os pulsos por amor, sentira vontade de vomitar. E hoje, as vezes, sofria o mesmo desconforto quando tinha uma mulher nos braços. Era esquisito, mas os cheiros que emanavam das relações sexuais que vivia, fazia-o sentir o cheiro de sangue, o sangue do amigo que morrera por amor. Não conseguia suportar, corria ao banheiro para vomitar. Nunca se apaixonara, achava ridículo perder-se na loucura do amor, um crime patético que levava a morte e a destruição. É claro que sentia emoções físicas, mas todas elas dirigidas, muito frias.
Lorena aceitava seu jeito, isso ele gostava nela. Nunca fazia perguntas, apenas ficava olhando-o, parada, sem dizer nada, estudando, tentando descobrir o avesso daquele homem sóbrio. Era jovem e analisava sua estranha maturidade de professor, de homem aos 40 anos.
Entrou num bar lentamente. Era sempre lento.
- Um café, faz favor.
- Pingado ou preto?
Que adiantava aquele leite aguado?
- Preto, só preto.
Bebeu sem saborear. Pagou o preço do dia, tudo aumentava tão rápido nos últimos tempos! A política sempre por trás de tudo, a política econômica.
Saiu. O calor aumentava. Tinha aula as oito na Faculdade. Hoje estudaria Sartre. Aula para Lorena e uma cambada de jovens perdidos, indomáveis. Simplesmente ideológicos ou ignorantes. Será que fora jovem um dia?
Correu. Sempre lento. Alcançou o ônibus que já se ia. Não tinha carro, não se importava com isso, queria ser livre, não ter compromisso, só com o tempo se arrastando.

*******

Depois da aula, encontrou o reitor pelos corredores; os olhos de raposa o olharam indiferentes, a boca abriu-se num sorriso sem riso algum. Uma hierarquia os separava. Teve vontade de dizer-lhe algo que o pisasse, que o esmagasse em sua mediocridade, tinha argumentos de sobra para realizar aquela perversão, mas que adiantava? Iria continuar medíocre, capitalista e alienado, e ele um professor de filosofia, um excêntrico, um estranho. Por que havia pensado em capitalismo? Não defendia nenhuma luta, nem partidos. Achava racional repudiar aquilo. Sim, como também achava racional repudiar o comunismo, que já nem mais existia, dava ao mesmo. Não era nada, não queria ser nada, só sabia disso.
Cruzou com muitos jovens. Avistou Lorena. Chegava até ele sem nenhuma timidez, olhos cinzas, sempre fundos, atentos, sem aquela angústia costumeira dos jovens, branca, quase transparente.
- Oi, quer me ver hoje? Vou à sua casa?
Era uma fala mansa, sem espalhafatos.
- Só sei o que quero na hora. Agora ainda é manhã...E faz sol.
- Sempre filósofo. Você não muda, é sempre constante.
- Tenho 40 anos.
- É, acho que você sempre teve 40 anos.
- Pensei nisso hoje. Recordei de que nunca fui jovem.
Segura os braços dele. Olhos pastosos e íntimos.
- Você...Eu amo você. Queria te beijar aqui.
- Você é mesmo jovem...Gosta de beijar em público.
- Você não?
- Eu não ligo. Tudo é circunstancial.
- Já vou. De noite vou sentir vontade de ir à sua casa.
Lorena saiu exibindo um meio sorriso. Ele ficou sozinho, o pensamento vazio, a cabeça oca. Ela iria se cansar dele mais cedo ou mais tarde, logo. Aquele amor não podia durar, era puramente ocasional. Pena, Lorena era ótima, não falava muito.
Andou até a cantina.
- Um café, faz favor.
- Preto ou pingado?
O leite era o mesmo, aguado.
- Preto, só preto.
Era rotina, aquilo era puro cotidiano. Aquela hora arrastada era rotina; o café, Lorena, a filosofia, seu calculismo, sua estranheza, aquele mundo exuberante, tudo rotina. Como o ciclo dos dias, das noites, da vida. Sim, o mundo era um grande gigante cotidiano. Até os loucos, os poetas, os revolucionários, continuavam repetindo tudo. As mesmas loucuras, as mesmas poesias, as revoluções iguais, isso há séculos.

*******

O meio-dia engolia a manhã. Procurou um lugar pra comer. O céu tomava a praça e envolvia tudo com seu azul. Sentiu-se invadido, completamente invadido, sem proteção alguma. Teve medo, aquilo era raro de acontecer, era uma ameaça. Um princípio de tempestade dentro dele, diante de toda uma vida de calmaria.
Sentiu-se um homem comum naquele instante, um homem nu, amarrado. Mas passaria, aquilo passaria logo. Bastava a noite, aquele rastro de boêmios, de perdidos, bastava-lhe aquilo para encontrar a razão.
Notou que estava parado no meio da rua. Um carro buzinava, parecia olhar pra ele com raiva, culpando-o de todos os crimes. Não sentiu dor, apenas percebeu que morria como qualquer um, de forma medíocre, sem qualquer especialidade. Apenas naquele instante percebeu que era igual a qualquer homem. Então, o mundo lhe pesou nas costas.


TEIXEIRA NETO, Euclides José. Antologia de Novos Contos da Região Cacaueira. A Hora do Sol – Genny Xavier. Brasília(DF)/ Itabuna(Ba): Horizonte Editora Ltda. / PACCE, 1992. p. 131

quinta-feira, 5 de março de 2009

MACHADO, UM MUNDO QUE SE MOSTRA POR DENTRO



ARTIGO: Genny Xavier





MACHADO DE ASSIS,
O CONDUTOR DO PENSAMENTO MODERNO BRASILEIRO

Argumentação crítica do capítulo “O Papel das Idéias” do livro “Um Mestre na periferia do Capitalismo” de Roberto Schwarz


O capítulo “O Papel das Idéias” do livro “Um Mestre na periferia do Capitalismo”, do crítico Roberto Schwarz, questiona a profundidade da obra machadiana, especialmente nas “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, no que tange a profusão de teorias filosóficas e científicas presentes no discurso da obra. A ressonância dos estudos de Schwarz, nos dão conta da situação histórica-cultural da vida brasileira nos meados do século XIX, salientando a efervescência das “idéias novas” importadas da Europa neste período e absorvidas como uma espécie de modismo por intelectuais que, ao contrário de Machado, não se deram conta das contradições sociais, políticas e econômicas do país postuladas por uma sociedade oligárquica, patronal, provinciana, que, em quase nada, poderia medir-se pela visão ideológica européia.
Os pressupostos do cientificismo-filosófico europeu presentes em teorias como o Positivismo de Augusto Conte, o Evolucionismo de Darwin e o Determinismo de Taine, se insurgiram no imaginário de escritores do Realismo/ Naturalismo brasileiro, provocando, na visão de Schwarz, uma verdadeira “panacéia” ao espírito moderno da época em oposição à vida corrente da sociedade brasileira, ainda escravista e monárquica.
No que diz respeito a obra ficcional machadiana, em sua fase de maturidade, que marca o início do Realismo no Brasil, há de se ponderar que o escritor, soube expressar de forma contundente essas contradições, explorando-as em suas formas mais surpreendentes pela construção de um discurso implacável e irônico que aniquila os clichês e lugares-comuns vigentes em nossa sociedade. Neste sentido, Schwarz enfatiza: “Onde os deslumbrados enxergavam a redenção, ele (Machado) tomava recuo e anotava a existência de um problema específico. No contexto brasileiro, a leitura e propagação das novas luzes européias ocorria de modo particular, com ridículos também particulares.”
Na absorção desses postulados importados, Machado encontrou fórmulas novas para tratar as questões que ora se tornavam “essenciais” às novas gerações. Pelo discurso da ironia que trazia à superfície um humor cético e um pessimismo desconcertante, o ficcionista das Memórias, escrevia para um público que precisava aprender a “tirar a trave do olho” e a desvestir-se de hábitos e valores provincianos. Para o ficcionista, o Brasil dos anos 80 do século XIX aspirava maturidade, frente ao atraso vigente. O escritor que criou as Memórias Póstumas e o público para o qual ele as escreveu se constituía a imagem viva do Segundo Reinado que se aproximava do fim. No Brasil desse período via-se analfabetismo e atraso, portanto e obviamente, o leitor de Machado se constituía de uma elite da sociedade carioca, a quem Brás Cubas, narrador notadamente malcriado, condena gostos e práticas de leitura, duro e cético diante da mesquinhez pouco exigente desses leitores. Tratava-se da classe hegemônica da sociedade brasileira, uma parcela culturalmente alienada, dividida entre uma face conservadora e outra menos, entre os valores do velho patriarcalismo rural e os da burguesia urbana que tentava parecer brilhante diante das “novas idéias” importadas da Europa. Nesta direção de análise nos salienta Schwarz: “O progressismo alvar não seria uma exclusividade brasileira, nem a nota dominante daqueles anos. Contudo, associado ao atraso ambiente, ele adquire feição patética e um quê localista.(...) Machado duvidava do aggiornamento repentino por obra da ciência, e tampouco acreditava na independência intelectual súbita.”
Em suas Memórias Póstumas, o ficcionista postula uma série de teorias que ora traçam um perfil da alma humana e suas veleidades pelo viés da psicanálise, ora expõem análises sobre a ética na conduta dos homens em sociedade, ora apontam doutrinas filosóficas, ideologias, referências históricas e artísticas, tudo isso em meio a um discurso revestido de certo tédio, muito ceticismo, ironia, sarcasmo e que nos pontua uma quase sátira perversa sobre as “máscaras” que as idéias escondem.
Ao leitor perspicaz das Memórias não escapa a sensação de que este “zomba” dos rigores do paradigma científico-filosófico que preponderaram na sociedade brasileira provinciana da época. Contrariando o espírito objetivista e impessoal que em si já se mostrava como referência do cânone das produções literárias vigentes, atreladas aos ditames da ciência, Machado mostrou-se veladamente iconoclasta e insubordinado, preferindo escarnecer, provocar e revolver conceitos, valores, ideologias, filosofias, etc. Experimentamos os sabores dessas considerações ao passo que Brás, o narrador irônico das Memórias se dirige ao leitor: “Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio.” Ou quando este nos fala sobre seu óbito: “E foi assim que cheguei à cláusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pousado e trôpego, como quem se retira do espetáculo. Tarde e aborrecido.” Assim, o narrador aproxima as circunstâncias a que seu texto faz referência: sua própria morte, em relação a outra circunstância já tomada pela literatura: o monólogo em que a personagem Hamlet, da peça homônima de Shakespeare, fala da morte como “esse eterno país misterioso, donde um viajor sequer há regressado” Ou ainda, quando nos diz sobre sua morte: “Juro-lhes que essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-se no peito, com uns ímpetos de vaga marinha, esvaía-se-me a consciência, eu descia à imobilidade física e moral, e o corpo fazia-se planta, e pedra, e lodo, e coisa nenhuma.” Neste trecho, sugere-se uma consumação dos pressupostos do Materialismo, aquele que caracteriza a morte do corpo como a morte de tudo, mas que mistério subjetivo ou galhofa satírica nos trouxe Machado à tona um Brás defunto, a falar e a passar à limpo suas Memórias? Brás havia ou não regressado dessa “região desconhecida” que nos alude Hamlet? Ou queria apenas o ficcionista sombrear com a pena do seu discurso irônico as rupturas da dialética materialista na cabeça do homem brasileiro de seu tempo? Enfim, transposta as considerações levantadas nestes comentários aqui presentes nesta argumentação, Schwarz comenta num dado momento do seu texto crítico: “O capricho atrela a seus movimentos a filosofia, a ciência e as demais formas de superioridade intelectual que em conseqüência sofrem uma desqualificação liminar, com efeito satírico, pois o certo seria o contrário.(...) As reservas da tradição filosófica moderna em face da mônada individual reagrupam-se em função das peculiaridades históricas da experiência brasileira, onde a valorização absoluta do indivíduo não podia mesmo encontrar credibilidade.”
A visão introspectiva do homem em sociedade e a construção das “máscaras sociais” certificam a curiosa filosofia do narrador das Memórias quando, no capítulo XLIX, intitulado “A ponta do Nariz”, este salienta: “Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplação, cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui o equilíbrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o gênero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.” A ironia que se encerra na filosofia exposta por Brás caracteriza um modo próprio de “contemplar” o mundo e, provoca no leitor o impulso por contemplar o seu próprio mundo, como protagonista ou como figurante do jogo social, aquele que atesta o equilíbrio das sociedades que constroem seus comandos e seus comandados. Sobre esses questionamentos, Schwarz comenta: “Vejamos inicialmente a filosofia dita da ponta do nariz. Enquanto fixa a vista no seu próprio, o que é um modo de olhar para fora e para dentro ao mesmo tempo, o indivíduo recompõe o mundo de maneira a se desforrar de reveses sofridos e a desamassar a vaidade machucada pela superioridade dos outros. (...) Assim, a reparação imaginário torna toleráveis as desigualdades da vida.”
Machado recolhe de si a mordacidade satírica das colocações de Brás, assim, na fidelidade de seus propósitos por revolver as máscaras humanas integradas ao campo social, o romancista traz para as Memórias todo ambiente da sociedade urbana brasileira, miniaturizada nos salões e grupos humanos do Segundo Império e dos primeiros anos da República. Recria o universo de uma sociedade arcaica, cujos hábitos e atitudes convencionais dissimulavam a violência de uma sociedade escravocrata, onde o apadrinhamento soluciona as situações geradas por uma estrutura social ancorada nos privilégios e numa desigual divisão das riquezas e dos bens. Assim nos mostra Schwarz, quando comenta: Digamos que o recurso à ponta do nariz e ao embotamento do sentido moral que ela faculta designam o processo espiritual próprio à nossa elite escravista-moderna: a equidade burguesa, (...)”
Mas, é sem dúvida nenhuma que, do ponto de vista das idéias, temos no “Humanitismo” do filósofo Quincas Borba a mais conhecida das filosofias Machadianas. Ao longo de toda as Memórias, especialmente no capítulo CXVII, o escritor esboça os pressupostos da sua idéia sobre o Humanitismo e sobre a condição do Humanitas: “Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa não esquecer nunca o princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, com se disséssemos o estalar de dedos de Humanitas; a fome é uma prova a que Humanitas submete a própria víscera”. Fica patente que em toda exposição sobre a filosofia em questão - desenvolvida neste capítulo citado e em outros capítulos do romance, bem como em alguns do romance “Quincas Borba” - críticos e estudiosos da obra machadiana lançaram mão de diferentes interpretações para explica-la salvo que, tal compreensão é fundamental para o entendimento das idéias do escritor. O Humanitismo tem sido entendido de diversas formas: como explicação do pessimismo machadiano; como crítica irônica às tendências científicas, especialmente do Evolucionismo darwiniano, amalgamado na teoria da “Seleção natural das espécies”; como sátira das explicações metafísicas do homem; como resposta a uma linha filosófica cética, dura, que expõe de forma pessimista o comportamento humano e o que ele é capaz de fazer para garantir sua sobrevivência em sociedade. Sobre essas ponderações a cerca da teoria do filósofo e amigo de Brás, Schwarz comenta: “Como sugere o nome (Humanitismo), trata-se de uma sátira à floração oitocentistas de ismos, com alusão explícita à religião contiana da humanidade. Os raciocínios fazem pensar em mais outras filiações já que em lugar dos princípios positivistas afirmam a luta de todos contra todos, à maneira do darwinismo social”.
Enfim, percebemos que, ao sentido das idéias, sua discussão filosófica ou metafísica, sua adequação aos moldes da sociedade brasileira, o escritor Machado de Assis nos conduz para o pensamento moderno atentado para questões imprescindíveis: aquelas que nos dão a certeza de que, dentro das máscaras que compõem as sociedades humanas, em especial a contraditória sociedade dos anos 80 do século XIX, o homem subverte as idéias, para que estas, possam prescindir suas vontades, seus anseios, seus comandos e comandados. A este pensamento, Schwarz conclui: “Nas Memórias entretanto assistimos (...) à sujeição metódica das mais variadas formas do pensamento moderno aos acaso das vontades do narrador e de seus parceiros”.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ASSIS, Machado de. “Memórias póstumas de Brás Cubas” .São Paulo: FTD, 1998.

SCHWARZ, Roberto. “Um mestre na periferia do capitalismo – Machado de Assis”. São Paulo: Duas Cidades, 1990.

ESCRITURA



eu escrevo quando em estado de letargia
e quando vago o ermo mundo das coisas ensimesmadas.
eu escrevo quando há um ressoar manso do vento
que provoca o frêmito do tecido da minha pele

eu não escrevo quando aos alvoroços minha alma dança
ou quando eu ranjo os dentes de frio e mágoa
eu não escrevo para o meu pulso rápido, frenético de pulsar
que mede o fluxo das minhas veias

eu escrevo porque a vida me provoca
e, nela, eu percorro seus recantos.


Genny Xavier